Os 13 melhores cantores desafinados de todos os tempos

Quem disse que precisa ser afinado pra cantar bem? Aqui os melhores cantores que põem a tese à prova.

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Afinação.

A pedra fundamental que baseia a vida de todo cantor. Afirmar que alguém é ou está desafinado dói, machuca o coração dessa pessoa que resolveu perder a vergonha e colocar a voz para ganhar o mundo.

Eu sei que é fantástico ouvir alguém que canta certinho e nos surpreende saltando notas, pulando oitavas sem perder a classe. O mundo está repleto de gente que canta maravilhosamente. Elvis, Frank Sinatra, Tim Maia, Simonal, Freddie Mercury. The Voice é um programa de TV inteiro dedicado a essas pessoas de técnica ilibada.

Ainda lembro dos meus primeiros feedbacks como cantor. Horríveis. Eu era bem criticado por não ser exatamente um exemplo de quem anda na linha enquanto canta. E doía. Ainda dói. 

Assim, meio como uma criança que procura heróis para fundamentar suas crenças e se sentir incluído na festa, comecei a prestar mais atenção nos caras que se rebelavam contra essa regra, essa lei, essa ordem divina.

Aqueles que abriam mão da formalidade e acabavam descobrindo alguma outra coisa que fazia suas músicas tocarem o coração das pessoas. E, ainda assim, conseguiam se destacar como cantores, de uma forma totalmente única.

Aqui eu compartilho alguns dos meus favoritos. 

Bob Dylan

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Ele deve ser o artista mais reverenciado de todos os tempos, fácil.

É imputado ao Dylan uma revolução comportamental e musical inteira, durante os anos sessenta. Dizem até que ele gerou mudanças políticas e embalou a revolta e aspirações revolucionárias de jovens no mundo todo. Sabe o discurso "Eu tenho um sonho", de Martin Luther King? Dylan estava lá. Era Blowing in The Wind que as pessoas ouviam no dia.

E tudo isso se deve ao poder natural das suas canções, às letras afiadas, às frases que nos atingem como um soco. Dylan é, realmente, gênio demais como compositor e até como violonista e guitarrista.

Mas toda essa admiração costuma deixar passar uma coisa: como cantor ele passa longe de ser um Sinatra (que, aliás, foi homenageado em um disco recente pelo Dylan). Mas, meu amigo, é tudo tão bom que dificilmente você vai se importar com isso.

Ou com o fato de que a gaita dele dói no ouvido. 

Jack White

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Acho que, hoje, ele é um dos artistas mais criativos que ainda insistem no rock. E dá pra ver como ele sabe se aproveitar da simplicidade e das limitações como plataforma pra sua criação. White Stripes, a antiga banda que tinha com a Meg White, ainda é onde ele mais se destacou, se multiplicando em vários papeis e praticamente segurando a onda toda. Grande compositor, grande artista.

Sua voz também é uma das limitações com as quais ele constantemente lida. De timbre meio rouco, cantando com a garganta, gritando e suando, de alguma forma, ele faz da "sujeira" e das desafinadas, um recurso estético que só contribui pra sua atmosfera musical. Legal demais.

Jimi Hendrix

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É chover demais no molhado, falar das qualidades do Hendrix como guitarrista, então vou poupar vocês disso.

Como compositor, então, nem se fala.

Mas como cantor, há quem note o estilo solto, descompromissado, desleixado. Inclusive, a maior inspiração para o vocal (no sentido de realmente ter feito com que ele criasse coragem de pegar o microfone), foi Bob Dylan. Até então, Hendrix não imaginava que dava pra sair cantando desse jeito e evitava os microfones. Mais um grande feito pra lista do Dylan.

Erasmo Carlos

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Eu sou da igreja de São Erasmo Carlos. Sequer sei mensurar a influência que ele teve e tem sobre a música brasileira, seja pro rock, pra MPB ou pro soul.

Mas cantando é notório como ele não se encaixa nos padrões. Aliás, suas músicas podem ser consideradas bem à frente do tempo justamente por imaginarmos que elas são contemporâneas de caras como o Simonal e que ele andava com o Tim Maia, que dispensa apresentações quando o assunto é sua potência vocal.

Mesmo assim, ele não se intimidava, pegava o violão (que aprendeu a tocar bem tardiamente, com o Tim, aliás) e soltava a voz. Mesmo que fosse pra gritar como em "Vem quente que eu estou fervendo". Acho foda demais.

Roberto Carlos

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E tinha o amigo Roberto. Inseparável.

Roberto era bem mais certinho, arrancava suspiros das então moças (e hoje nossas avós) com suas canções belíssimas, arranjos poderosos, melodias doces e letras apaixonadas.

Mas a indubitável beleza de muitas das suas composições acabava por disfarçar o fato de que ele cantava bastante de garganta, deixava as coisas rasgarem, perdia fôlego e, assim, muitas vezes soava até um tanto fanho. 

Se você ver o Roberto atualmente, de terninho branco no especial de final de ano da Globo, nunca imaginaria que ele também, volta e meia, soltava a voz sem o menor critério.

John Lennon

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Eu sei que existe o John Lennon que todos aprendemos a amar nos Beatles e que conhecemos o fantastic four como uma banda incrível na qual todos os integrantes cantavam formidavelmente. 

O que nem todo mundo sabe é que ele odiava a própria voz e não raro soterrava sua performance de efeitos, pra disfarçar a forma como ela soava naturalmente. Além disso, depois de terminar com a banda de Liverpool, Lennon resolveu romper com tudo que lembrava seu antigo emprego, incluindo a afinação bonitinha e doces harmonizações vocais, que tanto o desgastavam, dada sua dificuldade técnica.

