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Eu vou levar você pra ficar comigo | Do Amor #16

O sonho de conquistar a pessoa desejada faz com que qualquer apaixonado faça loucuras de amor. O problema é fazer funcionar

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Estava bonito que só. Se botou dentro de um terno azul gasto, calçou um par de sapatos marrom claro e deixou três botões abertos na camisa cor de creme. Cabelo penteado para o lado, óculos de armação dourada e colônia o suficiente para empanturrar qualquer narina com aquele adocicado forte. 

Todo orgulhoso, ele, se vendo no espelho com o buquê de flores na mão, aquele olhar de cima para baixo, a boca em forma de parábola aprovatória que escondia um sorriso que sua macheza não permitia soltar, mas que sabia estar dentro dos mínimos conformes da beleza e elegância. No bolso do casaco, a caixa vermelha toda afofada dentro com uma aliança prateada com uma pedra na ponta fazia volume quase imperceptível. E claro que a ideia era bem essa, não podia denunciar logo de cara que estava com a intenção de fazer a tradicional proposta de casamento.

Chegou no puteiro no começo da noite, um céu que ainda misturava o leitoso claro de fim de tarde com o breu do escuro que haveria de chegar. Foi direto para o bar, pediu cachaça e botou as flores em cima do balcão. O rádio azul claro que funcionava a pilhas deixava escapar um Belchior chorando Alucinação, mas em sua cabeça se repetia o confiante Odair José explicando à sua amada que quando o amor existe, o que não existe é tempo pra sofrer. desceu a birita em uma única golada e pediu outra dose. Mais um pouco e estaria com a coragem certa para fazer seu pedido.

Olhou em volta, os sofás avermelhados, o amarelo denso das luzes, o aconchego. Para ele, aquele puteiro era melhor que casa de mãe: "melhor ouvir os carinhos da menina que lamúria de velha, porra" ele repetia sempre às gargalhadas com sua garota favorita no colo. Saiu tanto com a mesma menina e se apaixonou perdidamente a ponto de botar na cabeça que a tiraria daquele lugar, levaria sua pequena para o novo lar em que, juntos, construiriam família. Linda ela, cuidando do jardim e fazendo banquetes para os amigos. Iria lhe dar tudo o que poderia existir de bom e de melhor. Seu coração descompassou quando a viu descer pelas escadas toda fresca do banho tomado entre um programa e outro. Seria sua última ducha, a chuveirada derradeira. "Eu vou tirar você desse lugar", ele repetia na cabeça enquanto apertava o buquê contra o peito.

Ela chegou, ele a cumprimentou e entregou o presente florido. Ajoelhou-se e tirou os óculos. Caçou a caixinha dentro dos bolsos do paletó e abriu na frente das outras garotas e do cara do bar. "Casa comigo, mulher. Vamos embora". Ela sorriu em cortesia, ajudou-o a levantar e levou-o para o quarto. Lá dentro, negou a proposta. Colocou-o sentado na cama, segurou suas mãos, explicou: "eu gosto do que eu faço, doce. Minha carreira é boa, eu ganho bem. Eu cheguei na parte da hierarquia em que posso escolher meus programas, só saio com quem gosto. Aqui tem as festas, eu me divirto demais. Eu adoro as meninas, as bebidas, os paus dos outros caras com quem eu me relaciono. Adoro você, meu doce, mas casar não é pra mim não".

O amor. Tem vez que a gente nem precisa dele.

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publicado em 18 de Setembro de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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