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Autoajuda quem? | WTF #38

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Este texto da coluna WTF analisa criticamente o fenômeno pós-moderno do “desenvolvimento pessoal” como indústria e objeto de consumo.

* * *

“Autoajuda” é uma expressão enganosa por mais de um motivo.

Primeiro, o óbvio, é que a ajuda prometida nunca é realmente autossuficiente, verdadeiramente independente. Afinal de contas, estamos participando de um seminário, grupo continuado, ou no mínimo em contato com um texto escrito por outrem. Mas essa publicidade de independência não é só enganosa em termos do óbvio, de que a ajuda não vem só de dentro, mas de que essa ajuda seja isenta, desinteressada, livre de identificação com alguma ideologia.

O consumidor de autoajuda essencialmente busca não se filiar, não se comprometer, não abrir mão de sua suposta liberdade – ainda que seja justamente isso que ele faz, porque autoajuda (quando é bem sucedida) é, no fim das contas, acima de tudo, publicidade e relações públicas, que basicamente tem a mentalidade de nos oferecer brindes para que assinemos revistas. “Não, você não precisa pagar nada, mas por via das dúvidas, coloque seu cartão de crédito aqui. Depois você cancela.”

Imagem por: oliandstine.com
Imagem por oliandstine.com

O segundo motivo é que o próprio termo já entrou no moinho dos sentidos pejorativos acumulados ao longo de décadas de modismos que se sobrepuseram uns aos outros. Ainda há autoajuda descarada, mas a maioria dos gurus da autoajuda hoje não usará o termo, criará seu próprio, talvez com marca registrada (mesmo isso já obviamente brega por si só) – e nem vou adentrar nas miríades de formas que conheço, para não acabar na discussão “mas o que eu faço, no fundo, não é autoajuda”.

Eu mesmo deliberadamente evito ao máximo dar chance para ser caracterizado dessa forma, mas sem dúvida o leitor escrupuloso encontrará textos meus com algum tom de autodesenvolvimento, melhoria pessoal, e assim por diante. Aqui neste mesmo texto, embora eu, em todos os casos, explicitamente tente evitar o estilo mais óbvio de “tutorial da vida”, há reflexões que pretendem levar a um melhor entendimento de si próprio com relação a certos conteúdos com que inevitavelmente todos nós vamos nos deparar. A partir daí, pode haver “mudanças” com a leitura, e coisas podem ser encaradas de outra forma – o que pode ser enfim visto como um resultado de aperfeiçoamento pessoal!

Mas não acho que alguém que seja tão facilmente “tocado” por algo que é escrito, não o seja logo em seguida. Então a esperança de que alguém diminua seu consumo de autoajuda por conta de algo que eu escrevi soa bastante descabida.

Além disso, também aqui neste texto temos viés ou “ideologia”, a saber, uma perspectiva um tanto ranzinza contra a salada de certo blablablá terapêutico (“psychobabble”), ou dicas de revista sobre como lidar com aspectos profissionais, pessoais e até espirituais.

Por baixo disso tudo, jazem, enfim, meus grunhidos de desapontamento e reprovação, ao longo das décadas, com títulos de livros e conversas de bebedor sobre um ou outro sistema ou autor, e-mails, capas de revista e chamadas de sites – a própria existência da sessão na livraria. Além de ideologia ou simples opinião, há provocação, talvez algum sensacionalismo. Mas isso caracteriza muito texto que não tem natureza de autoajuda, então não é o caso.

De fato, tenho esse texto em mente há muito tempo, mas – pasmem – decidi que precisava examinar em mim mesmo de onde vinha essa aversão aos sisteminhas e sistemões de lifehacking, e, particularmente, os mais voltados a sucesso em empreendimentos ou como empreendedor. De onde viria esse desprezo pontificado e continuado por desde as dicas frívolas e sem pretensões de periódicos, passando por dietas da moda, até sistemas de 12 passos e terapias que, sem dúvida, possuem alguns méritos?

A resposta fácil era o simples elitismo.

Como alguém que busca uma visão estética e espiritual da vida, os fenômenos populares, de viés publicitário e sem sutileza ou sofisticação muitas vezes me causam repulsa, ou no mínimo, quando eles me atraem, uma sensação de prazer secreto, cheio de culpa. Mas não era só isso, mesmo porque eu não tenho aversão específica para com uma série de fenômenos que agradam as massas, desde que eles não me incomodem ou afetem diretamente – se a pessoa gosta daquilo, eu posso achar que é um simplório, mas não me incomoda, não reverbera na ruminação cotidiana – como algumas vezes reverbera, negativamente, a cultura da autoajuda.

