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Especial Rio 2016 - Uma candidatura passada a “limpo” - Parte I

A julgar pela “organização” que vi nos Jogos Panamericanos de 2007, sabia que a candidatura do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 era uma piada de mau gosto.

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A julgar pela “organização” que vi quando trabalhei na equipe médica dos Jogos Panamericanos de 2007, já sabia que, mantido aquele quadro de amadorismo e improviso, a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 era uma piada de mau gosto e um desrespeito ao contribuinte.

Recentemente assisti o documentário “Brasil Olímpico – Uma candidatura passada a limpo”, exibido na ESPN Brasil, e fui convencido de vez. O quadro é mais do que enojante, e tal obra-prima do jornalismo brasileiro merece ser vista. Farei aqui um resumo do jogo de politicagem, sujeira e descaso com o esporte e com o povo que é a candidatura do Rio.

Pequim 2008

A maior delegação de atletas já vista no Brasil, 277 no total, foi despachada para Pequim, somando um investimento total de 1,2 bilhão de reais, com o plano de superar o desempenho em Atenas, quatro anos antes. Porém, vários atletas e pessoas envolvidas com o esporte afirmam que um investimento desses, apenas no atleta de alto rendimento (aquele que vai ganhar a medalha), sem priorização da base e da estrutura, jamais trará resultado em apenas 4 anos.

Prova disso foi o desempenho brasileiro, mais medalhas do que em Atenas, porém menos medalhas de ouro. Como disse bem um atleta entrevistado, o investimento é de 1º mundo, e o planejamento de 5º mundo. Fosse adequado, estaria sendo programado para trazer resultados em 12 anos, pelo menos.

Comparativamente, o investimento no esporte de alto rendimento do Brasil é pequeno. Estima-se que 140 milhões de reais são investidos, perdendo de longe para:

Austrália - 460 milhões,
Japão - 510 milhões,
Reino Unido - 660 milhões,
China - 1 bilhão.

Um país como a Jamaica obteve 9 medalhas de ouro, todos no atletismo. Não é possível que o Brasil não tenha o potencial de gerar campeões olímpicos em profusão, provando que falta é a estrutura de base. O atletismo na Jamaica começa na escola, e os campeonatos mirins são super disputados. E assim surgem os Usain Bolts da vida.

Ketleyn Quadros, Boxe, Cesar Cielo

O caso da judoca, que foi a 1ª mulher medalhista em esporte individual, ilustra bem a situação. Sua medalha de bronze foi fruto de puro esforço individual. Para poder lutar, Ketleyn vendia tudo o que tinha, som, computador, bicicleta. Mudou-se de Brasília para Minas Gerais para poder treinar e ter o suporte do Minas Tênis Clube. Pagava seus exames para mudança de faixa do próprio bolso.

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Nossa Judoca medalhista em seu momento de glória, ainda que breve. fotos

Após a olimpíada, quando mais se esperava investimento e apoio, restou a frustração. Ketleyn continua sem apoio, recebendo R$1200 de ajuda de custo do Minas Tênis Clube. Não tem o bolsa-atleta, apenas a promessa do senhor Ministro dos Esportes. Sua penúria financeira é a mesma de antes. Mesmo assim, não pensa em desistir.

O boxe do Brasil não tem muita tradição olímpica, com apenas uma medalha, conquistada por Servílio de Oliveira (bronze em 1968). Em Pequim, 2 boxeadores brasileiros ficaram a uma luta da medalha. Também por méritos próprios. Washington Silva lutou mesmo com o ligamento cruzado anterior de um dos joelhos rompido. Pelo menos ele ainda recebe o bolsa-atleta (R$2500/mês).

O caso do outro boxeador, Paulinho Carvalho, é pior. Por não ter o bolsa-atleta, trabalha como faxineiro em uma empresa que lhe dá algum apoio. Os colegas de trabalho não acreditaram quando contou que foi à Pequim.

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Washington Silva e Paulo Carvalho. Esquecidos. fotos: divulgação

E mesmo nosso grande campeão olímpico César Cielo passou por isso.

Ele deixou claro com suas atitudes após a vitória, que aquilo era uma conquista pessoal. César é filho de um médico bem sucedido e de uma professora de Educação Física, e só assim teve o suporte e apoio financeiro para chegar onde chegou. Numa época que quase parou de nadar, ninguém lhe ofereceu apoio.

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Foi assim que ele chegou lá, por conta própria. fotos: divulgação

Segundo depoimento dos pais de César, este encontrava-se nos EUA, treinando, quando recebeu um telefonema do presidente da CBDA, solicitando sua presença em uma sessão de fotos no Brasil. César respondeu que não poderia comparecer, pois teria de disputar um torneio dali a dois dias, e o presidente foi enfático:

“Larga tudo e vem. Senão, você não recebe mais patrocínio da CBDA”.

