Quer ser anfitrião de uma sessão independente de nosso novo doc "O silêncio dos homens" em sua comunidade? Se cadastre aqui! Já são mais de 300 pessoas voluntárias em todo o país.

Como ajudar meus pais se eu mesmo sou excluído da família e preciso de ajuda? | Mentoria PdH #39

"Como lidar com a necessidade de ajudar meus pais financeiramente, se eu ainda preciso de ajuda e não tenho mais aberturas e proximidade na família para tratar das minhas questões de pertencimento?"

  • Nossos atuais Mecenas:
  • 47 nh 1 png
  • Logo havaianas 130x50 png

"Olá pessoal! Vejo questões parecidas com as minhas na Mentoria PdH, mas como cada um vive uma angulação específica de certos problemas, vou trazer minha questão.

Meus pais envelheceram antes de eu poder ajudá-los, tenho 28 anos, sou gay (isso é um problema para mim na relação com eles) e moro distante, em outro estado, onde curso o doutorado com bolsa de estudos.

Desde cedo, segui meus objetivos de vida, que hoje se traduzem na carreira acadêmica (pesquisa e docência). Queria fazer isso antes que eu precisasse não apenas ser independente, mas também ajudar meus pais.

Sou filho caçula, o único dos meus pais juntos. Com outrxs companheirxs, minha mãe teve um filho e meu pai duas filhas. Sou bem mais novo que minhas irmãs. Em 2013, meu irmão faleceu, meu pai avançou na doença de Parkinson, que atualmente o tornou incapaz. Em 2016, minha mãe pediu o divórcio, que ainda está em andamento e é litigioso pelo estado de saúde dele e pelos conflitos que minhas irmãs têm com ela.

Uma de minhas irmãs cuida do meu pai. A outra irmã e eu ajudamos financeiramente. Há pouco mais de um ano, quando vim para o doutorado, vim com dificuldade financeira e, para manter os repasses mensais, tenho feito dívidas até com contas básicas (atraso em aluguel, em repasse da universidade, em conta de luz).

Agora, algumas contas já não são mais prorrogáveis, todas com juros e já tenho falhado nos repasses, o que me traz crises de ansiedade e uma vergonha que me faz até deixar de ligar para meu pai quando não repasso, com medo de cobranças, já que, quando atrasei poucos dias certa vez, minha irmã me ligou chorando e me acusando de tê-los abandonado. Meu pai mesmo não é consciente dessas situações. Só sabe que estou longe, fazendo doutorado, algo que ele incentiva e acha bom.

Financeiramente, fico pensando quantas decisões já tomei. Pedi demissão de três empregos e abri mão de dois concursos públicos em cargos efetivos para ter dedicação integral com bolsas de estudos em todas as etapas de formação até aqui. Ainda assim, sempre trabalhei durante a graduação e nos intervalos entre os cursos. Não me arrependo de ter feito assim, mas reflito que eu poderia já ter alcançado a estabilidade financeira que me falta agora que meus pais precisam, sob o custo de não fazer bem o que eu queria profissionalmente. Enfim, tomei mais decisões de risco e por intuição do que calculando onde ganharia melhor.

Nem só de finanças se faz meu conflito. Com meu primeiro namorado, em 2015, contei para minha mãe que sou gay. Até hoje ela não digeriu nem superou isso e bloqueou que eu falasse disso com outras pessoas da família, inclusive meu pai. Hoje, ele não tem mais como saber. E se eu falar, pode ou piorar seu estado emocional ou ele pode nem lembrar no dia seguinte. Fora disso, me sinto bem com minha sexualidade e gostaria de falar abertamente e normalmente sobre isso com as tias, os primos, a mãe... Mas ela exige que não, evita ao máximo falar a respeito e eu não consigo superar isso (nem deixando pra lá, nem burlando a exigência dela).  

Pode parecer que não há relação entre meus pais precisarem de minha ajuda financeira enquanto eu ainda não consigo suprir e o fato de eu ser gay e não ter a aceitação deles. Mas, o que sinto é que esse é um fator central, que não me permite, se não agir financeiramente em prol deles, ser mais próximo e permitir minha presença, que deve ser ainda mais importante. Não consigo estar presente sentindo que não sou bem eu mesmo que estou ali ao lado deles, em especial agora que estão separados. Sinto que esse foi um fator que me fez ir sempre para mais longe da família, o fato da não aceitação e de eu não saber lidar com isso.

Se eu pudesse sugerir um título para meu texto, eu imaginaria uma angulação desses dois conflitos: meus pais envelheceram antes de eu poder ajudá-los e de conversarmos sobre minha sexualidade.

Como ajudar meus pais? Como lidar com a necessidade de ajudá-los financeiramente, se eu ainda preciso de ajuda e não tenho mais aberturas e proximidade na família para tratar das minhas questões de pertencimento?

Bom, escrevi muito, mas também cortei muita coisa que falaria para não tornar tão mais enfadonho. Escrever assim já foi um bom exercício para refletir, independente de ser ou não publicado.

Gratidão,

João."

Complemento sobre o assunto:

Artigo do Frederico Mattos: Sustento minha família, mas quero viver minha vida | ID #75

Como responder e ajudar no Mentoria PdH (leia para evitar ter seu comentário apagado):

  • comentem sempre em primeira pessoa, contando da sua experiência direta com o tema — e não só dizendo o que a pessoa tem que fazer, como um professor distante da situação
  • não ridicularizem, humilhem ou façam piada com o outro
  • sejam específicos ao contar do que funcionou ou não para vocês
  • estamos cultivando relações de parceria de acordo com a perspectiva proposta aqui, que vai além das amizades usuais (vale a leitura desse link)
  • comentários grosseiros, rudes, agressivos ou que fujam do foco, serão deletados

Como enviar minha pergunta?

Você pode mandar sua pergunta para posts@papodehomem.com.br .

O assunto do email deve ter o seguinte formato: "PERGUNTA | Mentoria PdH" — assim conseguimos filtrar e encontrar as mensagens com facilidade.

Posso fazer perguntas simples e práticas, na linha "Como planejo minha mudança de cidade sem quebrar? Como organizar melhor o tempo pra cuidar de meu filho? Como lidar com o diagnóstico de uma doença grave?" ?

Queremos tratar também de dificuldades práticas enfrentadas por nós no dia-a-dia.

Então, quem tiver questões nessa linha, envie pra nós. Assim vamos construindo um mosaico mais amplo de assuntos com a Mentoria.

Essa Mentoria é incrível. Onde encontro as perguntas anteriores?

Basta entrar na coleção Mentoria PdH.

Mike, um presente pra você:

Vamos te enviar por email o ebook "As 25 maiores crises dos homens — e como superá-las", produzido pelo PdH.

Se deseja adquirir ou presentear alguém que possa se beneficiar, compre a sua edição aqui.

 

Para conhecer mais sobre o conteúdo do livro e tudo que vai encontrar lá dentro, leia esse texto.

Ao comprar o livro, você também ajuda a manter o PapodeHomem vivo.

Nosso rendimento com anúncios caiu drasticamente nos últimos dois anos, assim como aconteceu com toda a indústria jornalística, no Brasil e no mundo (a verba agora se concentra no Facebook e no Google). Como o que fazemos é para vocês e não para gerar o maior número de clicks com textos vazios, essa ajuda é essencial para nossa sustentabilidade.


publicado em 08 de Abril de 2019, 16:56
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: