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75% das pessoas acredita que um homem que fica em casa para cuidar dos filhos não é menos masculino

No Brasil, esse percentual cai para 66%.

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De acordo com uma pesquisa aplicada pelo Ipsos em parceria com o Instituto Global para a Liderança Feminina da King’s College London, dos 18 mil entrevistados ao redor do mundo, 75% já não acreditam que “um homem que fica em casa para cuidar de seus filhos é ‘menos homem’”.

No Brasil, esse percentual cai para 66% e, enquanto ⅔ do país discorda desta afirmação, 26% ainda acredita que ficar em casa para dedicar-se aos filhos é uma atitude menos masculina – o que coloca o Brasil em terceiro lugar nesse índice, depois da Coréia do Sul e da Índia.

A pesquisa traz diversas estatística que refletem uma mudança nos parâmetros sobre “o que é ser homem?”, refletindo sobre quais são as expressões de masculinidade mais valorizada dentro dos parâmetros culturais da sociedade. As percepções dos entrevistados, variam de acordo com os valores culturais de cada país.

Na Coréia do Sul, por exemplo, a maioria dos entrevistados (76%) acreditam que o homem que fica em casa para cuidar dos filhos é menos homem. No entanto, com exceção da Coréia do Sul, em todos os outros 26 países que participaram da pesquisa, a maioria das pessoas discordaram dessa afirmação, ou seja, acreditam que ficar em casa e cuidar dos filhos não faz do homem menos homem.

Os resultados da pesquisa indicam, portanto, que há uma mudança de valores em relação ao como as pessoas valorizam a participação dos homens na paternidade. A ideia de que Pai e Mãe formam um casal e, em conjunto, cuidam dos filhos não é um pensamento que nasce com o ser humano, é uma construção social que se modifica com o tempo. Como apontou o intelectual Jacques Dupuis em sua obra “Em nome do Pai”, o papel social do homem na geração da prole começa 5.000 anos depois da história humana e demora mais alguns milhares de anos até que se consolide a noção de patriarcado. Dentro das estruturas chamadas de patriarcado, o pai seria o responsável por gerar e liderar uma linhagem de filhos, estando, no entanto, no papel de provedor material, afastado dos cuidados cotidianos.

O modelo de família que deriva dessa estrutura patriarcal é, aos poucos, modificado, mas não extinto. A socióloga brasileira Jeni Vaitsman aponta justamente a coexistência de valores “tradicionais”, ainda quando há uma onda de mudanças.

"Embora atualmente seja possível observar núcleos formados por recasamentos, pais ou mães solteiras, relacionamentos não institucionalizados em termos legais, casais homossexuais e tantos outros, a família tradicional burguesa ainda é tida como molde para balizar comportamentos morais e sexuais dos seus membros." Jeni Vaitsman em seu livro “Flexíveis e plurais: identidade, casamento e família em circunstâncias pós-modernas”.

A pesquisa da Ipsos com a King’s College também aponta que 73% dos entrevistados são a favor de que as empresas tenham mecanismos que permitam mais participação dos homens no cuidado dos filhos, aumentando, por exemplo, a licença paternidade.

Em outra questão desta pesquisa, os entrevistados ainda responderam se acreditam ou não que a discriminação contra mulheres que se dedicam exclusivamente ao cuidado dos filhos pode acabar nos próximos 20 anos. Os países mais otimistas em relação a esta resposta foram Índia (59%), Malásia (55%) e Brasil (52%), países  que, contraditoriamente, tem altos índices de violência de gênero.

A pesquisa da Ipsos com a King’s College, portanto, aponta uma mudança importante dos pensamentos e valores da sociedade contemporânea em diversos países. Os entrevistados se mostram muito mais abertos ao jeito mais participativo e sensível de viver a paternidade, que pode incluir, inclusive, ficar em casa cuidando das criança, longe do papel de provedor.

Por outro lado, também é possível olhar para estes dados com um olhar crítico. Quando países com altos índices de violência de gênero expressam uma opinião positiva e otimista em relação à diminuição das desigualdades, essa expressão pode ter dois significados – e um não exclui o outro – indicando tanto uma mudança nos valores sociais em prol de novas masculinidades, quanto um olhar simplificado para o problema.

