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Edgar Allan Poe | Homens que você deveria conhecer #55

Visionário, rebelde e autodestrutivo: em pleno século XIX, o autor de “O Corvo” era um legítimo rockstar

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Olhe bem para o retrato aí em cima. Mesmo que você jamais tenha lido algo de Edgar Allan Poe, é muito provável que os cabelos desalinhados, a testa imensa, o olhar melancólico e o sorriso cínico já causem uma certa estranheza.

Não é por acaso. Acredite. O retrato de Poe é também o de sua vida. Sua curta e tumultuada vida, que começa em 19 de janeiro de 1809, em Boston, e se encerra em 07 de outubro de 1849, em Baltimore. O retrato de um rosto esculpido pela genialidade e pela inteligência, mas também vincado pelo desequilíbrio, pelo álcool e por substâncias menos amistosas. Uma rápida espiada na biografia comprova: se houvesse nascido em nossos tempos (e guardadas as devidas proporções), teria sido um legítimo astro do rock.

Senão, vejamos: Poe conheceu alguma fama, abusou das noitadas, colecionou desafetos, emplacou hits (“O Corvo” talvez o maior), causou furor no público feminino e possivelmente morreu de overdose. Só faltou fazer fortuna e perecer aos 27. Ainda assim, foi um homem e tanto. E que merece muito mais do que uma rápida espiada.

Born to be Wild

Logo ao nascer, Edgar é tocado pela tragédia. Segundo filho (tinha um irmão mais velho e uma irmã mais nova) dos atores David Poe e Elizabeth Arnold, sequer conhece direito os pais. David abandona a família após seu nascimento e Elizabeth falece antes que ele complete três anos. A criança, então, é adotada por um abastado casal de Richmond, John Allan e Frances Kielling Allan.

Suposta imagem de Poe com 10 anos ao lado de sua mãe adotiva Frances.

Com a adoção, a primeira infância é marcada pelo conforto. O pai adotivo é um próspero mercador de tabaco, o que permite que Edgar receba educação de primeira linha e que viaje um bocado – as visitas à Europa o marcam profundamente.

Mas não demora para que Poe demonstre um temperamento explosivo. Desde pequeno, revela-se incapaz de recusar uma boa briga, acumulando repreensões e sendo expulso de escolas em que estuda. O enfant logo se torna terrible.

Children of the Grave

Por outro lado, o jovem Poe também já apresenta inteligência acima da média. Dono de uma habilidade argumentativa quase imbatível, destaca-se entre os colegas da Universidade de Charlottesville, na qual ingressa em 1824. Mas os exageros também são notáveis. Jogando e bebendo sem controle, o estudante logo é convidado a se retirar da instituição.

Em casa, a relação com o pai adotivo tampouco vai bem. Para desgosto de John Allan, Edgar não liga para os negócios – não eram raras as vezes em que o mercador encontrava poemas rabiscados nos versos de sua papelada de trabalho. A perspectiva de ter um filho poeta (ou músico, hoje) arrepiava os homens práticos de então.

Os dois vivem em guerra, e a expulsão de Poe da universidade elimina qualquer chance de trégua. Em uma noite do verão de 1825, discutem mais uma vez e o filho resolve sair de casa.

Like a Rolling Stone

Os anos seguintes formam um período um tanto obscuro da vida de Poe, do qual só se sabe de frequentes viagens para fora do Estados Unidos. Na ocasião, ele já escreve poesia a sério (e não apenas para azucrinar o pai) e publica Tamerlane and other poems, sua primeira antologia, em 1827.

Em 1829, resolve seguir carreira militar. Um ano depois é admitido na prestigiada Academia de West Point. Mas a história se repete: ainda que um estudante muito acima da média, Poe é relapso com seus deveres. Acaba expulso mais uma vez. Na mesma época, é publicada a sua segunda antologia poética, Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems. A terceira, Poems, vem a seguir, em 1831, quando o autor vai morar com a tia Maria Clemm, em Baltimore.

