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José Saramago | Homens que você deveria conhecer #31

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Depois de ler Ensaio Sobre a Cegueira, fiquei curiosa para descobrir quem era o cara que me cuspiu tantas ideias sobre a cegueira da humanidade e a responsabilidade de se ter olhos quando os outros o perderam. Descobri um cara amado e odiado, o já esperado para alguém que diz tantas verdades.

 

Saramago era, mais que mero escritor, um ativista das palavras
José Saramago | Homens que você deveria conhecer #31

Menino pobre que, interessado na leitura, teve sua vida transformada. A história não tem tons de novidade. Sua diferença se fez nos detalhes.

 

Nascido para ser José de Sousa, virou aquele que "veio para incomodar"

Para os que acreditam que Saramago já nasceu velho, há aqui uma surpresa. Segundo os registros legais, ele nasceu em 1922, na Freguesia de Azinhaga, Golegã, Portugal. De suas proezas de garoto, a maior foi ter concluído duas séries da escola primária, em um único ano.

Filho de José de Sousa e Maria da Piedade, tornou-se José de Sousa Saramago por conta de um vizinho que trabalhava no Registro Civil e que estando bêbado, acrescentou sem que ninguém percebesse, o último nome ao registro da criança. Fez, porque este era um apelido infame dado à família na aldeia e que se referia a uma erva ruim que nasce para incomodar. Um tipo de capim.

No livro Saramago – Biografia, João Marques Lopes conta que O fato só foi percebido no momento da matrícula do pequeno José na escola primária, o que deixou seu pai muito furioso. Hoje, calha perguntar o quanto Saramago, "aquele que incomoda", não faz mais sentido que José de Sousa.

 

Saramago já foi um meninão

 

Tornando-se escritor

Sua família mudou-se para Lisboa, onde morou por 12 anos dividindo casas com outras famílias. Aos 20 e poucos anos, estava casado e já tinha uma filha. Formou-se em Serralheiria Mecânica, mas o hábito de frequentar bibliotecas por fins de lazer e autodidáticos o levou a trabalhar em repartições públicas, editoras e jornais nos 30 anos seguintes.

Durante esses anos paralelamente, Saramago escreveu poesias, contos, crônicas e ficções. Seu último emprego formal foi como diretor adjunto do Diário de Notícias de Lisboa, um dos jornais de maior tiragem de Portugal, de onde foi demitido após acusações de usá-lo para favorecer o partido comunista.

Depois de sua demissão do jornal, passou por dificuldades. Escreveu crônicas, traduziu livros, ganhando bem pouco. Por outro lado, foi sua chance de se dedicar exclusivamente à escrita.

 

O estilo "saramaguiano"

 

Página aleatória do livro "A Jangada de Pedra". Blocos de palavras.
José Saramago | Homens que você deveria conhecer #31

Sua primeira obra reconhecida pela crítica foi Levantado do Chão. Um dos motivos de tanto sucesso foi a forma peculiar de escrever com poucos parágrafos e pontuações. Por este motivo, desde então, o livro sempre causa admiração e repulsa de muitos leitores.

Depois de três anos buscando uma forma inovadora de registrar duzentas páginas de pesquisa em Levantando do Chão, Saramago começou a escrever sem saber muito bem por qual o caminho. Começou registrando normalmente os diálogos até que, pela página 25, aconteceu o que ele considerou uma das coisas mais belas em sua escrita: começou a interligar os discursos direto e indireto e passar por cima de muitas das regras sintáticas da língua. Ao final do livro, a única possibilidade que viu foi voltar ao começo e reescrever as primeiras páginas de acordo com as outras.

 

A escrita de Saramago ganha todos os reconhecimentos

Antes do reconhecimento, Saramago teve 11 livros publicados sem sucesso. O primeiro foi Terra do pecado, aos 25 anos, o qual o autor não tinha orgulho.Em 1980, quando teve sua primeira obra consagrada, Saramago completava 58 anos, a personificação do “nunca é tarde para recomeçar”.

Nos anos seguintes, pôde dedicar-se somente à escrita, lançando outros livros que lhe renderam traduções para muitas línguas e inúmeros convites de eventos em Portugal e no exterior. Seu reconhecimento máximo foi em 1998 quando recebeu o Prêmio Nobel de

Literatura que, segundo seu criador, premia a obra inteira do escritor, seus principais livros, sua mentalidade, seu estilo e suas filosofias.

