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Como participar de grupos de masculinidades está mudando a minha vida

Sobre buscar novos referenciais entre pares.

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Ter um bom emprego, carro, casa, esposa, filhos e prover o sustento da família. Foi assim que aprendi, desde pequeno, como o homem deve formar a vida.

Tive sorte e fiz o check em todos estes pontos, mas não fui feliz.

Eu só trabalhava, todos os dias. E, ao final de cada jornada, me sentia deslocado. Algo estava errado. Estava num ambiente no qual eu não tinha contato próximo com meus filhos e esposa.

Quando tudo parecia estabelecido, num tapa só eu perdi empresa, carro, casa e me divorciei. Todos os pilares do bom homem me foram tirados. E, como era de se esperar, eu fiquei completamente perdido.

Após o divórcio, entrei num processo de depressão muito grande. Eu acreditava que deixaria de ser pai e que não era bom o bastante pra ser marido outra vez na vida. A sensação era de ser uma completa falha como homem.

A coisa toda mudou quando meu filho menor, com 3 anos na época, disse que me amava e que a minha presença com eles nunca foi tão gostosa – e eu estava com eles nos finais de semana apenas. Isso não estava certo.

Eu comecei a olhar pra mim e querer entender o que deu errado. Em meio a muita leitura,  uma força do amor dos meus filhos e a ajuda da namorada, comecei a aprender coisas e enxergar o quanto meu comportamento era nocivo para mim e para quem estava convivendo comigo.

Mas ainda assim, eu não sabia como fazer e não tinha referenciais de uma masculinidade saudável que pudesse seguir, até o dia de uma determinada roda. O anúncio dizia: “Equilíbrio emocional para homens”.

Alguém ouviu meu pedido e quando dei por mim, eu estava participando do curso com o Guilherme Valadares e outros 20 homens.

Ao término do curso, após aprender muito sobre emoções e me permitir desabar, entendi a importância de um grupo de homens. A partir daquela turma nasceu o primeiro grupo do qual fiz parte, o Peixaria.

Estar em grupo com outros homens é desafiador, pois ninguém sabe ao certo como fazer, o que falar e como manter a vontade constante. Aquela mania de ter controle de tudo não funciona ali.

Eu percebi que teria de abandonar o ego, o ímpeto de controlar e principalmente aprender a me colocar vulnerável, pois não há um líder no grupo. Eu estava entre iguais, independente de cargo, do time que torce e de quantas mulheres já teve na vida. 

O aprendizado nos grupos é constante e percebo que aqueles problemas que muitas das vezes penso ser unicamente meus são reconhecidos no relato de outro homem. Além disso, ouvir a forma com a qual ele resolveu tudo me dá suporte, um amigo para falar a respeito e a alegria de saber que não estou sozinho.

É muito divertido saber que nas rodas não vai rolar os assuntos clássicos de homem como futebol, carros e mulheres gostosas, mas sim paternidade, medos, incertezas e muito afeto e companheirismo.

Quem me conhece sabe o quanto eu mudei após estar num grupo com amigos homens. Apesar de estar divorciado, consegui com meus filhos uma relação tão boa que às vezes nem acredito. Ter forças para reconstruir a minha vida após a falência da empresa só está acontecendo pois tenho apoio de iguais que conhecem e trocam experiências comigo.

Mas nem tudo são flores.

Ficou muito mais difícil sustentar comportamentos emocionalmente imaturos. Quando você está em roda, todos enxergam além das suas autojustificativas e, com isso, acabam fornecendo bastante insumo pras sessões de terapia. Por mais que seja bem doloroso olhar com franqueza pra mim mesmo, tem sido muito positivo o processo de cura.

E acredito ser uma vigília diária, afinal, são mais de 35 anos vivendo de determinada maneira para dizer que a partir de agora sou um um homem perfeito. Não tenho essa pretensão e quando penso que sou um bom homem, percebo que ainda há muito o que aprender, amadurecer e mudar.

E, por falar em amadurecimento, sinto que as coisas começaram a mudar quando eu passei a me responsabilizar por cada atitude minha olhando para elas com intenção de mudar e melhorar.

​São muitas experiências proporcionadas pelo grupo. Daria um livro e não apenas um texto. O importante aqui é salientar a grandeza e necessidade de se colocar em vulnerabilidade dentro de um espaço seguro e de acolhimento, onde suas dores serão respeitadas e não vai haver aqueles comportamentos pejorativos que estamos acostumados.

Nós homens estamos nos conscientizando e precisamos nos espelhar e referenciar uns nos outros para conseguir romper padrões. Mas, para além disso, ganhei amigos e companheiros, aprendi a superar certos obstáculos e hoje me sinto um homem melhor. Longe de ser perfeito, mas sem dúvidas, mais capaz de me conectar e me fazer presente que o Paulo de antes.

Quem quer participar de um grupo de homens?


publicado em 07 de Junho de 2019, 15:51
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Paulo Miranda

Um quase engenheiro que se aventura na escrita, nos grupos de homens e em se encontrar no meio de tanta novidade que é estar fora do padrão. Amante de afeto e abraços.


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