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A liberdade sexual feminina afasta os homens?

Insegurança? Medo de serem dominados? Falta de interesse? Afinal, o que está acontecendo?

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“Não é incomum eu ver o homem surpreso por eu o estar cavalgando, ou fazendo um oral caprichado, ou ainda, levando o sexo para práticas que supostamente outras mulheres não gostam. No final, ele gosta muito, mas depois, vejo que ele mudou a maneira de me tratar. Conscientemente ou não, o cara dá uma sumida.”

Na semana, a F. escreveu para a Mentoria PdH contando sobre uma situação recorrente que a incomodava: as relações dela iam bem até os caras descobrirem que ela era bastante “atirada e sem pudores” na cama, daí pra frente eles passavam a tratá-la de maneira diferente ou se afastavam dela.

Essa conversa levantou a dúvida “A liberdade e autonomia sexual das mulheres intimidam os homens?”. Para conversa sobre o tema, entrevistamos o psicólogo Pedro Carvalho, doutorando do Instituto de Psicologia da USP, que estuda as dificuldades dos relacionamentos contemporâneos, além de outros leitores que deram suas opiniões.

A dúvida da F. virou tema porque é uma questão que afeta diversas outras mulheres, ainda que de maneiras diferentes. Encontramos diversos relatos de mulheres que se questionam se sua autonomia, liberdade, força, poder de decisão ou sexualidade ativa afastam homens ou por algum sentimento de intimidação ou por não ser isso que se espera de uma mulher.

Em um grupo privado do facebook, D. relata o seguinte: sempre que ela dá diretrizes para os caras durante o sexo, indica como gosta que ele a masturbe, os rapazes se afastam dela nos próximos encontros.

Em outro grupo privado, a estudante de 21 anos, Carol O., desabafa sobre como percebe que sua liberdade sexual ‘assusta’ alguns rapazes do seu convívio.

O tema gera polêmica uma vez que cada caso é único e cheio de variáveis. Na página da Mentoria, muitos comentam que o afastamento dos rapazes acontece não só por um sentimento de intimidação, mas simplesmente por um desinteresse, ou outro motivo, que acaba sendo mal interpretado pelas mulheres em questão.

Conseguimos conversar com a Carol que contou que, em mais de uma ocasião, os homens chegaram a dizer diretamente para ela que se sentiam intimidados. Ela conta que algumas vezes ouviu que isso acontecia porque tinha uma personalidade muito forte, outras porque ela ficava com vários caras.

“Eu namorei três anos um cara aqui na faculdade e às vezes ele falava que eu era muito durona, mais durona que ele e que ele se sentia intimidado porque ele não podia exercer o papel dele na relação.”

Em contrapartida, Carol, que é bissexual, relata que quando se relaciona com mulheres, o seu “gênio forte” que incomoda os rapazes, não aparece como um problema. Para o psicólogo Pedro Carvalho, de fato há uma relação de incômodo relacionada às expectativas de gênero e mudança de comportamento da parte das mulheres.

“Essa questão da liberdade sexual, a liberdade do desejo, se a gente pensar do ponto de vista da psicanálise é uma coisa que gera angústia, gera problemas. (...) E a liberdade sexual da mulher de alguma forma desperta esse medo - eu imagino que em ambos, mas eu acho que nos homens isso é mais problemático e sintomático. É como você falar para uma criança mimada que ela pode fazer tudo e de repente você começa a dizer não e 'como assim? Falaram que eu sempre pude, como assim eu não posso? Se eu não posso, então o que que eu posso?'(...) Há uma mudança drástica e os homens acabam se prendendo a muitos padrões antigos, até como uma forma defensiva. 'Eu sempre tive isso, isso é muito mais confortável, porque eu vou rever isso?'

O segundo ponto é a forma como eu entendo a leitura dos homens sobre a liberdade do desejo da mulher. Muitos homens ainda entendem a liberdade do desejo como a liberdade para ser desejada, a liberdade passiva, eu sou livre para dizer sim ao homem que eu quiser, mas a posição ativa ainda é do homem, se você tira isso dele 'opa, opa mas como assim? A mulher chegando em mim, a mulher tomando iniciativa?' Tem toda essa confusão que talvez ainda não se tenha entendido que a liberdade do desejo é a liberdade de desejar ativamente.”

Lucas L., 27 anos, concorda que os caras possam se sentir ameaçados quando as mulheres quebram alguns estereótipos de gênero e se mostram mais sexualmente pró-ativas que eles.