A casa em que Poe morava.

Mas o temperamento não se atenua. Pelo contrário: obcecado pela contravenção, Poe coleciona problemas e desafetos. Para piorar, as complicações pessoais se acumulam. Frances, a mãe adotiva (de quem gostava sinceramente), vem a falecer, e John se casa com uma mulher mais jovem, que lhe dá dois filhos. Assim sendo, Poe fica impedido de se tornar herdeiro da fortuna paterna. Decide então se afastar de vez da família, partindo do estado natal.

Bridge Over Troubled Water

Enfrenta não poucos meses de penúria até que decide participar de concursos literários. Acaba por vencer o da revista Baltimore Saturday Visitor com a narrativa curta Manuscrito encontrado em uma garrafa. Na mesma época, também conquista prêmios nas categorias de poesia e conto do periódico Southern Literary Messenger, o que inaugura um período de breve prosperidade.

Thomas Willis White, o fundador da revista, logo nota o talento de Poe e o convida a editá-la. A partir daí, o autor fica livre para expressar suas ideias e opiniões estéticas. Escritor maduro, dedica-se a ensaiar e refinar a técnica nos contos, poemas e críticas literárias que produz. A revista se impõe como referência, e Poe conquista certa fama na intelligentsia local.

A relativa estabilidade profissional também se estende à vida pessoal. Ainda morando com a tia, ele acaba por se afeiçoar pela filha dela – sua prima –, Virginia Clemm, de apenas 13 anos. Os dois se casam em 1836.

Ele arrasava com as mulheres.

Freebird

Mas a calmaria não dura muito mais. O ano de 1838 encontra Poe novamente instável, rumo ao abismo alcoólico. A boa relação que tinha com o patrão acaba por se azedar, e o inevitável acontece: é demitido do Southern Literary Messenger.

À deriva, decide mais uma vez mudar de ares e parte, com Virginia, para Nova Iorque. Lá é publicado, em 1838, seu texto mais longo: A narrativa de Arthur Gordon Pym, novela de aventura náutica repleta de peripécias e elementos fantásticos.

Seguem-se mais alguns anos de relativa tranquilidade, durante os quais Poe produz para valer. Vêm dessa época as obras que o futuramente o levarão ao Olimpo literário, como os Tales of the Grotesque and the Arabesque (aqui conhecidos como as Histórias Extraordinárias e que incluem A Queda da Casa de Usher, Ligéia, O Gato Preto, William Wilson e tantos outros), de 1840, Assassinatos da rua Morgue (considerada a primeira história genuinamente detetivesca da literatura), de 1841, O Corvo e outros poemas, de 1845, entre outras.

Apesar do reconhecimento, Poe segue esbarrando nas dificuldades arquitetadas pelo próprio gênio. Continua incapaz de proporcionar, a si e à mulher, uma vida minimamente digna. Isso agrava o já frágil estado de saúde de Virginia. Pouco depois, em 1847, ela vem a falecer.

Highway to Hell

A partir, daí a ruína é total. Se antes Poe caminhava para a própria extinção, agora corre a passos largos. Bebe cada vez mais, comporta-se de forma violenta e sofre seguidos ataques de delirium tremens. Até que, no outono de 1849, após um tour literário que promove para levantar fundos, entra em uma taberna de Baltimore. E lá consome suas últimas horas em bebedeira selvagem.

Existem controvérsias sobre as causas da morte. Há quem diga que foi o alcoolismo, há quem acuse assassinato (não eram poucos os adversários) e há quem acredite nas mais diversas doenças. O fato é que, naquela última noite, já avançada, Poe sai inconsciente da taberna a perambular sem rumo pelas ruas.