Belo exemplo de gestão esportiva.

O legado do Pan 2007

Muito se falou no legado esportivo e social que o Pan deixaria para a cidade do Rio e o esporte brasileiro. E pelo visto ficou só na verborréia.

As construções do Pan, após os jogos, deveriam servir para impulsionar a atividade esportiva e também, já que saíram do bolso do contribuinte, cumprir sua função social usando o esporte. Vejamos aqui o que aconteceu com algumas delas.

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foto

Arena Multiuso: Uma arena moderníssima, situada no complexo do Autódromo de Jacarepaguá. Quando a Prefeitura percebeu que tratava-se de um elefante branco com manutenção cara, tratou logo de repassa-la à iniciativa privada.

Hoje, é a HSBC Arena, utilizada exclusivamente para shows, logo, privada. Nada de esporte.

Parque aquático Maria Lenk/Velódromo: São as outras construções que faziam parte do complexo do Autódromo. Estão bem conservados, mas esporte que é bom, nada.

O Maria Lenk foi protagonista de uma das maiores pixotadas administrativo-esportivas brasileiras. Sob alegação que o orçamento do Pan deveria atingir um padrão de Jogos Olímpicos, e não Panamericanos, o COB conseguiu alterá-lo. Após a construção, foi constatado (pasmem), que o Maria Lenk não tem capacidade para abrigar uma arena de esportes aquáticos para uma Olimpíada. E o arquiteto responsável pelo projeto não imagina como expandir o local.

Para se livrar do problema, a prefeitura repassou a administração ao COB, que logo nomeou o ex-nadador Ricardo Prado para administração. Vendo a fria que se meteu, Ricardo largou o projeto em tempo recorde.

Marina da Glória: Mais um exemplo de uma tremenda trapalhada. Seria a única obra privada do Pan, e o planejamento era construir um local para esportes como remo e iatismo, um complexo suntuoso, cujo projeto incluía uma construção de praticamente 5 andares. Após o começo das obras, atentaram para o seguinte detalhe: aquele é um local tombado, patrimônio público, e tal construção simplesmente não poderia ser feita nos moldes iniciais.

Ao invés de reavaliar o projeto, as obras simplesmente pararam. Hoje, várias estacas de concreto e alicerces povoam e poluem o lugar.

Engenhão:O Estádio Olímpico João Havelange, um dos mais modernos do mundo, já começou errado no projeto inicial. Um estádio para 40000 pessoas com apenas 10 banheiros e poucas portas de saída. Ah, mas felizmente isso foi corrigido! Pela bagatela de R$ 400.000.000, isso mesmo, milhões.

Para os moradores do Engenho de Dentro, bairro onde se situa, começava um pesadelo. Promessas sobre a melhoria do transporte jorravam aos baldes. Foi prometido também que os moradores teriam acesso a um suposto Centro Olímpico de Desenvolvimento de Talentos, anexo ao estádio. A realidade foi bem diferente.

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Um monumento do esporte, projetado e "enfiado" a fórceps.
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foto 2

Os moradores entrevistados são unânimes em afirmar que a violência aumentou. E um dos momentos mais comoventes do documentário foi a entrevista com um morador local, que teve sua casa desapropriada para a construção do estádio, em troca da promessa de indenização.

A indenização nunca aconteceu, ele perdeu sua casa e hoje mora de favor.

Com a alta manutenção, a prefeitura abriu uma concorrência para repassar o estádio a um clube de futebol do Rio, e o Botafogo venceu. Sendo o Botafogo um clube voltado para o futebol e tendo suas prioridades, era óbvio que a moderna pista de atletismo cairia em desuso.

O presidente do clube à época, Bebeto de Freitas, relata que em momento algum foi procurado para firmar alguma parceria ou convênio. As informações atuais são que a nova diretoria do Botafogo e a Confederação Brasileira de Atletismo fecharam a realização de 2 eventos esse ano.

Vila Militar: Mais por influência do Exército Brasileiro que qualquer outra coisa, é o único legado dos Jogos Panamericanos que tem alguma serventia para a população.

O complexo localizado no bairro de Deodoro, que abrigou as disputas de tiro, hóquei na grama e pentatlo moderno, graças a uma parceria entre o Exército e o Ministério dos Esportes, pode ser utlizado pela população. Porém, nem tudo são flores. Na construção do complexo, apuram-se denúncias de subcontratação, por parte da empreiteira vencedora da licitação.

Leia-se: ganharam o projeto, receberam a verba, e contrataram outra firma, a um preço menor, para fazer o serviço.

Moleza lucrar assim, não acham?

Aguardem a segunda parte do Especial Rio 2016, com nosso dossiê completo sobre a realidade dos bastidores dessa Olímpiada...


publicado em 09 de Março de 2009, 08:25
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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