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Decidi assumir minha bissexualidade

Entenda porque é tão difícil para um bissexual sair do armário

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Fiquem tranquilos!

Mãe, pai, amigos do convívio diário e mais uma boa turma já sabem desse fato há pelo menos uns 4 anos. Mas como no dia 23 de setembro é celebrado mundialmente o #DiadaVisibilidadeBissexual – justamente para combater a invisibilidade e o estigma que as pessoas bissexuais sofrem na sociedade e dentro do próprio movimento LGBT – resolvi sair do armário pela segunda vez, a primeira oficialmente aqui no Facebook.

Aí você me pergunta: mas se você já teve aquela conversa com as pessoas mais próximas de você, quando depois de um ano de ensaio e terapia, contou: "sabe o que é, eu descobri que gosto de pessoas", por que é que você está expondo isso agora que essa gente que você mais ama já te compreende e te respeita?

A resposta não é assim tão simples.

Bem, eu nasci regado de privilégios (de classe, de cor, de gênero) e nasci em uma família onde sempre houve muito carinho e diálogo. Por isso a minha história pessoal – e é desse ponto de vista, unicamente, que escrevo agora –foi relativamente simples e sem grandes traumas. Embora sempre seja difícil, claro.

Mesmo assim, eu nunca sofri bullying quando pequeno, pois sempre me entendi como uma criança/jovem cis-hétero sem a necessidade de ser nada além disso. Em outras palavras, eu sempre me adequei ao padrão, pois não havia necessidade de ser diferente, e por conta disso nunca fui vítima da sociedade intolerante que nos tornamos (ou sempre fomos?).

O processo de me permitir questionar minha sexualidade veio muito mais tarde, de uma forma muito leve, em um momento onde eu já tinha maturidade e autoestima suficientes para encarar a construção de uma nova orientação sexual. O que é raríssimo entre as pessoas bissexuais. E é esse o ponto desse post.

Estudos mostram que jovens bissexuais, em comparação a gays e lésbicas, apresentam: (1) níveis menores de aceitação familiar; (2) maior desconhecimento de pessoas e instituições que poderiam ajudá-los na sua jornada de auto aceitação; (3) um pessimismo maior em relação a seus relacionamentos amorosos, sua entrada na universidade ou sucesso na carreira; (4) maiores taxas de transtorno alimentar e automutilação; e (5) o maior índice de suicídio dentro da comunidade LGBT.

Que as taxas de suicídio entre jovens LGBT são comparativamente maiores do que as da juventude em geral eu já sabia, mas mesmo dentro desse grupo já com um índice mais alto, os bissexuais são as maiores vítimas. O preconceito e uma vida de privações por simplesmente ser quem você é, acaba levando pessoas LGBTs a transtornos depressivos, ansiedade e à procura por válvulas de escape como as drogas, por exemplo.

Para os bissexuais, em especial, onde o desejo por ambos os sexos não é bem visto nem por héteros nem por homossexuais, o buraco fica ainda mais fundo. A falta de apoio social e o isolamento mantém essas pessoas no armário, obrigando-as a levar uma vida dupla que gasta mais energia, gera mais estresse e empurra com a barriga o drama social que lhe é imposto.

É por conta disso tudo que é importante dizer que você, muito provavelmente, é parte desse problema que faz com que essas pessoas acabem com a própria vida mais do que qualquer outro grupo de jovens. Não fique ofendido. Leia até o final. Eu prometo que você vai aprender um monte de coisas com essa leitura. Logo mais a gente volta a falar sobre minha bissexualidade e sei que você já está morrendo de vontade de perguntar um monte de coisa.

Como eu estava dizendo, até alguma semanas atrás eu também não conhecia esses dados tão assustadores. Eu já tinha conhecimento de dados como o de que "a homofobia mata uma pessoa a cada 25 horas". E que isso faz do Brasil "o país que mais mata travestis e transexuais no mundo". O que eu nunca imaginei foi que havia essa tendência suicida entre pessoas bissexuais.

Veja bem, não estou falando que não precisamos divulgar as centenas de mortes causadas todos os anos por homofobia e transfobia. Pelo contrário. É evidente que esses números precisam estampas as capas dos jornais diariamente. Pois acontecem diariamente. Precisamos, sim, escancarar esses fatos para podermos exigir políticas públicas que previnam, punam e acolham as vítimas desses crimes motivados pelo ódio. O que eu proponho aqui NÃO é uma competição entre as letrinhas LGBTTIQ. Até porque, estamos falando de vidas humanas que possuem igualmente seu valor.

Minha intenção aqui é apenas chamar a sua atenção para que eu, bissexual assumido, até um mês atrás não conhecia essas informações em relação ao meu próprio grupo identitário. Olha só, eu nem sabia que o Dia da Visibilidade Bissexual sequer existia.

