Como ser um homem com saúde de menino

O problema da saúde do homem é de todos nós. O que podemos fazer para mudar essa questão?

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Advertisement
    130x250 1 jpg

A presença de rituais que marcam a transição da infância para a vida adulta já foi uma coisa comum entre os homens de diferentes civilizações. Com o nosso avanço como sociedade urbana e industrializada, porém, os ritos foram ficando cada vez mais raros e hoje só podemos encontrá-los em culturas muito específicas.

Os índios

A tribo dos Caiapós, uma antiga congregação indígena brasileira que vive até hoje nas margens do rio Xingu (um afluente do Amazonas), é um desses casos. Dentre as várias crenças e tradições que eles preservam está um ritual de provação dos jovens realizado afim de torná-los guerreiros aptos para batalhas.

O rito do processo constitui-se em identificar um ninho de vespas no alto de uma árvore e organizar um ataque a ele. Trata-se de uma experiência difícil e dolorosa já que, ao primeiro ataque, as vespas identificam sua ameaça e passam a distribuir ferroadas a todos que insistem em incomodá-las.

Aos jovens índios, soma-se a dificuldade de subir uma escada rudimentar de madeira até a copa das árvores e depois descê-la sofrendo com os ferrões dos insetos incrustados na pele. Mas é justamente no sofrer que o sentido do ritual indígena se encontra. Isto porque os Caiapós acreditam que suportar a dor do contra-ataque das vespas é o que faz o guerreiro absorver sua força e seu potencial de dor, tornando-se mais forte e resistente a partir daquele momento.

Depois do processo, o índio deixa de ser considerado criança que precisa ser cuidada e alimentada e passa a ser julgado como um homem com o qual os demais integrantes da tribo podem contar em batalhas, mas também no dia a dia da comunidade.

Vamos aprender algo com a sabedoria indígena?

As meninas

Assim como nosso contexto social impôs uma diferença entre a forma como os Caiapós e nós fazemos a passagem da infância para a vida adulta, ele também o fez entre meninos e meninas sob o ponto de vista específico dos seus cuidados com a saúde e com sua transformação corporal.

Desde o nascimento, e mesmo durante a infância, crianças de ambos os sexos que têm acesso a cuidados médicos são avaliados regularmente por seus pediatras. Estes especialistas acompanham o desenvolvimento das crianças e vão tratando os problemas de saúde que surgem nessa fase da vida. Mas essas crianças vão crescendo e as visitas ao médico se tornam cada vez menos frequentes até chegar aos 10 ou 12 anos (variando entre 8 e 14) onde as meninas passam pela menarca (primeira menstruação) e os meninos não.

Neste momento a natureza se encarrega de firmar um marco importante na vida delas, deixando bem claro que aquela "criança" se aproxima da maturidade fisiológica para procriação. Os seus pais então se encarregam de acompanhar o processo, levando a menina a uma avaliação no ginecologista.

Essa avaliação inicial com um médico especializado na saúde da mulher se transforma num importante vínculo de rotina e cuidado com a saúde. A partir dali, as mulheres recebem as primeiras orientações quanto a sua sexualidade e também fazem uma avaliação clínica anual mais completa. A consulta ao ginecologista trata-se, portanto, de mais do que uma orientação quanto a saúde de seus órgãos sexuais, ela acaba por identificar outros problemas e direcionar a paciente a outros especialistas.

Meninas vão no ginecologista, meninos jogam videogame. Eita.

Os meninos

Mas no caso dos meninos, esse marco fisiológico proeminente não existe e acaba não sendo "substituído" de nenhuma maneira que possibilite aos seus pais conversarem de igual maneira sobre assuntos como: a importância dos cuidados com a saúde, as visitas regulares ao médico, a prática de atividades físicas e mesmo o abuso de álcool, tabaco e outras drogas. 

Dessa forma, os cuidados com a saúde e outros problemas passam à margem do processo de crescimento e desenvolvimento dos homens. Estes, com alguma sorte, vão encontrar seus marcos em outros momentos da vida como aprovações no vestibular, formaturas, mudança de casa, primeiro emprego, nascimento do primeiro filho, morte de alguém da família ou algo semelhante.

