PAI 2020: Os desafios das paternidades atuais. Abertas as inscrições pro nosso evento online com 3 dias de programação e 21 convidados.

A corrida por ser melhor cansa (e não necessariamente vai te fazer feliz)

Vivemos em busca de valores paradoxais - ser feliz com o simples, mas buscar sempre mais. Porque temos medo de ser medianos? Porque queremos nos diferenciar? Como diferenciar os ruídos das pressões sociais, daquilo que te traz felicidade?

"Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham." - Provérbio Japonês

Essa é uma das muitas frases que compõe nossa cultura de busca pelo sucesso. Para mim, a frase reflete (de maneira até um pouco caricata) três valores.

  1.  Se esforce sempre mais: acomodar-se é ruim, o fácil e confortável não nos faz crescer, precisamos buscar sempre superar, nem que seja superar a nós mesmos.
  2. Busque objetivos crescentes: tenha metas diferentes, busque alcançá-las e desenvolva novas, não se conforme com que o se tem. Busque o novo, cresça.
  3. Se diferencie dos outros: não seja como "eles", mostre porque você é especial e porque você merece alcançar esses objetivos superiores.

Gostando ou não do "trabalhe enquanto eles dormem", você há de convir que esses valores são bem aceitos e multiplicados: seja no ambiente escolar, no mercado de trabalho, nos esportes, em relação aos seus objetivos de vida pessoal... Em todos esses espaços ressoa, para mim, adjetivos superlativos como mais e melhor: busque mais e melhor, se esforce mais e melhor, seja mais e melhor. 

Mas, já se perguntou se essa trilha, ou melhor, que essa corrida por superioridade não é também uma prisão? Até que ponto essa busca realmente nos leva para o cultivo da nossa felicidade? 

Foto por Jeremy Lapak

Não, podem ficar tranquilos, que esse não é um texto sobre largar tudo e viver na praia. De certa forma, me parece que essa também é uma busca por mais e melhor, só que sob outros valores: ser mais espiritualizado, mais conectado com a natureza, mais desapegado... Entre outros.

Na verdade, a questão que me inquieta é essa constante busca por diferenciar-se, por sentir-se especial, por não se permitir ser confundido com alguém "médio" ou "medíocre".

Ser especial é elogio, ser médio é ofensa

Na série American Crime Story — que na 2ª temporada conta a história de Andrew Cunanan, serial killer que matou o estilista Gianni Versace e mais quatro — o jovem assassino diz que tudo o que mais queria era ser especial. A série retrata como ele se frustra e se revolta diante sempre e quando os que o rodeiam não reconhecem sua "distinção".

Me perdoem por começar com a imagem do serial killer. Pode soar um pouco rude. É que esse momento da série me levou a pensar que, das pessoas mais diferentes possíveis — da aluna aplicada, ao artista virtuoso, à religiosa filantropa, ao “monstro” assassino — de alguma forma todos estamos buscando ser especiais, seja aos olhos dos nossos pais, dos professores, dos críticos de certa área, do chefe, de Deus ou da mídia chocada.

A gente cresce nesse caldo em que a mediocridade é ofensa da maior escala. Na minha família, a tia que ostentava um diploma universitário, vivia ofendendo os demais não-diplomados com essa palavra: “não seja um medíocre”. Nos meus dias de adolescente, eu, aluna dedicada, corria atrás da minha vaga na concorrida universidade pública, não só pra garantir uma formação e possibilidade de sustento financeiro, mas para provar que eu era diferente, mais inteligente que os populares colegas de sala. 

10 anos depois eu escrevo para vocês para dizer que, apesar das corridas e de minhas vitórias, eu me sinto absolutamente medíocre. Não se preocupem em me dissuadir disso, porque eu escrevo justamente para ressiginificar e exaltar o sentido de estar no meio, de ser mais uma e apenas isso. 

Queria usar um exemplo muito simbólico. A concorrida Universidade de São Paulo oferecia 60 vagas para o curso, eu passei em 30. Passar a frente de milhares candidatos rendeu momentos empolgação pela conquista e, em seguida, lá estava eu, numa posição perfeitamente mediana entre outros também aprovados. 

Sobre comparar-se com os outros.

Quando Lacan dá o exemplo do espelho —  a criança que aprende que a imagem no espelho é seu próprio reflexo, porque reconhece que a outra imagem é a da pessoa que o segura — ele mostra como aprendemos a nos entender como indivíduos a partir da relação com o outro.

