Estão abertas as incrições para a última turma de 2017 do nosso curso de equilíbrio emocional para homens. São apenas 20 vagas. :)

Meu pai traiu minha mãe e o trato mal por isso | ID #32

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"Olá, Fred
Tenho dezenove anos, sou uma ótima pessoa com estranhos mas trato mal meus familiares.
Gostaria de focar em meu pai e meus irmãos, pois minhã mãe é a única que tenho uma relação tranquila.
Nesses anos, fiquei indiferente com meu pai, não sei se foi por ele ter traído minha mãe ou pela preocupação excessiva que ele tem comigo, mas não consigo nem olhar nos olhos dele.
Ele fica me vigiando pela casa, liga toda hora quando estou fora, dependo do dinheiro dele e isso frustra demais, pois parece que ele não confia em mim.
Com minha mãe é diferente, em dezenove anos eu nunca cheguei em casa bêbado, me envolvi com drogas ou coisas do gênero, nunca dei motivo pra desconfiança. Minha mãe faz o contrário do meu pai, parece que ela confia em mim e ele não. Sinto como se ela entendesse que preciso sair da zona de conforto e ele ainda não aceitou isso. Meus pais ainda estão juntos, minha mãe trabalha com ele agora e eles vão bem.
Tenho três irmãos, um mais velho com quem quase nunca converso, um mais novo que sempre tratei mal, e uma irmã novinha. Não entendo por que não somos irmãos unidos mas tenho certeza que os amo e faria tudo por eles. Família em primeiro lugar.
Porém, ser grosso é algo automático, e é apenas com eles, até o tom de voz na hora de perguntar. 'Você pegou o meu chinelo?' soa de maneira nociva. Me sinto horrível quando faço isso mas quando tento não o fazer, é como tentar apagar a luz de um quarto sem interruptor.
Tenho certeza que os amo, mas não os trato bem. Ser um tipo de pessoa com amigos e outra bem diferente com familiares.
Obrigado,
Jazz"

Olá, meu caro Jazz.

Seu comportamento é mais comum do que imagina. Se colocássemos uma câmera do tipo Big Brother na casa das pessoas veríamos coisas bizarras, mal-tratos de todos os tipos, dos emocionais aos físicos. No seu caso é seu pai, mas curiosamente, na maior parte das vezes, o alvo costuma ser a mãe, aquela que de modo geral é venerada em datas festivas.

São dois os motivos por trás desse comportamento.

Mágoas acumuladas

Nossas expectativas sobre as pessoas que amamos é muito curiosa – em especial sobre os nossos pais. Queremos que elas sejam perfeitas, recíprocas, justas e na medida de nossas necessidades imediatas.

De modo geral, mal sabemos o que desejar dos outros e muito menos reconhecer se estamos saciados ou não. Além disso, parece haver um resíduo de insuficiência que não nos abandona mesmo quando o ciclo de realizações da vida cumpre o seu papel. Em resumo, somos grandes insatisfeitos, com uma tendência a esperar que nossa vida tivesse sido repleta de alegrias inesgotáveis.

Esperamos infalibilidade de pessoas que por acaso se uniram, tiveram filhos e se chamam pais. Seus pais, como todos, agem em função de impulsos tão básicos e irresistíveis à eles, podem ser incríveis e terríveis como qualquer um. Amaram de mais ou de menos, invadiram de mais ou de menos, com certeza perderam a mão em algum aspecto da vida em que precisamos de mais de espaço ou acolhimento. É terrível admitir, mas eles fizeram o possível e isso, em grande parte, é menos do que acreditamos precisar.

Como filhos, inexperientes da vida, idealizamos nossas ações como se fôssemos capazes de tomar melhores atitudes no lugar de nossos pais. Nos imaginamos na pele deles em situações de crise ou pressão, julgamos que agiríamos de maneira magistral e esquecemos que somos possuídos da mesma pequenez e confusão que eles.

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Os filhos também tem o dom de assumir as dores de um dos pais que supostamente foi prejudicado pelo outro, é bem comum os homens defenderem a mãe das vilezas sexuais do pai. Com isso, se colocam na posição de pequenos homens perfeitos que jamais fariam com uma donzela, como a nossa mãe, o que o pai fez. Nessa manobra não é incomum surgir uma percepção 100% negativa dele e uma rejeição a todos os atributos que o definam. E tudo o que lembrar em você algo parecido com pai é imediatamente repudiado e reprimido.

O problema é que a relação não é sua, você talvez nem tivesse nascido no dia do casamento deles e sequer foi chamado como conselheiro matrimonial. Essa bomba já existia antes de você entender o seu nome. Respeite esse limite, concordando ou não, afinal o mundo não precisa parar enquanto aguarda passar pela sua alfândega moral.

O que quero dizer, Jazz, é que seja lá o que seu pai tenha feito com sua mãe, não cabe a você julgar.

O que ele faz a você certamente é um tipo de retaliação sutil pelo seu olhar de julgamento. Na hora que ele investiga sua vida quer mostrar quem está no controle de verdade, como um cachorro que reivindica seu espaço. Entenda, você veio depois e é você que precisa olhar com um pouco mais de humildade para a história deles e respeitar cada ponto que viveram. Ninguém consegue arbitrar com neutralidade sobre os pactos estranhos que os outros fazem. Seus pais fizeram o deles, você fará os seus. Portanto, se desligue disso.

A intimidade cria uma bolha de projeção

Há um outro fator pouco comentado: a intimidade parece sustentar uma sensação de garantia incondicional para aquilo que temos de pior. Os estranhos ganham carícias, pois não temos a certeza da bem querência e reciprocidade. Com isso, eles ganham nossos gestos mais cuidadosos, enquanto aqueles que estão trancados no nosso cativeiro amoroso recebem todo o tipo de chibatada emocional.

Para quem pode fugir adocicamos a boca, para os nativos deixamos as farpas. Nessa bolha, com nossos íntimos, ignoramos o fato de que ali passaremos a maior parte do tempo de nossas vidas. Deveria ser lá que dedicaríamos as manobras emocionais mais delicadas, sofisticadas e pensadas, pois é lá que o relacionamento tende a se desgastar com mais facilidade.

Fazemos o oposto, queimamos toda a gasolina logo de cara e ficamos sem combustível para os dias difíceis. O resultado é desastroso, pois nos dias em que precisamos de mais suporte e aceitação elas já estão fartas de nossos desequilíbrios.

Cabe a você mudar essa dinâmica, aceitando que a outra pessoa tem a preferência pelo espaço ou criar forças para bater asas e voar. Nesse seu caso, a mágoa e julgamento velado pioram a situação. Sua grosseria dedicada aos que ama parece ser uma reação defensiva, típica de quem precisa e quer amor, mas se sente humilhado diante dessa necessidade. Certamente, não é a representação do que você tem guardado de mais precioso, mas é o que tem escolhido dedicar. Logo, tem responsabilidade por isso, não importa o motivo alegado.

No seu lugar eu pensaria muito bem se não vale a pena colocar todo o seu auto-controle no esforço de domar esse impulso de ferroar aqueles que o amam. Parece que você já teve muito amargor pelo caminho para seguir perpetuando novas agressões na sua coleção familiar.

Convite: noite de autógrafos com Frederico Mattos

Reforçando o convite para o lançamento do meu novo livro: link do evento

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* * *

Nota: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br.


publicado em 09 de Outubro de 2014, 06:00
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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