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Emoção Vicária, Empatia e Compaixão | WTF #36

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Podemos nos engajar com os outros seres e o mundo externo de três formas convencionais e de três formas extraordinárias. As convencionais são: indiferença, aversão e interesse. Negligenciamos (não nos interessamos) ou nos envolvemos em estratégias para suprimir ou conquistar o que nos incomoda ou atrai. Essas formas dizem respeito a uma visão da realidade que projeta o mundo externo e os seres como bastante independentes ou separados de nós mesmos. Queremos evitar ou obter algo que não temos, ou simplesmente não estamos nem aí.

Quando começamos a construir uma noção do outro e do ambiente que realmente diz respeito a como efetivamente somos e as coisas de fato são, e não a impulsos momentâneos, tendências habituais e enganos adventícios sobre a natureza das coisas, finalmente passamos a desenvolver o primeiro nível de visão além da separação, que é a emoção vicária.

Algumas pessoas veem a videocassetada em que a senhora idosa cai sobre o bolo e riem. Outras sentem uma dor no coração com a mesma cena. Mas todos os indivíduos dotados de relativa sanidade mental são capazes de vivenciar emoções que outra pessoa vivencia, algumas vezes apenas por ouvir um relato. Por exemplo:

"Os desastres da guerra, nº 33", Francisco de Goya
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A emoção vicária é uma das explicações, em termos de visão de seleção adaptativa darwinista, para a existência da ficção. Contamos histórias porque somos capazes de nos colocar na posição de outras pessoas -- que, às vezes, nem mesmo existem -- e vivenciar as emoções de acordo com paisagens construídas. Esse tipo de flexibilidade mental produz vantagens adaptativas, isto é, possivelmente aprendemos a lidar com nossas próprias emoções ao tratar, vez após vez, com problemas que não são nossos -- pelo menos não naquele momento -- ou daquela exata forma.

O jargão psiquiátrico que separa alguém capaz de sentir apenas emoção vicária de alguém com empatia por meio de, por exemplo, um diagnóstico de psicopatia. O psicopata é um manipulador que consegue entender as emoções dos outros, tanto é assim que consegue usá-las em seu proveito (mas que não se importa verdadeiramente). Um autista seria incapaz de sentir emoção vicária, que é um problema cognitivo, mas não necessariamente incapaz de empatia. Se ele soubesse interpretar o que o outro está sentindo -- expressões faciais, sinalizações linguísticas sutis etc --, ele se importaria.

Sendo assim, separadas, é fácil entender que a emoção vicária, por si só, desacompanhada de empatia, pode se tornar subalterna das três formas convencionais de encarar o outro: aversão, indiferença e interesse.

Ora, somos capazes de operar do ponto de vista do outro (em jargão técnico, desenvolvemos uma teoria da mente), mas até aí, apenas isso, sem uma reflexão dessa própria flexibilidade da mente se colocar fora de sua própria perspectiva, faz com que ela simplesmente espelhe as formas convencionais. Em outras palavras, tudo que vemos são estratégias ligadas a vários interesses -- em suas várias gradações, até o desinteresse -- e o “interesse negativo”, que é o impulso de eliminar algo que aparentemente atrapalha. Nada fora desse eixo parece possível.

Assim funcionam nações, que olham outras com os três olhos contaminados (as que interessam surgem como ameaças ou colônias), companhias que exploram os recursos do planeta e nós mesmos, quando alguém nos fecha no trânsito, por exemplo.

Algumas vezes a emoção vicária até intensifica nossa irritação, porque projetamos na mente do outro uma safadeza ou motivação daninha que pode nem existir. Afinal de contas, “naquele caso”, o motorista não estava tentando ferrá-lo ou, em vez de uma distração frívola, ele efetivamente teve um lapso cognitivo que, se você estivesse ciente de todas as circunstâncias, até compreenderia, mas, por seus próprios hábitos e preconceitos, por seu próprio momento emocional, naquele dia, você tende a vê-lo como o próprio Satanás atrás do volante!