Digo isso para mostrar que não é simples pensar em nossa identidade, trajetória, objetivos de um jeito completamente desprendido das comparações com ou das expectativas com os outros.

O que é um ideal de felicidade? Ter família? Ter sucesso? Ter aventuras? Mais que isso, como escolhemos o nosso? Geralmente ao ver isso em outra pessoa: num filme, num livro, em alguém que você admira. Podemos e devemos pensar na nossa trajetória individual, sem tanta comparação, mas seria ingênuo (e pouco eficiente) acreditar que parar de comparar-se é simples.

Às vezes nos comparamos e nos sentimos bem porque vemos tudo o que superamos (e que outros não superaram ou não superariam) e às vezes nos sentimos mal porque avaliamos que não fizemos tanto quanto fulano ou ciclano. Há quem olhe o copo meio cheio, há quem o olhe meio vazio. Ambas as possibilidades são mais recorrentes que uma terceira: olhar copo sem tentar medir uma parte comparando pelo preenchimento da outra.

Cara a cara com as nossas frustrações

A pandemia causou um impacto impossível de ignorar na vida de muita gente este ano. Um amigo muito querido — que estava se aproximando da independência financeira, mas teve seu progresso interrompido pela crise —  ao celebrar seu aniversário, contou estar sentindo-se mal, como quem envelhece e não sai do lugar, que fica pra traz.

Diante da minha tentativa de valorizar as conquistas da trajetória, ele pondera: “é como se, numa corrida de 1000 eu estivesse, em 600º lugar”. Um pouco mais pra traz ou pouco mais pra frente, estar entre os do meio nos parece ruim, desanimador, sinal de fracasso.

Na juventude a gente sonha com esse ideal de destacar-se, de nos afastar da mediocridade pouco atraente dos adultos da vida real. Porém, ao adultecer, nós, apesar das conquistas, também descobrimos que algumas ambições da juventude não estão exatamente próximas da nossa realidade. É frustrante, não é? Consegue pensar em alguma destas não-realizações em sua vida?

Para aplacar a frustração, ao não conseguir estar no topo de todas as categorias, escolhemos ao menos uma em que nos destacamos mais e nos aferramos a ela: “posso não ser o melhor profissional, mas sou um pai excepcional”, “não sou dos mais inteligentes mas sou divertido como ninguém”, “posso não ser popular, mas sou a comprometida em ajudar minha comunidade”. Te dou um minuto: qual é o seu palco de destaque?

Essas ideias costumam trazer conforto, mas são frágeis. Toda a segurança sobre a identidade que construímos para nós mesmo, se abala tão logo nosso pódio seja ameaçado por outros "pais excepcionais", "amigos divertidos", "ou filantropos engajados". Já sentiu isso? A sensação de ser destituído do seu trono?

Sobre a relatividade das posições

[Uma pausa: pensa em três grandes atores de Hollywood dos anos 1990. Já volto nisso]

Se eu olhar com carinho para minha trajetória, percorri um longo caminho de conquistas. Se eu comparar a minha posição hoje, com a de alguns colegas de faculdade sinto que estou pra trás. Pensando sobre isso, um dia eu me deparei com um poster do Matt Damon e senti que tínhamos algo em comum. 

Por acaso o Matt Damon foi um dos atores que te veio a cabeça ao lembrar das estrelas dos anos 1990? Tom Hanks, Leonardo di Cáprio, Brad Pitt... Eu particularmente não iria citar o Matt Damon nem se aumentasse um pouco esse lista. Ele é um excelente ator, um dos mais jovens vencedores do Óscar como roteirista, cheio de sucessos de bilheteria e crítica no currículo, mas não foi consagrado como o mais talentoso da geração, nem como o mais bonitão, nem como o mais durão, nem como o queridinho dos romances.

Matt Damon tem um currículo brilhante e chegou onde muitos sonham, mas, talvez, ele olhe para os colegas com uma certa sensação de ter sido menos, ou de ter tido menos reconhecimento. 

Viver correndo atrás dessa diferenciação de superioridade, nem que seja em pelo menos uma área, é um trabalho constantemente frustrante, porque ele não acaba e, então, quando será suficiente?

Se estamos buscando sempre o ser especial, o ser mais ou melhor em algo, quando vai bastar? Quando não houver mais ninguém para superar ou quando já houver gente suficiente "a baixo" para nos sentirmos legitimados?

Os prejuízos da corrida pelo mérito

Essa buscar por ser especial, diferente ou por estar num topo não prejudica só a nós mesmo a medida que nos guia por um caminho de insatisfação, mas cria também uma competitividade mais focada no destaque de uns que no benefício de vários.

