Vestindo a camisa do departamento de marketing
No primeiro semestre de 1991, com toda a moral possível após o título do Campeonato Paulista no ano anterior, o interiorano Bragantino estreou no Brasileirão com Carlos Alberto Parreira no comando e um uniforme inovador:
em vez das tradicionais camisas branca (com punhos e golas pretas) e listrada (de preto, na vertical), o clube apareceu com uma estampa em mosaico, estilo abadá de trio elétrico baiano.
A camisa de 1991…
…e o time de 1991.
O uniforme fez tanto sucesso que inspirou vários clubes a imitá-lo, como, por exemplo, o Vitória vice-campeão brasileiro de 1993. Não por outro motivo, o Bragantino continuou com a camisa estampada mesmo depois de a Dell’Erba deixar de fornecer seu material esportivo.
Na época, achei interessante. Mas confesso: não gostaria se fosse o meu time. Nesse ponto, sou conservador. Penso que a permanência do uniforme e do escudo de um clube por décadas representam persistência, convicção. Ou a (enganadora) sensação de que os jogadores, técnicos, cartolas e torcedores passam, mas o uniforme e o escudo permanecem.
Tenho esse tipo de (tola) satisfação ao ver uma foto do primeiro São Paulo, em 1930, e do Tricolor que jogou no último fim de semana. Camisas brancas, listras horizontais pretas e vermelhas, escudo triangular, o SPFC. Mesmo a segunda camisa, listrada em vermelho, preto e branco, variou pouco de lá para cá.
Pois bem, desde o Bragantino de 1991, os departamentos de marketing dos clubes brasileiros sentiram-se à vontade para fazer o que bem entendessem. O primeiro grande espanto foi o uniforme que a Parmalat impôs ao Palmeiras em 1992, com listras verticais brancas e verdes, idéia clonada pelo Marília pouco depois.
Aquele símbolo Adidas antigo com essa tonalidade… hmmm… Cannabis FC? fonte foto
Aliás, a Parmalat sentiria-se à vontade para experimentar no alviverde paulistano toda sorte de camisas estranhas, nas mais variadas tonalidades de verde possíveis e imagináveis. A mais esquisita, na minha opinião, foi a do título do Rio-São Paulo em 2000, metade verde-escuro e metade verde-piscina, com uma faixa branca dividindo os dois tons.
Casos esdrúxulos
Mesmo a sagrada camisa da seleção brasileira passou por mutações no final do século passado, como a inclusão provisória de vários distintivos da CBF em marca d’água, no uniforme vitorioso de 1994. Sinceramente, um tremendo (e, graças a Deus, efêmero) mau gosto. Outras milhares de “inovações” mercadológicas assolaram todos os clubes pelo mundo afora, de duas décadas para cá.
Taffarel sem saber se segura as bolas ou se… é, isso mesmo.
Sem contar que os patrocinadores passaram a invadir cada milímetro quadrado disponível, chegando, em alguns casos, a ocupar toda a manga e até a frente e o verso dos calções. Casos esdrúxulos incluem a estampa de logomarcas com cores totalmente avessas às do clube, como o vermelho e amarelo da Suvinil nos uniformes do Corinthians (década de 1990) e do Palmeiras (recentemente).
Lembram?
Sou um torcedor tão rabugento com essas coisas que não gosto nem do uniforme que o clube se vê obrigado a usar como visitante, para não confundir com as cores do adversário. O São Paulo com calções e meias pretas parece algum time do interior do Amapá. Não sei, não reconheço meu clube naquele uniforme.
E tem casos que são ainda piores. Quem não se lembra do Santos quando, no final da década de 1990, se viu obrigado a usar calções pretos? Para não ficar parecido com o rival Corinthians, o clube praiano utilizou algumas vezes calções com estampa xadrez em preto e branco, outro com estrelas e até com desenhos de baleia!
Ou melhor, vou fazer pior
O que dizer, então, do verde-“caneta corretora” do Palmeiras e do roxo-“cheguei” do Corinthians? O primeiro até pode ser considerado mais uma variação tonal para o alviverde, mas o que o roxo tem a ver com o alvinegro paulistano? Só se remete ao fúnebre rebaixamento para a Série B! Tomara que o São Paulo não invente uma moda dessas.
Tudo bem criar um troço desses exclusivamente para a torcida ou para uma única partida comemorativa. Mas daí a adotar como terceiro uniforme e usar continuamente é demais. Além de descaracterizar o clube, abre precedentes para os patrocinadores mandarem e desmandarem ainda mais do que já mandam e desmandam. Do jeito que a coisa vai, não duvido que um dia eu ainda veja o Palmeiras de vermelho e faixa preta diagonal, o Corinthians de verde abacate, o São Paulo listrado de azul e o Santos de laranja. Não duvido mesmo.
E o pior é que tem gente que diz:
“-E daí? Se isso acontecer, vou comprar a nova camisa e desfilar bem contente”.
Bom, seja feliz, mas não vou acompanhar a boiada e nem gastar dinheiro com essas camisas mirabolantes. Ou melhor, vou fazer pior: vou procurar aquelas coleções retrô, com design dos anos 1970, malha de algodão e, o melhor de tudo, sem um patrocínio sequer!
Err.. retrô só a camisa. O short pode ser atual.
Propaganda quem tem que exibir é jogador, dentro do campo – eu não ganho um tostão sequer com isso! E quem quiser, que use verde-limão, roxo, lilás, bordô, furta-cor, amarelo-ovo, purpurina, o diabo a quatro. Paixão por um clube não escolhe cor. Mas o departamento de marketing, esse sim escolhe. E impõe!
Marcos Palhares, 34 anos, é jornalista e integrante do coletivo que faz o Futebol, Política e Cachaça (Futepoca), que está concorrendo ao prêmio de melhor blogue de língua portuguesa no The BOBs. Se você gostou desse texto, clique aqui e saiba como votar no Futepoca, que qualquer um pode acessar para espinafrá-lo. Faça o favor.
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