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Brumadinho. E se formos além da criminalização?

O buraco é mais embaixo do que falar de criminalização. Fomos cooptados por uma visão que acredita que não há outra forma de viver, se não em prol do desenvolvimento econômico.

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Quando acontecem tragédias como o rompimento da barragem da Vale mineradora, em Brumadinho (MG), precisamos aprofundar a discussão de que tipo de vida e relação com o mundo queremos ter.

A discussão em relação a legislação, ao licenciamento ambiental, ao crime, é extremamente necessária? Sim. Mas podemos ir além disso e olhar em que cenários estas necessidades legais surgem e em quais não.

 

Fomos cooptados por um tipo de visão que acredita que não há outra forma de viver, se não em prol do desenvolvimento econômico.

Aceitamos a exploração do solo e da água em escala industrial, que por si só, mesmo que dentro da legalidade, permite danos ambientais. E só nos levantamos para cobrar alguma mudança quando a violência desse sistema explode em nossas caras, como em Mariana (MG), em Brumadinho, em Quintero (Chile). Esse é o nível da nossa cegueira, do nosso adormecimento.

E se nada disso acontece, seguimos achando que é assim mesmo, não há nada a ser feito, que não há outra opção a não ser respirar um ar poluído pelas mineradoras que cumprem todas as normas legais e liberam material particulado dentro dos parâmetros estabelecidos como aceitáveis.

Continuamos bebendo água com níveis de metais pesados dentro da legalidade. Continuamos comendo alimentos com níveis de contaminação por agrotóxico abaixo do que é autorizado por lei. E sim, abaixo do permitido por lei, porque esses valores não são estabelecidos valorizando a vida e deveriam ser questionados — como essa excelente reportagem sugere.

Que visão é essa que determina o quanto a vida pode ser tolhida?

Que visão é essa que contabiliza um valor de multa para um ecocídio? Que visão é essa que, em meio a tantas mortes, analisa o quanto as ações da Vale despencam?

E se a gente deixar de naturalizar os riscos decorrentes desse tipo de ação exploratória e começar a enxergar que por trás disso está a não valorização da vida?

E se a gente começar a se propor olhar para outras formas de viver nesse mundo? E se reconhecemos que precisamos tratar a vida humana, não-humana, a Terra e tudo o que existe nela e fora dela com extremo respeito e consideração? E se nos focamos em observar o que realmente precisamos para viver bem e o que é desnecessário?

E se questionarmos a visão das corporações que colocam o lucro como mais importantes que as vidas?

 

A visão dos povos indígenas: "se você tira e não põe, não é sustentável"

Essa proposta de sonhar outras formas de viver pode parecer um pouco etérea, então um exemplo pode ajudar a imaginar outras bases de relação com a Terra e seus habitantes, como a visão dos povos indígenas:

“A grande diferença que existe do pensamento dos índios e do pensamento dos brancos, é que os brancos acham que o ambiente é ‘recurso natural’, como se fosse um almoxarifado onde você vai e tira as coisas, tira as coisas, tira as coisas.
Pro pensamento do índio, se é que existe algum lugar onde você pode transitar por ele, é um lugar que você tem que pisar nele suavemente, andar com cuidado nele, porque ele está cheio de outras presenças. Então não existe o ‘meio-ambiente’, um lugar aonde que é o ‘meio-ambiente’.
‘Meio-ambiente’ é o almoxarifado, é um depósito onde você tira. Você tira minério, você tira floresta, você tira água. Você bombeia tudo, exaure. Isso é o ‘meio-ambiente’. Essa visão de ‘recursos naturais’ que foi consagrada como ‘o meio-ambiente’, e que o próprio programa das Nações Unidas para o ‘meio-ambiente’ durante muito tempo deu curso a essa ideia de que o ‘meio-ambiente’ são os ‘recursos naturais’.
E mais tarde com esse negócio do ‘desenvolvimento sustentável’ eles tentaram fazer um conserto de que ‘é o desenvolvimento sustentável, os recursos naturais devem ser renováveis’. Ora, pro pensamento próprio mesmo do povo indígena não há nada sustentável naquilo que é chamado de economia. Na economia não existe nada sustentável, porque ela supõe que você vai saquear a terra, você vai tirar coisas. Se você tira e não põe, não é sustentável.
Tem uma expressão que diz assim: se você for a uma fonte, se você for a uma nascente, e se abastecer de água ali, você tem que ter certeza que passadas cinco gerações, seis gerações, a sétima geração vai poder ir àquele mesmo lugar e pegar água com a mesma qualidade. Isso é a ideia que poderia ser considerada como ‘sustentável’.
Acho que vocês já ouviram isso né? Então, qualquer recurso que você se apropriar dele hoje tem que estar disponível sete gerações depois da sua pra ele comer, beber, experimentar, com a mesma qualidade que você. Sete gerações.
Se a gente olhar nossa paisagem, vocês acham que sete gerações atrás os nossos antepassados estavam vendo a mesma paisagem que nós vemos hoje? Quem roubou a nossa paisagem? (…)
Então, se nós somos capazes de nos desfazer da paisagem a ponto de daqui a cinco gerações, seis gerações, sete gerações, os nossos netos, bisnetos e tataranetos, não terem mais a mesma possibilidade de enxergar aquela paisagem, como é que nós estamos dizendo que nós somos sustentáveis?
Que sustentabilidade que tem nisso?”
— Ailton Krenak (vídeo completo)