Quando desejamos ser mais e sempre mais, estamos valorizando a lógica da sociedade em pirâmide, em que só alguns podem ter o que é bom, em que é preciso uma base larga para sustentar a pontinha brilhante. 

Exaltar essa sociedade em pirâmide, querer ocupar o topo, é indiretamente ou inconscientemente, precisar que muitos estejam abaixo de você, seja para o sustento do seu valor, de seu reconhecimento, ou falando em questões materiais, do seu luxo.

Será se valorizamos as conquistas que não nos diferenciam? Se numa seleção de 10 candidatos, conseguimos uma vaga, mas descobrimos em seguida, que haviam 10 vagas, por mais que o postos seja tudo o que você buscou, você se sentiria vitorioso? Ou se sentiria ao menos em dúvida por não ter se provado nem mais (nem menos) que nenhum dos outros dez candidatos?

Eu não sei para vocês, mas para mim cria-se um paradoxo: ao mesmo tempo que eu busco me provar e obter esse reconhecimento por conquistas que me "diferenciam", a ideia de ver os outros abaixo, ou menos valorizados, não bate com os meus valores pessoais. Eu não quero acreditar no meu valor a partir da percepção de que eu alcancei mais que outros, ou que outros alcançaram e podem menos que eu.

Não é isso que eu quero para os meus primos, colegas de escola, de bairro, nem para todas as pessoas que eu cruzo no ônibus e não sei o nome.

Essa corrida não tem feito sentido para mim, até porque, como bem tem se discutido hoje, essa ideia de "mérito" não é tão simples e passa por muitos fatores — como cor, gênero, classe — que nada tem a ver como a nossa "capacidade". Ao mesmo tempo que eu tenha conquistas, no fim das contas, não tem como separar meu esforço das minhas condições de estudo, de aparência, de cor da pele…

O que ganhamos quando paramos de competir?

Na briga com as comparações, os sentimentos de frustração e o desejo de me afastar dessa lógica de ocupar o topo de qualquer pirâmide, eu fui encontrando conforto a medida que passei a abraçar a mediocridade, libertando o conceito do seu significado de ofensa (não que esse processo tenha sido rápido ou fácil).

Qual mal tem em ser medíocre, em estar no meio? O que perdemos por não buscar o topo? Me deixa inverter essa pergunta: o que podemos ganhar quando paramos de competir em busca de uma “superioridade”?

Será que estar buscas e estes ideias que desenhamos para nós mesmos são realmente o que vai nos fazer mais felizes? 

Outro dia, no instagram do PDH falamos sobre como Kelly Slater, maior campeão de surf do mundo, conta que os troféus não fizeram dele um homem mais feliz

Estabelecer objetivos pode ser uma ferramenta muito importante de conquistas em nossas vida, mas se não tivermos um olhar muito atento para nós mesmos, corremos o risco de usar a meta como distração, como um jogo que nos mantém ocupados com a promessa de vitória, mas que nos atrapalha de olhar para dentro e entender o que realmente importa. 

Quando ninguém está por perto, o que sobra?

Se pensar a vida em 2020, é inseparável de olhar para os efeitos da pandemia, para mim, a crise financeira e o isolamento, me levaram também a um processo de libertação do olhar desse auditório imaginário que vive na nossa cabeça, que bate palma, vaia ou dá risada das nossas vivências diárias.

Aproveitando as referências noventistas, o espanhol Alejandro Sanz, além de “corazón partio” tem outro sucesso que diz “quando ninguém me vê, eu ponho o mundo de cabeça pra baixo”. E quando o mundo não te vê? E quando sua felicidade não pode vir de fora, dos outros, das distrações ou das compras. O que sobra?

Aqui em casa agora somos eu e minha família, apenas. Tudo o que eu fazia no meu tempo livre em 2019 não é mais seguro. Qualquer consumo que seja mais que um sonho de padaria está fora da meu alcance. O objetivo de completa independência financeira teve de ser adiado indefinidamente. 

O que realmente te faz feliz na essência? O que realmente me faz feliz na essência?

Para minha felicidade, pro meu sentimento de paz comigo mesmo, o que sobra são coisas muito simples. As grandes conversas sobre a vida e a política com a minha mãe, a felicidade de cantar músicas de cornos com todo meu coração. A despeito do amor que tenho pelos meus, ficar sozinha me faz imensamente feliz. As brincadeiras com os meus cachorros também. A paz de tomar um café olhando pela janela, o sentimento de potencia ao ser capaz de pintar alguma coisa que tava na minha cabeça. Essas são as coisas que me fazem feliz.

