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Glamourização do hedonismo | WTF #77

O "paradoxo do hedonismo” é descrito como o fato de que a busca pelo prazer, não é em si, fonte de prazer. Quando o foco em gratificação acaba num círculo vicioso

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Quando Thomas De Quincey escreveu As Confissões de um Comedor de Ópio, sua intenção certamente não foi a de promover o uso do láudano. Ainda assim, este livro começa um padrão que se repetirá várias vezes no séc. XX: o autor pretende uma descrição isenta, ou até negativa, do abuso de drogas, mas como precisa explicar por que exatamente a substância era tão interessante de início, acaba inadvertidamente criando uma propaganda muito convincente da coisa toda.

Mais do que isso, até mesmo a descrição ultraestética dos horrores góticos pelos quais enfim passou acaba se tornando uma espécie de folheto turístico de uma grande aventura. A pessoa que lê uma bad trip, ou a degradação humana do junkie, muitas vezes encara a coisa toda como uma montanha russa, uma “emoção barata”, agora vendida com intensidade romântica.

Afinal de contas, todos aqueles sonhos terríveis descritos pelos autores de “paraísos artificiais” foram colocados no papel por gente que sobreviveu, e que de fato se mostrou um tanto virtuose e chique na escrita – de que jeito ou de que forma sobreviveram, num dado momento era difícil precisar, mas é óbvio que na altura da escrita estavam “bem”. O próprio De Quincey teve uma vida relativamente longa: cheia de problemas financeiros, e cheia de múltiplas afirmações mentirosas quanto a ter finalmente abandonado o ópio.

De Quincey produziu a obra pela qual é conhecido numa encruzilhada oitocentista interessante entre ciência, revolução industrial, capitalismo global e a progressiva dissolução do moralismo cristão. Se por um lado a figura do viciado em drogas já existia (álcool, ópio e haxixe, apenas, até aquele momento), isso ainda era apenas considerado e reconhecido apenas como uma falha moral. Um tanto como ainda é hoje na mentalidade classe média, os lugares associados a esses consumos estavam mais ligados a criminalidade, pobreza e marginalidade. A pessoa teria seguido caminhos equivocados, e sem uma rede social e convicção moral pessoal para protegê-la, sucumbira aos hábitos da “gentalha”, se mostrando igualmente gentalha. Era essa a perspectiva, e certos ecos disso claramente se mantém em setores da sociedade.

O que acontece de diferente no séc. XIX é o surgimento da drogaria, junto com as expectativas e visões científicas materialistas, bem como a publicidade. O láudano era vendido sem prescrição, e comumente dado para que bebês se acalmassem. Ora, tudo era vendido sem prescrição: a noção de que é preciso regular mais fortemente certas substâncias surge exatamente de abusos que vão se mostrando comuns daí em diante até as primeiras décadas do séc. XX. O problema deixa de se restringir a proscritos sociais, e passa a atingir todas as camadas, numa verdadeira epidemia – na qual vivemos até hoje.

O viciado em ópio não precisava mais frequentar casas de má reputação: ele compra sua fórmula favorita diretamente com o asséptico farmacêutico, vestido de jaleco, pagando impostos. Não havia sequer regulação requerendo uma descrição do produto e de seus princípios ativos; era possível estar tomando ópio, seus derivados ou cocaína sem nem saber. Era o velho oeste farmacêutico.

De um lado temos a ciência – avançando loucamente, em todos os sentidos: irresponsável, teratogênica, intensa, revolucionária. De outro lado temos a sofisticação cosmopolita, que aliada à ciência, finalmente torna desafiar a tradição e a religião algo aceitável, até moderno – e não só desafiar a crença em Deus, mas toda a teoria moral subjacente à religião, e que muitos consideravam necessariamente atrelada a livros sagrados e outros “contos de fadas”. Então temos a sensação, a publicidade, a comoção pública em torno de um tema: o fad. E enfim, enlaçando tudo isso, o interesse econômico – do editor do bem-sucedido Confissões, do próprio De Quincey, que precisava desesperadamente de grana, dos farmacêuticos e vendedores de “óleo de cobra”, e da própria profissão médica, que começava a virar uma indústria.

Essa sinergia segue até hoje. E quando uma ponta é regulada – digamos drogas – outra ponta surge na forma de engenharia de alimentos, desenhados para redundar a mais favorável curva glicêmica para aumentar os índices de consumo perante os alimentos concorrentes, tais como cenoura ou alface. Consumo esse ainda propagado e alardeado pela publicidade e noções abusivas de liberdade: “você é senhor de si mesmo e sabe o que está fazendo, busque gratificação imediata!”

“Obedeça seu monstro interior, coma. Obedeça seu instinto momentâneo, sinta esse prazer. Obedeça os senhores que o escravizam desde tempos imemoriais, coma sorvete. Comprar é liberdade, obedecer é ser livre.”

O fato é que o romantismo gótico foi uma época em que as pessoas pareciam particularmente suscetíveis à leitura. 50 anos antes, Os Sofrimentos do Jovem Werther causou aquela onda de suicídios, e a obra de De Quincey, da mesma forma, revelou o uso recreativo do ópio, e com isso inadvertidamente aumentou intensamente o consumo da substância. No fim do século havia um novo e grave problema de saúde pública em torno de abuso de substâncias – o mesmo com que nós vivemos desde então.