Na pesquisa apresentada em 2016 no documentário Precisamos Falar sobre os Homens, os dados apontam uma mudança nas crenças sobre as relações de gênero e as desigualdades entre homens e mulheres. À época da pesquisa, há um número significativo de entrevistados que defendem direitos e valores mais igualitários.

No entanto, ao analisar as respostas dos entrevistados sobre haver cometido ou sofrido violências de gênero, nota-se que, mesmo nos grupos em que há uma mudança importante do pensamento, não há uma redução significativa das violências de gênero cometidas ou sofridas.

Link Youtube

A diferença entre a crença apontada pela pesquisa da Ipsos – na qual não seria vergonha nenhuma que um cara se dedicasse à vida “do lar” – e a prática – na qual as pressões sobre os homens ainda causam um desconforto em pais que assumem o cuidado de maneira mais intensa em detrimento da vida profissional – podem ser explicadas justamente por esse processo no qual a mudança da crença nem sempre representa uma ruptura nos modo como as pessoas se relacionam.

Guilherme Beraldo e Ellika Trindade, em uma investigação sobre os ‘novos pais’, apontam que o homem pós-moderno, ou seja, os contemporâneos a nós, “ao mesmo tempo em que percebem a necessidade de se distanciar do padrão pai-provedor, não têm clareza sobre o que ou como devem fazer para se adequar às novas demandas.”

No caminho em direção a modelos de masculinidades mais diversos e mais livres, é importante trocar experiência com pessoas que buscam o mesmo objetivo ou que se encontram na mesma situação.

Criar espaços coletivos de suporte e troca de experiência fazem toda a diferença na hora enfrentar os novos desafios contemporâneos. Os desconfortos e medos – o sentimento de “fracasso”, “inadequação”, vergonha de ser “o único pai do parquinho” – quando compartilhados, tem o poder de mostrar que o que se sente não é uma “falha” individual, mas uma questão social, coletiva e, inclusive, estrutural.

Queremos fazer parte dessa transformação (ou: quais os projetos do PapodeHomem sobre paternidade?)

O PAI: Os Desafios da Paternidade Atual, é o evento do PdH que reúne homens de diferentes áreas para terem conversas significativas sobre paternidade, permitindo a troca de experiências e debates importantes.

Algumas empresas como a Natura, Johnson & Johnson, Banco do Brasil, Reserva, ThoughtWorks, 3M e Itaipu já aderiram à licença paternidade estendida pelo programa Empresa Cidadã. O Papo de Homem também tem um curso com o tema da paternidade para empresas, o que consideramos parte das nossas ações para contribuir para uma masculinidade mais lúcida (e, se você, como empresa, tiver interesse, pode entrar em contato como o Felipe Ramos, nosso Diretor de Negócios, pelo email felipe@papodehomem.com.br).

Abaixo estão reunidos algumas pessoas e iniciativas interessantes para quem quer saber mais sobre.

Mais iniciativas sobre paternidade para ver, ler e ouvir:

Victor Farat é pai do Ivo, co-autor do livro “Bebegrafia” que retrata em quadrinhos a jornada de transformação do primeiro ano de vida de seu filho, aos olhos do pai cuidador. Atualmente participa do podcast quinzenal sobre paternidade ativa: Balaio de Pais.

Hélio Gomes, pai da Elis, apaixonado pela Ana Clara e transformado em um novo homem pela paternidade. Ele é um dos fundadores do Podcast AfroPai, no Portal Paizinho, Vírgula!, que fala da experiência da paternidade vinculada ao cotidiano de uma pessoa negra nesse país.

Elam Lima, junto de sua esposa, criou o Canal no YouTube - Cuca de Pai Cachola de Mãe - Acreditam que através de uma criação consciente dos filhos podemos melhorar o mundo, e, para isso, trazem a informação compartilhando experiências através das Redes Sociais, Palestras e o Canal.

Thiago Koch é idealizador do maravilhoso projeto @homempaterno. Ele desenvolve trabalhos individuais e em grupos oferecendo suporte e acompanhamento para homens durante o período gestacional e puerpério. Por meio do Homem Paterno, realizou as "Vivências Insulares", uma experiência de conexão entre pais e filhos, na natureza.


publicado em 14 de Maio de 2019, 19:20
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Gabriella Feola

Jornalista de formação, acadêmica e nerd, pesquisa comunicação e sexualidade no mestrado pela USP. Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se". Hoje cursa a segunda graduação, em psicologia.


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