Pior do que isso. Falando em grupo identitário, eu ainda posso contar nos dedos quantas pessoas bissexuais eu conheço. Homem, cis e bi – como eu – menos ainda. O que é no mínimo curioso e muito preocupante se fomos comparar com esse outro dado: as pessoas bissexuais representam mais da metade da comunidade LGBT ao redor do mundo. É por isso que os bissexuais também são chamados de "a maioria invisível". Ou seja, somos a maioria, mas eu nunca vi, nem comi e nem ouço falar, hehe.

Toda essa falta de referências e todos esse isolamento e invisibilidade faz com que jovens bissexuais sempre se questionem: será que eu sou uma aberração? Por que não conheço ninguém igual a mim? Cadê esse povo? Por que de todo conteúdo LGBT que circula por aí nada é sobre bissexualidade? Por que é tão difícil me assumir bi? O que faz com que todas as outras pessoas duvidem da minha sexualidade? Por que ainda somos invisíveis se somos tantos?

Todas essas perguntas passaram pela minha cabeça desde que me assumi. Mas só fui descobrir que a respostas passava por uma palavra chamada bifobia (o preconceito voltado às pessoas bissexuais) muito mais recentemente.

Você vai achar besteira né? Vai falar que inventamos mais um nome para um preconceito que nem existe? Não é por aí. Eu te explico.

Na história recente da sexualidade, convencionou-se dividir o mundo das orientações sexuais em dois grandes eixos: "heterossexual" e "homossexual". Desejos e relações que não se prendam a um único gênero acabam sendo ignorados, invisibilizados e deslegitimados.

Todos os dias ouvimos frases como "isso e só uma fase", "logo mais você se decide", "bissexualidade não existe". Até quem não quer ofender, vez ou outra, solta uma dessas. E quando não estamos ouvindo isso de fato, muitas vezes dá pra saber que é exatamente o que os outros estão pensando. Alguns nem fazem questão de esconder. Isso dói, machuca, incomoda muito principalmente porque obriga que você tenha que se afirmar sua identidade toda vez. Toda hora é preciso dar explicações sobre seus desejos, como se você não se conhecesse.

Foi por isso que listei, abaixo, seis das maiores besteiras que escuto por aí quando digo que sou bissexual. Cada uma delas foi explicada na tentativa de combater a bifobia, mesmo que seja involuntária, e para incentivar que todos passemos a respeitar e compreender uma identidade que – até pode não ser a sua – mas também merece viver de forma digna sem ser questionada. Vamos lá?

1. Rapaz, decide aí. Afinal você gosta mesmo de homem ou de mulher? Não dá pra gostar dos dois ao mesmo tempo.

Pois eu to dizendo que dá sim. E digo isso a partir da minha experiência. Afinal, alguém precisa não gostar de salgado para poder gostar de doce? Já vi muita gente usando essa metáfora por ser bem direta e didática. Mas pra mim especialmente não é tão diferente assim estar com uma mulher ou com um homem. No fim das contas, pra mim (e ser bissexual é entender que cada um vive sua sexualidade à sua maneira) o que importa é a pele, o carinho, a troca de olhares, o toque, a tensão sexual (e claro, a admiração – fundamental – ou aquela paixãozinha quando você já não está mais envolvido).

Não sei explicar como isso acontece. Só sei que é o que sinto. Você sabe dizer o que te faz sentir atração por uma pessoa e não por outra? Talvez pra mim –e quem sabe para todos os bissexuais – sejam atributos que eu encontre tanto em uma mulher como em um homem. Mas essa subjetividade toda não foi feita para ficar sendo compreendida. A gente precisa só vivenciá-las e nada mais. Pra que complicar?

2. Mas não é possível, você deve ter uma preferência. Do que você gosta mais?

Isso também é um outro erro comum sobre a bissexualidade e enche muito o saco. O grande barato de ser bissexual é aceitar a fluidez dos seus desejos. Vai ter dia, fases ou épocas em que você vai querer estar mais com um sexo. Outras com o outro. O mais legal é você aceitar isso a ponto de não precisar mais responder essa pergunta nem pra você e muito menos pros outros.

A sociedade costuma achar que pra alguém ser bissexual de verdade, precisa ter uma caderneta e marcar cada menino e cada menina com que você transe ou se envolve, de modo que fique sempre equilibrado. Inocente. Não é assim que a coisa funciona e nem precisa ser. Sinceramente, nós não estamos preocupado com isso, por que outra pessoa deveria estar?

Além disso, é possível que você resolva passar o resto da sua vida com um único sexo (sim, existe monogamia na bissexualidade, já falaremos mais disso). E isso não fará com que você deixe de ser uma pessoa bissexual, uma vez que a atração por ambos os sexos sempre poderá existir. Resumidamente, a bissexualidade é quem você é e não com que você está.

3. Mas então você nunca vai estar satisfeito ou completo?

Também não funciona assim. Quando eu estou com uma mulher, eu estou com uma mulher, não sinto falta de um homem. E quando estou com um homem, estou com ele e ponto. Sentir atração por mais de um gênero não significa que você vai sempre ter a necessidade de estar com mais de um gênero. Achar que seu parceiro ou parceira vai sempre estar desejando aquilo que ele/ela não tem naquele momento, é algo que pode acontecer em qualquer relação, inclusive heterossexuais.

