O que conseguimos apreciar? A experiência estética como caminho para lucidez

Ou: o sentido profundo do bom e velho “parar para apreciar as flores”.

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Se nos interessamos por um punhado de coisas apenas, quando essas coisas se alteram ou desaparecem, nossa energia, nosso ânimo, facilmente desaparecem junto com elas. Se nos alegramos por coisas muito específicas e restritas, tendemos a nos alegrar pouco e cair em grandes períodos de descontentamento. Se nos animamos apenas com grandes acontecimentos, andamos sem muito fôlego, distraídos, entediados.

Mais preocupante ainda, se apenas uma pequena seleção de coisas consegue nos alegrar e dar sentido à nossa vida, acabamos nos agarrando agressivamente a elas, e ficamos desesperados e descrentes quando elas desaparecem. Fazemos isso com relacionamentos, pessoas, sonhos, objetos.

Assim, grande parte dos nossos problemas surgem por essa capacidade limitada de apreciar os objetos e eventos da nossa vida, ou seja, por um espectro de percepções muito estreito. Não quero propor que “precisamos nos contentar com pouco”, mas sim que o mundo é muito rico, e só precisamos aumentar o escopo, abrir mais os olhos.

O que vamos explorar aqui é a ideia de que um dos caminhos para cultivarmos uma mente mais ampla, um espectro de experiência maior, e consequentemente uma melhor capacidade de apreciação da vida é a contemplação estética sutilmente motivada por uma curiosidade existencial. Um termo propositalmente pomposo para o que nada mais é que uma versão um pouco mais sofisticada da curiosidade infantil, ou o bom e velho “parar para apreciar as flores”.

O que você consegue absorver e apreciar no dia-a-dia? | Still life Talbot Road, 1991 - Wolfgang Tillmans

Qual o problema?

Espaço mental e emancipação emocional

Digamos que você passe os dias pensando, sonhando, lembrando de alguém. Do que fizeram, do que podem fazer, de como isso ou aquilo foi bom. Dia após dia, as imagens e elucubrações relativas a essa pessoa ocupam boa parte do seu espaço mental e lhe trazem sensações intensas e prazerosas.

Até que um dia você briga com a pessoa, ou ela sai da sua vida. Após tanto tempo tendo a pessoa e a ideia do relacionamento como um dos únicos objetos mentais, cria-se um hábito, uma natural pré-disposição para se pensar sobre isso. Acontece que as sensações advindas do pensar sobre esse tema agora são outras, e o hábito então lhe aprisiona a um auto flagelo, às vezes sutil, muitas vezes severo.

Nesse quesito, o espaço mental restrito da paixão, do ânimo completo sobre algo, é quase igual ao espaço mental restrito da depressão ou da obsessão.

Esse é o primeiro cenário, talvez o mais comum. Agora digamos que no meio desse relacionamento seu espaço mental tenha sido mais amplo. Que um dia tenha acordado e pensando no rosto do amante, mas notado também como é bela e simples a luz da manhã sendo refletida no travesseiro branco. Você pode se animar com a lembrança de uma mensagem carinhosa recebida, mas também se sentir contente por uma interação amigável com a nova vizinha.

O que acontece com uma mente assim em um término, uma mudança brusca? A diferença aqui é que há espaço para respirar. A percepção é mais ampla e os objetos mentais são múltiplos. Há espaço para diferentes pensamentos e sensações coexistirem. Você pode ficar triste e deslumbrada, saudosa de uma experiência emocional que não vai voltar e animada com um novo filme da sua diretora favorita.

Assim, a energia não afunda, e se tem mais ânimo e paciência para digerir a experiência negativa. Tudo isso sem deixar de aproveitar o mundo ao seu redor. Naturalmente, esse processo é igual para qualquer coisa que sequestre e restrinja nosso espaço mental, não só relacionamentos amorosos.

A grande questão é que ampliar nosso espaço mental em momentos de angústia, energia baixa e apego é tremendamente difícil. Acabamos ficando à mercê de "o tempo cura".

