Como nossas emoções podem ajudar em aprendizados e decisões

Vincular emoção e memória com aprendizagem nutre nossa existência e gera importantes transformações de comportamento

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Aparentemente somos bem diferentes uns dos outros, mas compartilhamos um grande “segredo” comum. Nossos aprendizados mais profundos e duradouros nascem das nossas emoções, que se conectam diretamente com a memória e, só depois, com as nossas ações e tomadas de decisão.

Desvendar esse processo foi um divisor de águas em minha vida. Depois de passar vários anos no exterior – de estudar biologia, economia, educação física, e me especializar em bioinformática –, de volta ao Brasil, descobri o universo da educação experiencial em aventuras ao ar livre. Foi em uma expedição da Outward Bound Brasil, entidade que é parte de uma rede internacional de escolas pioneira no assunto.  

Até aquele momento, quase uma década atrás, eu já havia percebido o impacto de colocar experiências como ponto de partida em processos de aprendizagem.

Foto por Outward Bound Brasil

O aprender fazendo fazia todo sentido no meu desenvolvimento cognitivo – aplicar uma conta de matemática em algo útil – e psicomotor – dominar uma nova modalidade esportiva, por exemplo. No entanto, foi na parte socioemocional que um novo horizonte se abriu para mim.

Quanto mais eu me conheço, quanto mais aprofundada é a minha noção de fortalezas e fraquezas, melhor eu interajo com os outros: entendo meus limites, consigo trabalhar autonomia, liderança e até questões mais complexas, como resolução de conflitos.

O ciclo de aprendizagem experiencial, apresentado no primeiro artigo desta série, explica bem isso. Avançando um pouco na sua interpretação, temos a seguinte - e potente - sequência: 1) Experiência concreta; 2) Observação reflexiva; 3) Contextualização abstrata; 4) Experimentação ativa. Voltando sempre ao número 1 (uma nova experiência) após o fim de um ciclo.

Podemos traduzir este caminho circular em algumas perguntas:

  • O que aconteceu?
  • Como eu me senti?
  • Por que isso se deu desta forma?
  • O que posso fazer agora?

Entendendo e praticando isso, sou capaz de desenvolver não só a mim mesmo, como também as pessoas ao meu redor. O próximo passo é replicar em outras áreas da vida.

Sim, esse é um processo possível na minha, na sua e na rotina de qualquer pessoa que embarque nesta jornada. Mas vamos dar um passo atrás, ou melhor, para dentro das nossas cabeças, assim revelamos um pouco do “segredo”, de como aprendemos com nossas emoções.

Como este aprendizado acontece:

Para começar, esqueça aquela tradicional noção de “equilíbrio entre razão e emoção”. Fisiologicamente, nosso organismo lida com estes pólos como uma gangorra. Quanto mais estamos conectados com questões emocionais menos conseguimos focar no racional e vice versa. Por exemplo, em uma situação de pânico, ativa-se os mecanismos de luta e fuga e dificilmente alguém poderá fazer cálculos complexos.

Não é difícil lembrar de momentos assim nas nossas vidas para ver como isso acontece na prática. O mais interessante, porém, são os caminhos que estas informações percorrem no nosso cérebro.

Foto por Outward Bound Brasil

Nosso sistema límbico, uma área cerebral mais central – e, do ponto de vista evolutivo, mais “antiga” – concentra atividades ligadas à emoção, memória, motivação e comportamento.

Na área mais externa, o neocórtex, processamos esta quantidade enorme de informação – uma espécie de “casca” ao sistema límbico, típica de primatas, animais sociais, que evoluiu com o passar do tempo.

Na parte frontal (atrás da nossa testa), o chamado córtex pré-frontal decodifica a nossa modulação de comportamentos, cognição e tomadas de decisão.

Processos de aprendizado têm tudo a ver com as conexões formadas entre estas duas áreas. E não é exatamente o número de neurônios, mas sim a quantidade de conexões feitas entre eles que importa (o que acontece via sinapses dos neurônios, a unidade básica do nosso cérebro).

É por isso que aprender é conectar. E a chave para isso está no nosso centro emotivo, localizado dentro do sistema límbico: que é o mesmo responsável por gerar memórias, em outras palavras, gerar aprendizados.

Quando consigo conectar um fato com uma emoção, o aprendizado é muito mais profundo e duradouro.

Neste sentido, aprender também é se emocionar.

Foto por Outward Bound Brasil

Vivendo de perto momentos de conexão e transformação há quase uma década não tenho dúvidas de que cada um de nós tem muito mais capacidades do que sequer imaginamos. Barreiras sociais, no entanto, costumam nos privar de experimentar todo esse potencial.

Assim que descobrimos isso nos libertamos, não somos mais os mesmos, e não nos contentamos mais com o mesmo. 

Estar aberto a esta jornada pode levar um tempo. Mas, internamente, a velocidade que tudo acontece é impressionante. Basta 15 minutos para uma nova conexão ser criada no nosso cérebro – o tempo de ler este texto, refletir um pouco, deixar seu comentário e compartilhá-lo por aí.

* * * 

Outward Bound Brasil

A OBB é uma instituição brasileira sem fins lucrativos (que faz parte da Outward Bound internacional). A rede é pioneira em aprendizagem experiencial ao ar livre desde 1941, com programas abertos em formato de aventuras na natureza espalhados pelo Brasil e pelo mundo para todas as faixas etárias.

Os programas duram de 2 a 14 dias, são pagos, mas a OBB possui um Fundo de Bolsas ativo para os interessados que não puderem arcar com os cursos no Brasil. 

Para saber mais acesse o site deles ou acompanhe-os pelo Instagram Facebook. 

 


publicado em 28 de Outubro de 2019, 05:30
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Andreas Martin “Fisch”

Diretor-Executivo da Outward Bound Brasil. Depois de coordenar o Azimute, um projeto social da OBB que atendeu 400 jovens em mais de 20 expedições ao ar livre, embarquei na missão de gerir a entidade no Brasil. Neste caminho, encontrei na educação experiencial ao ar livre o equilíbrio ideal entre aprendizado e aventura.


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