(eu e minha pintura perfeitamente média)

Não que o financeiro não importe: importa que eu consiga colocar comida em casa, que as dívidas estejam sob controle e que ao fim de três meses eu consiga repor umas bisnagas de tintas para manter minha paixão, isso importa. Mas, quando ninguém vê, pouco importa que eu tenha um diploma mais prestigiado que outros ou que eu ganhe menos entre os pares 'prestigiados'.

Existem alguns conceitos muito claros de sucessos impregnados em nossas crenças. Querendo ou não, quando a gente os alcança alguns deles, sentimos uma felicidade genuína: um sentimento de vitória, de reconhecimento. É gostoso, não tem como negar. Mas quando ninguém vê, quando estamos a sós conosco, importa a diferenciação para o nosso sentimento de plenitude interna?

Se pararmos um pouco a competição, podemos descobrir que a felicidade está ao alcance das mãos e que mora nas coisas mais medíocres da vida. 

"Okay, Gabriella, nem te conheço mas você escreveu tudo isso para dizer que no fim a felicidades está nas coisas simples da vida? Como se isso fosse algo novo..."

De fato, que a felicidade está nas coisas simples é frase manjada. No entanto vivemos em um contexto de valores paradoxais: encontre a felicidade no simples, mas se esforce sempre mais, respeite a todos, mas não seja como "eles" ou "como todo mundo". É difícil ficar em paz enquanto somos bombardeados por ideias opostas.

Porque, ao mesmo tempo que dizemos "não sou mais ou menos que ninguém" nos sentimos ofendidos com a ideia de mediocridade?

No fundo, eu escrevi tudo isso pra exaltar o sentimento de libertação que é abraçar a mediocridade, ressignificar a palavra e o conceito, e entender que estar próximo dos seus, que não ser tão diferente assim, não é ofensa.

Abraçando a mediocridade

O meu ponto é aceitar a beleza da mediocridade, de olhar pros outros e ver neles, não seres superiores ou inferiores, mas semelhantes: mais chegados nisso, menos experientes naquilo e medíocres na maioria das coisas.

Como eu falei, eu gosto de pintar. É uma das coisas que me traz felicidade. E eu sou absolutamente medíocre pintando. Outro dia, num momento de exaltação da minha mediocridade, postei uma pequena aquarela e escrevi: “não sou boa, mas fico feliz em ser média em várias pequenas coisas".

Um amigo, tentando ser gentil veio, indignado, pedir que eu não dissesse tal coisa, afinal, ele sempre me viu como alguém "cheia de confiança" e não estava me reconhecendo. 

Nessa conversa eu perceber que a medida que fui abraçando minha mediocridade, eu não me sentia menos confiante, nem menos potente. Apenas mais livre, livre para não superar expectativas. 

Para mim, um dos melhores conselhos da internet é o “Você é limitado” do @Coachdefracassos.

Não é que eu não consiga criar belezas pintando, nem que eu desgoste das belezas que eu crio. Mas aceitar que elas são médias é amar o que eu crio plenamente. É amar o que eu fiz do jeito que eu fiz, sem indulgências, ou exageros e sem a pressão de só gostar quando for “melhor”, melhor que eu mesma ou melhor que os outros.

A mesma maneira, aceitar minha mediocridade não é diminuir o meu valor. Não é perder a crença em mim ou nas coisas que eu posso fazer, mas me libertar para fazê-las sem a obrigação de compará-las, ou de buscar superação. Sabendo que sempre haverá parâmetros de comparação no nosso dia a dia e que não podemos escapar deles (salário, especializações, posses), abraçar a mediocridade é abraçar o seu valor mesmo que ele seja perfeitamente ordinário em algumas das comparações.

Ressignificar a mediocridade é amar a mim e a minha trajetória mesmo sem corresponder idealizações, na linha da autocompaixão. E também é amar aos meus irmãos todos e as suas trajetórias incondicionalmente, enxergando a profunda beleza de suas trajetórias, que não são iguais às de ninguém, mas que muito provavelmente, são médias como as de muitos. 

E você, já abraçou sua mediocridade hoje?


publicado em 30 de Julho de 2020, 12:31
Img 20190518 102150 405 jpg

Gabriella Feola

Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se" . Atualmente também sou mestranda da ECA USP, pesquisando a comunicação da sexualidade nas redes e curso segunda graduação, em psicologia.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura