Nu artístico | Fotografando corpos na sua geometria

A fotógrafa Naira Mattia fala sobre como representar o nu fora da lógica de erotização. 

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Fotografar o corpo nu é um dos temas que foi repensado diversas vezes na história do PapodeHomem. Refletir sobre o que fazemos, como fazemos e como nossas ações afetam o mundo a nossa volta é um processo contínuo. Não tem um ponto final. 

Quando passamos a encarar o nu como uma representação de liberdade, de positividade corporal, de aceitação, os nossos ensaios e os corpos se tornaram mais diversos, mas notamos que ainda havia um elemento em comum em todos esses ensaios: a sensualidade.

O ensaio sensual é um problema? Não necessariamente. Mas será que todo ensaio nu tem de ser sensual? Não há outras maneiras de representar os corpos?

Quando dei de cara com o trabalho da fotógrafa Naira Mattia, vi exatamente isso: um outro olhar artístico para o corpo, a beleza fora de um contexto erótico.

Foto de Naira Mattia, com a modelo Nicolle Desidio

A fotógrafa, nascida no interior de São Paulo, tem 26 anos, é formada em Publicidade e Propaganda e, atualmente, trabalha exclusivamente com fotografia.

Em entrevista ao PdH, Naira contou como os caminhos e reflexões que percorreu para chegar ao trabalho fotográfico que desenvolve hoje. 

Como começou o interesse por fotografar o corpo humano e suas formas?

"Quando comecei a fotografar acabava fazendo muito retrato, fotografava as amigas de amigos ou os amigos do meu irmão mais novo. Sempre acontecia da pessoa me pedir para fazer fotos com nudez e a nudez era uma dificuldade pra mim. 

A pessoa podia estar à vontade, mas eu mesma me sentia muito incomodada ao representar ela. Não conseguia me conectar no momento. 

Acho que passei alguns anos pensando sobre esse tema até que chegou um momento em que eu estava com grandes problemas de auto-estima… Eu estava tendo um problema real de auto-imagem e descobri, no meio disso, que não tinha coragem de representar meu próprio corpo. Eu não tinha noção de como era o meu corpo, não queria olhar pra ele. 

Então uma amiga sugeriu que eu me fotografasse.

Me recusei bastante no início. Mas foi a partir da construção desse auto-retrato que surgiu este projeto de representação de corpos. 

Fotos por Naira Mattia, com paisagem na Espanha e Jacque Jordão

Foi a partir daí que comecei a representar o corpo como uma forma geométrica mesmo. Como um elemento que não teria, a princípio, nenhum julgamento em torno dele geralmente quando a gente vê um corpo, a primeira coisa que a gente emite é um juízo de valor [“é bonito ou feio?”]. E foi a partir deste auto retrato que se desenvolveram retratos de outras pessoas também, foi aí que comecei a fazer essa aproximação dos corpos com paisagem. Nos dois casos, é uma busca pela forma geométrica.

Eu sinto que este é um projeto que não acaba e, em algum momento, acaba influenciando meus outros trabalhos também."

O incômodo de fotografar nu o corpo e o encontro da geometria

Foto por Naira Mattia, com Helo, da Cia. Dual (para SESC).

Perguntamos à fotógrafa sobre o incômodo que ela sentia quando pediam que ela fizesse fotos sensuais:

“Acho que é muito importante a gente refletir sobre o que está colocando no mundo enquanto discurso e enquanto imagem. É impossível veicular uma imagem sem haver valores por trás, e eu não concordava com aquela representação sexy daquelas meninas.

Não sei… sei que eu estaria publicando um tipo de imagem que eu não gostaria de ver. Não significa que não tenha fotógrafos que eu goste que fazem nus, que fazem sexy, mas era um discurso que eu não queria fazer, então isso me colocava numa situação desconfortável com as pessoas que me pediam isso a princípio.

Antes de chegar nessa representação atual, acontecia muito de eu fotografar meninas que, depois do ensaio, pediam pra guardar as fotos só pra si. Eu não poderia usar a foto porque a única pessoa que poderia ver era o namorado. Isso é uma coisa que eu acho estranha também. Respeitava, mas não concordava. 

Daí conheci a Jacque. Meus trabalhos com a Jacque Jordão foram todos muito interessantes porque ela, além de ser uma pessoa muito livre, é alguém que se sente muito bem consigo mesma. O fato de ela se sentir tão bem consigo mesma me fez também me sentir bem fotografando ela.”

Foto por Naira Mattia, com Jacque Jordão e paisagem em Alicante, Espanha.

