[18+] A masculinidade não é algo a se definir

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Marlon Brando, Clark Gable, Bruce Willis, Johnny Depp, Gary Cooper, Sean Connery, Danny Trejo, Tony Ramos, Erasmo ou mesmo o Roberto Carlos, todos exemplos de masculinidade. Modelos que a gente acaba levando em consideração, mesmo sem querer, quando o assunto é definir o que consideramos masculino.

Senso de competição, quantas mulheres deve comer, pegar, namorar, casar, quantos filhos você deve ter, quais carros deve escolher, quais esportes deve assistir, quais músicas pode ou não ouvir, quais filmes deve ver. Há dezenas, centenas de imposições mais ou menos sutis por todos os lados.

Chad States é homem, porém alguém que sempre se sentiu em algum lugar entre o masculino e o feminino. Esse sentimento o motivou a ir em busca daquilo que define masculinidade.

Para isso, colocou um anúncio no Craigslist:

 

Você é masculino?
Estou fazendo um projeto de fotografia sobre masculinidade. Se você se identifica como masculino, por favor, entre em contato.

Ele deixou o anúncio o mais neutro possível, para que pessoas de diferentes gêneros e sexualidades pudessem se manifestar. Alguns dias depois, apesar de a maioria das respostas ter sido de homens, algumas mulheres e transexuais também entraram em contato.

Durante o processo de combinar as condições do ensaio, Chad perguntou o porque de eles se considerarem masculinos. As respostas vem junto das fotografias, como títulos, uma forma de dar voz às imagens.

Todas as fotografias foram feitas dentro da casa dos modelos, com os objetos e na pose de sua preferência, apenas com o foco de posar da maneira que considera mais masculina.

 

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“Eu me sinto masculino quando estou em casa, onde posso tomar conta de mim mesmo. Sinto-me emasculado quando saio do meu apartamento, com todo mundo me perguntando se preciso de ajuda. Eu não preciso de ajuda nenhuma."

O resultado foi uma série de fotografias repletas de seres variados, tentando encontrar o seu espaço, expondo aquilo que consideram o seu melhor. Um homem nu, deitado na cama, um homem que se orgulha do peso ganho com os anos, um cara dizendo que não se preocupa com a opinião dos outros – no entanto, o único usando máscara –, um cego que não suporta as pessoas oferecendo ajuda. Figuras às vezes bastante caricatas, bizarras, de um jeito que a gente pode não gostar de admitir, mas sim, masculinas.

Tanto quanto você e eu.

Mas e se a gente colocasse a necessidade de definir masculinidade na parede?

 

"Seja homem!"

Muitas vezes há o sentimento de ter algo engasgado, que a gente nunca consegue admitir. Há um monte de solidão, raiva e frustração na necessidade de se portar de um jeito e não de outro, para enfim ser reconhecido como um "bom homem".

Nós temos, o tempo inteiro, alguém para nos dizer como devemos nos relacionar, como devemos transar, qual deve ser o tamanho do nosso pau, que homem que é homem não acha outro homem bonito e, muito menos, diz que ama.

A gente acha que homem não pode trepar com outro homem, porque homem que é homem, gosta de mulher.

A gente acha que não pode chorar naquele filme, Antes do Pôr do Sol, quando o casal se reencontra, quase dez anos depois daquele único encontro maravilho e inesquecível. Não dá, a gente não pode ser sensível desse jeito. Isso não é coisa de homem.

Homem não pode se vestir como mulher. Homem tem roupa de homem e deve usar apenas isso. Exceto no carnaval. No carnaval pode tudo.

Se, por qualquer motivo, a gente decide que é melhor não trabalhar tanto, que os filhos estão crescendo e é melhor aproveitar os dias contados que teremos ao lado deles, fodeu. Os dedos julgadores apontam, um ressentimento vindo de algum lugar misterioso aparece.  Uma certa vergonha surge. "Você não está agindo como homem".

O preço de agir contra o establishment, é ser condenado perante os olhos da sociedade – e os seus próprios, muitas vezes –, por não aceitar o papel que lhe cabe.

Mas que papel é esse?

 

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"Masculinidade é uma atitude. Sinto que sou masculino porque eu me realizo como tal. Não tem nada a ver com o que você dirige ou quantas mulheres ou filhos você tem."

Já está ficando claro que definir um modelo predominante não parece mais ser suficiente para traduzir toda a enorme paleta de características que pode nos definir como masculinos.

Se o que faz um ser masculino são uma série de adereços, de papéis, habilidades e qualidades como coragem, assertividade, independência, honestidade, clareza de pensamento e raciocínio, absolutamente nada impede que qualquer pessoa possa se considerar masculina.

