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Como gerenciar o inferno

“Seja bondoso, porque todo mundo que você encontra está lutando uma batalha difícil.”

Jordan Peterson é um dos pensadores mais relevantes da atualidade, alguém bem qualificado para falar de crise. Você pode ter ouvido falar dele em torno de alguma grande controvérsia em que ele se envolveu: desde a questão dos pronomes na lei canadense ou na entrevista com Cathy Newman.

Eu o acompanho há alguns meses e, neste meio tempo, já consumi mais de 100 horas de conteúdo que ele criou. É um daqueles pensadores profundos que sempre tem base para o que fala e toca em metafísica (como viver a vida) de modo mais ou menos objetivo. Não tem como fazer jus ao seu corpo de trabalho em um parágrafo.

Por enquanto, quero discutir o que ele sugere sobre como lidar com crises. Em seu novo livro, 12 Regras Para a Vida, uma seção específica me chamou atenção: como seguir nossa rotina quando acontece algo ruim? Especificamente, este trecho:

“As demandas do dia a dia da vida não param só porque você vai atingido por uma catástrofe. Tudo que você sempre fez ainda precisará ser feito.”

Embora seja professor de psicologia e tenha praticado no consultório por décadas, a experiência contada no livro tem um cunho bem pessoal. A filha de Jordan foi diagnosticada com uma doença autoimune que enfraquecia os ossos, atrapalhando a locomoção e até requerendo cirurgia para substituir os ossos do quadril e do tornozelo.

Este é exatamente o tipo de crise que precisamos enfrentar no dia a dia – porque não é algo que vai romper com sua vida por completo, mas vai gerar sofrimento na família inteira por anos. Todo o esforço de visitar diferentes médicos, investigar a origem dos problemas, a batalha diária com a dor e a dificuldade de locomoção.

Enquanto isso, a vida tinha que seguir. Jordan ainda tinha aulas para dar, alunos para orientar, provas para corrigir e pacientes para atender.

Antes do inferno, vamos falar sobre gentileza

Em novembro, passei por uma grave crise familiar. Agora no começo de fevereiro, outro estresse significativo. Durante a crise, eu vivia como se estivesse mergulhado em um sonho.

“Não é possível que isto está acontecendo. Aconteceu mesmo?”

Talvez você tivesse amigos com quem conversar, felizmente eu tive, mas conversar não vai curar a sensação. Você, por causa da crise, foi imerso em um mundo paralelo, surreal, sobre o qual você nem sabe comunicar para as outras pessoas.

E lá fora? A vida segue.

Durante o ápice do estresse, algo que notei foi uma certa falta de paciência, irritação, com coisas mundanas. Se alguém reclamava do meu lado sobre como um seriado estava demorando para liberar novos episódios ou como a carne estava malpassada e estragando o almoço, eu ficava irritado.

Pensava comigo mesmo “aqui estou eu, tendo que lidar com [crise x] e ele do meu lado reclamando de droga de séries”.

Parte deste sentimento era válido – eu estava com minha energia envolvida em um problema maior.

Parte do sentimento era injusto – não por causa da comparação, mas porque eu estava usando um critério meu para julgar contexto da vida de outra pessoa.

Parte do sentimento era raiva, “revolta com a vida”, porque existiam pessoas naquele momento cujo maior problema era o seriado ou o almoço.

Essa é uma reflexão profunda (talvez confusa?), mas extraí algo importante daí que vale compartilhar:

Imagina quantas pessoas você se relaciona no dia a dia devem estar passando por uma crise enorme neste determinado momento?

Do mesmo jeito que eu não tinha uma placa em cima da minha cabeça “passando por crise”, imagino que não é óbvio para nós, a maior parte do tempo, o que as pessoas à nossa volta estão enfrentando. Talvez um ente querido com câncer no hospital, talvez um cônjuge com depressão… a vida é algo profundo.

Essa experiência deu contexto a uma passagem que gosto bastante:

“Seja bondoso, porque todo mundo que você encontra está lutando uma batalha difícil.”