A bissexualidade também é muito condenada por, em muitos casos, estar atrelada a um enfrentamento aos padrões monogâmicos de relacionamento, mas isso já é assunto pra outro dia.

Existe também o mito de que bissexuais sejam infiéis. Esse é mais um dos estigmas e um bem triste por sinal. A infidelidade ou quebra de um pacto – caso o casal tenha optado por essa relação monogâmica –sempre estará atrelada às escolhas de um dos dois e nunca a orientação sexual de um deles.

4. Nossa, então você pega geral, né? Suas opções dobraram!

No momento, eu até queria que fosse assim, mas não! Me diz, você que gosta de mulher, todas elas te atraem? Você que gosta de homens, tem vontade de sair pegando todos eles? Geralmente, logo que a gente passa dos, sei lá, 16 anos, já percebe que não é bem assim. Pelo contrário. Pra mim, pelo menos, as possibilidade reduziram bastante desde que me assumi bi. Como a atração sexual não está mais atrelada ao gênero e sim a nuances como uma boa conversa, a risada, a química, a admiração intelectual e, claro, algo ali que te atraia fisicamente, fica difícil esse leque de opções se ampliar tanto assim.

E, claro, mais uma vez por conta da bifobia, não é todo mundo que vai querer ficar com homens bissexuais como eu. A maioria das mulheres héteros tem preconceito (por sorte, nunca as mulheres pelas quais me atraio). Os homens héteros obviamente não ficam comigo, pois são héteros. E alguns homens gays também são bifóbicos e acham que eu serei um grande cafajeste/aproveitador.

Já os homens e mulheres bissexuais... Bem, estes como já falamos só podem estar escondidos ou viverem numa caverna, pois são invisíveis. Ou seja, as chances pra mim, na verdade, não aumentaram. Elas, inclusive, diminuíram e são menores do que as suas.

5. Cara, como você gosta de sexo, né? Não pode ver um ser humano em movimento que você já quer ir pra cima.

Bem, o fato é que aprendi a aceitar e desfrutar o prazer na vida sim, mas isso não é porque sou bissexual. A maioria dos bis fica com esse estigma de promiscuidade e hipersexualização, de que estão o tempo inteiro pensando em sexo. De repente, para alguns até seja, mas de novo, não por conta da sua orientação sexual. Ou vai me dizer que você não conhece nenhum hétero que seja assim?

Outro perigo desse mito é das pessoas não bissexuais, acharem que somos objetos sexuais. O que é ainda mais comum quando o homem hétero acha super legal sua namorada ser bi, só para garantir sua grande chance de estar com duas mulheres ao mesmo tempo. O fetiche é algo que deve se restringir a objetos (lingeries, por exemplos), partes do corpo (pés, por exemplo), ou ações (frutas, velas, chicotes), nunca à identidade de um outro ser humano sejam eles bissexuais, latinas, negros, etc, combinado?

6. Fala aí, você só é bissexual por medo de se assumir gay, não é?

Cara, não! É tão difícil pro bissexual sair do armário quanto por homossexual e como eu já demonstrei aqui, não há nenhuma grande vantagem em ser bi do que ser homo. Ainda acha que é bobagem?

A pessoa bissexual terá que assumir que sente atração por pessoas do mesmo sexo e sofrer todo o preconceito que uma pessoa gay ou lésbica sente. Inclusive, com o risco real de apanhar na rua, ser excluído do grupo de amigos, ou até mesmo perder o emprego por isso.

Então, não, ninguém se assume bissexual para quebrar o gelo ou para preparar o terreno. Claro que para alguns, a bissexualidade poderá ser uma etapa de autoconhecimento, uma transição, mas nunca, em hipótese alguma, diga para uma pessoa bi que ela não é bi. Quem tem que chegar a esse conclusão é ela, no tempo dela. Não tem como você saber. 

Héteros, em geral, odeiam ter sua sexualidade questionada. Inclusive, isso é feito como forma de xingamento. Então porque quando a pessoa é bissexual seria diferente? Aliás, quando foi que você decidiu ser heterossexual? Ou homossexual? Você também não lembra, né? Pois é, não foi uma decisão. Você simplesmente é assim. É a sua identidade. Então que tal respeitar a dos outros?

***

Nota da edição: Este texto foi originalmente publicado no Facebook do autor em alusão ao Dia da Visibilidade Bissexual comemorado todo dia 23 de setembro e gentilmente cedido para republicação no PapodeHomem.


publicado em 06 de Outubro de 2017, 13:29
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Gut Simon

Músico, comunicador social e ativista. É um dos fundadores da Rede Minha Sampa e da Virada Política. E a mente por trás da websérie musical Lala Laiá e Cidade Acústica.


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