Começa amanhã (quinta) às 19h nosso curso de equilíbrio emocional para homens. Últimas vagas!

Breaking Bad na semântica

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Um amigo perguntou como traduziria esse título: Breaking Bad.

Veio a música na cabeça, não veio não?
Veio a música na cabeça, não veio não?

Creio que a opção correta seria não traduzir, mas posso sugerir algumas ideias que denotam o espectro semântico por uma espécie de sondagem ao longo de várias ideias.

To break” significa “quebrar”, mas, como sempre em palavras de etimologias distintas, não é “quebrar” em qualquer sentido, ainda que haja alguns sentidos em que nosso “quebrar” possa (remotamente, mesmo por analogia) servir. “Um homem moralmente quebrado”, não se usaria em português, mas se entende.

Há também um sentido de romper ou irromper – passou de um limite, violou uma regra; como se diz em português, talvez já anglicizado, “quebrou a barreira do som”. E “to break” também significa frear, parar bruscamente.

Porém, a não ser que estejamos nos referindo ao personagem ter seu desenvolvimento natural violentamente alterado em alguma direção, e estagnando ali, seria difícil colocar também esse sentido no título da série. Mas… sob certo ângulo pode ser que isso sirva também.

O fato é que Walt, um suburbano professor de química no ensino médio, se desvirtuou. A vida dele primeiro “foi para as cucuias” (“broke bad”) quando ele descobriu (spoiler para quem nunca viu a primeira temporada) que tinha câncer de pulmão e pouco tempo de vida. Depois ele “ficou malvado” (“broke bad”) quando decidiu sintetizar metanfetamina, “cozinhar meth” – e quando matou pela primeira vez; e então cada vez mais “rompeu pra valer” (“broke bad”) os limites morais, envenenando crianças e coisas do tipo.

No próprio processo de fabricação da metanfetamina, um bloco cristalizado é “quebrado” em pedrinhas azuis, e o som que a pedra faz ao ser queimada -- no uso mais comum -- fumada em cachimbos de vidro ou alumínio (ela também pode ser cheirada na forma de pó e injetada na veia), é o mesmo som que dá nome ao “crack”, uma droga talvez um pouco menos nefasta, da pedra “quebrar” (faz um craque, de estalido de quebrado, se preciso ser bem especifico) com o calor da queima.

Todas estas coisas são também uma “quebrada ruim”, não é mesmo?

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Também nos remete às vidas quebradas dos usuários, e porque não dos traficantes e também dos policiais -- podemos imaginar qualquer um deles falando, seja ao fumar um cachimbo ou ao se deparar com as tarefas da violência, ao se tornar vítima e agressor num mundo cão, dizendo para si mesmos “este mundo está breaking bad”, “essa dose está breaking bad”, ou mesmo “nosso cozinheiro está breaking bad”: o mundo está se despedaçando para valer, a droga está particularmente efetiva, nosso químico tá pirando.

“Bad”, como o leitor já deve ter percebido pelos exemplos acima, é tanto um enfatizador quanto um qualificador moral. É “quebrar para valer”, “quebrar mal”, “quebrar na direção do mal”.

Mas é o gerúndio, o quebrando do ing do “breaking” que revela o fato de que ele -- Walter White, o protagonista -- está caindo num abismo moral, e que ele ainda não terminou de cair. Alguns comentários sobre o fim da série acreditam que ele possa se safar de alguma forma: mas se ele não morrer, só o vejo em terrível sofrimento, preso como Sísifo, mas na tarefa de fabricar metanfetamina – com toda a família refém ou morta.

Ainda assim, é provável que ele morra, em grande sofrimento – com várias outras mortes ao redor (como já está se configurando). Os roteiristas podem até preferir uma tragédia irônica; porém, não se engane quem se animou com a energia de Walt tentando dar a volta por cima – só que por baixo.

A tragédia começou no primeiro episódio.

* * *

Podemos fazer duas reflexões sobre essa questão de tradução de títulos.

Primeiro, que algumas vezes o tradutor precisa mesmo dar outro título. O problema é que esse outro título (em fílmes, por exemplo), muitas vezes é bem inferior ao original (além de diferente). Se o título, diferente, com algumas ideias em comum (afinal é a mesma obra), for ao menos bom, então... acho que não tem outro jeito.

"Tradução chinesa", isto é, paráfrase. Quanto menor a unidade semântica (palavra, expressão de duas palavras, etc) no mais das vezes não dá para exigir um grau de exatidão muito grande. Particularmente, quando não há correspondentes de mesma raiz etimológica (mesmo quando há, pode dar problema).

A outra alternativa é simplesmente aceitar que o inglês é língua franca, o que é mesmo. E daí não traduzir.

Link YouTube | Com a música é bem melhor

Nota do editor: o Alexandre Inagaki, que escreve no clássico Pensar Enlouquece (pense nisso), fez uma pesquisa bem interessante e escrveu o artigo Os piores (e mais divertidos) títulos traduzidos de filmes, que você já deve ter visto em algum lugar nas suas timelines.


publicado em 20 de Setembro de 2013, 01:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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