Durante toda a vida, José Saramago acumulou 24 prêmios literários (nacionais e internacionais), 38 doutoramentos Honoris Causa, além de 46 outras distinções, entre as quais podemos destacar o título de sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.

Link YouTube | O Saramago falando o português de Portugal junto com uma tradução simultânea em inglês europeu pode não ajudar tanto no entendimento. Mas é um discurso bem bonito. Tá bom, dá pra ler o discurso em inglês no próprio site do Nobel Prize. De nada.

 

Polêmica sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Saramago escreveu muitas obras de cunho histórico, sendo O Evangelho segundo Jesus Cristo, de 1991, o mais polêmico e que levou o autor a um exílio voluntário na Ilha Canária de Lanzarote, na Espanha.

O escritor era ateu convicto, por isso, quando publicou o título, sofreu acusações de agressão ao catolicismo, religião fervorosa em Portugal. Sua candidatura ao Prêmio Literário Europeu foi vetada pelo governo (comportamento que podemos chamar também de perseguição, provavelmente pela sua ligação com o partido comunista no passado), levando a polêmica ao parlamento nacional e a outras instâncias da comunidade europeia.

Contudo, o livro ganhou o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o mais importante concedido a uma única obra - o autor aceitou o prêmio e doou o valor para a compra de livros destinados a África lusófona.

O livro em si apresenta nada mais que a personificação do Deus apresentado em grande parte da Bíblia e dos cultos religiosos. Um deus rancoroso e vingativo, que deseja matar o próprio filho crucificado, com o único intuito de defender seu poder. Para Saramago, Deus é uma invenção do homem, portanto suas críticas não são a Deus, são à humanidade que o inventou.

 

O ensaio sobre a Cegueira

Em 1995, foi inaugurada uma fase mais alegórica de seus romances, estilo que manteria por muitos anos - sendo a mais emblemática, Ensaio sobre a Cegueira. O livro que retrata de forma muito dura a realidade humana, foi o mais difícil de ser escrito.

 

“Foi como se tivesse dentro de mim uma coisa feia, horrível, e tivesse que sacá-la. Mas não saiu, está no livro e está dentro de mim”

Saramago acreditava que o homem prefere muitas vezes se esconder a enfrentar as mazelas do mundo e lutar contra elas, e retrata isso de forma dura, mas por vezes muito sutil e irônica, nesta e em outras obras. Para ele, os homens são “cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.

 

Quando cegos, cada um quer ver só o seu lado

O enredo gira em torno de uma cegueira branca que rapidamente se alastra por todo o país. O governo, temendo epidemia, monta uma quarentena com as primeiras vítimas num manicômio abandonado. Lá que acompanhamos a história do médico, da mulher do médico, da rapariga de óculos escuros, do velho da venda preta e outros personagens característicos, um bando de “sem nomes” cujo único objetivo é sobreviver. Em poucos dias de clausura, todos já estão adaptados a viver como animais, defecando nos corredores, sem valores e sem pudor. A única que não perde a visão é a mulher do médico, como um senso de realidade no meio da podridão. É através dos olhos dela que podemos ver a vida se degradando.

O lugar parece uma amostra visual de tudo que o ser humano é capaz. Poderiam unir forças para viver bem durante aquele período (o que é fácil esperar de uma história mais óbvia), mas o ambiente vira um cada-um-por-si. Os bons se calam e os maus se revelam.

A sequência do estupro coletivo, que causou repulsa imensurável, especialmente por parte das mulheres, não está muito pior que a realidade. Claro que a situação feminina é ainda muito discutível na sociedade, principalmente no que diz respeito ao machismo quase sempre velado que somos sujeitadas a vida toda – até mesmo os cegos discutem essa situação antes de decidirem trocar sexo por comida. Mas para interpretar todo esse acontecimento, é preciso ver além. Não é sobre estuprar mulheres, mas sobre a humilhação que muitos se sujeitam todos os dias ou a vida toda em troca de migalhas.

O mais importante neste trecho foi a coragem da mulher do médico de buscar justiça enquanto a maioria parecia conformada. Outras coisas foram tão marcantes quanto o estupro, como o garotinho que parou de chamar pela mãe, a solidão da velha má do primeiro andar, o amor nascido livre de julgamentos entre um casal que no caso das vistas terem continuado perfeitas, seria bem improvável. Ou ainda o choque de todos ao saberem que a prostitua, chorava de saudade dos pais, afinal, como pode haver bons sentimentos em uma pessoa de costumes tão irregulares?