Nada impede que uma mulher, um homossexual, uma travesti ou transgênero possam se achar mais masculinos que eu, por exemplo. E, se me perguntarem, vou dizer: provavelmente são mesmo.

Ao mesmo tempo, nada impede que um homem possa se considerar masculino por manifestar qualidades ditas femininas. Você poderia perfeitamente se considerar masculino justamente por ser mais sensível e compassivo ao sofrimento dos outros, por gostar de cuidar dos seus filhos ou, talvez, por se dedicar e cuidar dos seus relacionamentos.

Chad foi perguntado se o projeto afetou o senso da sua própria masculinidade:

 

Não. Mas foi bom ver que eu não era o único que pensava sobre masculinidade. Questionar publicamente sua  masculinidade é definitivamente incomum nos EUA. Foi legal poder compartilhar e discutir ideias do que é masculinidade com meus sujeitos. Tive longas conversas sobre masculinidade com quase todos eles e não só num esquema de entrevista. Eu tive que ser aberto e compartilhar com eles se eu quisesse que meus sujeitos compartilhassem comigo.

Não me admira que Chad tenha ido em busca da masculinidade e não tenha chegado a lugar algum.

A masculinidade não é mais algo a se definir.

 

Outras leituras recomendadas:

 

 

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"Tenho sido chamado de SNAG (Sensitive New Age Guy), um homem da renascência, um homem em contato com seu lado feminino etc...  Eu acho que sou masculino no sentido da auto-suficiência."

 

andrew
"A primeira coisa que eu faço quando entro em uma sala é descobrir que homem poderia chutar minha bunda e com qual mulher gostaria de transar. Às vezes é tão subconsciente que é alarmante."

 

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"Eu sou emocionalmente forte, sempre me virei sozinho e não tenho medo de nada. Por acaso sou fisicamente forte, mas não é disso que deriva minha masculinidade."

 

chris
"Eu finalmente estou feliz com meu corpo e minha masculinidade. Cara, me tomou um longo tempo. Eu até gosto do pouco de peso extra que ganhei... parece que eu superei um obstáculo que me perseguia há muito tempo. Eu superei a magreza que me fazia sentir menos do que um homem."

 

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"Eu quero mostrar que, apesar dos estereótipos, que homens gays podem ser masculinos também."

 

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"Na minha mente eu sou masculino. Não acho que tenho que provar pra qualquer um que pense o contrário (não me importo com o que os outros pensam)."

 

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"Em primeiro lugar, diria que sou masculino por causa de como me sinto interiormente, quem eu sou e como cuido de mim mesmo. De várias maneiras minha masculinidade é atada ao meu papel de gênero masculino e como eu quero me projetar e ser percebido pelos outros."

 

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"Me sinto mais masculino quando estou deitado, nu, na cama."

 

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"Quando visto roupas de homem me sinto confortável e confiante, pois o que eu olho do lado de fora corresponde ao interior."

 

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"Eu sou masculino porque abandono as mulheres depois de ter seu amor. Porque quando você estuda Freud, você não o deixa estudá-lo. Por que eu estudo filosofia e não literatura."

 

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"Ser masculino é dominar um campo de estudo."

 

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"Eu sinto que não sou masculino apenas em gênero, mas também em fala, no jeito que ajo e no jeito que me porto. Sempre foi assim, desde que nasci. Eu gosto de me passar por um cara, só não quero ter suas coisas."

 

john
"Para mim é sobre me sentir confortável comigo mesmo. Eu gosto da minha aparência, estou confortável com meu corpo e curto ser homem."

 

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"Eu sou muito competitivo. Não que mulheres não possam ser também, mas há algo sobre ser homem e ter um direcionamento competitivo."

 

josh
"Eu me considero masculino porque passei um tempo na Marinha, faço exercícios, tenho um moicano, tenho tatuagens. Eu sou tatuador, xingo muito e isso é tudo que consigo pensar agora."

 

misha
"O homem quer ser lembrado quando deixar esta terra, pelas coisas que fez ou, talvez, mesmo depois, alegando propriedade sobre um território ou, por exemplo, tendo filhos."

 

patrick
"Por que eu sou masculino? Hmmmm. Por que eu nunca questionei minha identidade de gênero. Eu amo mulheres (talvez demais), mas nunca quis ser uma."

 

thomas
"Eu me considero masculino porque malhei a minha vida inteira e sou homem. Eu sou homem para que todos os homens do mundo possam se considerar masculinos."

 

timothy
"Homens não estão mais sendo homens. Eles não estão cuidando das mulheres."

publicado em 18 de Agosto de 2013, 21:00
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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