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Zygmunt Bauman: 86 anos, mas pensando no futuro

Luciano Ribeiro

por
em às | Cabana no PdH, Colunas, Cultura e arte, PdH Shots


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Não é algo muito comum termos acesso a mentes que realmente avançaram, seja em que ponto for. Em geral, parece que não valorizamos muito o conhecimento que temos ao nosso redor, que se manifesta nos corpos dos nossos avôs, vizinhos idosos, professores etc. É como se não fôssemos sequer capazes de captar a riqueza do que eles podem nos dizer. Mesmo quando de alguma forma nos sentimos aptos a enxergar isso, pode ser que essas pessoas não tenham disposição alguma de transmitir o que aprenderam.

É, o caminho pode ser realmente difícil.

Por isso, a chance de ver alguém como Zygmunt Bauman, um dos maiores sociólogos ainda vivos, falando com grande lucidez, fazendo comparações da nossa época com aquela em que ele viveu a juventude, traçando um percurso do que existiu de lá até aqui, tudo isso do alto dos seus 86 anos, é realmente bem valiosa.

Principalmente se levarmos em consideração a linguagem aberta, acessível e ainda por cima bem humorada com que ele constrói seu raciocínio. Para mim, pelo menos, que sou um cara de vinte e poucos anos e com pouquíssimo embasamento filosófico, é um achado e tanto.

Neste vídeo, ele comenta sobre a inseparatividade dos seres, sobre todos estarmos no mesmo barco, fala sobre o caminhar da humanidade para uma democracia global, sobre nossas relações em tempos de Facebook, sobre o paradoxo da felicidade baseada na segurança e liberdade, entre outras coisas.

Recomendo fortemente e já fico ansioso pelo papo que pode se desenrolar.


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Como já é hábito, separei algumas falas que me chamaram atenção.

Sobre as diferenças como os jovens veem a vida hoje e relação a antigamente:

“Quando eu era jovem, isto é, eras atrás, ficamos impressionados com Jean Paul Sartre, que nos disse que precisávamos criar o projet de la vie, projeto de vida. Temos que selecionar um projeto de vida, temos que prosseguir passo a passo de forma consistente, ano após ano, chegando cada vez mais próximo desse ideal. Agora, conte isso aos jovens de hoje e eles vão rir de você. Nós temos grande dificuldade em adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de vida, de uma vida inteira, é algo difícil de acreditar. A vida é dividida em episódios. Não era assim no início do século XX.”

Sobre o mundo globalizado:

“Uma coisa é que multiplicamos, nós, a humanidade no planeta, as conexões, as relações, as interdependências, as comunicações, espalhadas em todo o mundo. Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros. O que ocorre na Malásia, quer você saiba ou não, sinta ou não, tem uma tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo. E vice-versa. Estamos todos no mesmo barco. Essa é primeira vez na história em que o mundo é realmente um único país, em certo sentido.”

Sobre uma democracia única para um mundo único:

Quem sabe, talvez, talvez – aqui já estou envolvido em profecia – em algum momento, nós inventemos uma democracia global. E essa seria uma solução radical, principalmente porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos eu mencionei anteriormente, certo?

Então, teremos que inventar – eu não, eu estou muito velho, mas você e a sua geração terão que inventar – um equivalente global das invenções dos nossos antepassados. Eles inventaram a democracia de âmbito nacional, a democracia representativa de âmbito nacional, parlamentos, parlamentos modernos, eles inventaram a jurisdição, e não leis locais, tradicionais, habituais, o direito consuetudinário, mas um código de direito unificado para todo o país. Eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.

Se Aristóteles fosse convidado a ir a um prédio de qualquer parlamento contemporâneo – Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito de democracia, a descrevê-la, certo? –, ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem, depois votam, chegam a algum acordo. Ele gostaria. Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia, ele iria rir, por que a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era apenas as pessoas indo ao mercado, brigando entre si e chegando a uma resolução.