Porém, o que observamos clínica e socialmente cada vez mais frequentemente são casos de homens que acabaram nunca realizando tal transição. Eles substituem seus carrinhos de brinquedo por carros de verdade, videogames violentos por alguma forma "mais real", balas e refrigerantes por gordura e álcool e mesmo a relação com as pessoas é apenas substituída, nunca transformada. Alguns desses homens são casados com esposas que, na prática, funcionam como suas próprias mães.

O impacto disso na saúde é semelhante. Sem nunca ter realizado tal marco transitório, os homens simplesmente seguem acreditando que são tão saudáveis e imbatíveis como eram quando jovens, independente do que passa a incomodá-los ou das dúvidas que têm em relação as mudanças de seu próprio corpo que seguem acontecendo tanto aos 15 quanto aos 50 anos. Dessa forma, não é de se espantar que o respectivos carros façam mais revisões de funcionamento e estética do que os próprios donos.

Meninos brincam de carrinhos, depois homens brincam de carrões.

Os médicos

Em parte, nós médicos podemos ter sido corresponsáveis por esse processo. Como membros integrantes de uma sociedade que não está acostumada a ouvir queixas masculinas, nós mesmos, enquanto cuidadores, podemos ao longo dos anos ter sido um pouco negligentes por não valorizar ou estimular como deveríamos o vínculo que homens e meninos deveriam ter com sua própria saúde.

No famoso caso do livro/filme Clube da Luta, por mais que a obra seja muito famosa e já tenha sido amplamente discutida, uma cena quase sempre passa desapercebida. Muito antes de buscar suporte em grupos de apoio que não lhe cabiam, o protagonista procura um médico para tratar de sua insônia ao passo que o médico responde que existem pessoas sofrendo muito mais do que ele e dá cabo dizendo que ele não morrerá de insônia, negando-lhe acesso a medicações adequadas.

É tão verdade que existem pessoas sofrendo mais e que insônia não oferece risco de morte sozinha quanto o fato do médico não poder subestimar a dor de um paciente e negar a ele um tratamento adequado. Mas infelizmente, nesse caso específico, a ficção representa uma realidade que eu mesmo presenciei como médico, paciente ou acompanhante: quando se trata de um homem no consultório é muito mais difícil orientar quanto aos seus problemas e queixas, indicar possíveis tratamentos, esclarecer os riscos e cobrar um acompanhamento regular.

Os homens, de forma geral só são orientados da mesma maneira quando o problema já esta instalado de forma mais grave. Depois de uma vida repleta de álcool e cigarro, o indivíduo terá que tratar um câncer de garganta sem nunca ter sido avisado ou orientado sobre o risco que corria. Tudo porque ele não frequentou um médico sequer nos últimos 20 anos.

Imagina que louco: três homens no mesmo consultório?

Os homens

Nos consultórios ou emergências por onde passei é cena recorrente a de homens que procuram assistência "tarde demais" para cuidados preventivos. Estes pacientes chegam lá "arrastados" pela esposa, mãe, filha, irmã ou qualquer outra figura feminina próxima.

O médico vê-se obrigado a assumir o delicado papel de cuidador, sem paternalismo, orientando sobre como é importante o acompanhamento regular, a adesão ao tratamento e aos hábitos indicados, além da realização de exames complementares, quando necessário.

Perdi a conta de quantas vezes atendi na emergência, homens entre 40 e 50 anos (idade extremamente produtiva) que estavam acima do peso ou eventualmente obesos já diagnosticados com hipertensão ou diabetes e se queixando de uma forte dor no peito. O que esses homens tinham em comum? Uma negligência com a própria saúde ao longo de décadas.

Não se tratava de um problema que tinha começado aos 40. Ele tinha começado aos 20 quando o paciente parou de ir ao dentista anualmente por falta de tempo entre as provas da faculdade, iniciou um consumo de álcool acima do tolerável para mostrar que aguentava beber mais nas festas, parou de fazer atividade física regular ou fazia apenas pelo apelo social/estético sem orientação, assim como se alimentava de qualquer coisa em qualquer horário e não se importava de virar 3 noites seguidas ao longo de uma semana onde não tinha conseguido manter um mínimo de 6 horas de sono por dia.

