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Jovens transam mais X Jovens transam menos | Por que estamos discutindo isso?

Dado aponta que a geração Y dos EUA tem menor frequência sexual, mas por que isso importa? O que estamos dizendo quando discutimos um número?

Um artigo publicado no Archives of Sexual Behavior divulgou que jovens americanos da geração Y (nascidos pós anos 2000) tem transado menos que as gerações anteriores. O nível de atividade sexual seria comparável ao dos jovens criados na década de 1930. 

Ao longo do ano, diversos veículos de comunicação comentaram essa pesquisa, ou a mencionaram no meio de algum tema. Eles chamavam a atenção para o fato dos jovens de hoje — que tem mais liberdade sexual e facilidade de encontros pela tecnologia — estarem transando menos. 

Cena da série Skins (2007-2013)

A pesquisa aponta para a vida sexual de jovens americanos. No caso do Brasil, como declara Rachel Vascarin para a Folha de S. Paulo, não se observa a diminuição da frequência e, sim, uma iniciação precoce. 

“Essa juventude está perdida”

O chavão se repete independente da situação: 

“Essa juventude prosmíscua que não liga mais para os valores da família está perdida”
“Essa juventude pervertida que inverte os papéis de homem e mulher está perdida”
“Essa juventude que não sai do celular e não transa mais tanto quanto se transava antes está perdida”

Não tem saída, a nova geração carregará o fardo de estar fora dos conformes sem  nunca alcançar o aval da geração anterior. 

Mas a pergunta aqui é: Por que ainda estamos discutindo a quantidade e frequência do sexo? Por que isso importa?

“Todo mundo quer saber com quem você se deita, nada pode prosperar”

Cena da série Sex Education (2019-)

Existe um certo espanto ao ver um dado que vai contra o senso comum: “jovens passaram as últimas décadas transgredindo regras para poder viver a vida sexual e agora que se tem mais liberdade, se transa menos?”

Se a gente sentasse em torno da mesa para discutir a fundo esse dado, daria para apontar várias mudanças da vida que resultam em “menos sexo”. Por exemplo, diversos estudos apontam que quanto mais educação sexual um jovem recebe, mais ele tem autonomia para tomar decisões informadas e isso tende a tirar o sexo daquele lugar afobado de fazer quanto antes para matar curiosidades, provar algo ou fazer por fazer. 

Independente dos argumentos, o que eu queria colocar em pauta aqui é por que a quantidade continua sendo um elemento tão central quando se discute sexo?

Falando e controlando:

Não sei vocês, mas eu também considerava que falar sobre sexualidade na internet, nas revistas, nos jornais, era sinal de que a sexualidade estava se tornando algo menos controlado pela sociedade, mais livre. 

Eu pensei assim até o dia em que eu realmente entendi “A História da Sexualidade” de Foucault.

Ele diz o seguinte: falar sobre sexualidade (e exigir que as pessoas falem sobre) não é dar liberdade para viver a sexualidade, é regular a vida das pessoas a partir dos discursos. Ou seja, quando a cultura que pede que a pessoa fale sobre sua vida sexual, ela tem por efeito exigir que esta pessoa preste conta do que faz e do que deixa de fazer.

É preciso estar muito iludido com esse ardil interno da confissão para atribuir à censura, à interdição de dizer e de pensar, um papel fundamental; é necessária uma representação muito invertida do poder, para nos fazer acreditar que é de liberdade que nos falam todas essas vozes que há tanto tempo, em nossa civilização, ruminam a formidável injunção de devermos dizer o que somos, o que fazemos, o que recordamos e o que foi esquecido, o que escondemos e o que se oculta, o que não pensamos e o que pensamos inadvertidamente.” 

- Michel Foucault

Foucault também considera que as proibições não são exatamente o que proíbe a galera de fazer X ou Y. Na verdade, proibir seria precisamente o que cria e dissemina as transgressões. A final, a transgressão não existe se não houver regra. Puxando pra vida real, o pecado não existe se não houver religião.

