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Deus está vivo nas fibras óticas | WTF #23

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O olho do 1%, dos Illuminati, ou da sua vizinha fofoqueira
O olho do 1%, dos Illuminati, ou da sua vizinha fofoqueira

Quando a expressão “Deus está morto” foi cunhada, ela queria implicar em particular a ausência de um Big Brother moral, aquele olho-que-tudo-veria, sempre atemporalmente ciente de nossos pecadilhos e ações desonestas de forma geral.

Hoje, quase ninguém (além dos religiosos remanescentes) consideraria que a consciência moral esteja atrelada a esse superego patriarcal, a um tempo transcendente e imanente, que nos vê como indivíduos mas de alguma forma permanecendo ligados ao senso comunitário dos costumes tribais.

Em outras palavras, a maioria das pessoas não se pensa vigiada por um deus, o que costumava fornecer lastro e julgamento – tanto na possibilidade de um fantasmão assim existir, como na possibilidade desse lastro e julgamento serem meramente fomentados dentro da pessoa com base numa ficção desse tipo. Tanto faz. Mas a consciência moral estava lá e, quando Deus morreu, não só se queria dizer que se perdeu essa consciência, mas que isso era, de certa forma, o pior problema.

Há várias ideias de como a ética se sustentaria sem uma figura desse tipo, mas mais pertinente hoje, no entanto, é que não parece ser necessário abandonar a ideia desse olho-que-tudo-vê. Ela está aí de novo, em plena forma.

A entidade “gasosa” antropomorfizada que tudo via, o senhor barbudo dando uma dedada de ET na Capela Sistina foi plenamente substituída. Nesses tempos de escândalo da NSA e Big Data, e no tempo da microcelebridade e do constante fornecimento de dados de nós mesmos para nossos amigos e corporações, Deus foi substituído pelas fazendas elétricas de memória nas catacumbas cheias de servidores e nos tentáculos da fibra ótica e ramificações.

Obs: uma digressão e referência obscura para filósofos: isso tudo me lembra da solução para o dualismo postulada por Malembanche -- mas nesse caso, Deus não seria o que conecta nosso corpo a nossa alma, mas o que nos conecta uns aos outros, ou nós mesmos a nossa consciência moral, quem sabe. Se é que precisamos seguir usando a palavra “Deus”, ou falando em Malembranche... deus me livre.

God-Sistine-Chapel

Qual é a implicação ética dessa memória e dessa interconexão exponenciais?

Muitas vezes os problemas são salientados. O nosso olho interno sobre nós mesmo é, às vezes, sozinho, demais para aguentar. A discussão comum que surge, bastante pertinente, é sobre a ética da memória. Mas tomemos primeiro algumas questões mais amplas e abstratas para entendermos a problemática.

A primeira questão surge num cenário comum na conexão entre ética e memória, em que se discute se uma pessoa que sofreu um trauma, por exemplo, um estupro, teria o direito de ou estaria certa em fazer uma cirurgia ou tomar uma pílula para fazer aquilo desaparecer. Isso na verdade já é possível, se certas drogas forem ingeridas num determinado número de horas após o ocorrido (embora haja questões de testemunho judicial que complicam isso).

Porém, o que por um lado parece uma ação compassiva, de obliterar a fonte de tamanho sofrimento, por outro lado abre uma caixa de pandora: e se começarmos a nos construir através de um revisionismo pessoal?

Apagar uma memória não é apagar algo que aconteceu: algo que por pior que seja, faz parte de quem somos?

E, se, como Philip K. Dick  brincou em sua ficção, simplesmente não compramos umas memórias melhores de alguém? Ora, poderíamos substituir todas as nossas lembranças ruins ou não muito boas, ou talvez todas, por melhores, ou pelo simples esquecimento. E que tal vivermos uma ficção de nós mesmos? Libertador ou aterrorizante?

Será mesmo que queremos áreas cegas, áreas de ignorância, com relação a nossa própria história?

A palavra “revisionismo” no parágrafo anterior não pode passar batida. O termo é usado quando certas organizações manipulam registros históricos para produzir uma “nova versão” da história, como quando Lênin apagou Trotsky de certas fotos. E há todo esse pessoal insano que nega o holocausto. Existem até mesmo artigos na internet que recebem certas correções suspeitas, ou simplesmente desaparecem.

Onde estão os camaradas?
Onde estão os camaradas?

O revisionismo é visto como um problema ético, e ele, por um lado está cada vez mais difícil de acontecer, já que tudo que aparece na web pode ser imediatamente copiado por alguém (embora dependendo do caso a credibilidade se perca ou ao menos diminua).

Julian Assange comentou em uma entrevista com Eric Schmidt que a URL (o endereço da página na internet, que guarda o local onde a informação estaria) está ultrapassada: há hoje a possibilidade de produzir um código (um hash, para sermos técnicos) correspondente a cada trechinho de informação, a apenas aquele, e para cada revisão.

Com a tecnologia p2p, não existe mais um “local” onde a informação é armazenada, mas um identificador próprio, digital, como se fosse o DNA daquele trecho de informação compartilhado. Esse lastro absoluto, matemático, da informação guarda uma similaridade com o conceito de onisciência divina. E, de fato, esse sentido da memória do olho-que-tudo-vê é algo que impossibilitaria em muito o revisionismo. Teríamos apenas problema com a interpretação e a confiabilidade da fonte, e não com a possibilidade de alteração ou desaparecimento.