Acho que sim, mas não no sentido de: 'ah, quem essa mulher pensa que é? Ela tem que se colocar no lugar dela de submissa'. Mas de 'ela é dominante, portanto, eu sou o dominado e eu não quero essa posição pra mim', por vários pressupostos sociais. Tipo Belo e a Graciane, sempre que postam fotos deles e tals, fica aquela coisa do tipo 'ele leva surra de cintaralho toda a noite'. Muitos homens fogem disso, não porque a mina não pode ser dominante, mas porque ele não quer ser o dominado. Indiretamente fica subentendido que então ela tem que ser a dominada e 'tudo bem', de acordo com a sociedade.”

Outros leitores ainda defenderam que a posição de alguns homens de se afastar ou evitar continuar os relacionamento com mulheres que expressam uma liberdade sexual e autonomia maior, não é uma questão de gênero, mas de preferência, gosto, afirmando que às vezes não rola uma boa combinação.

Bárbara C., 26 anos, também já sentiu que rapazes se afastam por intimidação defende que os dois fatores - a preferência pessoais e as expectativas de gênero - não andam separadas. A colocação de Bárbara se refere como a construção histórica do imaginário coletivo - que separa as mulheres em “A Maria” ou  “A Santa” e a “A Maria Madalena” ou “A Puta” - não pode ser completamente separada da construção da subjetividade individual.

Pedro explica que a formação individual não pode ser separada do meio em que se vive.“A subjetividade, ou seja, aquilo que a gente é pra gente, aquilo que a gente internaliza, a forma como a gente age no mundo e o lugar, o espaço, o espaço de fala, o espaço cultural, o espaço que a gente habita, essas três coisas estão profundamente ligadas.”

Voltando ao relato da F., isso explica um pouco da sua dificuldade de, aos 40 anos, morando em uma cidade pequena e mais conservadora, encontrar homens que a aceitem do jeito que ela é.

O desenrolar do debate vai mostrando a quantidade de fatores que entram em jogo na hora de compreender e analisar tanto a questão geral, quanto os casos específicos. Para evitar que haja um corte de relações que deixe desentendimentos e subentendimentos, o psicólogo recomenda o diálogo.

“Falar sobre isso muitas vezes ajuda, mas não que isso resolva. Porque estamos lidando com a fantasia do outro e a fantasia pode ser inconsciente, numa dessas a pessoa vai embora e ela nem entende o que se processou naquele encontro. Então o diálogo é a maneira de minimizar ao máximo esse tipo de desencontro, de descompasso.”

Ele aponta como, muitas vezes, em relações sexuais ou casuais, há uma certa dificuldade de estabelecer conversas sobre sentimentos ou sensações como tentativa de evitar “o fantasma de querer uma coisa séria”. Pedro questiona: “O sexo sem compromisso precisa ser o sexo sem contato?”

Carol conta que algumas vezes chegou a perguntar para rapazes o que nela os incomodavam e eles não sabiam responder ao certo. Para os caras que, mesmo sem saber exatamente o porquê, sentem um desconforto diante de mulheres que são mais dominantes ou ativas - seja no campo sexual, profissional ou social -, Pedro recomenda uma reflexão constante para chegar e lidar com as raízes do sentimento

“Lidar com qualquer questão é a gente começar a compreender qual é lógica da coisa. Eu acho que há uma questão fundamental, e que está muito atrelada ao nosso imaginário, que é a postura passiva, a postura dominada. Esse outro lugar que estava sempre associado a postura da mulher, remete a uma posição de fragilidade. (...) E a gente prefere não ser vulnerável. (...) Mas é preciso muita força para ser frágil. Isso dá um norte sobre como repensar e lidar com essa questão.”

* * *

Sem intenção de dar uma resposta definitiva para a pergunta do título, tentamos apresentar situações e pontos de vista que permitam, a homens e mulheres, refletir sobre uma questão que está presente em algumas relações cotidianas.

De toda a conversa com Pedro Carvalho, nosso psicólogo especialista em relacionamentos, ficam três pontos de partida principal para lidar com situações parecidas com essa:

  • Entender que diálogo não é sinônimo de compromisso e que mesmo em relações casuais, conversar podem ajudar a alinhar as visões, os desejos e outras questões.

  • Para os caras, vale a pena repensar o modo de encarar e lidar com posições de certa vulnerabilidade ou fragilidade (tema que, inclusive, vira e mexe volta a aparecer aqui no PdH).

  • Para as mulheres, repensar se vale a pena o esforço para se enquadrar ou corresponder às expectativas de quem não é compatível.

O debate continua aqui nos comentários! Conte pra gente se você tem alguma experiência parecida com os casos do texto e deixe sua sugestão de como refletir ou repensar o tema.


publicado em 21 de Junho de 2019, 13:09
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Gabriella Feola

Jornalista de formação, acadêmica e nerd, pesquisa comunicação e sexualidade no mestrado pela USP. Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se". Hoje cursa a segunda graduação, em psicologia.


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