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Ernest Hemingway | Homens que você deveria conhecer #49

Um dos principais escritores americanos e da literatura mundial, Hemingway era extremamente humano e teve uma vida fascinante

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De vez em quando surgem gênios criativos que modificam e influenciam o pensamento a partir dos seus. Foi assim com Kandinsky na pintura, com Ford na indústria automobilística, com Einstein na Física, com Jobs na Tecnologia. Não foi diferente com Ernest Hemingway: o cara mudou simplesmente toda a maneira como se escreve. 

Já pensou naqueles parágrafos-padrão com períodos curtos que todos amam? No discurso indireto, minimalista e quase sem advérbios? Pois é, vieram dele.

Não é exagero dizer que Hemingway foi uma das grandes estrelas da literatura americana do século 20. Há quem diga que foi o mais proeminente escritor pós-Shakespeare. Suas ideias deixaram legado gigantesco e influenciam a produção literária mesmo nos dias de hoje. Ele ficou conhecido por sua imagem de herói, de aventureiro, e pelo seu estereótipo de Macho (com M), fama que ele fazia questão de cultivar e que o fez virar ídolo de grande parte dos homens até o início dos anos 1960. Depois disso, o cara virou lenda – no bom sentido da palavra, é claro.

Todo mundo sabe da importância de Hemingway para a literatura mundial. Meu interesse aqui, por outro lado, é explorar o lado gauche do escritor, porque mais interessante que ler seus livros é saber o que os influenciou.

A vida pública de Hemingway era intensa, seu interior complexo. Ambos tão bem documentados que fica fácil se perder em meio a tanta informação. Por isso, juntar as peças e ter uma visão do que tinha dentro da mente do escritor é tarefa difícil. Michael Reynalds, um de seus biógrafos, chegou a dizer que “se alguém ficar muito fixado em Hemingway, perderá a habilidade de entendê-lo, pois ele é tão profundo que se alguém cair nele pode nunca mais voltar”.

A Infância de uma Lenda

Hemingway nasceu em 1899, na então cidade de Cicero, região onde hoje fica a cidade de Oak Park, Illinois, nos EUA. Cresceu na classe média alta, tendo o pai como alicerce. De sua mãe, uma cantora, herdou a paixão pelas palavras, pela Arte. Seu pai, um médico, foi a grande inspiração de sua vida, parceiro por quem ele tinha admiração. Foi o pai que o ensinou a caçar e a pescar, incitando nele grande vocação para atividades ao ar livre. A figura paterna o fez gostar da natureza e da aventura, a ter forte simpatia pelo perigo. Esses itens formaram a pedra angular de tudo o que ele viria a viver e escrever.

Mas nem tudo eram flores na casa dos Hemingway. Seus pais eram frágeis emocionalmente, a mãe o vestia de menina, era uma pessoa de personalidade difícil. Como o próprio escritor viria a falar, ela era dominadora e gostava de centralizar a vida da família em torno de si. Já o pai sofria de transtorno bipolar, afastando-se de todos de tempos em tempos, quando acampava em florestas por semanas. A vida dentro de casa não era fácil, o que culminou no suicídio do pai. Hemingway culparia a mãe por isso.

Os pais legaram a Ernest forte tendência aos distúrbios psiquiátricos e alcoolismo, fazendo com que ele procurasse um jeito de sair de casa tão cedo quanto possível.

O jovem Hemingway

Logo depois que saiu do colégio, aos 17, seu avô lhe arranjou um bico como aspirante a repórter no Kansas City Star, emprego no qual ficou por apenas seis meses. O início em um jornal fala muito do que Hemingway foi. A objetividade de um jornalista está sempre presente em seus livros. A precisão descritiva com a qual ele trabalha foi fundamental para consolidá-lo como estrela no hall dos grandes na literatura.

Saiu do Kansas City Star para tentar entrar para as Forças Armadas Americanas. Impossibilitado de se alistar e lutar na Primeira Guerra por causa de problemas de visão, ele então se voluntariou para ser motorista de ambulância na Cruz Vermelha italiana. Ele queria de qualquer jeito estar na guerra e sofreu na pele o resultado: ficou severamente machucado por um morteiro de trincheira, tendo de ser internado num hospital em Milão, onde ficou por mais de um ano. Foi ali que conheceu seu primeiro e grande amor, uma enfermeira, e teve sua primeira desilusão amorosa ao ser trocado por um Oficial italiano. Adeus às Armas, sucesso de vendas que o lançou como fenômeno, foi escrito tomando sua experiência na Guerra e esse rápido romance como base. No livro, Catherine Barkley é a cópia da enfermeira por quem Hemingway se apaixonou.

É aí que está toda a genialidade de escritor. Ele usava as próprias experiências para tecer seus livros e compartilhar seus próprios segredos. Os personagens eram tão bem feitos e complexos porque eram baseados na realidade. Além disso, o cara rejeitava a rotina, buscava a aventura pelo simples prazer de se aventurar (voluntariar-se na guerra é bom exemplo disso), sem esperar que dela surgisse um livro maravilhoso ou um conto para jornais.

O Hemingway de 20 anos já era um veterano de guerra, aos 30 já era mundialmente famoso.

Os casamentos

Hemingway se casou quatro vezes. Depois de levar um pé na bunda da enfermeira, já em solo americano, ele conheceu a mulher que seria a primeira de suas quatro esposas, Hadley Richardson, com quem se casou em 1921. Mudou-se para Paris, trabalhando como correspondente na Europa para o Toronto Star. O casal vivia com o pouco dinheiro que os textos rendiam. O dinheiro era pouco, mas isso não os impediu de seguir os impulsos do wanderlust de Hemingway.