É curioso que Orwell tenha escolhido um irmão e não um pai para representar seu governo pan-óptico: o irmão é menos ameaçador, ele é um igual, essa escolha faz parte do abuso totalitário através da distorção da linguagem que também é tema do livro. É no âmbito pessoal que o Grande Irmão, o olho-que-tudo-vê, agora reduzido a um algoritmo impessoal, onde “metadados” sem face (ou com face, mas “sem julgamentos”) é hoje mais presente, e onde a discussão é mais viva.


“Nós só sabemos quem ligou para quem e por quanto tempo: mas ouvir não, ouvir só ouvimos com ordem judicial.”


Ah, tá.

Se por um lado nos horrorizamos perante o aprendizado de uma criança que nasceu depois das redes sociais vai ter que ter com o uso sempre público de sua imagem, com a urgência do desenvolvimento de critérios do que postar ou não – porque fica tudo registrado para sempre, e tudo pode servir para embaraçar, não empregar, julgar de todas as formas enfim – por outro lado isso não recuperaria exatamente um certo tipo de consciência moral pública que perdemos em certa medida com a morte de Deus?

Link YouTube | E o Black Sabbath pergunta: "Deus está morto?"

Normalmente, e aqui eu também repeti o tom sinistro, vemos essas corporações e agências governamentais – bem como o coletivo de nossos pares – como âmbitos perigosos, onde habitam interesses diversos e contraditórios aos nossos, e onde podemos nos deparar com o poder arbitrário, coercitivo, como K. em O Processo, “culpados de nossa inocência”. Porém, há um aspecto de oportunidade nesses desenvolvimentos.

Para começar, parece que a vida em público, o tempo todo, nos treina exatamente para viver e refletir em público – e isso é bom exatamente para a vida em público, onde quer que ocorra. Para falar (ou ao menos escrever) e ouvir em público melhor, e para, de forma muito importante, refletir sobre nossas ações, isso parece ser, falando darwinisticamente , uma ótima “pressão adaptativa”. Nos nossos primeiros erros, o feedback é tão imediato e às vezes tão intenso, que necessariamente desenvolvemos mecanismos que depuram nossos processos de relação, e o que escolhemos divulgar em público.

Treinamo-nos na capacidade de viver interligados, e isso tem tremendos aspectos positivos – e não só os negativos algumas vezes mais enfatizados.

Em certo sentido, possivelmente positivo, essa consciência moral intensificada não é diferente da patriarcal, tribal e ectoplásmica. Há um âmbito privado, onde as novidades éticas – as possibilidades de consciência moral sem um ser onisciente observando nossa masturbação por trás de nosso ombro – ainda são relevantes.

Isto é, o âmbito privado ainda requer uma consciência ética própria.

Porém no âmbito público, o julgamento da comunidade, e o prospecto do tempo indefinito e longo à nossa frente, onde essas informações podem voltar à tona, cada vez mais pressionam nossa autorreflexão, e possivelmente impulsionam ações cada vez mais justamente deliberadas. E mais do que isso, a ampla exposição em conjunto de comportamentos dos quais não nos envergonhamos, e possivelmente não temos motivos para nos envergonharmos, produz avanços na “jurisprudência moral”.

É como se Jesus voltasse, visse um monte de gente fora do armário, e desse de ombros. Não há mais como ocultar certas coisas, uma sociedade extremamente hipócrita não é mais possível.

Então, e daí que o Facebook, governos e empresas associadas sabem/acham que você é, por exemplo, gay? Se você é gay, isso reflete como mais poder para você. Se você não é, isso não muda nada. A luta com os governos e corporações segue exatamente a mesma, eles tendo uma montanha de dados ou não: seus interesses são relativamente transparentes, basicamente vender.

Já há certa assimetria em operação; curiosamente, nesse sentido, sabemos mais sobre eles do que eles sobre nós: e daí sua sede voraz por Big Data. Essas tentativas de análise através de Big Data são sinal, se avaliamos causas e condições, de que a população, de forma geral, está efetivamente mais poderosa.

E, no outro aspecto, o aspecto da comunidade, quando os passados dessa juventude que está engatinhando em viver com diários audiovisuais extremamente públicos forem analisados, o nível de julgamento também vai ser menor: todos terão cometido mais ou menos os mesmos erros, e, de forma geral o passado, mesmo que registrado, não vai poder ser visto como tão sólido, embora expressamente venha a ser “mais sólido”, no sentido de inapagável.

"E que tal vivermos uma ficção de nós mesmos? Libertador ou aterrorizante?". Ou, pra quem assiste a Arrested Development, um Roofie Circle
"E que tal vivermos uma ficção de nós mesmos? Libertador ou aterrorizante?". Ou, pra quem assiste a Arrested Development, um Roofie Circle

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Obs: esse texto surgiu de uma conversa com Pedro Burgos e a ideia sobre a comparação da consciência moral  -- como vinda de Deus e vinda das Redes Sociais -- surgiu pouco depois. Marc Maron se antecipou a mim e, na última semana, no dia 8/7/2013, publicou entrevista com Douglas Rushkoff em que mencionava essa ideia. Rushkoff ampliou a ideia num sentido que eu não havia percebido, de mudança social, como a aceitação do casamento gay, vinda do fato de vermos mais as vidas dos outros nas redes sociais, e percebermos cada vez mais certas coisas como normais devido a esse convívio também.

As questões éticas ligadas à memória me foram apresentadas nas aulas de César Schirmer dos Santos.


publicado em 10 de Julho de 2013, 21:00
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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