– Ian Maclaren

Talvez não todo mundo, mas adotar esta postura na vida vai garantir que você será gentil quando deve ser.

Como gerenciar o inferno, por Jordan Peterson

Jordan Peterson

O guia a seguir está bem conciso e é tático, para você sair daqui e já colocar em prática. Não expandi de propósito – no meio do inferno, o que mais nos ajuda é ação rápida e precisa.

Se quiser uma visão estratégica sobre crises e como entender melhor seu contexto, recomendo a leitura do guia sobre como enfrentar dificuldades.

1. Separe tempo para falar e pensar sobre a crise

  • Não fale a respeito fora daquela janela reservada.
  • Se você não limitar os efeitos da crise, ficará exausto e tudo vai espiralar fora de controle.
  • Você está numa guerra, com muitas batalhas; você tem que permanecer funcional em todas elas.
  • Se a preocupação surgir, lembre a si mesmo que você terá tempo para pensar a respeito na janela que reservou. A ansiedade será gerenciável quando seu cérebro souber que um plano existe, mesmo que não saiba os detalhes ainda.
  • Não faça isso à noite – o estresse vai bagunçar seu sono.

2. Mude a unidade de tempo que você usa para enxergar sua vida

  • Tudo se torna sobre hoje ou esta semana. Olhar para o futuro distante vai exacerbar sua ansiedade de passar pelo inferno.
  • “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mateus 6:34).
  • A passagem bíblica é mal interpretada com lentes hedonistas, de “vamos viver a vida sem se preocupar com o futuro”.
  • Quando analisada no contexto (do sermão na montanha), significa que é preciso acreditar que ,se você fizer o que está sob seu controle, as coisas vão se resolver de algum modo – que o foco da ação tem que ser o presente momento, os males do dia.
  • Mire alto, “alinhado com o céu”, aja de modo adequado, concentre-se no dia.

3. Coloque as coisas que você consegue controlar em ordem

  • Seja cuidadoso e metódico no que você consegue controlar.
  • Não deixe os hábitos desandarem ou ações pequenas, como arrumar o quarto, deixarem de ser feitas.
  • O Caos penetra na Ordem que você construiu na sua vida aos poucos – a crise não é desculpa para jogar o que foi construído pela janela. Se está sob seu controle, faça bem feito.

4. Não perca de vista a bondade do ser humano e a beleza da vida

  • É possível, sim, superar esta crise: pessoas são duronas, mais duronas do que imaginamos. Somos capazes de lidar com muita dor e perda
  • Nunca perca sua estrela norte – quando você perde, aí sim tudo desandou de verdade
  • Por pior que seja o contexto, (1) esteja grato por estar vivo, (2) lembre-se que tudo que você faz, por menor que seja a ação, importa e (3) revisite experiências que te deixem comovidos com a grandeza da vida.

Addendum: O que me faz lembrar da grandeza da vida?

Em uma nota bem particular, nos dias em que estou me sentindo mal e preciso lembrar do que há bonito no mundo, sempre assisto o episódio 9 e o episódio 11 (links em português) da série Cosmos, 1a versão.

O episódio 9, A Vida das Estrelas, trata dos tipos diferentes de estrela que existem, assim como seus ciclos de vida (uma paixão minha). Realmente coloca em perspectiva a vida humana diante a história de todo o universo.

O episódio 11, A Persistência da Memória, trata da transmissão de conhecimento e a grande maravilha que foi a invenção da escrita para a humanidade. Foi assistindo este episódio que tive o insight para escrever este texto.

* * *

E aí, acharam o guia útil? Como está a barra pra vocês? Como vêm lidando com as crises em suas próprias vidas?

A conversa segue nos comentários.


publicado em 20 de Março de 2019, 20:16
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Paulo Ribeiro

Marido, escritor e estrategista da In Loco Media. Escreve sobre filosofia e crescimento pessoal sem mimimi no portal Estrategistas e tem uma lista de recomendações de leituras para mais de 8 mil pessoas. Levanta peso do chão e está aprendendo data science do zero no Data Noob.


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