De acordo com registros esparsos e pouco confiáveis, é encontrado pouco antes do amanhecer. Está inconsciente e veste roupas que não são suas. Levam-no ao hospital Washington College, mas não há o que fazer. É declarado morto e enterrado sem qualquer cerimônia em uma vala comum do cemitério local. Tinha quarenta anos.

Mais de 30 anos depois, em 2009, refizeram o enterro de Poe (em outro cemitério de Baltimore) com todas as pompas que achavam justo e até colocaram na lápide um trecho de O Corvo.

Shine on You Crazy Diamond

Como se vê, não é à toa que Poe permaneça até hoje. Ao absorver a tragédia – a própria e a alheia – para nos devolver relatos que invariavelmente causam estranheza e fascínio, coloca-se ao lado de Guy de Maupassant, Téophile Gautier, Ambrose Bierce e tantos outros atentos observadores das minúcias secretas do cotidiano do século XIX.

A diferença é que, em Poe, a composição literária se dá com rigor inédito. Embora de comportamento incorrigível, Poe considera sagrada a disciplina ao criar. Nesse sentido, é irredutível, draconiano até – basta conhecer as ideias expostas em textos como A Filosofia da Composição, O Princípio Poético e Marginalia.

Crítico implacável, poeta exigente e contista inventivo, Poe pratica o que prega. Os movimentos de sua pena não parecem ser senão os de um espírito atormentado, os rodopios de uma alma insatisfeita. Os rompantes de seu texto nada são senão as sinuosidades de seu temperamento. Não surpreende que responda por um estilo até hoje cultuado, que vai das exclamações às reticências, como o esgrimista que ataca e se defende na hora exata.

É por esta capacidade de escrever com a própria vida que Poe se tornou, também, o grande personagem de si próprio. Antes de Roderick Usher, de Arthur Gordon Pym ou de William e Wilson, foi Poe, e ninguém mais, a principal vítima de neuroses transmutadas em atrocidades, o acossado pelas sombras, o perseguido e o perseguidor, o obcecado por aquilo que oculta o espesso véu do cotidiano.

Melhor para nós que, em meio a tanto tumulto, Poe ainda tivesse tempo para empunhar não o microfone, mas a pena. E que, inacreditavelmente lúcido, conseguisse gravar (no papel) a perene marca do gênio.

Depois de morto, Poe ganhou uma estátua na rua de Boston, sua cidade natal.

***

A 'Homens que você deveria conhecer' é uma série colaborativa do PapodeHomem. A ideia por trás dessa coletânea que já tem mais de 50 textos é montar um conjunto representativo de homens vivos ou mortos que são dignos de notoriedade e que podem, através de suas histórias de vida, nos ensinar algo de positivo.

Para que essa série se torne cada vez mais representativa dos bons exemplos que nossa comunidade - autores e leitores - cultiva, dependemos da sua colaboração e estamos abertos para recebê-las. Através do meu emailbreno@papodehomem.com.br estamos recebendo sugestões e artigos de pessoas que você gostaria que conhecessem.

Para acertar a mão e emplacar um texto na série basta se atentar a algumas instruções: (1) os artigos são quase biográficos por isso eles podem obedecer a uma ordem cronológica dos fatos, mas (2) eles devem conter detalhes pouco conhecidos sobre a vida do personagem que justifique sua escolha. Além disso, (3) é importante que o texto não foque apenas no aspecto profissional da vida do personagem, queremos 'Homens que você deveria conhecer', não apenas empresários, engenheiros, artistas etc. Por último, (4) você pode visitar os outros 50 artigos da coleção para ter inspiração. Os outros parâmetros mais subjetivos, batemos individualmente por email quando você tomar tempo e coragem pra nos recomendar alguém. Até lá.


publicado em 20 de Julho de 2016, 00:10
Oscar nestarez

Oscar Nestarez

Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, Oscar é autor de livros e ensaios de horror e, naturalmente, devoto de Edgar Allan Poe. Suas obras (e ele) podem ser encontradas no Facebook.


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