Sua carreira solo está repleta de momentos de desprezo pela perfeição.

Roger Waters

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Pink Floyd é uma banda famosa pelas suas atmosferas musicais etéreas, longas introduções, batidas lentas e pelas vozes que ecoam distantes, como sonhos, da época do Dark Side of The Moon e Wish You Were Here, quase inteiramente responsabilidade de David Gilmour. Que guitarrista! Que voz!

Também não podemos esquecer da psicodelia lunática de Sid Barrett que marcam o primeiro disco da banda e que sustentou as expectativas dos fãs durante um bom tempo.

Depois de um certo tempo, um outro integrante até então tímido, que costumava ser considerado desfavorecido como baixista e músico, foi incentivado por David Gilmour a cantar um pouco mais, até como forma de contrapor o seu próprio vocal mais delicado. Esse cara era Roger Waters, responsável por uma boa parte das letras que vinham dando força à banda, depois de terem ficados órfãos de Sid Barrett.

Daí que o moço gostou dos holofotes, foi cantando e monopolizando cada vez mais não só os microfones como todo o processo criativo, até que o disco The Wall, o mais famoso deles, se tornou praticamente um trabalho solo. Waters canta quase o disco inteiro.

Eu sou #teamDavidGilmour, mas não dá pra negar que sem Waters a banda perde. A qualidade desafinada, gritalhona e raivosa de Roger Waters faz falta.

Tom Waits

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Praticamente o Tom Zé gringo, Tom Waits é cheio das reviravoltas, gênio musical, tão à frente que muitas vezes você não entende nada. Pra ele, tudo é música, seja um tubo de PVC, um banco de madeira ou um pedaço de pau com corda, nada está livre de se tornar instrumento musical. E isso não é exagero literário, ele realmente pensa e age assim. Tanto que um dos seus discos mais famosos, o Rain Dogs, está repleto de sons feitos dessa forma. 

Tom Waits tem muitas fases, mas duas são fáceis de reconhecer. A primeira, quando ele ainda podia ser considerado só mais um cantor folk e sua expertise se limitava a cantar com a voz natural e o violão. E a segunda, quando ele despirocou e resolveu abandonar tudo o que é convenção musical em busca do pleno desenvolvimento artístico.

Eu, particularmente, gosto das duas. Mas é na segunda que reside o nosso foco aqui, principalmente por causa da voz absolutamente cavernosa e assustadora. Foda demais.

Chico Buarque

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O Chico também dispensa apresentações. Ele é tão importante pra música brasileira como um Bob Dylan pra música americana, pra dizer o mínimo.

Mas todo mundo sabe que ele nunca foi um cantor muito preocupado com a perfeição. Eu particularmente gosto assim.

Belchior

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O que seria de Elis Regina sem Belchior? Ao mesmo tempo, quem seria Belchior se não fosse por ela?

Sem dúvidas, ela era uma intérprete de outro mundo e tinha os próprios méritos em tudo, mas foi com as canções de Belchior que as coisas se encontraram e as luzes se acenderam. Foi ela quem trouxe o pleno potencial dessas músicas ao mundo.

Belchior, por outro lado, apesar de ser o compositor fantástico que é, não tinha aquela voz. Confesso que gosto das interpretações dele, mesmo ficando tão diferentes das versões consagradas na voz da Elis. Acredito que tem uma camada que só o compositor original consegue captar nas canções, mesmo que ele não seja um cantor tão bem favorecido. Belchior faz um belo trabalho, mesmo desafinando, sendo meio fanho e atravessando tudo.

E o bigodão era louco.

Fagner

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Fagner não foi, nem de longe, regravado como Belchior. E há quem faça chacota dele nos círculos mais esnobes da sociedade, mas digo: quem o faz não sabe o que está falando. 

É preciso nunca ter sofrido pra não entender Fagner. Em suas canções a dor é pungente, não há amor que se concretize. Tudo é desejo e ausência.

E quem está sentindo coração rasgar não canta bonito. Fagner é a prova viva disso. Expressivo, verdadeiro, genial.

Sim, sou fã de Fagner. 

Lou Reed

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Quase todos os cantores aqui na lista não são desafinados o tempo inteiro. Muitos têm ótimos momentos, o que compensa as coisas. Isso não acontece com Lou Reed.

Ele quase que o tempo inteiro está desafinado, desafiando os ouvidos mais sensíveis, porém, consegue chegar em um ponto muito sensível da gente.

Ouça Walk o the Wild Side. Respire fundo, deixe-se absorver e veja o poder de Lou Reed.

Kurt Cobain

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Nirvana foi um fenômeno curto, mas excelente. Não à toa, Kurt continua sendo lembrado como uma das figuras mais importantes do rock e da música pop como um todo.

Sua aposta como músico era uma só: intensidade. E sua performance vocal era uma expressão disso, vociferava as letras da forma mais descontrolada e furiosa possível. Dessa forma, difícil preservar a afinação. Ainda assim, servia totalmente ao propósito e conseguia soar muito bem, descia e eletrizava cada pelo do seu corpo. 

* * *

Infelizmente, toda lista precisa ter um fim. E aqui chegamos ao fim da nossa. Sei que vocês devem estar aí loucos pra adicionar vários cantores incríveis que pouco se importam com a afinação. É por isso que a sessão de comentários está aqui, aberta, disponível, sedenta pelas suas indicações.

Ah, e ainda em tempo, disponibilizo também a playlist para quem quer só dar o play e curtir os nossos queridos desafinados.

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publicado em 07 de Maio de 2016, 00:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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