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Mary Shelley | Mulheres que você deveria conhecer #12

Ela ficou mundialmente conhecida por escrever Frankenstein aos 21 anos.

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Ainda hoje é propagada a ideia de que a história da humanidade foi escrita por homens. É claro que grande parte desse discurso vem do fato de que o acesso pleno das mulheres à educação foi uma conquista relativamente recente. Entretanto, não raro, encontramos referências de mulheres que fizeram história em épocas em que a opressão intelectual a elas era regra.

Uma dessas referências, que mexeu com os pensamentos da sociedade do século XVIII com uma escrita afiadíssima, foi Mary Shelley.  

Uma vida marcada por situações trágicas

Conhecida mundialmente como a escritora de Frankenstein, Mary Wollstonecraft Godwin Shelley nasceu em 30 de Agosto de 1797, na Inglaterra.

Filha de William Godwin, um teórico político e escritor que a encorajou em seus esforços como escritora, e de Mary Wollstonecraft,  uma das primeiras mulheres a levantar a bandeira feminista e autora do livro Reivindication of the Rights of Women, Mary teve acesso a uma educação bastante rara para mulheres naquela época.

A sua vida pessoal, entretanto, foi marcada por situações de conflitos e mortes de pessoas próximas a ela. Aos onze dias de vida, perde sua mãe, vítima de complicações pós-parto. Passa, então, a ser criada pelo pai, com quem tem uma relação de muito afeto e adoração. Mas aí, aos seus quatro anos de idade, seu pai casa-se novamente com uma mulher, com a qual Mary teve diversos problemas de convivência.

Em 1811, aos 14 anos, fica por seis meses internada em Ramsgate, decorrente de uma infecção de pele. Quando volta para casa, no Natal, a relação entre Mary e sua madrasta está muito conturbada. Diante de muitas brigas entre elas, William decide mandá-la para outra cidade.

Em seus diários e arquivos pessoais, Mary relata o quanto culpa a sua madrasta por tê-la afastado de seu pai.

Em 1812, a autora conhece Percy Shelley, um importante poeta da época e seguidor político de seu pai. Dois anos depois desse primeiro encontro, Percy e Shelley iniciam uma relação amorosa.

Dessa relação, nasce, prematuramente, Clara, a primeira filha do casal.  A bebê, entretanto, morre doze dias após seu nascimento. Depois da morte de Clara, Mary engravidou mais três vezes, porém o único filho sobrevivente, foi Percy Florence, sua última gravidez.

Quando Percy Florence tinha apenas 4 anos de idade, seu pai sai para velejar com um amigo em um dia de tempestade e eles desaparecem. Seus corpos são encontrados dez dias depois.  Em seu diário, Mary escreve a sua solidão e tristeza ao ver tantas mortes de pessoas de seu círculo familiar.

Essas situações trágicas tiveram muita influência na sua escrita. O livro The Last Man (1826) é um exemplo disso, uma ficção científica que conta a história de um mundo no futuro que teve sua população devastada por uma praga. Em meio a essa catástrofe, o único e solitário sobrevivente é o narrador. Essa obra é interpretada como uma experiência catártica para a autora, já que, assim como o narrador, Mary teve sua vida cercada por situações de perdas de pessoas queridas e sentia-se como a única sobrevivente em meio a um cenário de tragédias.

“[…] The Last Man! Yes, I may well describe that solitary being’s feelings, feeling myself as the last relic of a beloved race, my companions extinct before me […]” (SHELLEY, 2008, P. 7)

Aos 53 anos, em 1851, Mary Shelley morre do que os médicos suspeitavam ser um tumor cerebral.

A autora de Frankenstein, ou o Moderno Prometeu

Publicado há quase 200 anos, Frankenstein, ou o Moderno Prometeu  narra a história de Victor Frankenstein, um jovem estudante das ciências naturais que, ao se deparar com os avanços da ciência e medicina, acredita ser capaz de criar uma vida.

