Depois de ouvir calado a – e entoar o mesmo coro de – críticas ao técnico da seleção brasileira Dunga, vou me arriscar. Farei o impensável para um torcedor de bem: defender Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga.
Para isso, desenvolvo uma lista de itens para confrontar a série de acusações contra o treinador xará de anão. Digamos, seus pontos fracos. Supostos, diga-se.
A lista respeita critérios subjetivos e, obviamente, não é possível responder a tudo. Se essa fosse a pretensão, eu seria adevogado (sic) do cidadão. Como é puro exercício de contrariar o senso comum e para ajudar a pensar, vamos lá:
Nos tempos que correm, um fator que vale muito. Claro que isso não tem nada a ver com as críticas, mas é melhor se antecipar. Fosse em 2005, este item faria referência ao “senhor Marcos Valério, ao senhor Delúbio Soares” etc. Até onde se sabe, Dunga não é investigado em nenhuma operação da Polícia Federal. O mais perto que passou disso foi no processo do vôo da muamba. Isso porque estava no tal avião, mas o réu era outro… Nem geladeira, como o lateral-esquerdo Branco, o capitão do tetra trouxe.
Este item é mais interessante. A relação entre o técnico da seleção e a Globo é conflitante desde a posse. A coisa chegou a tal ponto que, no dia 20 de junho, Dunga disse ao Terramagazine: “Sei que querem a minha cabeça porque criei uma zona de desconforto para quem estava acostumado a cobrir a seleção sem sair de casa. Porque tinham a escalação, o time, as preferências do treinador. Mas isto mudou”. Ele claramente estava falando de uma certa emissora de televisão. “Queira ou não queira, a poderosa manda e os caras que trabalham para ela acham que mandam. Não digo que seja a TV Globo, mas alguns profissionais que trabalham lá e estavam acostumados com privilégios e não têm mais”, esclareceu. “Sei que os caras vão fazer leitura labial comigo, mas não mudo de posição”.
Dois dias depois, no quadro “Jogo Falado”, do Fantástico, estava lá a leitura labial das conversas entre Dunga e Jorginho, para tentar desmoralizar a dupla. Uma franca campanha para ter, em uma bandeja, a cabeça de cabelos espetados. E olha que ele não disse que ninguém precisava engoli-lo nem nada disso.
Esta é a mais comum das críticas. Cujos desdobramentos, aliás, alcançaram níveis não imaginados, como “ensinou” Lucia Hippolito, ao atribuir a Lula o “mal” feito ao país de chegar a um cargo importante “sem nunca ter feito nada” na vida. Com o conceito de “tudo” e “nada” anda pouco claro vamos por etapas.
O que os críticos normalmente querem dizer, é que Dunga não é bom para dirigir a seleção porque nunca atuou como técnico de futebol. Dizem: “é diferente ser um líder dentro de campo, como capitão, e ser técnico”.
Claro, claro, é muito diferente. Senão, vejamos:
3.1. Carlos Alberto Parreira chegou à seleção brasileira em 1993 com um currículo bonito, mas magro. Havia treinado o Fluminense campeão brasileiro em 2004, o Bragantino finalista do campeonato nacional de 1991, e uma passagem rápida e pouco gloriosa na própria seleção brasileira, além de outros selecionados sem tradição. Tinha também histórico como estagiário de preparação física. Foi campeão.
Em meados de 2002, depois da conquista do Penta, o mesmo Parreira reassumiu. Com muito mais cancha, fez-nos contentar com uma derrota nas quartas-de-final para os franceses, mesmo resultado, aliás, que trouxe do México outro experiente comandante, Telê Santana, em 1986.
3.2. Dois treinadores lá da Europa, onde o futebol é civilizado, rico e cheiroso (foi ironia, pessoal) podem ser citados. O treinador da seleção alemã na Copa de 2006 foi ninguém menos do que Jürgen Klinsmann, o camisa 9 campeão de 1990 ao lado de Lothar Matheus. O primeiro emprego de treinador foi no escrete germânico. E conseguiu um honroso terceiro lugar com um time limitadíssimo.
Na Euro 2008, foi a vez de outros dois estreantes, Marco Van Basten, na Holanda, e Slaven Bilic, da Croácia, mostrarem que experiências pregressas no banco de reservas nada têm a ver com resultado. Os laranjas foram a sensação da taça, jogaram bonito, mas perderam da Rússia. Os croatas caíram nas quartas, porque pararam nos sortudos turcos.
3.3. (sub-conclusão) Se currículo não ganha jogo e os times podem conseguir resultados expressivos sem isso, talvez seja o caso de considerar que a proibição de se exigir experiência profissional seja mesmo uma boa também para técnicos.
3.4. Eu até preferiria que Dunga tivesse mais resultados para mostrar antes de assumir o comando da seleção. Mas para quem já teve Sebastião Lazaroni como técnico só por ter sido tri-campeão pelo Vasco no fim da década de 80, não faço mais questão.
Dunga fez história ao perder para o ascendente futebol venezuelano em amistoso. A última vez em que uma derrota verde-e-amarela entrou para os anais tristes do futebol nacional foi contra a Bolívia, em 1993, a primeira na história das eliminatórias. Naquela ocasião, foi um 2 a 0 com direito a gol de calcanhar de Taffarel. Deu no que deu: Brasil tetracampeão no ano seguinte. De repente…
Pegando uma coincidência mais frutífera, Luiz Felipe Scolari, o Felipão, foi o último treinador brasileiro a conquistar a Copa do Mundo. Tão gaúcho quanto o Dunga, tchê.
Dos favoritos ao ouro, o único treinador de seleção principal a comparecer a Pequim neste ano é amigo da Branca de Neve e brasileiro. Isso mostra que ele foi obrigado a convocar muito mais jogadores do que seus antecessores, para testar.
O cara está muito mais exposto do que os outros foram. Nas eliminatórias, teve uma campanha quase igual à de Vanderlei Luxemburgo no comando da seleção canarinho, tirando um empate diante da Argentina na última partida.
De repente, o time olímpico que não pode ser retrancado nem se o técnico quiser surpreende.
Se a cobrança é por convocações incoerentes, e que à vezes sugerem interesses obscuros, prefiro me lembrar de Sonny Anderson, chamado por Zagallo semanas antes de ser negociado para o Barcelona.
Então, o cara se expõe, dá a cara para bater e não tem medo de críticas.
Dunga pediu para sua filha ser sua “personal stylist”. Eu não usaria o modelito xadrez-psicodélico, nem o pullover vermelho com gola rolê. Mas foi uma forma de se diferenciar de dois padrões: o engomadinho e o tiozão de jaqueta esportiva.
Nos tempos do colégio, o pessoal diria alguma coisa como “Deixa o cara”. Falavam da Família Scolari, mas o Felipão nunca gerou emprego para seus familiares sangüíneos. O que não se pode dizer do atual dono do cargo, que acredita na juventude e na importância do primeiro emprego.
E aí, Convenci alguém?
Anselmo Massad é palmeirense, jornalista, e um dos autores do Futepoca.
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