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22 dados sobre como a pandemia abriu as feridas das desigualdades

Das mortes violentas a vulnerabilidade econômica das mulheres: o que tudo isso nos fala sobre a importância de lutar por equidade de gênero, classe, raça e mais?

A pandemia, assim como  situações de crises ou desastres, acabam por abrir e aprofundar as feridas de uma sociedade, as desigualdades.

Para quem gosta de ver o mundo através de números concretos, vamos trazer alguns dados que, nos ajudam a enxergar como estas desigualdades tem afetado, principalmente, as pontas mais vulneráveis da sociedade.

Se em 1995 as nações unidas estavam estabelecendo metas e propostas políticas para que o mundo caminhasse em direção a igualdade,  atualmente, neste cenário de crise e de feridas abertas, vemos alguns retrocessos despontando. 

Aumento do abismo econômico

  1. Durante a pandemia, bilionários registram recorde em ganho anual, representando em 2020 31% a mais que o ganho de 2019 (índice de bilionários da Bloomberg). Ao mesmo tempo, aumentam o número de pessoas em situação de pobreza e extrema pobreza. 

“A pobreza e a extrema pobreza alcançaram em 2020 na América Latina níveis que não foram observados nos últimos 12 e 20 anos, respectivamente” - (CEPAL).

  1. Segundo o relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), taxa da extrema pobreza se situou em 12,5% (a maior nos últimos 12 anos) e a taxa da pobreza atingiu 33,7% da população (a maior dos últimos 20 anos).  Além disso, 58 milhões de pessoas de estratos médios descenderam de classe social.

O relatório do CEPAL ainda reforça que estes impactos econômicos afetam com mais intensidade “as mulheres, trabalhadoras e trabalhadores informais, jovens e migrantes.”

3. No Brasil, de todas as casas chefiadas por mulheres negra, 63% das casas estão abaixo da linha da pobreza (Gênero e Número e SOF, 2020)

Aumento da vulnerabilidade econômica feminina

4. A participação feminina no mercado de trabalho da América Latina “caiu para 45,8% no segundo trimestre de 2020", representando 30 anos de retroccesso nesse aspecto. (CEPAL, 2020)

5. Mulheres são maioria nos setor de serviço, “85,2%, contra 59,1%, homens”, enquanto homens predominam em setores como a indústria

6. Enquanto 23,5% das mulheres brancas concluem o ensino superior, apenas 10,4% das mulheres negras o concluem (Estatísticas de gênero – indicadores sociais das mulheres no Brasil, 2018).

O dado 5 e 6 refletem no aumento das desigualdades durante a pandemia, uma vez que as mulheres, em especial as mulheres negras, tendem a ter menor seguridade financeira.

7. De acordo com a Pnad Contínua, o desemprego feminino no Brasil está em 14,5%, frente 10,5% de desemprego entre os homens. Esta é a maior diferença entre as taxas desde 2017. 

8. 58% das mulheres desempregadas durante a pandemia são negras. (Gênero e Número e SOF, 2020)

“O abalo sentido pelos grupos mais vulneráveis, especialmente as mulheres negras, trans e periféricas, será maior, mais profundo, mais complexo e certamente mais duradouro.” - Think Olga que lançou o Laboratório de Inovação Social Mulheres em Tempos de Pandemia para investigar os impactos e pensar coletivamente em saídas para a crise

Aumento da violência doméstica e de gênero:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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“Na pandemia, mulheres vulneráveis tornam-se ainda mais vulneráveis. 

Fatores como isolamento da família e controle pelo parceiro, associados às consequências psicológicas geradas pela pandemia e dependência econômica potencializaram o risco de violência e morte para mulheres” - Núcleo de Gênero do MPSP, 2021

9. Segundo o relatório do Núcleo de Gênero do MPSP, aumentaram o número de ligações para o 190, no entanto diminuíram em 10% o número de registros de boletim de ocorrência registrados.

10. No relatório do World Bank sobre violência no Brasil durante a COVID-19, o número de feminicídios registrados em 12 estados brasileiros representou um aumento de 22,2% nos meses de março/abril de 2019 para março/abril de 2020. 

Esse número varia muito de estado para estado, havendo sido registrados queda em alguns e aumento em outros. 

Infográfico do relatório World Band sobre violência contra as mulheres no Brasil, 2020

11. Assim como no relatório do MPSP, o World Bank apresenta, entre 2019 e 2020, aumentaram em 27% as chamadas para o 180, porém os registro de lesão corporal e de violência sexual, diminuiram em 25% e 28% respectivamente.

Estes dados denotam maior dificuldade para formalizar as denúncias.

12. De 2019 para 2020, foram 3.667 ciências de deferimento de medidas protetivas para 7.277, isso que representa um aumento de 98% no deferimento de medidas protetivas. - Núcleo de Gênero do MPSP, 2021

Mortes violentas

13. Mortes violentas intencionais aumentaram em 7,3% em 2020, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

14. 74,4% das vítimas letais foram pessoas negras. Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A desvalorização dos trabalhos de cuidado

15. Se contarmos todas as meninas e mulheres brasileiras acima de 14 anos, 92,6% realizam, em média, 21horas semanais de afazeres domésticos e cuidados de pessoas. (Pnad Contínua, referente ao quarto trimestre de 2018).

