Como sorrir para suas lembranças doloridas

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Lembrar daqueles tempos parece difícil. Dias em que a vontade era de socar o chão, a parede, a porta ou a cara do babaca que transformou aquele paraíso neste pesadelo do qual não dá para acordar.

Igualmente complicado é visualizar que, na verdade, a cada xingamento gritado interiormente, torna-se ainda mais difícil sair da cadeia desses pensamentos confusos, palavras mal posicionadas e ações desarmonizadas com nossos objetivos. Cada movimento parece afundar ainda mais o corpo num pântano de dúvidas. Cada dúvida leva a mais perguntas que não são para serem respondidas, são perguntas-convite a mais perguntas.

Um doce pra quem acertar a diferença entre sonho, pesadelo e realidade.

E os dias passam. As noites continuam. Álcool, cigarros, trabalho e estudo. Amigos, desconhecidos, sexo e raiva. Estrada, sonhos e música. Tudo ao mesmo tempo agora. Nos intervalos, apenas o espaço entre você, a cama e o desespero.

O doce sabor do sofrimento

De repente, você olha ao redor e tudo parece perder o significado, porém ganhando substância. O silêncio se torna companheiro de viagem. As lembranças dançam uma vez mais. Elas vêm como uma mulher atraente, cheirosa e irresistível, com uma pele macia e voz suave. Elas tocam seu rosto, mesmo sem ter um corpo. Elas causam tristeza, mesmo sem o terem contrariado. Elas o dominam, mesmo sem humilhá-lo. Tudo o que elas fazem é dar exatamente o que você procura, seja um sorriso solitário ou uma lágrima na companhia de um ombro.

Admiramos o mecanismo que nos traz o sofrimento pois ele é o mesmo que valida nossa felicidade. Acreditar nesse processo torna tudo mais divertido. Isso nos coloca direto em cima do palco, acende as luzes e coloca os figurantes para contracenar.

Nosso pensamento é treinado para buscar razões e criar sentidos. Uma grande qualidade que pode se tornar uma terrível armadilha, como o proposto abaixo, num exemplo que confronta o pensamento europeu (comumente adotado por nós) e o chinês, muito mais direto:

"Na Europa, se pedirmos a um homem que defina alguma coisa, sua definição se afasta das coisas simples que ele conhece perfeitamente bem e retrocede para uma região desconhecida, que é a região das abstrações progressivamente mais e mais remotas.
Assim, se lhe perguntarmos o que é uma cor, dirá que é uma vibração ou uma refração da luz ou uma divisão do espectro.
E se lhe perguntarmos o que é uma vibração obteremos a resposta de que é uma forma de energia, ou qualquer coisa desta espécie, até que cheguemos a uma modalidade do ser ou do não ser ou, de qualquer modo, penetraremos num terreno que está além do alcance do nosso interlocutor.
[...] Ele (o chinês) quer definir o vermelho. Como é que pode fazê-lo num desenho que não seja de tinta vermelha?"
–Ezra Pound, O ABC da literatura, p. 25-7.

Uma lembrança é apenas uma lembrança. Uma experiência e nada mais. Um ataque na corda de uma guitarra. O som é apenas som. A canção é criada por nós.

Olhamos para o passado, de novo e de novo e mais uma vez, como se tentássemos reescrevê-lo.

Cair rápido, perder o chão, ter uma nova história para contar, mesmo que ela seja antiga. Mesmo que já seja uma reprise. Mesmo que seja um remake. É isso que queremos. Não só eu ou você. Nós todos. No fundo gostamos de sofrer, por isso escondemos nossas cabeças num buraco e esquecemos que há alguns instantes estávamos admirando o horizonte. A graça parece ser permanecer no escuro, pelo prazer de reencontrar a luz. Acreditar no roteiro que a vida nos propõe, esperando a trilha sonora dar o tom certo. Seja ele de drama, aventura ou romance.

"We like our suffering because it's so good when it ceases for awhile."
"Gostamos de nosso sofrimento porque é tão bom quando ele cessa por um tempo."
–Matthieu Ricard, em palestra no TED.

Optamos pela cegueira. No entanto, não há cegueira de fato, apenas um esquecimento. Não há escuridão. Apenas escondemos nossos olhos da luz. O que acontece é que esquecemos que, para ver o mar, as montanhas e o céu, precisamos olhar fora do buraco. Olhar para fora. Levantar a cabeça acima dos ombros.

O problema, basicamente, é um só. O problema é esquecer. Esquecer que há um mundo lá fora, com uma dinâmica própria e, ao mesmo tempo, implorando a nossa ação. Esquecer que tudo começou quando optamos por lembrar do passado e começar o filme. Esquecer que, antes de sonhar, estávamos acordados. Falando, respirando, coração batendo, olhar atento, ouvidos sintonizados. Esquecer do movimento exatamente anterior, que nos leva ao ponto onde nos encontramos. Seja levantar da cama, dar o play ou mesmo deitar e dormir.

Só precisamos de verificações por esquecermos da natureza fluída das coisas.

O olhar liberador de passados

A realidade – aquela, amarga e sofrida dos dramas hollywoodianos que filmamos todos os dias – nada mais é do que nossa dificuldade de rir dos fatos.

Nossa falta de leveza. Nossa prisão é nossa excessiva seriedade. Nossa incrível capacidade de dar solidez e esquecer que mesmo o maior dos impérios um dia ruiu. Nossa triste realidade reside no intervalo entre nosso eu de hoje, que chora ajoelhado ao pé da cama, rezando por dias melhores, e o nosso eu de amanhã, que ri dos nossos filhos, dizendo que todos os problemas deles vão passar.

É uma simples questão de olhar. Não exatamente de ponto de vista, mas de olhar. Um ponto de vista pressupõe a necessidade de movimento, para chegar a um determinado local e, a partir dali, lançar-se sobre uma nova perspectiva. O olhar não. O olhar pode ser desenvolvido de onde você se encontra, a qualquer momento. Ou seja, não é necessário esperar os anos passarem até que haja a dissolução do sofrimento supostamente causado por uma lembrança ruim. Você pode assumir a forma e papel desejado diante dessa aflição, seja com uma postura ativa, passiva ou reativa.

Uma lembrança tem tanto poder sobre você quanto a escuridão quando seus pais apagavam a luz e fechavam a porta. As criaturas projetadas na parede que tanto causavam pavor perdem o significado quando descobrimos que se tratavam só de sombras. O processo é o mesmo, apenas o objeto muda.

Você pode olhar para a paisagem ou para o monstro.

O dia em que você lembrar da parte pesada do seu passado e conseguir sorrir sem a necessidade de maquiá-lo, encontrar interpretações positivas ou resolvê-lo para sair vencedor, este será o dia em que estará livre, mesmo que só por alguns instantes. Este será o exato momento no qual toda aquela solidez se esfacelará na sua frente, como um castelo de areia.

É como visualizar um antigo namoro e rir de todas as brigas, insultos e objetos arremessados. Está tudo ali, tudo aconteceu. Você apenas parou de se identificar.

A escolha está presente, como o horizonte, sempre à altura dos seus olhos: esperar a risada nascer ou atacar imediatamente seu castelinho com pá e gargalhadas. Assim mesmo, feito um bebê malucão.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

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publicado em 11 de Dezembro de 2010, 05:39
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Volta e meia grava e disponibiliza no Soundcloud. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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