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Esqueça o "não tinha para homem onde você comprou isso aí?"

Como crianças, aprendemos a não cuidar da nossa aparência. Como adultos, é hora de desaprender isso.

“Ei! Não tinha para homem onde você comprou isso aí?”

Não que eu estivesse enumerando, mas perdi a conta de quantas vezes ouvi frases como essa desde a infância ou adolescência até os dias de hoje. 

Os motivos, convenhamos, não precisam ser grande coisa. Podia ser por algo tão básico quanto usar uma peça de roupa rosa ou um tênis ou sapato novo, com algumas firulas a mais, mas a chacota estava sempre à espreita: bastava ousar um pouco mais no vestuário ou simplesmente tentar se vestir bem que a carteirinha de macho já estava a perigo.

“Não é coisa de homem”.

Quando crianças, enquanto as meninas são compulsoriamente ensinadas a cuidar de si e estimuladas a habitar um lugar de vaidade, que valoriza a beleza, os meninos geralmente passam ao largo disso.

Como parte da pesquisa de O Silêncio dos Homens, perguntamos aos respondentes se concordavam com a seguinte afirmação:

“Como menino, aprendi a não gastar muito tempo cuidando da minha aparência e de como me visto”

  • Concordo totalmente ou em parte 44% 
  • Nem concordo nem discordo 20% 
  • Discordo em parte ou totalmente 36% 

Me enquadro nesses 44%. Como sempre tive um problema de autoimagem relacionado ao meu peso, me habituei a apostar no lugar seguro conforme ia crescendo. A camiseta preta (para emagrecer), somada a uma bermuda ou calça discreta poderiam ser descritas como meu uniforme em boa parte da vida. Quando era necessário algo mais formal, tacava um tênis junto com o terno e a rebeldia juvenil já me parecia estilo o suficiente.

Com o tempo, até passei a usar algumas camisas de manga curta quando desejava ficar mais arrumadinho, mas parava por aí. Me sentia ok, não precisava gastar muito com algo que me parecia supérfluo e, desde que eu estivesse cheiroso (aprendi observando meu pai que essa parte era essencial) e o black power estive lá no alto, tava ótimo.

Até que não estava mais.

Foi um choque para mim quando ouvi da boca da minha companheira Juliana — que além de ser uma pessoa incrível tem o hábito de se vestir muitíssimo bem — que gostaria que eu me vestisse melhor.  “Quê?”, pensei. E tirei do bolso aquele caminhão de argumentos: eu sou assim, gosto do básico; é difícil achar roupa que caia bem em mim; me visto bem sim (meio que dizendo, na verdade, que não sou completamente desleixado “como fulano e sicrano”. Nessas horas, a gente bota os amigos na roda sem medo). Admito que me peguei bravo com ela algumas dezenas de vezes, pensando algo como “eu já era assim quando você casou, então aguenta”

Até que, ouvindo uma conversa de um grupo de amigos sobre tênis, me dei conta de que o modelo que estava no meu pé não apenas estava puído e com alguns rasgos, mas tinha sido usado 5x por semana nos últimos seis meses, um ano. Me dei conta que o problema não era exatamente não ligar para estilo tanto quanto ela. Não me cuidar, ficar na mesmice ou não dar importância para o modo como me visto estavam sido lidos como falta de cuidado, atenção ou conformismo não só comigo, mas com a nossa parceria.

Passei a olhar com um pouco mais de carinho as minhas escolhas e, ainda que não tenha feito mudanças drásticas ou um grande investimento financeiro, foi impressionante notar que, para além do efeito no relacionamento, eu me sinto bem quando cuido da minha aparência.

Ficava entre a cruz e a espada com as camisetas pretas sempre que uma crise de caspa aparecia, mas não recorria ao branco jamais. Bastou passar a comprar camisetas básicas um tamanho maior, me adequando ao tamanho e peso que tenho hoje (e não o que desejo voltar a ter) para que o guarda-roupa caminhasse para deixar de ser monocromático.

Com meu filho de 5 anos entrando naquela fase de rejeitar coisas rosas “porque não é coisa de menino”, algumas peças da cor passaram a fazer parte das minhas opções em uma tentativa de mostrar para ele que ninguém vai ser mais ou menos homem por causa disso. 

Comprei alguns itens em brechós, passei a reparar mais o que acho bonito quando vejo um homem bem vestido por aí e, principalmente, me permiti experimentar algumas coisas novas. Literalmente. Pode ser um choque para muita gente, mas eu literalmente preferia comprar uma roupa direto da prateleira e “acabar logo com isso” só para não ter que entrar no provador e me olhar no espelho. Com um hábito desses, fica difícil sair do lugar comum e comprar algo além do que já se conhece.

Eu não sou o Rodolfo Kanematsu e nem pretendo ser um guru do estilo, mas se há uma dica de estilo que me permito dar é: esqueça frases como o "não tinha para homem onde você comprou isso aí?" ou o “eu sou assim mesmo”. Começa com a moda, mas se expande para inúmeros outros lugares da nossa relação conosco.

Se você não cuidar de si mesmo, quem é que vai cuidar?

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publicado em 10 de Dezembro de 2019, 15:56
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Ismael dos Anjos

Ismael dos Anjos é mineiro, jornalista e fotógrafo. Acredita que uma boa história, não importa o formato escolhido, tem o poder de fomentar diálogos, humanizar, provocar empatia, educar, inspirar e fazer das pessoas protagonistas de suas próprias narrativas. Siga-o no Instagram.


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