Com relação ao elitismo preciso frisar que ele existe por todo lado: as pessoas que apreciam as coisas mais desprezíveis frequentemente desprezam tantas outras coisas quanto o próximo. Musicalmente, por exemplo, me considero eclético – gosto de tantas coisas que envergonhariam a maioria das pessoas – porém já vi gente escrevendo que o próprio ecletismo hipster, tão em voga hoje, é só mais uma forma da gente se sentir superior as outras pessoas que desprezam certos estilos musicais… digo isso porque eu apenas reconheço o elitismo operando, o considero moralmente neutro – podendo ser integridade e autoestima cultural, ou mero esnobismo.

Após examinar bem, foi fácil verificar que não se tratava, principalmente de elitismo, embora, é evidente – pela efetiva vulgaridade estética e intelectual geralmente associada a tais empreendimentos –, que alguns traços signifcativos dele sejam compreensíveis.

Além dos traços de elitismo, após algum tempo consegui identificar dois elementos que explicam minha perturbação perante a cultura de autodesenvolvimento.

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O primeiro deles é bastante pessoal, e diz respeito a eu me considerar um praticante da religião budista – que, reconheço, é também um sistema de “autoajuda” – mas vasto, antigo, com o peso de civilizações, e enfim, tradição. Com um histórico de milhares de cases onde sua eficácia e eficiência (em produzir os fins a que se destina) foram comprovadas repetidas vezes. E, até aí, isso poderia ser novamente só intolerância religiosa de minha parte, mais insidiosa porque misturada com aquele elitismo que também confessei. Apenas orgulho do próprio time de futebol com uma bela urinada mamífera sobre o território do outro.

O segundo, no entanto, é uma tensão que eu, que cheguei a autoconsciência intelectual nos anos noventa (i.e., ler, anotar, pesquisar), vivi bastante pessoalmente, a tal da pós-modernidade. E essa tensão tem um pouco a ver com minha conexão com uma tradição efetiva, o exato oposto da pós-modernidade.

Embora a linha que divide a modernidade da pós-modernidade seja um crossfade de talvez mais de século – de Dom Quixote a Joyce OU de Tristram Shandy ao humor (pobre) de referência de Family Guy – em algum lugar nesses 500 anos, num ponto difuso que pode incluir todos os 500, a “modernidade se anteriorizou”.

Quem me lê – e veja só aqui o depoimento em meio ao arrazoamento, o salto quântico metaforizado e autorreferente – sabe que minha relação com o pós-pós é de amor e ódio. Está certo que concordo que é algo que teve seu ápice, penetrou toda a esfera cultural, nos anos 90, e há décadas já se tenta falar sobre o que vem depois dessa singularidade de hiperintertextualidade e hipsterismo irônico pseudão. Então ao mesmo tempo que anseio por largar essa gosma toda, é a ela que me refiro vez após vez. É uma areia movediça, que a princípio pareceu excitante e renovadora, mas a que agora estamos presos enquanto cultura.

Mas, e aqui voltamos à questão da “ajuda automática”, se a modernidade fez nascer o sujeito (de Descartes a Kierkegaard), a dança Nietzscheana do individualismo exacerbado e da existencialista “construção” de si mesmo marcou o século XX. A autoajuda é a filosofia industrializada, massificada e com propaganda na TV. De fato, boa parte da autoajuda vai se vender como exatamente aplicabilidade, simplificação, modernização da sabedoria atemporal. Para quê plantar e moer o próprio trigo, se podemos comprar um pacotinho de plástico com pão fatiado? Por apenas uns poucos reais, você tem esse produto padronizado, pasteurizado, conveniente.

Gurus da autoajuda me diriam “mas não há como esse pessoal se engajar, como você se engaja, em fazer meditação e retiros, e, além disso, ninguém quer se filiar, não soa bem ser isso ou aquilo” e completariam “vamos beneficiar essas pessoas com algo mais palatável, mais conveniente, sem filiações, ‘no strings attached’.”

