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Café, a locomotiva

Lá vem o trem do café! Vem comigo?

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Parecia uma Locomotiva, um trem vindo em minha direção, sem freios. Meu coração parecia que tinha a bateria da escola de samba batucando ele. Com o carnaval dentro de mim, escutei lá dentro uma voz que gritava café café café café café café café café café café café café café café piuíííííí café café café café café café café café café café café café  piuííííííííí café café café café. Tinha sonhado. Abri os olhos, coloquei o chinelo ainda sem enxergar direito. Olhei para o relógio e fui para a cozinha.

Logo ao abrir a embalagem simples de papel pardo, eu senti. Era o cheiro que todo brasileiro sente. Todo dia. Bebendo ou não café, se você transita pela cidade, você sabe do que estou falando. Você já ouvi falar sobre o café? Sabe da importância dessa bebida no mundo, em nosso país, pertinho da sua região, na cafeteira da sua casa, ali na padaria da esquina?

Eu sinceramente tinha passado da época de tomar café, demorei a me apaixonar. Primeiro meu desafio foi com o amargor. Com açúcar, com adoçante, com mel, com qualquer doce, ainda vem o gosto amargo. Acho que foi depois da época da faculdade, comecei a trabalhar. Comecei a tomar café. Coincidência? Confesso, bebia meio forçado mesmo. Aquele shot mais forte que tequila. Preto, preto, pretinho. Brilhante e lindo.

Chega o momento em que o leite e o café se encontram, ôôô mistura romântica. A gordurinha do leite, quebra aquele amarguinho, tipo um sorriso num dia ruim. Fica meio chocolate, meio baunilha. Depois de um período enjoei da combinação. Digo isso depois de passar um bom tempo adicionando invencionices. Já viu como o leite parece um travesseirinho quando vem só aquela espuminha? Isso é um carinho. Mas, o café precisava seguir carreira solo.

No Brasil, a planta chegou de longe somente em 1795. Nativa da África, essa belezinha de árvore tem muita história para contar. O café que bebemos hoje foi quem forjou as trilhas de trem dentro dos estados brasileiros. Ficou coisa de roça, coisa de fazenda, muita novela conta em capítulos, uma mistura de estórias e histórias. Escrevo de terras que, com o café, foram fonte de riqueza para toda uma região. Em Ribeirão Preto, onde eu moro, desde 1870 o café é parte da cultura. Mas, depois da década de 20, mais especificamente em 1929, com a famosa crise, as coisas mudaram por aqui. A cana tomou conta do pasto, dos cafezais. Mas a xícara sempre continuou a se encher. Quem pode contar isso é o Museu do Café, em Santos. Lá tem uma bagagem boa. O Museu do Café aqui em Ribeirão tem uma situação bem crítica e só conta a própria história em sentido que a crise não terminou e continua sem forças. Hoje há muitas boas fazendas retomando o plantio e nos servindo cafés que se deixar vão todos para a exportação.

Voltemos as nossas filosofias e técnicas sensoriais.... E a combinação simples, óbvia e quase sempre necessária do café puro e o pão na chapa? Chega na padaria cedinho. É o primeiro estabelecimento de comidas e bebida que abre em todos os lugares do mundo. Padaria abriu, significa que todas as chapas por aí estarão estralando uma gordurinha no pão de trigo, no pão de queijo, no pão de miga, no pão de centeio, no pão.

O casamento perfeito em várias línguas e culturas. Pensou em como esta simples combinação começa o dia do trabalhador neste nosso universo? Tô aqui pensando em como esta deve ser a combinação mais feita no mundo e mais servida. Em casa ou fora de casa. Não tem briga com esses dois. Isso é amor.

Piuíííí me chama a chaleira enquanto ferve a água. As opções hoje para se extrair um café são tantas que eu nem consigo imaginar o quanto de pesquisa é feita para que cada vez mais a gente possa usufruir dessa bebida. Não preciso nem dizer o quanto hoje eu tenho apreço. Observo o café mais ao longe, muito além da fase onde o amargor me distanciava. Vou além do amargor e mergulho em cafés que me fazem salivar com sua acidez. Ultrapassei o preconceito de um café bem clarinho. Sou fã de torras claras e sabores frutados onde os sabores clássicos passam longe. Assim como o açúcar, que não tem mais lugar por aqui. Puro e só.

Enquanto a água quente abraça os pequenos grãos de cafés moídos e caem direto na xícara quente, penso que esse despertar do café conecta as pessoas e é isso que eu estou buscando entender nessa história toda de gastronomia. Você busca o quê logo cedo?

O trem está partindo, já bebeu sua xícara hoje?


publicado em 17 de Agosto de 2017, 00:00
Bio jpg

Bia Amorim

Formada em Hotelaria e pós-graduada em Gastronomia, com especialização em Sommelier de Cervejas. Está no Twitter (@biasamorim) e Instagram (@biasommelier), além do Farofa Magazine, projeto que nasceu para para atender a crescente demanda de comensais que gostam de harmonizar, aprender, conversar e filosofar.


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