Em cada viagem o escritor se apaixonava por algo diferente, adicionava aventuras distintas à sua coleção de hobbies. Numa das viagens, eles foram parar na Espanha, onde o escritor descobriu e se apaixonou instantaneamente pelas touradas; noutra ele se viu amando safáris na África... Era assim. Ele punha tudo de si em cada experiência.

Hemingway era um exímio autodidata. Ele aprendia coisas em velocidade absurda. Isso se aplica desde fazer drinks nos bares da Europa a pescar em águas profundas na flórida. Ele simplesmente entendia as coisas, ia lá e fazia. Ia de aprendiz a mestre sem ter quase nenhum trabalho.

Mas ele não conseguiu aprender a ser marido. Hemingway não era lá uma pessoa fácil para se ter dentro de casa. Quer seja pela própria vivência na casa dos pais ou pela tendência a se apaixonar fora do casamento, o casamento com Hadley durou pouco, até 1927. Era difícil acompanhar o espírito selvagem de escritor.

Sua vida amorosa nunca foi das melhores. Isso talvez se deva à relação conturbadíssima com a própria mãe, a quem chamava de vadia, “uma megera dominadora” a quem atribuía a culpa do pai ter cometido suicídio. A Breve e Feliz Vida de Francis Macomber e As Neves do Kilimanjaro são centrados em mulheres e passam um pouco de seu descontentamento com o gênero feminino. No fundo, a relação com a mãe e o coração partido por seu grande amor, a enfermeira do hospital de Milão – que o trocou por outro na cara dura – influenciaram sua vida até o dia de sua morte.

A relação com Hadley começou a se deteriorar quando o autor escreveu seu primeiro romance. A esposa descobriu que ele estava tendo um affair com a jornalista de moda americana Pauline Pfeiffer, que seria sua segunda esposa. Logo depois que teve um filho do segundo casamento, Hemingway descobriu que seu pai cometera suicídio. Isso foi um choque para ele. Começou a ter premonições de que sua vida também acabaria em suicídio. De fato, a família Hemingway tem fraqueza por tirar a própria vida: como ele mesmo veria mais tarde, três irmãos, o avô e um filho acabariam tirando suas próprias vidas.

O casamento com Pauline não impediu que ele viajasse em busca de mais aventura. Foi procurando por isso que ele conheceu Cuba pela primeira vez, em 1930. Apaixonou-se pela ilha e também por outra jornalista, Martha Gellhorn, o motivo de seu segundo divórcio e terceiro casamento. Casado com Martha, ele retornou à ilha anualmente e sempre deixou claro seu encanto pelo país.

Em 1939 ele resolve se mudar de vez para Cuba, onde viveu por mais de 20 anos. Em 1946 apaixona-se novamente por uma jornalista, Mary Welsh com quem se casaria pela quarta e última vez. Escreveu Por Quem os Sinos Dobram nessa época.

A Velhice de Hemingway

A máscara de durão que Hemingway tão bem construiu durante a vida não era de todo mentirosa. Ele realmente vivia de adrenalina. O machão, bom de briga, marrento, atlético, foi parte de sua existência. Mas sob a máscara havia todo o resto de sua essência: uma pessoa doce de fazia questão de sentir o mundo à sua maneira e de transmitir sua visão pelas palavras.

Nesse sentido, à medida que se vai aprofundando na mente de Ernest Hemingway, é possível se perceber porque ele trabalhou tanto para construir em volta de si uma imagem de Macho Poderoso. Não era mais que uma defesa para sua luta interna. Hemingway era, e gostava de ser, seu melhor personagem; e como tal, ele afastava de si seus problemas. Por isso ele vivia arriscando a vida seja caçando, toureando, mergulhando em águas profundas, ou qualquer outra coisa que trouxesse adrenalina a suas veias. O cara era uma tempestade ambulante e trazia sua força para os livros. É isso que o torna tão especial como autor.

Não foi diferente em sua velhice. À medida que seus problemas psiquiátricos iam crescendo, ele se aproximava do alcoolismo. Já em 1955, o escritor estava restrito à cama e já não podia velejar pelo caribe como fazia antes. Nos últimos anos de sua vida, aqueles mecanismos de defesa já não funcionavam tão bem. Já não era possível aventurar-se como antes, haja vista de sua limitação física comum da idade. Isso culminou em seu suicídio em 1961, aos 61 anos.

Desde a morte do pai, a ideia de suicídio perturbou a mente de Hemingway. Sua mãe fazia questão de atormentá-lo com isso. Chegou a enviar por correio a arma com a qual o pai tirara a própria vida. Desde então, o assunto é frequente em seus livros, refletindo a frequência em sua mente. A tragédia era fim comum dos personagens do autor, que passou a vida brincando com a morte.

Em dois de julho de 1961, preso dentro de si com todos os fantasmas de quem viu guerras e violência, Hemingway atirou contra a própria cabeça, encerrando sua genialidade.

O legado de um Gênio

Ernest Hemingway deixou para trás considerável quantidade de livros e contos. Mais que isso, deixou um estilo de vida icônico que serviria de base para tantas e tantas revoltas de contracultura na segunda metade do século passado. 

Sua personalidade e sua busca constante por aventura brilhou tanto quando seu talento como escritor.


publicado em 29 de Junho de 2015, 00:00
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Herbert Santana

Estudante do quinto ano de Medicina. Respira arte e come filosofia no café da manhã. É apaixonado pela boa música e encontrou na fotografia seu hobby. Pode ser encontrado em seu Facebook ou Instagram.


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