Firme nesse propósito, Victor passa anos trancado em seu laboratório, sem nenhum contato com família, nem amigos, a fim criar um ser humano feito por partes de diferentes cadáveres e dar vida a ele. Quando finalmente consegue e o monstro abre os olhos, Frankenstein toma consciência da grandeza do seu ato, não consegue lidar com isso e foge, deixando o monstro sozinho no mundo.

Daí então, inicia-se a busca da criatura pela sobrevivência e, posteriormente, pela vingança ao seu criador.

Considerada uma das grandes obras da literatura mundial, a ideia da criação de Frankenstein começa a ser pensada no verão de 1816 na casa de Lord Byron. Mary, Percy Shelley e Byron iniciam uma discussão sobre fantasmas, filosofia e sobre o princípio da vida. Os três escritores, então, decidem escrever, cada um, uma história sobre essa temática. Byron e Percy foram abandonando a ideia e nunca terminaram seus escritos, mas Mary continuou e deu origem ao seu famoso livro Frankenstein, ou o Moderno Prometeu.

O romance de Mary Shelley é, sem dúvida alguma, uma das grandes obras da literatura mundial, tendo inovado a literatura gótica com a sua publicação. Antes de Frankenstein, as obras de literatura gótica, em sua maioria, traziam espíritos e demônios no papel de vilões. Mary percebeu que esse tipo de representação não fazia mais sentido para a sociedade letrada do século XVIII que estava passando por várias modificações ideológicas e culturais, fruto do período Iluminista. Foi aí que se deu a grande inovação da obra: colocar um cientista no papel de vilão da história, o que faz muito mais sentido e causa muito mais impacto dentro do contexto histórico e social que a obra foi publicada, já que as pessoas estavam curiosas e, ao mesmo tempo, assustadas com os rápidos e grandiosos avanços científicos.

Mary Shelley tinha só 21 anos quando Frankenstein foi lançado. A primeira edição do livro foi publicada de forma anônima e recebeu vários elogios da crítica, principalmente ao que se refere ao embasamento filosófico presente no livro. Quando sua identidade como autora da obra foi revelada, Mary, contraditoriamente, passou a receber duras críticas que questionavam a real autoria do livro e que chegavam até a atribuir essa autoria a Percy Shelley, seu marido. A justificativa disso é que era inimaginável para a sociedade da época um romance de terror que criticava os avanços da ciência irresponsável, falava sobre anatomia, sobre estudos Galvânicos e sobre filosofia ser escrito por uma jovem mulher.

Hoje, em pleno século XXI, o romance é ainda considerado atual, por tratar de temas que fazem muito sentido, tais como o avanço científico irresponsável e a ideia do “homem brincando de ser Deus”, representadas nas ações do cientista Victor Frankenstein. Desde sua publicação, essa obra de Mary Shelley faz parte do imaginário cultural da humanidade e tem se mantido viva devido, em grande parte, às inúmeras adaptações que têm Frankenstein como referência.

Considerada sua obra-prima, Frankenstein acabou tirando o brilho de outras grandes obras da autora, tais como Lodore (1835) e Faulkner (1837), ambas com temática feminista. A primeira delas retrata uma cultura  patriarcal que pressiona a mulher a ser dependente do homem (aqui a inflluência dos pensamentos de sua mãe é notável) e a segunda que retrata a educação de uma jovem mulher por seu pai, uma figura bastante tirânica.

Mary Shelley criticou os avanços científicos irresponsáveis, narrou um mundo apocalíptico e ainda reivindicou os direitos das mulheres.  Se consagrou como uma grande pensadora e foi reconhecida, ainda em vida, como uma grande romancista, resistindo às críticas e descrenças recebidas na época apenas por ser mulher.


publicado em 15 de Fevereiro de 2017, 15:40
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Thaisa Person

Thaisa Person é professora, entusiasta de uma educação mais colaborativa, humana e horizontal. Acredita no poder do diálogo como forma de articular ideias e pessoas, por isso criou o Dialogue. Está no Instagram e no Facebook.


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