Não é fácil ler essa obra prima. Enxerguei o horror através da mulher do médico, mas também vi nela a utópica atitude dos bons. Basta não se fazer de cego para ver o quanto o ser humano é adaptável.

Pense na fome, no sexismo, no racismo, na desigualdade social, na corrupção e por aí se vão outros preconceitos e outras tantas mazelas para as quais fechamos os olhos diariamente. Lemos uma notícia e achamos quase sempre normal. O Ensaio sobre a Cegueira mostra tantas coisas ruins, que reforça a necessidade de não fazer parte dessa sujeira.

Após negar inúmeras vezes a adaptação do título para o cinema, aceitou o pedido do diretor Fernando Meirelles que, em 2008 lançou o filme de mesmo nome. O escritor ficou muito contente com o resultado, dizendo em entrevista que finalmente havia conhecido o rosto de seus personagens. Em uma exibição especial, assistiu a película ao lado do diretor e, ao final do filme, fez o que seria provavelmente o melhor elogio que a adaptação poderia receber.

Link YouTube | Chora na rampa, Meirelles

Entre outros títulos adaptados do autor estão Jangada de Pedra, A maior flor do mundo e o contoEmbargo. Neste ano será lançado O Homem Duplicado e já está confirmada a filmagem de O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

 

Quanto mais ele incomoda, mais se acumulam os processos

Por volta dos anos 2000, já em torno dos 80 anos, Saramago se engajou em diversas causas políticas e sociais, muitas dessas polêmicas. O Famoso “me processa”. Comparou a ocupação da palestina ao holocausto nazista, encabeçou uma manifestação espanhola com 500 mil pessoas lendo o manifesto unitário do ato, fez críticas ao regime cubano, rejeitou o doutoramento honoris causa do estado do Pará por acreditar que o governo deste reprimia o MST.

Para finalizar seu legado, publicou em 2009, Caim. Escrito em meio a diversos internamentos, o livro retoma o estilo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, irritando novamente os católicos mais conservadores. Para Saramago, o Velho Testamento, que serve de inspiração para o recorte de Caim, poderia ser chamado de O Livro dos Disparates.

Em 2010 morreu José de Sousa Saramago, aos 87 anos, deixando esposa 28 anos mais jovem, uma filha, dois netos, 38 livros e a Fundação José Saramago - onde é possível encontrar a bibliografia completa. “São os fados”, ele diria.

 

Pilar Del Rio e Claraboia

Após sua morte, foi publicado seu segundo romance, Clarabóia, que havia sido rejeitado em 1953 pelas editoras. No livro, o autor cita o provérbio “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, fazendo referência a uma personagem espanhola, cheia de defeitos,

casada com um português. Ele que mais tarde casou-se com uma a fã e jornalista espanhola, Pilar Del Rio, pediu que o livro fosse publicado somente após sua morte.

A história do casal foi contada no documentário José e Pilar.

 

Amá-lo ou Odiá-lo?

 

Caetano Veloso, José Saramago e Jorge Amado. Um "power trio" da escrita em língua portuguesa
José Saramago | Homens que você deveria conhecer #31

Saramago carregava consigo a indignação necessária para não tornar o mundo um poço de conformismo. Ele foi o capim amargo no jardim artificial de muita gente que usa religião, política ou outras desculpas para não reagirem a tantas injustiças da sociedade. Este homem que escancarava fatos reais nos seus livros de ficção, considerava a tentativa de convencimento uma falta de respeito.

Portanto não venho fazê-la. Prefiro somente repetir a coisa mais importante que aprendi em seus livros: O medo de ver é o que cega.

Nota do editor: A leitura dos livros de José Saramago é, claro, opcional, mas quase obrigatória. Agora, só há de se acrescentar a qualquer intelecto ouvir um pouco do que Saramago disse em sua vida. Seguem alguns links de ótimos vídeos com o escritor português.

 


  • Depoimento do Saramago no documentário Janela da Alma;

  • Depoimento do escritor no documentário Vidas (línguas em português);

  • Coletiva do lançamento do livro Caim;

  • Sabatina com o Saramago no programa Roda Viva, da Cultura.

  • Entrevista com José Saramago no Jornal da Globo (parte 1 e parte 2)


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publicado em 27 de Maio de 2012, 21:01
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Patricia Bedin

Patrícia Bedin é estilista, consultora de moda e leitora iniciante. Regista suas novas descobertas no 12mesesdeleitura .


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