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Como se arriscar em segurança | Entenda o poder dos ambientes seguros de aprendizagem

Com suporte adequado (e sem julgamentos), riscos e exposição abrem caminho para incríveis descobertas em jornadas de educação ao ar livre

Era uma noite agradável, depois de um lindo pôr do sol refletido na água. Estávamos sentados em roda. No centro, vários ingredientes se espalhavam em nossa mesa montada no chão de terra sobre uma lona plástica. O cardápio era pizza, e o grupo barulhento de meninos — cerca de uma dezena, entre 10 e 13 anos — estava preparando a comida seguindo as orientações dos instrutores (eu e meu colega). 

Foi neste momento alegre e solto, com o papo rolando sobre pratos favoritos que vejo algumas lágrimas escorrendo na face de um dos meninos. Todos reparam e ficam em silêncio por longos cinco segundos. 

Era uma jornada com foco nos primeiros em garotos entrando na adolescência, e já estávamos no fim do terceiro dia de uma expedição da Outward Bound Brasil (instituição especializada em unir aventuras na natureza com aprendizagem experiencial).

Por uma jogada do acaso, tínhamos um grupo formado apenas por meninos — um fato raro, que nos deixou um tanto preocupados na véspera da nossa partida a campo. Precisávamos tomar cuidados extras com a segurança. Não exatamente a física, mas a emocional.  

Programas de experiências ao ar livre, seja com garotos ou adolescentes, tendem a oferecer experiências poderosas, semelhantes a rituais de passagem ancestrais. Costumam durar entre 4 e 12 dias, que são vividos intensamente, longe da família e da civilização. 

Durante esse tempo, eles aprendem muito sobre como estar e viajar de maneira autossuficiente na natureza. Porém, mais do que isso, aprendem sobre a convivência em um grupo. Esta última que precisa conciliar esforços coletivos e criar uma rede de suporte (ou o que chamamos de Ambiente Seguro de Aprendizagem - ASA).

Criando um ambiente seguro:

Criamos um plano antes de iniciar a expedição que visava fortalecer o ASA desde as primeiras horas com o grupo: estabelecemos um contrato de convivência, feito logo no começo, e nos dedicamos a muitas conversas facilitadas em roda ao final de cada dia. 

Tínhamos como hipótese que, sem uma atuação deliberada nossa, eles poderiam facilmente seguir hábitos e padrões comuns em grupos de meninos dessa faixa etária, e descambar fazendo brincadeiras, provocações e até ofensas que acabariam inibindo ou constrangendo alguém que fosse mais tímido ou que tivesse passando por alguma dificuldade durantes os exigentes dias da jornada. 

Os desafios neste universo são sempre diversos. Vou destacar três desta expedição para terem uma ideia mais clara:

1) Como estávamos em uma aventura usando canoas canadenses, todos teriam de aprender a remar com o mínimo de proficiência (desafio físico). 

2) Além disso, eles tinham a missão de navegar sem GPS, usando apenas o mapa e a bússola para encontrar o caminho por um labirinto de ilhas (desafio cognitivo-espacial).

3) Por fim, todos deveriam se integrar no grupo (até então de desconhecidos) rapidamente, construir vínculos e, ao mesmo tempo, lidar (muitos pela primeira vez) com a distância do núcleo familiar, ficando dias sem contato (desafio relacional e emocional).

Naquela noite, apesar da conversa alegre durante os preparativos da pizza, esse desafio emocional veio a tona para um dos jovens. Ele, com apenas 10 anos, estava vivendo momentos difíceis em casa: um divórcio recente que já deixava um gosto constante de saudades misturado com tristeza. Em algumas conversas em outras rodas, isso já tinha surgido.

O grupo, para abrir espaço a ele, parou por alguns segundos o falatório. Foi aí que ele disse em só uma frase o que se passava.

— Lembrei do meu pai, que adora cozinhar comigo.

Mais algumas lágrimas escorreram. Outro garoto, talvez conhecendo melhor que ninguém o que se passava disse: 

— E que tipo de pizza vocês mais gostam de fazer?

— Calabresa, com certeza...

De forma acolhedora e natural, o espaço seguro para aquele sentimento foi sendo respeitado. As lágrimas puderam cair sem repressão ou banalização. E a conversa foi tomando outro rumo, cada um trazendo seu sabor preferido e fazendo perguntas sobre como iríamos assar uma pizza naquele fogareiro estranho. 

O Ambiente Seguro de Aprendizagem é peça fundamental no nosso processo de aprendizagem experiencial, pois é ele que permite que as pessoas se arrisquem, se exponham, sentindo que não serão julgadas ou ridicularizadas. 

As fases do grupo:

Em processos coletivos, estamos sempre alertas com a formação do grupo, com olhar atento a cada indivíduo. Costumamos dizer que todos grupos passam por três fases de desenvolvimento:

1) A Infância ou “Formação”: relações mais corteses e superficiais, busca por semelhanças; maior necessidade de orientação do facilitador

2) Adolescência ou “Tempestade”: desafios de poder e influência, conflitos e reações emocionais; campo fértil para aprendizados) e a

3) Maioridade ou “Realizando”  (mais coesão, trabalho em equipe respeitando diferenças, confiança evoluída e um convívio mais profundo).

Essa verdadeira sociologia de grupos faz parte de toda expedição de aprendizagem. Na prática, quem determina a ordem, os processos e as decisões é o próprio grupo. O facilitador observa e ajuda quando necessário,  permitindo, inclusive, tempo não estruturado para as pessoas.

Grupos em expedições são entidades vivas bastante complexas. A evolução não é linear. Envolve constantes mudanças e momentos de assimilação. E o que sustenta tudo isso é o ASA, nossos ambientes seguros de aprendizagem.

Uma verdadeira rede de suporte, para amortecer quedas e nos levantar quando precisamos. O sair da zona de conforto, que já virou chavão, ganha novas tonalidades quando estamos imersos nesse ambiente.  Tão simples e ao mesmo tempo tão poderoso. 

Outward Bound Brasil

A OBB é uma instituição brasileira sem fins lucrativos (que faz parte da Outward Bound internacional). A rede é pioneira em aprendizagem experiencial ao ar livre desde 1941, com programas abertos em formato de aventuras na natureza espalhados pelo Brasil e pelo mundo para todas as faixas etárias.

Os programas duram de 2 a 14 dias, são pagos, mas a OBB possui um Fundo de Bolsas ativo para os interessados que não puderem arcar com os cursos no Brasil. 

Para saber mais acesse o site deles ou acompanhe-os pelo Instagram e Facebook.


publicado em 11 de Novembro de 2019, 15:10
Rodrigo bastos jpg

Rodrigos Bastos

Trabalhei por nove anos na coordenação e gestão da Outward Bound Brasil. Antes disso, fui um engenheiro apaixonado por travessias em longas trilhas, escalada em rocha e educação. Nesta jornada, entendi como o ambiente e o contexto influenciam no comportamento e no desenvolvimento humano. Hoje ainda atuo como educador ao ar livre, quando não estou focado no meu trabalho como consultor em design organizacional.


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