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Como editei meu primeiro álbum só com quadrinhos nacionais

Trabalho como editor de quadrinhos há sete anos e sou o responsável pela edição da revista de humor MAD há mais de 50 números. De uns tempos pra cá, o trabalho com o humor não me bastava e comecei a procurar novas formas de expressar uma série de ideias e histórias que vinham surgindo na minha cabeça.

Foi assim que desenvolvi meu interesse pelo quadrinho nacional independente e decidi me envolver ativamente na produção das minhas próprias HQs, mas existiam muitas barreiras a serem vencidas: desenvolvimento da escrita, contatos com desenhistas e capacidade administrativa. Até hoje, fico impressionado com alguns autores que são capazes de realizar muitas obras de qualidade de forma totalmente independente, como o Marcatti.

Recebi um convite do Papo de Homem para dividir um pouco da minha experiência e, com sorte, conseguir inspirar alguém pelo espartano caminho das histórias em quadrinhos. Por isso, decidi falar sobre meu mais recente projeto que misturou todo meu conhecimento de roteirista e editor.

Fazer quadrinhos de qualidade no Brasil é possível, mas não é nada fácil

Deu gosto de ver a coisa toda montadinha

Depois de publicar minhas duas primeiras revistas de quadrinhos independentes, Ditadura No Ar #1 e #2, percebi que precisava publicar mais HQs para desenvolver minhas habilidades de roteirista. Foi quando encontrei o edital da coletânea Imaginários em Quadrinhos da Editora Draco, que estava procurando histórias com 20 páginas de terror, fantasia e ficção científica. Por ser uma editora que sempre dedicou total atenção à literatura fantástica nacional e tem um trabalho criterioso de arte, edição, conteúdo e distribuição nas livrarias, percebi que era o lugar certo para plantar minhas sementes.

Sem falar que eles respeitam muito seus autores, coisa rara no mercado atual.

Conversei com o desenhista Dalton Dalts - que havia estudado comigo na graduação - e começamos a desenvolver algo pra antologia. Em uma semana, terminamos e enviamos o roteiro completo e três páginas desenhadas, de "A Revolução Não Será Compartilhada", para a Draco avaliar. Não demorou muito e o publisher Erick Santos entrou em contato comigo pra dizer que tinha interesse em publicar a minha história, que estaria no primeiro volume da publicação.

Empolgado, perguntei se poderia fazer mais dois roteiros pros próximos números com desenhistas diferentes. O Erick me deu carta branca para isso. Foi quando fiz: a distopia "Apagão", com o artista Camaleão, e a fantasia macabra de "Assassinato no Circo de Horrores". Ambas aprovadas de tal maneira que fui convidado para ser o editor do projeto.

Aceitei na mesma hora!

Juntando as peças

Com essa batata quente nas mãos, percebi que ainda faltavam muitas histórias para completar o álbum e teríamos poucos meses até o Gibicon, evento onde queríamos lançar a obra. Só me restou usar de toda a minha experiência como editor da revista MAD e os contatos que desenvolvi nestes sete anos na área de quadrinhos.

No final, reuni trabalhos de caras incríveis como Raphael Salimena, Alex Mir e Alex Genaro, mas completar o álbum não foi fácil.

Tanto que, perto da data do lançamento, um desenhista desistiu de publicar e tivemos que adiar o lançamento. Sorte que o Erick é um grande publisher e me falou:

Melhor ainda, Rapha, dá tempo da gente deixar o livro ainda melhor e mais bem cuidado.

O tempo extra nos ajudou a lapidar melhor a publicação e encontrar um substituto para o autor amarelão! Por sorte, consegui convencer o mineiro Jaum, que tinha três histórias excelentes que totalizavam em 20 páginas e o projeto pôde seguir em frente com ainda mais qualidade.

As possibilidades eram infinitas e aproveitei pra desenvolver um método de trabalho para dar prosseguimento aos próximos dois volumes, que envolvia produzir mais HQs do que era necessário pra fechar o álbum.

Foi com isso que pude colocar em prática tudo o que aprendi até em tão: chamei autores de extrema qualidade, formei parcerias entre roteiristas e desenhistas que não se conheciam, acompanhei roteiros da concepção inicial até o projeto final e fui um aliado criativo editorial pra equipe. Muito se reclama da falta de editores de quadrinhos no Brasil, daqueles que saibam desenvolver uma linha editoral e criar boas histórias em conjunto com os autores. Meu objetivo é chegar perto disso e fazer a minha parte para a expansão do mercado nacional de quadrinhos, mas nada disso teria sido possível sem a ajuda de caras como o Erick.

O ponto de vista do contador de histórias

No entanto, falando como roteirista, as coisas vão por outro caminho. A criação de histórias está diretamente ligada à capacidade de perceber a riqueza de tudo a sua volta e ser capaz de repassar essa emoção pras outras pessoas. Há cinco anos, tudo começou quando decidi fazer um curso de roteiro na Quanta Academia, onde estudei com os professores Octávio Cariello e André Diniz, dois monstros da HQ nacional.

Foi lá que aprendi diversas formas de narrar uma história em quadrinhos e a criar conceitos inovadores. Sem a colaboração desses mestres, teria um longo caminho pela frente, já que não temos nenhum tipo de graduação em roteiro ou escrita.

Meu processo criativo é bem complexo e costumo misturar diversos tipos de técnicas de pesquisa, construção e revisão dos roteiros. A primeira coisa que faço é acessar um banco de ideias: sejam cadernos de anotações, arquivos do Google Docs, comentários no Facebook  e até sonhos.

Depois, pego o conceito e vou ampliando dentro da minha cabeça até encontrar aquilo que chamo de universo da história, um mote que representa aquele mundo que quero narrar. Depois, vou escrevendo e lapidando, acrescento personagens, desenvolvo tramas, aplico diálogos e vou juntando imagens de referência pro desenhista.

Até que o roteiro começa a tomar uma forma final.

Gosto de trabalhar em conjunto com o desenhista, avaliando concepts, esboços e páginas no lápis para que a gente possa tirar o melhor da história. Qualquer roteirista que se preze deve tratar o desenhista como um irmão, parceiro de total confiança e selecionar a história que mais combine com os interesses pessoais dele, favorecendo sempre o clima para que as páginas sejam realizadas.

Isso daria um texto próprio, mas a grande dica é: roteiristas e desenhistas deveriam trabalhar como uma boa banda de rock. Sinergia, amizade, diversão e amor pelo resultado final.

Imaginários em Quadrinhos - Volume 1 será lançada no próximo 2 de março.


  • Onde: Geek.etc.br - Livraria Cultura (Conjunto nacional, Av. Paulista, 2073, próx. ao Metrô Consolação),

  • Quando: das 16h às 21h.

Lembrando que continuamos procurando roteiristas, desenhistas ou ambos que tenham vontade de fazer HQs de 20 páginas de terror, fantasia e ficção científica.


publicado em 01 de Março de 2013, 07:05
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Raphael Fernandes

Formado em história na USP, decidiu jogar seu diploma fora trabalhando como editor da revista MAD. Atualmente, também é analista de mídias sociais, roteirista e redator. Perde mais tempo lendo e escrevendo do que contando dinheiro. Twitter: @raphafernandes. Blog: www.contraversao.com.


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