Ele broxou e depois sumiu | ID #72

Das razões porque os homens somem.

"Estava com uma pessoa (homem de 45 anos) em um relacionamento sem sexo e só amassos gostosos, tesão intenso. Quando eu resolvi partir para cima, ele broxou não só uma vez nesses encontros, mas várias.

Sentia que ele tinha um tesão enorme e também gostava do meu fogo, que não é pouco, mas sempre na hora H ele não conseguia manter a ereção.

Depois de inúmeras tentativas, ele foi se afastando cada vez mais e mais, será que o problema foi comigo? Ele nunca disse o motivo do afastamento, ele só disse que precisa resolver algo muuuuito sério, por isso que se afastou. Sou louca por ele e sinto que ele também. O que devo fazer? To perdida!

Cris"

Querida Cris,

Não dá pra ter certeza, mas aparentemente agora você não tem muito o que fazer, a não ser se conformar com o fato de que mesmo com todo o tesão recíproco nem sempre um relacionamento se mantém.

Ainda assim, quero dar algumas posições sobre a hipótese que me salta aos olhos, lendo o relato, a forma como ele administrou a impotência sexual dele.

Falocentrismo perverso

Uma coisa que nós homens inventamos (não se sabe onde e quando), mas que seguimos sustentando sem nem pensar no assunto é colocar nosso pinto no centro do nosso universo de experiências sexuais. Claro, pode ser óbvio, é dali que sai a ejaculação e onde sentimos uma grande quantidade de excitação. Mas deixamos de explorar outras possibilidades. O beijo, por exemplo, é algo muito excitante. A boca tem muitas terminações nervosas e não podemos esquecer que nosso corpo é uma grande teia de possibilidades excitatórias.

Imagine a vida sexual de um homem que precisasse, por razões médicas, ficar um ano sem usar o pênis. Talvez, jamais passasse a possibilidade de encontrar caminhos alternativos que o excitassem e trouxessem ampla soma de alegrias sexuais. É possível que suicídio fosse uma das hipóteses na mente dele muito antes de pensar em explorar possibilidades.

Essa prisão sexual é um tiro no pé – ou no pau – pois toda a importância que se dá ao pinto gera a mesma pressão que nos leva a broxar. É um ciclo de ansiedade, como já falei em outros textos. É possível, cara Cris, que o seu querido quarentão tenha sucumbido ao falocentrismo perverso, pois, emocionalmente impotente diante de sua impotência psicossexual, ele decidiu "resolver o problema". Ou seja, tirar aquilo que confrontava a sua inabilidade pessoal. Tirar a mulher da frente.

Contrafobia de intimidade

Tem gente que usa toda bruxaria disponível pra desaparecer

É curioso o caminho que tomamos para lidar com nossas fragilidades emocionais.

Atacamos ou fugimos. 

Raramente seguimos e atravessamos a dor.

No caso da impotência, sabemos bem como atacar. Colocamos a culpa na guria, um cheiro ocasional desagardável, uma dobra ali e pronto, a desculpa está arquitetada para não olharmos para nenhuma das nossas limitações.

Fugir também é nossa especialidade. Fingimos demência, ignoramos mensagens, simulamos trabalho excessivo, agenda lotada, mil problemas familiares e pessoais que nem sequer nos importam para não termos de admitir: estamos paralisados diante do medo.

O comportamento evitativo de intimidade é muito comum. Tanto que é quase uma epidemia masculina. O nosso pânico de perder uma individualidade que nem temos clareza qual é nos afasta de qualquer chance de um relacionamento significativo. E não é que nada tenha significado. Nós travamos mesmo na negociação de nosso tempo, espaço e mundo íntimo. Morremos de medo de perder o controle.

Então, temos comportamentos contrafóbicos, agimos no exato oposto do que queremos. Seguimos a direção do vento loucamente, como se não houvesse amanhã. A ilusão do hedonismo desenfreado parece abafar nossos temores sobre emoções ambíguas, difíceis e frágeis.

Como seria atravessar a dor sem fugir ou lutar?

Literalmente, atravessar a dor, como quem avança sobre a tempestade de areia de um deserto. Ela entra no olho, nos cega, deixa confussos, aborrecidos, cansados, desorientados, mas seguimos andando, resilientes, sentindo cada minuto de uma sofisticada tortura chinesa emocional (autoimposta).

Com o tempo, nos acostumamos com a areia na virilha e na axila, brincamos com aquilo. Sublimamos instintos mais primitivos, reorientamos nossa confusão, falamos sobre o assunto, compartilhamos as dificuldades, enfim, viramos adultos.

Quanto mais treinamos esse músculo, melhores ficamos. Enquanto respiramos e atravessamos a dor, é provavel que nossa performance global perca fôlego, mas o ganho final é melhor. É como um treino avançado do MMA, nos tornamos atletas completos, sem medo de nós mesmos, de nossos demônios e… de nossa impotência.

Ser homem, apesar de broxar

É possível ser homem sem um pau duro? Não para quem coloca todo o peso de si mesmo no meio das pernas.

Uma mulher pode aceitar essa falência completa por muito tempo? Não, se nós não aceitarmos.

Se aceitarmos, é uma garantia que ela vai bancar junto? Não, mas muitas mulheres têm excitação pela personalidade como um todo de um homem que enfrenta o que há de obscuro em si mesmo, mesmo com medo.

Encarar essa incerteza do sucesso e tentar, mesmo no escuro, é justamente uma demonstração da sua capacidade de atravessar a dor.

Cris, você me parece que toparia seguir brincando sexualmente com esse cara e curtindo o tipo de excitação que viveriam. Não dá pra saber, mas mesmo que não fosse, existem muitas mulheres que seriam. Então se, algum dia, o caminho de vocês cruzar e ele puder perceber nos seus olhos a serenidade de alguém que pode amá-lo e desejá-lo, poderá acontecer um paradoxo: ao abandonar a pressão sobre o pau, o sexo volte a fluir e funcionar.

É quando podemos abrir mão de uma coisa que vivemos a experiência por completo. Sorte por aí, Cris.

* * *

Daqui a 15 dias, o próximo tema vai ser: "Gosto de novinhas".

* * *

Nota da edição: a coluna ID é publicada de duas em duas semanas, às quinta. Não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível. 

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie paraid@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 05 de Julho de 2018, 13:09
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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