Disciplina é um desejo profundo de encontrar a própria liberdade

Um trecho do livro Buda Rebelde, de Dzogchen Ponlop Rinpoche, apresentando outro conceito de disciplina.

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Quando falamos em disciplina, não estamos falando em transformar uma criança malcriada em uma criança boazinha.

Não significa flagelar a própria mente com uma vareta ou chicoteá-la até que ela se submeta a nós. Também não é um complô para deixar a sua vida sem graça. Assim como a palavra “emoção”, a palavra “disciplina”, no sentido budista, tem vários sentidos que não estão aparentes no uso comum do português.

Em primeiro lugar, o termo carrega um sentido de “refrescar”. É como passar um dia muito quente de verão na rua e, bem na hora que começamos a nos sentir mal por causa do calor, encontrarmos alívio sob a sombra de uma árvore.

Sentimo-nos muito felizes por estar sentados à sombra, e logo começamos a nos sentir mais calmos e em paz. Esse é um exemplo do resultado de praticar a disciplina: alívio frente ao intenso incômodo que sentimos na prisão de nossos padrões habituais comuns.

A disciplina também carrega o sentido de “por conta própria” ou de “se manter de pé pela própria força”. Significa que não precisamos sempre ser guiados por alguém, como quando éramos crianças.

Quando jovens, claro, tínhamos muitas figuras de autoridade — nossos pais, os professores e os conselheiros na escola que ensinavam o que devia ser feito. Aprendemos as regras de como nos portar em casa, na escola e em público. Mas já que passamos por tudo isso, agora percebemos que somos capazes de ser nossos próprios guias, o que é um reconhecimento libertador.

Da mesma forma, em determinado momento do nosso caminho espiritual, chegamos a um ponto onde somos capazes de avaliar as nossas ações e corrigir os próprios erros. 

As demais imagens deste post são da série de obras Colors of the Mind, do artista Ags Andrew

No fim das contas, cada um de nós é o melhor juiz e conselheiro para si mesmo, uma vez que conhecemos os nossos padrões melhor do que qualquer outra pessoa. O problema de depender de professores é que sempre apresentamos o nosso melhor ângulo quando estamos na presença deles. Se somos realmente bons em nos apresentar, acabamos por ser uma pessoa na presença deles e outra totalmente diferente quando saímos porta afora.

Sendo assim, como o professor poderia nos guiar? Às vezes, os alunos têm até medo de seus professores e acabam por tentar “seguir as regras” ou imitar a boa conduta, por mero receio de que o professor fique chateado com eles.

Nosso treinamento em disciplina não deve se basear em nenhum tipo de medo. Isso não é a disciplina verdadeira. A disciplina verdadeira vem de um desejo profundo de encontrar a própria liberdade. 

Ética como uma presença mental 

Partindo de um certo ponto de vista, praticar a disciplina envolve seguir um caminho de conduta ética: certas ações devem ser evitadas e outras encorajadas. 

Baseados nisso, podemos achar que a disciplina é só seguir regras e fazer esforço. Porém, a intenção principal desse treinamento é fazer com que nós fiquemos cientes de nossas ações, reconhecendo-as claramente e, assim, sendo capazes de reconhecer as que são prejudiciais e as que são benéficas.

Estar ciente de todas as ações e tomar cuidado para não prejudicar os outros ou a nós mesmos é indicativo de uma mente disciplinada. Isso significa que precisamos examinar as nossas suposições sobre o que constitui uma ação positiva ou negativa.

Algumas ações podem ser positivas em determinado contexto social, mas negativas em outro. A disciplina vai além de só seguir um conjunto de regras. Requer discriminação, empatia e honestidade genuínas. De todo modo, é a nossa própria disciplina que estamos desenvolvendo. Somos nós que estamos na estrada, trilhando o nosso próprio caminho até a nossa liberdade.

Tornar-se uma pessoa disciplinada significa cultivar presença mental e consciência, de forma a reconhecer as nossas ações de forma clara e precisa.

Ser disciplinado significa que temos uma visão panorâmica: vemos os nossos pensamentos e as intenções desses pensamentos; vemos como as nossas intenções se desenvolvem e, enfim, são expressas através da fala ou de outras ações.

Além disso, vemos o impacto de nossas ações sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o nosso ambiente. Quando aplicamos a presença mental e a consciência a esse processo como um todo, vivenciamos mais liberdade. Não estamos limitados a apenas repetir as nossas tendências habituais ou realizar cegamente o que achamos que deve ser feito.

Legenda

Podemos escolher dizer o que está em nossa mente e o que parece nos queimar por dentro para ser expressado, ou podemos fazer uma pausa e espairecer um pouco.

Esse é um momento de buda rebelde: estamos prestes a cair novamente em uma cilada e algo nos liberta, salvando-nos do desastre. Essa é a inteligência básica, a mente desperta, que passa a agir. No início, é mais provável que caiamos nas armadilhas, mas, pouco a pouco, a mente de buda rebelde se torna tão ágil e precisa em nossas ações que podemos começar a relaxar, mesmo sob forte fogo emocional.

Não é suficiente tentar manter presença mental e ser disciplinado apenas uma vez, e então dizer: “Bem, tentei, mas não funcionou.” Leva tempo. É preciso tentar repetidas vezes e, então, em determinado ponto, poderemos sentir a energia transformadora.

Independentemente de mudarmos ou não o jeito de fazermos as coisas, descobrimos que isso muda a forma com que nos relacionamos com as nossas ações. Se temos o hábito de gritar ordens para as pessoas em nosso trabalho, é possível que isso continue ocorrendo. Porém, pode ser que nos relacionemos com os nossos gritos de forma bem diferente.

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Pra ler mais: 

A bondade é um sentimento que podemos e devemos cultivar com atitudes diárias, outro trecho do livro Buda Rebelde que já publicamos

Como viver com um sentido realista de bem-estar em um mundo onde há tantas causas para desespero, medo e raiva?, por B. Alan Wallace

Nota do editor:  este texto é um trecho do livro Buda Rebelde, de Dzogchen Ponlop, monge tibetano e um dos professores budistas mais conhecidos no mundo, com diversos livros publicados. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor no PapodeHomem.

É parte de uma parceria nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano apoiado por nós. 

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publicado em 23 de Julho de 2017, 00:00
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Dzogchen Ponlop Rinpoche

Dzogchen Ponlop Rinpoche é um dos mais conhecidos professores budistas do mundo, com diversos livros publicados em diferentes países. Também é fundador e presidente da Nalandabodhi, centro budista com sedes por todo o mundo.


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