O que significa que a democracia é uma noção que adquire, com o tempo, na história, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias. Então, uma coisa de que eu posso ter certeza é de que, se vocês realmente inventarem equivalentes globais para a democracia do Estado-nação, então será uma democracia, certo, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos apenas maiores. Não serão semelhantes a essas instituições, por que essas instituições que agora chamamos de democráticas foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.

O velhinho faz ou não faz sentido?

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Luciano Ribeiro

Editor do PapodeHomem, designer de produtos, apaixonado por ilustração, fotografia e música. Ex-vocalista da banda Tranze (rock’n roll). Escreve, canta, compõe e twitta pelo @lucianoandolini.


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  • Marcos Augusto Nunes

    Zygmunt Bauman virou grife, mas é, de fato, um autor interessante com seus parâmetros de liquefações da modernidade tardia. Sobretudo, é inconcebível o fato dele ser um sociologo, e partilhar da profissão com um demente que se denomina Demétrio Magnoli. Não tem exame tipo OAB pra sociólogo não? Pois devia, devia!

  • http://www.facebook.com/people/Isa-Belli/1584206490 Isa Belli

    Luciano, obrigada por compartilhar este tesouro. Muitas lições. Temos as dele (Zygmunt) e também as suas, que no auge dos 20 e pouco anos (quando a maioria se deixa consumir por todo e qualquer tipo de impulso como se fosse imortal) que tem se mostrado bastante preocupado com o rumo do ser humano e sai em busca de referências que valham a pena, de exemplos reais e também de identificar padrões comportamentais e outras prisões. Vc é foda, não por ser foda, mas por se permitir compartilhar coisas com outras pessoas, entregando, inclusive suas fraquezas. Te admiro. Valeu mesmo. Bj.

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    “Em geral, parece que não valorizamos muito o conhecimento que temos ao nosso redor, que se manifesta nos corpos dos nossos avôs, vizinhos idosos, professores etc. É como se não fôssemos sequer capazes de captar a riqueza do que eles podem nos dizer.”

    De onde exatamente tirou essa sua percepção, Luciano?

    Uma das características fundamentais do triunfo humano em nosso planeta é *justamente* ser uma espécie capaz de acumular e passar o conhecimento adiante através de gerações. 

    Podemos não ter a capacidade de transmitir tudo que sabemos ou gostaríamos. Ou mesmo a capacidade de aprender tanto quanto poderíamos. Tudo isso varia muito de acordo com a cultura, família, ambiente e etc no qual estamos inseridos, além da predisposição pessoal de cada um.

    Há espaços para crescermos mais, claro. Temos feito isso ao longo dos últimos milhares de anos.

    Porém, o modo como fala me soa desapontado demais, descrente. Um achismo pessismista meio que olhando e volta e pensando, “mal sabem esses seres à nossa volta como estão perdendo oportunidades, pobres humanos…”. Não gosto.

    ***

    Sobre o vídeo do Bauman. UAU! Que achado, cara. Recomendei para vários amigos.

    Gosto da muito da noção apresentada sobre projeto de vida.

    • http://twitter.com/lucianoandolini Luciano Andolini

      //Uma das características fundamentais do triunfo humano em nosso planeta é *justamente* ser uma espécie capaz de acumular e passar o conhecimento adiante através de gerações. 
      Também compartilho dessa visão, Guilherme. Tanto que esse é um dos motivos pelos quais eu compartilho esse tipo de conteúdo. Mas, de fato, tiro essa percepção – que você chamou de pessimista – de observação do cotidiano.

      Eu acho – e falo sem certeza alguma – que é realmente uma grandiosa e rara oportunidade ter acesso a esses e vários outros tipos de conhecimentos, cara. Mesmo que em ambientes mais tradicionais, como a universidade, pode ser raro ter um tutor, um mestre. Talvez tenha soado pretensioso, mas não é a intenção. É mais para algo do tipo “nossa, que fantástico! Podíamos ouvir mais disso” ou um convite para olharmos essas coisas.