Da mesma forma, quando passei a trabalhar num posto de saúde da família no subúrbio de Salvador (cidade onde nasci e me forme), passei por diversos turnos até chegar no turno da saúde do homem. Infelizmente esse era o horário de atendimento mais vazio e mesmo as poucas consultas que tínhamos eram rotineiramente desmarcadas ou apenas resultavam em faltas. Identificamos tristemente que tais consultas eram quase sempre marcadas pelas esposas e que os homens não admitiam faltar ao trabalho para ir numa consulta sem que estivesse "morrendo" ou tendo um problema que o impedisse de trabalhar.

Seria mais fácil se você soubesse que até o super homem fica doente.

As escolhas

Ao longo da minha ainda breve carreira médica, escolhi me especializar numa área onde a maioria das doenças não oferecem risco iminente: a dermatologia. Nesta área, o incômodo de um paciente por um determinado problema pode ser óbvio ou extremamente subjetivo. É fácil aceitar que homens com dores, coceiras ou descamação muito extensas na pele procurem assistência especializada, mas não é tão simples para o próprio homem e seu médico aceitarem que existirão consultas por falhas na barba, queda de cabelos ou espinhas que não melhoram ao longo de anos, apenas para citar algumas das mais de 3 mil doenças descritas da área.

O que importa é que seja a dermatologia, a cardiologia, oncologia, psiquiatria, ortopedia ou qualquer outra área da medicina, as histórias se repetem. São médicos e pacientes que não sabem lidar com a nossa própria fragilidade enquanto tentam se enganar e se revestir de um poder ilusório com frases do tipo: 'só adoece quem faz exames' ou 'quem procura acha'.

Olhando por uma perspectiva macro das coisas, não é surpresa se eu te contar que a presença de mulheres em consultórios e hospitais é muito maior. Como profissionais, pacientes ou simples acompanhantes, em geral, as mulheres lidam muito melhor com a noção de fragilidade da saúde e se utilizam muito menos da ilusão de controle e poder as quais os homens são submetidos desde cedo.

Torna-se evidente uma falta de habilidade comunicativa entre os homens e como isso afeta seu dia a dia, subjugando até mesmo sua própria saúde. Conversas entre pais e filhos sobre assuntos como o cuidado com seu próprio corpo e mente são tão importantes como cada vez mais raras. Seja por ausência física, distanciamento emocional ou simplesmente por subestimar a importância disso, homens vêm sendo criados geração após geração sem saber como demonstrar preocupação ou fraqueza.

Assim sendo, nós vivemos num constante transtorno de personalidade bipartida semelhante ao de Dr. Jerckyl e Mr. Hyde (no livro O Médico e o Monstro) no qual devemos estar socialmente apresentáveis e saudáveis no trabalho e nas festas o tempo inteiro, ainda que uma dor ou incômodo pelo que quer que nos acometa nos corroa por dentro. Nesse sentido, seguimos passando adiante esses papéis e empurrando aos nossos pais, filhos e amigos o conceito "engula sua dor" ou "só procure um médico quando não houve outra opção" ainda que nós nunca tenhamos verbalizado uma dessas frases na vida.

E se a gente assumisse que nossas fraquezas dão as caras de vez em quando?

Um pacto

Escrevo este artigo agora, no mês de novembro, onde existe uma grande campanha em favor da saúde do homem. Por mais que haja uma discordância a respeito da eficácia do uso das cores em cada mês, acredito em tentativas como esta de estimular uma discussão sobre os cuidados com a saúde masculina que ajudam a promover mais qualidade de vida para todos nós sem ofender a virilidade e os níveis de testosterona de cada um.

A medicina se dedica ao estudo das doenças, descrevendo-as a fundo em todas as suas variações e alterações e buscando soluções para cada problema da melhor forma, mas de nada vale tudo isso se não atinge seu objetivo fundamental que é o de cuidar das pessoas. Por mais avançados que estejam os tratamentos e diagnósticos nas diversas áreas, se os pacientes não estão chegando aos consultórios para encontrar essas soluções então todos nós, profissionais da saúde, estamos falhando em nossas missões.

Entretanto, sei que apesar desta ser a nossa missão, justamente por ser um problema de causa maior, precisamos da ajuda de todos. E um bom jeito de começar é cuidando de nós mesmos. Por isso, proponho um pacto: que tal nunca mais levar seu carro para a revisão antes de você mesmo fazer uma?


publicado em 21 de Novembro de 2016, 18:24
Gustavo autor

Gustavo Machado

Menino, homem e médico baiano. Quer propor um pacto pela saúde dos homens.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: