Vovó das Havaianas age como um homem de respeito
No primeiro comercial da Havaianas Fit, uma avó simpática se mostrou ousada ao sugerir que a neta desejasse apenas sexo com o ator Cauã Raymond: “Mas quem falou em casamento?”.
No segundo, que vi ontem, a empresa alega que recebeu reclamações de consumidores (moralistas de plantão) e decidiu tirar o comercial da TV, deixando apenas na Internet.
Sem comunicado formal, sem mágoa, tudo com um sorriso no rosto em tom de brincadeira:
Como disse o Merigo, no Brainstorm #9, pode ser que a agência AlmapBBDO tenha planejado tudo logo de saída para garantir a polêmica que poderia ou não se desdobrar apenas com o primeiro vídeo. Nesse caso, alguns achariam a postura da empresa ainda mais genial e destemida.
Não importa o que rolou de verdade.
Esse vídeo me lembrou de uma atitude essencial para nós homens: se antecipar de peito aberto às críticas, andar sem medo em zonas de confusão, não se esconder, não manipular, apenas mandar a real sem ataques, sem atrito, com um sorriso no rosto.
Um exemplo real
Uma vez meu vizinho do andar debaixo (que, por azar, é o síndico!) veio aqui reclamar do barulho. Depois reclamou de novo e mais uma terceira vez. Eu sempre dizia que tinha encaixotado minha bateria, que não escutava música muito alto… Eu não entendia bem o motivo da reclamação e ele não detalhava.
Até que um dia, de madrugada, desci para me despedir de uma garota e percebi a janela dele abrindo com fúria, como se quisesse me dizer: “Eu estou acordado e é por sua causa!”. Saquei na hora: o cara é pai de família, tem filhos pequenos, o quarto do casal fica bem embaixo do meu… E certamente ele ouviu gritos, gemidos e tapas. Bingo.
Deu muita vontade de me fingir de bobo, já que ele de fato não mostrou a cara na hora (não abriu diálogo pela janela) e depois me ignorou quando disse “Oi” na manhã seguinte. Pois bem. Não esperei pelo próximo esbarrão casual no prédio. Não rezei para ele deixar passar. Nada disso. Assim que cheguei do trabalho, bati na casa dele.
Sem nada a esconder, olhando direto nos olhos do síndico, disse que entendi enfim o motivo das reclamações, que o compreendia totalmente e que não era meu intuito ofendê-lo ou invadir sua privacidade. Realmente fui direto, tranquilo, de igual pra igual. Não fiz promessas que não cumpriria, não tentei enganá-lo ou fugir da situação.
Dei a cara a bater antes que ele viesse atacar. Em geral, o outro ataca quando estamos atacando ou quando ficamos na defensiva. Se você não fizer nada disso, abre-se uma comunicação livre.
Foi a melhor coisa que fiz, pois ele me disse que estava furioso e que ia no dia seguinte prestar reclamação na administradora do prédio, mas mudou de ideia com a conversa. Se ele tivesse batido na minha porta, o papo seria outro…
Apertamos as mãos e percebi que isso fez bem também para ele.

“Preciso de grana pra bebidas, drogas e prostitutas (ei, pelo menos não estou enganando você)”
Avançar e se antecipar
Avançar e se antecipar é a postura mais difícil, ainda mais quando podemos ser alvo de críticas.
Você já encontrou aquele email não respondido há um mês e deletou com medo de admitir para seus parceiros que esqueceu? Aí o cliente liga e você faz o quê? Não era melhor ter falado a verdade e agido como homem?
Eu já tive a manha de encaminhar um email que supostamente eu tinha respondido no dia seguinte à mensagem original (mentira, claro). A pessoa cobrou, percebi a cagada, escrevi a resposta na hora, coloquei um cabeçalho falso, mudei a data e enviei assim (com “Fw: Re:” no assunto):
“Olha a minha resposta há um mês, você não recebeu? Desde então fiquei no aguardo. Abs!”
Você já empurrou alguma tarefa, se fingindo de bobo (já que ninguém mais parecia lembrar), até que seu chefe chega e pergunta em que pé anda aquele projeto? Não era mais fácil ter admitido logo a demora ou sua incapacidade de gerenciá-lo?
Já ficou brigado com sua namorada e esperou a poeira baixar em vez de lidar diretamente com a insatisfação e com as reclamações dela? Ou enrolou um amigo por meses em vez de admitir logo que você não vai topar aquela viagem de fim de ano?
Não adianta, sempre que tentarmos empurrar a sujeira para debaixo do tapete, sempre que recuarmos manipulando ou fazendo joguinhos com os outros, sem comunicação genuína, vamos ser descobertos, vamos fracassar. A vida é mais esperta do que nós, sempre.
Quando nos antecipamos, removemos a cara de culpados e ganhamos naturalmente a confiança do outro, mesmo quando estamos errados ou cometemos uma falha terrível. Mostramos que estamos ali, autênticos, verdadeiros, transparentes e disponíveis para fazer algo a partir de nossa situação verdadeira, não de algo camuflado.
Muitas empresas precisam aprender com a vovó das Havaianas e com esse mendigo boêmio.
Muitos de nós também.
Gustavo Gitti é baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É autor do Não2Não1 e coordena a Cabana PapodeHomem.
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