Questionar se os jovens transam mais ou menos, é um jeito de cobrar certo enquadramento em uma expectativa de vida sexual. Neste tipo de abordagem, também existe um pano de fundo não declarado no qual parte-se de um princípio em que transar mais é melhor, afinal, expressa mais tesão, mais encontros, mais virilidade. 

Nesta expectativa de vida sexual, é preciso estar transante — se não será uma juventude perdida — mas também não se pode transar demais ou muito promiscuamente — se não será uma juventude igualmente perdida.

Cena da série Skins (2007-2013)

Independente da quantidade de transas, o que se produz com essas discussões é uma certa regulação da quantidade de sexo, ou melhor. 

Não estamos discutindo como as pessoas estão transando, não estamos discutindo a qualidade e a satisfação sexual das pessoas (a Universa, sim, puxou esse dado), estamos apenas criando parâmetros numéricos que, por si só, não deveriam significar muita coisa.

Pesquisar é importante, viver em função do dado não!

Foto dos pesquisadores: Virginia E. Johnson e William H. Masters.

Foi de extrema importância para as pesquisas da sexualidade que o sexo pudesse ser medido, transformado em número e os números em dados. Alfred Kinsey e  Masters & Johnson (aqueles da série Masters of Sex) são quem puxam os principais estudos que medem a vida sexual da população americana. A partir daí, se tem uma evolução muito grande nos estudos sobre a sexualidade e na seriedade com que eles são encarados. 

O problema é quando usamos os dados obtidos sem um olhar crítico, reproduzindo-os como se eles fossem o reflexo objetivo da vida real, podemos acabar criando um falso parâmetro de normalidade. Dizer que jovens tendem a transar X e que esta geração tem transado ½ x é como dizer: “olha essa é a média, esse é o normal, se você está fora disso, há algo de errado com você.” 

Dados numéricos sozinhos não dizem muito sobre a nossa vida. Transar mais não indica necessariamente mais satisfação, nem mais virilidade, nem mais desejo…

Olhando para além dos números:

Porcentagens e dados fora de contexto não expressam a vida sexual. A realidade é contextualizada e entrelaçada. Por isso, para não criar e disseminar uma norma sob a desculpa de estar apenas repassando o dado, é preciso trazer um olhar crítico vindo e se perguntar:

Por que estamos discutindo a quantidade? O que significa esse número? Quais fatores o produziram? Que outros números acompanham este?

A frequência de transa está relacionada está fazendo as pessoas se sentirem melhor ou pior em relação a sua sexualidade? A diferença na quantidade de transas me fala algo sobre o prazer ou a satisfação das relações sexuais? Como tem mudado a relação do jovem com o seu corpo? Quando se transa menos, se transa com mais segurança? Os jovens têm se sentido menos pressionados a corresponder a um padrão de performance sexual? Eles tem se sentido mais confortáveis com suas orientações sexuais?

Cena da série Sex Education (2019-)

Se os jovens continuam perdendo a virgindade com 17 anos em média, assim como acontecia nos tempos da minha avó, eu não quero saber se o número continua o mesmo, eu quero saber se o contexto mudou: eles têm perdido a virgindade por desejo ou por pressão social? Eles têm perdido a virgindade quantos anos antes do casamento?

Olhares superficiais, numéricos, podem nos levar a estigmas e estereótipos, a uma expectativa falsa do que é a normalidade e a satisfação sexual. Para vivermos uma sexualidade mais plena, precisamos, nós todos — considerando eu que estou do lado de quem escreve a mídia e vocês do lado de quem lê — fazer boas perguntas, sem desmerecer dado nenhum, mas buscando compreendê-los profundamente.


publicado em 18 de Novembro de 2019, 07:34
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Gabriella Feola

Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se" . Atualmente também sou mestranda da ECA USP, pesquisando a comunicação da sexualidade nas redes e curso segunda graduação, em psicologia.


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