Como pela minha analogia já deu para perceber, por mais que seja conveniente e impensável voltar aos modos anteriores, perdemos algo com a massificação e superprocessamento da “sabedoria”. Como com a comida, perdemos contato com algo bastante relevante no que diz respeito a sua manufatura, a sua posição efetiva como prazer e sustento. Comemos porcaria, porque é mais fácil, parece mais prazeroso e é, muitas vezes, mais barato e sem dúvida (temos que reconhecer) mais conveniente.

A tensão pós-moderna é efetivamente esta: voltar aos modos anteriores é impossível, por mais que reconheçamos que as ferramentas de transformação pessoal (essa própria ideia invenção, ao menos no ocidente, da pós-modernidade) sejam cada dia mais pobres, daninhas, envenenadas.

O cínico diria que quem ganha com a autoajuda é quem escreve o livro e faz o seminário, esta é a única forma de se beneficiar com ela. É difícil dizer, porque o benefício de sistemas desenraizados (não tradicionais) é ele mesmo fruto necessariamente de alguma ideologia subjacente, que muitas vezes é deliberadamente ofuscada.

A cultura do empreendedorismo quase absolutamente se enquadra nisso: quantas e de que tipo são as premissas ocultas, dadas por garantidas, quando alguém começa a se engajar com esse tipo de material? Ora, pelo menos um manual de poker deixa claro que o objetivo é ganhar mais frequentemente no poker. Mas nenhum deles, que eu conheça, estabelece o poker como finalidade eudaimônica.

A natureza da autoajuda, por outro lado, é transformar todo o seu discurso em uma aplicação universal: há um sabor (relacionamentos, dinheiro, dieta e saúde, sucesso) mas no fundo o que está sendo vendido é “xarope de milho”, sentido e finalidade na forma de um engajamento particular, não analisado sem profundidade. Altas calorias, baixa nutrição.

O curioso é que a própria natureza simultaneamente velada (ideologicamente) e explícita (“vamos simplificar tudo”) da autoajuda é seu apelo.

Afinal, qualquer conteúdo humano é um engajamento com nossa humanidade, mas a autoajuda precisa deixar explícito que ela está aí para “ajudar”. Os romances de crescimento pessoal (bildungsroman), peculiarmente modernos, eram suficientemente óbvios em estabelecerem-se como analogias para as experiências do leitor, fossem quais fossem. Na pós-modernidade, esse tipo de já escancaramento, é visto como extrema sutileza, uma vez que o que a autoajuda quer prover são listas, receitas de bolo, fluxogramas.

Imagem por oliandstine.com
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Seguindo com minha analogia de fast food para a angústia espiritual, nem é um pacote de fermento com farinha para preparar em casa, e nem mesmo um pão congelado que se precisa tirar do congelador e colocar no forno: é o pão de saquinho, código de barras, “beep”, com gosto de papelão. (E, indo além, o cúmulo dos cúmulos é o sujeito que tem preguiça de ir ao McDonalds e come o fundo do poço da cadeia alimentar: o hamburguer pronto congelado!)

Em certo sentido, é o oposto da tradição de koans, por exemplo. Ora, o koan é um problema insolúvel, mas que você também não quer largar. Então você passa anos lidando com essa batata quente que, idealmente, tem uma conotação também muito pessoal para você. Essa tradição também se corrompeu, mas ela começou com prescrições muito individualizadas de professores para alunos (depois começou a haver compilações, análise estruturada de respostas, e assim por diante).

Na autoajuda, por outro lado, nada pode deixar você perplexo. Se uma só sentença contiver uma aporia, o editor virá pedir esclarecimentos.

Mas, até aí, enfim, pode ser desprezível encarar o autodesenvolvimento dessa forma, mas é como o pão – uma hora até o hippie mais natureba precisa fazer um sanduíche de pão branco industrializado. Qual é o problema efetivo dessa cultura?

Alguns teóricos (R. J. McAllister, por exemplo) tratam da cultura da autoajuda como uma cultura de vício. Tanto a autoajuda é desenhada para deixar você insatisfeito o suficiente para que você precise consumir mais autoajuda, quanto ela produz certas experiências (possivelmente falsas em certo sentido) de que algo está sendo efetivamente melhorado.

Dessa forma, você já deve ter reparado isso, quem consome autoajuda não o faz uma vez – e quem escreve um livro de sucesso, necessariamente escreve uma continuação.

E o problema disso é que perdemos tempo com algo que apenas parece nos ajudar, mas que é apenas mais uma ilusão do consumo. Só isso.


publicado em 14 de Maio de 2014, 13:15
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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