Não basta se aborrecer, você tem todo um cenário montado para justificar sua irritação: e isso também é emoção vicária.

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O nível da empatia reconhece, no entanto, que todos os outros elementos conscientes operam também com algum grau de emoção vicária, com níveis rudimentares de teoria da mente da parte deles com relação, em contrapartida, a sua mente.

Assim surge uma meta-teoria-da-mente: sabemos que o outro também é capaz de estratégia, porque ele também é capaz de se colocar, em certa medida, em nossa posição. Com isso, há o potencial de surgir um nível basal de concordância em termos de coexistência, e essa é uma inteligência que nos toca muito diretamente, assim como somos todos capazes de sentir como se ocorresse em nós mesmos, a dor infligida em outro, somos capazes de reconhecer essa natureza mais inteligente como ao menos um potencial.

A patologia do torpor perante a experiência de sofrimento do outro está no limiar entre a ética e a “aberração da natureza”, a monstruosidade, o “mal” – o pathos que vai da doença à desumanização. Nossa tendência, com relação ao psicopata, espelha a exata mesma falta de empatia que ele possui: se ele é incapaz de projetar uma teoria de mente que inclui meu sofrimento como preocupação dele, ele mesmo perde, convencionalmente, na minha perspectiva, a propriedade de ser tratado como um mero doente: se ele comete um crime, minha tendência não é vê-lo como uma vítima de circunstâncias internas ou externas, físicas ou sutis, mas como um monstro.

Mas ele também é capaz de teoria da mente e emoção vicária. Seu torpor (biológico? deliberado?) perante a empatia diz respeito a falta de uma dimensão autorreflexiva e aninhada da “teoria da mente da teoria da mente” e, em certo sentido, os fins convencionais estão solidamente distorcidos como mais importantes do que os seres envolvidos: o foco são os fins – os meios que se ferrem, mesmo que eles sejam você mesmo (e o próprio psicopata!).

Daku Angulimala, o assassino cruel (para saber mais, basta clicar na imagem)
Daku Angulimala, o assassino cruel (para saber mais, basta clicar na imagem)

Claramente podemos entender que todos nós temos certo grau de torpor perante a empatia, certas imperfeições em nossa capacidade cognitiva para as emoções vicárias, e nos envolvemos frequentemente no que é convencional. Também é fácil de entender que a dimensão das emoções vicárias e da empatia estão ligadas ao nosso florescimento individual, passíveis de desenvolvimento, treinamento.

O que seria um nível “olímpico” de empatia? Diferenciado de nossa atividade física basal ou nosso hobbie como músico? Um virtuoso da empatia, como um atleta de primeira linha?

A empatia que se torna natural, absoluta e invariável, podemos chamar de compaixão. Ela diz respeito ao abandono de todos os preconceitos que produzem noções de separação e julgamentos que dizem respeito a uma confusão entre teorias da mente potenciais e atuais. Explico: cada uma de nossas projeções sobre como a mente de outra pessoa está operando ou pode operar está vinculada à nossa própria liberdade perante os olhos convencionais de interesse, indiferença e aversão. Assim, tingimos de certa cor e expectativa nossa interpretação das motivações do outro, e ela se torna pelo menos tão imperfeita como nossa própria percepção.

Caso estejamos suficientemente livres desses medos e expectativas perante o outro, e ainda assim, totalmente engajados com ele, a teoria da mente que espelhamos é dupla: em um nível, reconhecemos alguma possível imperfeição e, em outro, vemos o potencial pleno da mente operar livre das formas convencionais, isto é, sua capacidade de não se envolver com os outros por interesse.

A combinação entre reconhecer o potencial pleno (nosso, do outro, inseparável) e a imperfeição adventícia (também coemergente, impartível) é que dá luz à compaixão.

Ela diz respeito a um total abandono das formas convencionais e um total desenvolvimento da capacidade empática, de forma que a imperfeição é reconhecida e dissolvida na lucidez que caracteriza a si própria como estando de acordo com a realidade e além das tendências adventícias e propensões momentâneas.

Krishna
Krishna

publicado em 18 de Março de 2014, 07:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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