16. Para além do dado a cima, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém (ou mais alguém) durante a pandemia. (Think Olga, 2021)

17. Mulheres que trabalham dedicam 73% a mais horas do que os homens aos cuidados e/ou afazeres domésticos. (IBGE, 2018).  

18. 60% do trabalho doméstico é prestado por mulheres negras, de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) no Dossiê Mulheres Negras.

Ao considerar o trabalho de cuidado que recai sobre as mulheres temos que chamar atenção para algumas importante que sem sempre são ditas ou valorizadas. Uma delas é que o trabalho de cuidado demanda muita atenção, dedicação e conhecimento, além de ser essencial para a vida da sociedade e para o próprio mercado, direta ou indiretamente. 

Confira aqui esta matéria da Agência de Notícias IBGE

Outro ponto é que esse trabalho de cuidado, que é essencial, muitas vezes é invisível, muitas vezes não é nada remunerado e tantas outras é mal remunerado, fazendo com que as pessoas responsáveis pelo cuidado acabem prejudicadas financeiramente e socialmente (o que nos leva ao nosso terceiro ponto).

A sobrecarga de cuidado diminui oportunidades: Se as mulheres, e especialmente as mulheres negras, gastam mais horas com trabalhos de cuidado alheio, isso resulta que elas terão menos tempo para investir em suas carreiras, projetos pessoais ou participação comunitária/política.

Sobre isso, se queremos equilibrar as oportunidades, é preciso que todos, independente de gênero ou cor e raça, assumam as tarefas de cuidado por igual, distribuindo a carga.

A linha de frente tem mulheres negras como maioria.

 Entrevista dada ao Brasil de Fato.

19. 72.2% dos profissionais de saúde infectados trabalhavam em enfermarias clínicas (Estudo realizado no hospital Hospital Tong ji, na China). A equipe de enfermagem é predominantemente feminina, sendo composta por 84,6% de mulheres, na maioria de mulheres negras 53,3%.

20. As profissionais de enfermagem foram a categoria mais vitimada pela COVID-19: 33,3% das mortes entre os profissionais de saúde. - Boletim Epidemiológico 44.  

21. Mais da metade (53,8%) dos profissionais de saúde que faleceram em decorrência da doença respiratória, considerando todas as categorias, eram do gênero feminino.

"No atual cenário, de pandemia, esses serviços essenciais se tornaram visíveis aos olhos de muitas pessoas. Estamos todos, neste momento, precisando nos dedicar a cuidar da saúde coletiva para salvar milhares de vidas. Esse serviço de cuidar exige muito tempo, é mal pago e gera um esforço invisibilizado."- Think Olga, 2021

Representação feminina na política:

22. Hoje apenas 14% do total de cadeiras no congresso nacional são ocupadas por mulheres. 

Este último dado é super importante porque, diante desse panorama de desigualdades, a mudança depende também de programas, leis e políticas públicas que distribuam direitos, seguridade e cuidado para toda essa parcela da população que está vulnerabilizada. No entanto, o recorte da população que mais sente na pele essas necessidades, ocupa o espaço de poder como minoria. 

Mais que isso, se as mulheres (e especialmente as mulheres pretas precisam encarar duplas e triplas jornadas entre trabalhar no mercado e trabalhar com o cuidado dentro de suas famílias, o resultado desta sobrecarga é que elas ficam distanciadas (e cansadas) para participarem da vida política e demandar projetos necessários para a mudança e equidade.


Neste texto o objetivo foi mostrar as feridas em aberto para que fique evidente a necessidade de mudar, de buscar equilíbrio e justiça social.

  • Se quiser saber mais sobre o que podemos fazer para reduzir esse abismo, o Laboratório Think Olga tem elaborado propostas de ação para reequilibrar a economia de cuidado. Vale a pena dar uma olhada aqui. 

Aqui vai também um texto nosso sobre repensar as tarefas de cuidado em sua própria casa: Como equilibrar a divisão de tarefas com a casa e com os filhos durante a pandemia?

Outra coisa que podemos fazer, bem básica, que podemos fazer é nos prevenir ao máximo em relação ao coronavírus para não expor pessoas mais vulneráveis e não sobrecarregar o sistema de saúde com contágios que poderiam ser evitados.

Se você contrata pessoas para os serviços de cuidado, garanta a seguridade financeira dessa trabalhadora (ou trabalhador) e não a exponha ao contágio.

Uma outra sugestão de base é considere votar e busque projetos de candidatos políticos que tenham propostas para reduzir os abismos sociais, garantir dignidade de vida e equidade a todas e todos (em todos os níveis - do vereador a presidência). 


publicado em 10 de Março de 2021, 16:29
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Gabriella Feola

Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se" . Atualmente também sou mestranda da ECA USP, pesquisando a comunicação da sexualidade nas redes e curso segunda graduação, em psicologia.


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