O cara dá em cima dela na frente dele | Do Amor #62

Quando a relação encontra um perigo no terceiro que chega com uma boa conversa

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Escute a narração desse artigo apertando play abaixo:

 

A recompensa de uma sexta-feira. Depois da semana estressante e de ter que se conformar em passar quarenta minutos na fila do clube, ao menos tinha a doce sensação de pedir para ela avançar na linha com as mãos nas costas nuas dela. Gastou as horas do dia esperando encontrá-la para afogar a saudade naquele abraço que ela lhe deu, na informação preciosa de que escolheu a dedo o vestido para sair com ele pois sabia que ele gostava das costas dela de fora. Concordou e pediu para ela dar uma voltinha. Ambos riram.

Escutou na fila os assuntos dela com o trabalho, deu conselhos, puxou-a para outro abraço. Coladinhos, avançaram mais um pouco e entraram. Ela estava louca para dançar um pouco e ele cumpriu a promessa de levá-la para a pista e fazê-la suar. Há tempos não tinham uma noite assim, só os dois juntos na balada. Rodaram o salão, o suor da nuca dela nas mãos dele, o nariz dela em seu pescoço atrás de refúgio. Foram para o bar e trocaram minúcias a dois, conversas que só a intimidade traz, sobre as vontades dela e sobre os medos dele. Configuraram de cabeça algumas contas para acertar da última viagem que fizeram, opinaram sobre a decoração nova da varanda, a mão dele na cintura dela, os dedos dela deslizando para cima e para baixo no pulso dele. Não havia pressa naquela pequena troca.

Ponderavam entre pedir outra bebida ou voltar para a pista quando começou a tocar uma canção que era conhecida por ambos como "a música que a gente mais usa pra transar". O movimento natural foi o de ele puxar sua musa pelos contornos e o dela de se deixar ser guiada até colar o quadril na cintura dele. Já na ponta do balcão, ele sente o quente da respiração dela no ouvido, seguido do sussurro "poxa... você sabe que eu fico maluquinha quando escuto essa música". Disse isso com uma voz já molinha de quem bebeu propositalmente para aproveitar a sensação de leveza. E ele respondeu que sabia muito bem o efeito que aquela melodia causava nela. "Vamos aproveitar", ela disse, "que a noite é nossa, todinha ela". Terminou a frase e riu com suas mãos no peito dele. Se afastou dois passos e começou um requebrado sensual, o que ele recebeu como sinalização de que ela queria ser observada. E meteu os olhos no serpenteado que o corpo dela fazia para ele.

"Cacete, como eu acertei em querer essa mulher", ele foi fraseando na cabeça enquanto mordia a ponta da língua com os caninos e emulava uma dança qualquer só para ajudar a embalar a apresentação particular dela. Foi ali que ele teve a certeza que precisava.

E foi nesse pequeno e rápido distanciamento que chegou por trás da garota um outro cara puxando-a pelo braço e sorrindo. Ela arregalou os olhos e se jogou para cima dele num abraço. Depois, sorriso largo, tapinhas no ombro dele. Dois minutos de conversa, quatro. As palavras saíam da boca daquele desconhecido e entravam diretamente no ouvido dela, uma conversa que próxima e íntima. Ela pediu o telefone que estava no balcão e voltou para o perímetro do estranho, anotando algo com os dedinhos e mostrando a tela brilhante para a conferência dele. Riu mais um bocado, deixou que ele se aproximasse outra vez para alguma confissão na orelha, agora com a mão espalmada nas costas dela, no mesmo espaço em que, a pouco, era sabido ser o lugar preferido dele para passar as mãos.

Avançou com os punhos fechados e chegou a machucar a língua entre os caninos. Ao se posicionar ao lado dela, viu o forasteiro se adiantar com uma das mãos em posição de cumprimento. "Ah, desculpa, eu não sabia que você estava com o seu namorado", disse com um sorriso meio quadrado no rosto. Estendeu o braço e deu um aperto de mão, não prensando demais para gerar embaraço, mas com a força de quem quer dar um recado claro.

"Ah, não", ela comentou com voz de desfrute, "ele não é meu namorado não! Esse aqui é o Dênis, a gente mora junto lá na Vila. Ele que me deu abrigo quando cheguei em São Paulo. É meu anjinho da guarda". O rapaz desconhecido sentiu menos pressão nos dedos. "Dênis, esse aqui é o Flávio, aquele que faz ioga comigo. Lembra que te comentei dele uma vez para você?". O "ah..." dele saiu fatigado, tão desistente que nem ele mesmo o ouviu. "Flávio, que bom saber que você mora por aqui. Tá tudo anotado, então. Eu passo lá essa semana". 

A menina puxou o amigo pelo braço de novo até o centro da pista. Braços para o alto, recomeçou a dançar de olhos fechados, dessa vez sem que ele a seguisse, parado e com os dois pés plantados no chão. Ela puxou-o mais para perto para que pudesse escutá-la. "Se ele soubesse como eu tô facinha, não teria me deixado aqui. Ainda bem, né? Porque hoje eu tirei a noite para ficar só com você. Vem! Dança comigo que a gente tem a madrugada inteira pela frente!".

E ele só queria ir pra casa.

O amor que faz a gente engolir em seco.

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publicado em 04 de Agosto de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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