O respeito na representação do nu

“Acho que tem a grande questão de você respeitar o limite de uma pessoa que não está necessariamente verbalizando esses limites pra você. Já encontrei esse caminho que me deixa mais segura em relação a representações do corpo que é sempre essa tentativa de não colocar um juízo de valor, e esse juízo, além de não ser “isso é feio”, também não vai ser “isso é sexy”. A intenção é tentar neutralizar o máximo possível.

Fotos por Maira Mattia, com Maria Queiroz.

E, apesar de ter chegado nesse caminho, ainda piso em ovos durante uma sessão. O nu é uma representação muito sensível pra quem tá sendo retratado. Não sei... é sempre complicado deduzir como uma pessoa quer ou não ser representada. Acho que isso vale para tudo, mas o nu é uma permissão muito mais delicada. 

Fotos por Naira Mattia, com Alina Dorzbacher (para Nymph) e Branca Moura

Tentar não ultrapassar esse limite é quase sempre o centro do meu pensamento quando estou fotografando. Depois que mudei a forma de representar, acabei me encontrando com pessoas que não iam, por exemplo, me proibir de publicar as fotos. Se cria toda uma aura diferente em torno do negócio.”

O que você coloca de imagem no mundo, volta pra você!

Foto por Naira Mattia, com Mariana Queiroz.

“E é o que eu estava falando também antes de “o que você coloca de imagem no mundo significa alguma coisa”. O que você vai divulgando de imagem também vai te fazendo atrair coisas que tenham a ver com o que você quer fazer. 

As pessoas que me procuram hoje são pessoas fora do padrão a princípio não era uma bandeira, não era um discurso, era só um auto-retrato. Mas acho que justamente porque acabei validando outros tipos de corpos, ainda que sem colocar uma legenda embaixo, é que essas pessoas acabam se sentindo confortáveis em me procurar. Eu acho isso ótimo.”

Das referências que influenciaram o trabalho:

“Fazendo faculdade eu fui parar num curso do João Luiz Musa, e ele citou um nome durante uma aula, de um fotógrafo italiano chamado Luigi Ghirri. Foi uma coisa assim... meio de passagem, mas esse fotógrafo acabou virando minha maior referência, dessas referências que não passam. Ele tem um trabalho com cor e com composição que é muito significativo pra mim.”

Fotos por Naira Mattia com Nicolle Desidio e paisagem em Brasília

A fotógrafa também conta que, nas artes plásticas, teve o  Egon Shiele como uma das principais referências. 

Da agência publicitária para a fotografia:

“Eu vim desse lugar em que só existe advogado, engenheiro, médico, profissões muito tradicionais. E publicidade era a única coisa que parecia possível de arranjar um emprego e que tinha a ver com o mercado criativo. Mas, se fosse hoje, eu com certeza teria feito outra coisa, outro curso. 

Eu cheguei a trabalhar em agência por dois ou três anos, mas não me identifiquei muito com o trabalho e, em paralelo, comecei a fazer fotos. Comecei a pegar alguns trabalhos com marcas menores, enquanto que eu estava ficando muito estressada na agência. Daí pensei ‘se for pra ficar estressada fazendo uma coisa que eu não gosto, prefiro fazer algo que eu goste, mas não sei se vai dar certo. No final, acho que valeu a pena o esforço’”. 

Foto por Naira Mattia, com Loic Koutana (para Solo) e Mariana Queiroz.

De onde nasceu o interesse pela fotografia:

Eu desenhava muito corpo. A maior parte dos meus desenhos eram pessoas, e eu desenhava especialmente mulheres. Olhando um caderno antigo, vi que o que eu desenhava eram praticamente retratos. E foi pegando fotos de referências para desenhar que comecei a me interessar por fotografias. Vendo o trabalho de algumas fotógrafas que eu gostava, comecei a me interessar por como elas faziam e aí que comecei a estudar sobre câmeras também.

Eu sou de uma cidade bem pequena do interior. E lá não tinha nada relacionado a criatividade, além de que eu não tinha uma câmera pra testar, então ficava lendo manuais de câmeras fotográficas. Fui pegar numa DSLR só na faculdade, por conta de um curso, mas já fazia um bom tempo que eu estudava fotografia.

* * * 

Conhece outras fotógrafas e fotógrafos que retratam o corpo de um jeito interessante e diferente?Recomende pra gente!


publicado em 29 de Outubro de 2019, 14:07
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Gabriella Feola

Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se" . Atualmente também sou mestranda da ECA USP, pesquisando a comunicação da sexualidade nas redes e curso segunda graduação, em psicologia.


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