Algumas pessoas que acreditam que os trouxas não devem ser protegidos de golpes – porém, a maior parte da sociedade civilizada acredita que enganar os outros deliberadamente merece enquadramento criminal. Mas quando o engodo é mais generalizado, sem um agente facilmente localizável, não estendemos as prerrogativas de saúde pública a “vírus” ideológicos e ideias funestas que são espalhadas sem critério. Isso vale para Werther, para as obras que glamourizam drogas, ou para ideias que abusam da noção de liberdade individual. “Consumidores são seres livres, que escolhem o que comprar com base em deliberação racional”.   

É óbvio que a obra de De Quincey não foi o único fator na epidemia de drogas, mas foi um fator importante no que diz respeito à influência, tanto sobre outras obras quanto sobre a população. É nesse período que fica clara também a efetividade da propaganda – embora só no início do século XX ela comece a ser sistematicamente estudada. Um dos motivos pelos quais os leitores de Werther e Quincey eram tão sugestionáveis talvez fosse justamente o fato de que não eram constantemente expostos a convites duvidosos para encontrar felicidade neste ou naquele produto. Hoje, todos já somos um tanto vacinados por toneladas de sugestões, de forma que cada uma delas tem menos poder relativo, precisando competir por nossa atenção, desenvolvendo formas cada vez mais sutis de manipulação. E a manipulação funciona e existe – é surpreendente quando alguém não aceita a existência de uma indústria de exploração da acrasia; se não funcionasse, não fazia dinheiro: e é uma indústria bilionária.

E é importante ressaltar o caráter publicitário das obras de Goethe e De Quincey. Não, com isso não estou querendo dizer, novamente, que o objetivo deles era vender o que acabou ocorrendo, isso foi inadvertido. O que eles venderam, efetivamente, foi o glamour – que vinculava a obra, o cenário e o zeitgeist – com o leitor, que então, em vez de imitar tatuagens ou um corte de cabelo, imitavam o suicídio ou o hábito de ópio dos personagens.

Recentemente a esposa de Scott Weiland escreveu uma carta insistindo para que não glamourizem a morte do roqueiro. Há um bom motivo para a família de uma figura pública pedir isso: essa tendência é alimentada por quem quer vender revistas, filmes, discos; e o público acaba consumindo e participa do processo, transformando uma tragédia pessoal em mais um elemento de idolatria.

Scott Weiland

Com o passar das décadas, o estilo de vida se tornou o principal produto. Evidentemente que os carteis não patrocinam a autodestruição de roqueiros: o produto, nesse caso a droga, é secundário. A publicidade em muitos casos vende a si própria, ou vende apenas a ocupação de sua mente com algo que redundará em alguma relação comercial futura. A droga como produto acaba apenas um símbolo do consumo: que alguns acabem consumindo droga mesmo, bom isso é uma externalidade da publicidade que glamouriza um estilo de vida e que vende tantas outras coisas.

O “paradoxo do hedonismo” é descrito como o fato de que a busca pelo prazer, não é em si, fonte de prazer. Assim, uma cultura focada em gratificação acaba num círculo vicioso, uma vez que cada uma das coisas obtidas se mostra insuficiente, e a única resposta possível é ir atrás de cada vez mais experiências. Exatamente como com a droga. E, portanto, essa busca incessante por satisfação alimenta a si própria, e é ideologicamente encorajada, uma vez que, na perspectiva predominantemente vendida, as economias “precisam crescer”.

A droga é só o elemento mais óbvio desse maquinário. Tão óbvio, de fato, que uma indústria paralela precisa ser montada para lidar com os “externalismos ambientais” (de saúde pública) de seu abuso – e isso envolve prisões, violência urbana, centros de tratamento, publicidade, histórias pessoais. Por todo lado, com a legalização ou com a proibição, alguém ganha dinheiro.

O próprio De Quincey publicou mais tarde em sua vida uma versão três vezes maior das Confissões, agora mais cheia de detalhes científicos – se tornando de fato uma das primeiras tentativas de tratar a dependência de drogas num aspecto mais científico. Porém, dizem, muito enfadonho e bastante inferior perto da primeira delirante versão, escrita às pressas para pagar alguma dívida.

O insidioso é que, do jeito que as coisas são desenhadas, o consumo (de qualquer coisa) é visto como um valor intrínseco. Assim, nessa ideologia não há como argumentar com alguém que escolha como seu produto a droga: é apenas o que todo mundo faz, escolher seu produto.

A perda dos valores tradicionais e o conhecimento farmacêutico (produzindo substâncias mais puras e potentes) têm, é claro, sua parcela de culpa no começo da epidemia. Porém o aspecto cultural e ideológico é mais forte: a noção de autogratificação (consumo) sendo promovido como ídolo central da noção de liberdade individual global – o hedonismo materialista de que o capitalismo se apropria – é o principal fator na alienação que produz tantos males, entre eles a novidade da epidemia de drogas dos dois últimos séculos.

O contra-argumento é que sempre haverá uma parcela da população, biologicamente determinada, que terá alguma dependência, e isso pode bem ser verdade: no entanto, como cultura, não promovemos valores profundos além do mero consumo, e quem acredita em determinação biológica pelo menos não deveria vender noções de liberdade. A verdade é que nossa cultura não produz “Parques de Ratos”. E quem centra sua vida no consumo, pode consumir qualquer coisa – afinal de contas, a “liberdade individual de consumir” está aí justamente para isso.


publicado em 07 de Janeiro de 2016, 00:05
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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