A visão do budismo também questiona a estreiteza da nossa sociedade industrial que aposta as fichas em áreas de proteção ambiental. Segue abaixo uma fala do Lama Padma Samten, que já apareceu outras vezes aqui no PdH:

“Às vezes, quando vou conversar com as pessoas no âmbito da proteção ambiental eu também desenvolvo essa visão crítica. Não que eu ache que o movimento ambiental em si mesmo não tenha uma boa motivação, ele tem.
Mas, quando eu olho o movimento ambiental dos países de primeiro mundo, por exemplo, vejo eles mais ou menos na situação dos mosteiros. Por exemplo, ‘se a gente constrói alguns mosteiros, e tudo bem, o resto pode ser como for’. ‘Proteção ambiental é um assunto de Reserva Natural’. Mas não é! 
Proteção ambiental é um assunto de cada metro quadrado. Então é super importante que quando nós estamos operando dentro de uma perspectiva de proteção ambiental a gente não pense que temos que fazer alguma negociação. Cada metro quadrado importa para nós. Esse é o ponto.
Nós temos que manter o planeta equilibrado. Tem uma série de visões que podem se desenvolver a partir disso. Mas essa seria uma visão que ultrapassa a noção da legislação e a noção das áreas de reserva. Então a gente precisa ganhar o coração das pessoas, ganhar a mente das pessoas. Cada pessoa deveria cuidar de que os lugares onde ela cruza fiquem melhores no próximo ano que no anterior.
A gente não deveria pensar: ‘eu posso destruir aqui porque em outros lugares está tudo bem, e eu faço uma compensação’ e que no fim, não acontece.”
— Lama Padma Samten

Então, precisamos ter um olhar crítico capaz de ver as limitações destas abordagens que focam apenas em criminalização após um desastre e reconhecer que não há vida que não deva ser cuidada, que não há terra que não deva ser valorizada. A todo momento.

E, a partir desse chão comum, como podemos olhar adiante e encontrar formas de viver bem neste mundo?


Deixo a indicação desse vídeo da Sabrina Fernandes que explica tão bem que o buraco é mais embaixo que falar de criminalização. Esse buraco envolve todos nós mudarmos a forma como enxergamos o mundo em que vivemos e como vivemos. Isso não quer dizer não punir a Vale.

Dentro do cenário em que vivemos isso é o que deve ser feito. Mas vide Mariana e tantos outros casos, sabemos que isso não é suficiente nem eficiente.

Link YouTube


publicado em 30 de Janeiro de 2019, 14:43
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Polliana Zocche

Destina seu tempo e energia para movimentos que buscam transformar nossa relação com a Terra e com todos os seres. Trata sobre isso no Trabalho Que Reconecta e em suas redes (@pzocches). É caseira do lugar e 1001 utilidades na Revista Bodisatva.


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