      • Leandro

        Luciano, dos meus nadas 21 anos às vezes me parece que são poucos os mais velhos que realmente aprenderam coisas que valham, sabedorias do tipo como levar bem o dilema da segurança e liberdade nos seus relacionamentos e projetos, pelo menos em quanto tinham forças para colocar em prática o aprendido. Fica difícil confiar e parar para ouvir esses que ficam solitários, abandonados, amargurados, ou alienados das mudanças de valores e etc. Talvez seja por isso que nós só paremos pra dar atenção à alguns poucos como o Bauman. 

  • http://www.facebook.com/estelaarocha Estela Rocha

    O que me impressiona é a clareza, eloquência e sentido que cada palavra dele faz para mim. Bauman é um pessimista esperançoso. Expressa sua ideia sobre os males da sociedade como se fossem venenos para os seus próprios filhos.

    A lucidez como enxerga o caminhar das gerações me deixa absurdamente admirada, como se tivesse uma visão panorâmica do mundo e de como as relações interpessoais se estabelecem dia após dia.

    Não canso de repetir o quão genial este ser é.

    • R__

      Acho que você pode estar confundindo realismo com pessimismo.

  • Leandro

    Assisti novamente a trilogia nova de Star Wars por esses dias e achei tão sem criatividade a ideia de um senado galático representar tantos planetas, tão irreal a participação com o minimo de igualdade que nem na ficção seria plausível que os heróis chamassem isso de democracia. 

    Então vem o Bauman e diz  o óbvio, que se quisermos algo como uma democracia global teremos que INVENTAR o novo, isso sim é muito empolgante, palmas à boa sociologia, sempre ampliando os horizontes.

  • João

    Não vejo possibilidade de “democracia global”, nem mesmo em outros termos, fundado em outras instituições… Se assim fosse, seria qualquer outra coisa, menos “democracia”. Seria algo tão distante do conceito primário de democracia que invocar a palavra democracia para referir a tal não faria sentido algum. Vou também fazer minha vez de profeta, hehe: Sim, assistimos o começo da inflexão da curva do auge da tríade estado-nação-democracia. Funcionou com sucesso até agora, e ainda o fará por algum tempo, mais um século ou dois talvez. Mas a “ampliação” desse conceito, mesmo que revisada e contextualizada, não será nadica próximo de uma democracia, mesmo utilizando o conceito hodierno de democracia, que é completamente deturpado do antigo. Essa ampliação seria algo mais próximo do totalitarismo do que da democracia. Preocupo-me demais com o uso que vem sendo feito da “democracia”: primeiro porque mesmo o conceito atual já é bem distante do “original”, e segundo, baseado nesse conceito, viemos justificando e aceitando um monte de coisas apenas por se vestirem desse viés democrático. Estamos muito longe disso. Uma democracia, um governo do povo para o povo, estaria muito mais perto do anarquismo ou das cidades-estado da antiga Grécia. Que democracia-republicana é essa na qual a voz individual é ridícula e as vozes das minorias só ganham repercussão quando tem valor financeiro-econômico (Marx nunca se torna antigo, impressionante)? Eu, EU, gostaria de ver um mundo de interação global, mas com poder fragamentado, com representatividade local, no qual a ideia do município-cidade fosse mais forte do que a ideia de nação. Mas isso é só o que acho e pra mim o Bauman mandou bem até ele fazer suas previsões. É uma voz lúcida sem dúvida, mas totalmente fora do contexto que inclua o que chamamos de pós-modernidade, e que simplesmente chamo de presente-futuro.

    • André

      Assim como a democracia do estado não é uma democracia, ou seja, foi adaptada ao estado. Assim também uma democracia global não vai ser uma democracia mas vai ser adaptada ao seu ambiente mais amplo. Logo, se a “democracia do estado” pode ser considerada uma democracia então uma “democracia global” também seria. Afinal se formos analisar a democracia do estado nada mais é do que uma globalização daquela “democracia original”.

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