O medo de ter uma vida comum

O grande pavor da nossa geração

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Olha só pra sua vida e a sensação de estar dentro dela. 

Ali estão todos os ingredientes que, no final, podem até resultar em um filme. Dor, sofrimento, derrota, mas também momentos mágicos, únicos, na mesma medida.

Ser você é imprevisível, cada acontecimento tem o sabor da exclusividade. 

Pelo menos é o que parece quando se está focado no live streaming da coisa.

Quando você decide colocar em palavras o que se passou, automaticamente, tem seus pelos ouriçados pela excitação com os detalhes. A energia flui dentro de você. Ainda assim, essa sensação não chega sequer perto de como foi experimentar esses acontecimentos. 

Em comparação com a experiência em si, o que antes era tão maravilhoso, começa a parecer desfocado, fosco.

A rua na qual você morava quando criança é muito menor do que você se lembra. A casa, então, é só uma casinha comum. A escola já nem existe mais. O cinema que você frequentava fugindo da aula virou uma igreja evangélica. 

Mesmo os momentos mais ordinários têm seu charme, seu ar de grande saga.

O despertador toca, são 6 da manhã. Lá fora chove o bastante pra acinzentar o céu. Na cama, você se vira para o outro lado, revira, insiste mais um minuto ou dois, mas não tem jeito, hora de levantar.

Café com leite, pão com manteiga.

Ônibus, condução, metrô.

Trânsito.

Arroz com feijão, bife e batata-frita.

Lanche da tarde.

Metrô, condução, ônibus.

Mais trânsito.

Você cansado, precisa relaxar. Pode ser a novela, videogame, um filme, talvez algumas cervejas, conversa com os amigos ou um encontro com uma pessoa especial. Com sorte, pode ser que hoje role sexo.

Há dias em que, depois do trabalho, você precisa trabalhar ainda mais. Completar a renda. Ou, quem sabe, fazer um curso, se especializar.

Tudo muito comum, mas é a sua vida.

Talvez você esteja feliz com isso, sabendo que há um script que pode seguir e, ao final, encontre algum tipo de descanso que compense tudo. Pode ser que a mera intensidade das experiências alimente seu desejo de viver.

Mas pode ser que você esteja triste, frustrado, desejando mais. Deixar uma marca no mundo, criar um nome, inventar algo útil, ter patentes, ter um artigo na Wikipedia.

Há uma chance de que você esteja desconfiado de que isso tudo não signifique muita coisa para ninguém além de você mesmo. E, sabendo disso, pode ser que você esteja sonhando com um mundo, ideias, projetos, festas e a dissipação dessa aflição que nunca te deixa.

A verdade é que a sua é só uma vida comum, não importa o quão importante você pense que seja.

E tudo bem, né?


publicado em 08 de Junho de 2016, 12:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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