Mas há uma alternativa: ao invés de deixar o hábito cultivar uma mente restrita, podemos trabalhar cada vez mais uma mente serena, ampla e dinâmica.

Qual a raiz desse problema?

Mente causal, mente restrita

Nossa mente é cotidianamente restrita, pois está sempre seguindo um fluxo causal, estamos quase sempre fazendo alguma coisa, e tudo aquilo que não diz respeito à tarefa em curso se torna indigna de apreciação. Pior ainda, o mundo todo se manifestando livremente parece uma série de obstáculos especificamente desenhados para estar no caminho entre você e sua gravíssima tarefa.

Observar o tipo de reclamação torrencial de um ser humano urbano médio deixa esse último ponto particularmente claro.

Nesse modo de operação nos falta uma certa sensibilidade à realidade ao nosso redor, a tudo aquilo que não faz parte da nossa simplista narrativa interna. Tomamos café e não notamos o tom de vermelho da xícara em que ele veio, o gesto de quem serviu, a viscosidade do líquido. Nenhuma experiência é um bloco sólido e definido, um mero tomar café é uma constelação de peculiaridades, uma concatenação de pequeníssimos atributos e sensações.

Nos relacionamentos com os atributos das coisas, ver mais atributos e ver de forma mais nítida nos dá mais pontos de contato. Um exemplo cafona seria que se ando pela rua e não noto as flores, não tenho como pegar uma e presenteá-la para alguém.

chaos cup, 1997 - Wolfgang Tillmans

Por onde começamos?

As questões existenciais: assombro e curiosidade

As questões existenciais básicas, e nosso natural assombro a elas, podem ampliar muito nossa curiosidade e abertura ao mundo. Temos a capacidade latente de apreciar as coisas como elas são ou, colocando de outra forma, apreciar as coisas pelo simples fato de que elas existem.

O assombro leva à curiosidade, a um ímpeto de contemplação de tudo aquilo que é manifesto fisicamente à nossa volta. E da mente que tem espaço e clareza para vivenciar e sustentar essa contemplação, surge um tipo quase palpável de satisfação, uma presença, uma serenidade.

Suponho que o que é gerado pela contemplação nítida daquilo que existe seja uma noção direta e poderosa de que se está vivo. A proximidade com a morte ou ao menos a clara noção dela, faz algo similar. Ela nos traz foco, e faz boa parte dos nossos problemas perderem relevância, por que aponta inequivocamente para aquilo que vai se eximir: a nossa existência. Nesses momentos fica claro que existir, por si só, tem um imenso valor, mas um que facilmente perdemos de vista.

Essa noção da preciosidade da nossa existência naturalmente vai sendo estendida para tudo aquilo à nossa volta. Podemos, então, fechar o círculo. O assombro pelo estar das coisas nos leva até à contemplação da existência, que nos lembra da preciosidade e fragilidade da nossa vida, que infla o apreço e a curiosidade que temos pelo mundo a nossa volta.

[…] "Nada" é realmente apenas uma ideia. Porque, fisicamente, tudo é algo. Mas talvez parte da minha ideia do nada seja que, em última instância, tudo é praticamente o mesmo em termos de presença física. Em outras palavras, mesmo as coisas mais desinteressantes, como aquela neve, são na verdade fisicamente tão presentes como um diamante ou como pessoa. O que o torna valioso ou não é a nossa projeção sobre isso, e essa transformação me interessa, como algo de repente, através de uma carga emocional, se torna algo diferente. Essa ideia de que tudo, do ponto de vista puramente físico, é bastante parecido por exemplo, a densidade de átomos na verdade não é tão diferente do ar e da pedra  é o que me interessa, e o que escolhemos para ver e não ver […]

Wolfgang Tillmans (Wolfgang Tillmans: View from Above, Hatje Cantz Publishers - 2001


publicado em 28 de Fevereiro de 2019, 15:13
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Bernardo Vailati

Designer de experiências digitais que em 2018 tirou um ano sabático para aprender a escrever e ponderar a vida um pouco mais profundamente. Também explora a fotografia e tem um diário visual de pequenas poéticas no Instagram.


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