Papo de Homem

Somos um grupo de caras espalhados pelo Brasil, com gosto por tudo o que a vida oferece de melhor. Relatamos aqui eventos, produtos, ideias e o que mais a imaginação alcançar. Lifestyle Magazine.

Uma parte deles vem comigo


Publicado por Patricia Ferraz em 30.7.2008 às 12:09 em Colunas, Ladies Room

Nunca os alto-falantes dos telefones me haviam sido tão úteis.

De um lado, mamãe; nervosa, preocupada. De outro, a irmã mais velha; do alto da experiência de mercado que já tem, tão nova, aos vinte e seis anos. Éramos três, em duas ligações. Ambas falavam com amor, pensavam em mim com amor. “O que é melhor para ela?”

Tenho certeza de que vão sentir saudades. Tenho certeza de que me prefeririam perto. Mas disseram: “Vá.” E eu precisava ouvir isso. Quem é da área já havia compreendido. Uma vaga na capital pode parecer a melhor coisa do mundo. O status da TV aqui é enorme. Recém-formada, editar um telejornal local que costuma ter mais audiência que o maior telejornal do país é uma honra. Fiquei muito satisfeita de ter sido chamada para essa vaga temporária. Mas ela é temporária. O que mais quer um foca? Qualquer um pode saber.

E eu não sou, assim, qualquer foca. Sou uma foca sonhadora, cheia de objetivos audaciosos. Prevejo com muita clareza — embora possa estar errada — que o caminho mais longo, agora, pode significar um atalho, lá na frente. É claro que estou angustiada. É claro que fico em dúvida. Mas a esperança de conseguir uma colocação exatamente no cargo a que aspiro, é o que me estimula a ir. Ontem, dormi com a certeza de ficar; hoje, começo o dia com a segurança de que preciso partir.

Vou sentir muitas saudades. Saudades do colo da mamãe. Saudades do abraço da minha irmã, que é quase uma alma gêmea. Dos amigos, da família inteira. E vou sentir falta dele, também. Muita falta. Mas sinto que chegou a hora de desgarrar. Abrir mão dessa segurança de estar em casa. Conhecer novos amigos, aprender novas lições.

Chegou a hora de reconhecer o valor de um chão brilhando de tão limpo. De perceber que as comidas não nascem na geladeira. Que o banho de 40 minutos, além de anti-ecológico, é caríssimo. Chegou a hora de pensar no preço da escova de dentes e do absorvente feminino, antes de comprar.

Não sei fazer arroz, feijão ou passar bife. E, no fim de semana, tive que ligar para minha amiga que adora cozinha para tentar fazer um ovo mexido. Mas sei que sou capaz de aprender tudo isso, se quiser. Caso contrário, editar o jornal vai render-me alguns reais a mais que o preço cobrado pela empregada. E espero que, assim, tudo se resolva.

Não terei tempo para despedidas. Não poderei rever a maioria das minhas almas afins, antes de ir. Mas vou levar uma parte de todas elas comigo. Uma parte que vai estar na minha lembrança, sempre. Até que as novas afeições possam crescer a ponto de transformar o que hoje me parece o mais importante do mundo, em simples recordações de um passado distante.

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Por profissão ou a lazer. O fato é que escrever a agrada mais que à média. Na TV, uma jornalista a fim de ajudar. De contar boas histórias de gente. Aqui, blogueira. Atrás de vidas, sentimentos. Atrás de gente também.

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13 comentários ↓


  • #1 - Karla Nazareth em 30.07.08 at 1:10 pm
  • É bem isso que estou vivendo. Durante a semana, dias cheios e corridos, consigo abstrair a distância. Mas basta chegar os sábados e domingos para eu cair no poço da saudade. As pessoas que amo estão do outro lado do país (Belém) e eu só vim (POA), com a passagem de ida. Vou ter que batalhar muito para pagar-me outras passagens para visitá-los… Às vezes, dá vontade de desistir de tudo e voltar a minha rotina segura que não me fazia perceber que o tempo havia passado pra mim também. Daqui de longe eu consigo ver o quanto eu cresci (e o quanto ainda preciso crescer). Eu quero voltar, mas não agora. Não posso decepcionar a “pequena Karla” que ficou lá no passado sonhando que um dia iria aprender muitas coisas e se tornar grande…


  • #2 - Alan Bonner em 30.07.08 at 1:38 pm
  • Ahhhh eu quero ser jornalista tbm!!!


  • #3 - Alexandre em 30.07.08 at 1:59 pm
  • Seu texto me comoveu… de verdade… eu sei o que é morar sozinho e um texto bem escrito sempre faz bem..

    Não quero lhe dizer que “vai dar tudo certo” porque não vai. E são nas dificuldades que a vida mostra a sua graça.

    Não desista. Não é fácil. Mas é muito divertido! :)


  • #4 - Thiago! em 30.07.08 at 2:14 pm
  • Muito bem, digno da Capricho!


  • #5 - Carla Matias em 30.07.08 at 3:09 pm
  • O Alexandre tem toda razão!!!
    Também não direi que dará tudo certo… Prefiro dizer que “no final, tudo dará certo”… Você passará por vários perrengues, vai se lembrar do quanto perdeu tempo brigando com sua família, vai ter saudade da comidinha da mamãe, do colinho do papai, de não ter que se preocupar com as contas da casa…
    Mas ganhará maturidade, responsabilidade, e terá uma bagagem completamente diferente, suas amigas parecerão ter ficado paradas no tempo…
    Mas tudo isso é inenarrável, inexplicável, e totalmente indispensável…Viva cada momento!!!
    Bjôooooo


  • #6 - Thiago em 30.07.08 at 4:34 pm
  • TUDO o que eu quero é ir para São Paulo.. só preciso de um empurrão. x)

    Boa sorte em sua nova vida.


  • #7 - John em 30.07.08 at 5:32 pm
  • São Paulo… quem ta fora quer entrar e quem ta dentro quer sair :P

    vai entender


  • #8 - Renato em 31.07.08 at 11:10 am
  • 26 anos e nao sabia fazer um ovo mexido ainda???rsrs..Lógico q se vc considera isso uma dificuldade a ser superada, torço pra vc perceber q foi fichinha perto do que conseguiu conquistar nesse ambiende de independência e responsabilidade econômica, social e ambiental (os 40 minutos no chuveiro com ctz agora serão coisa do passado). Boa sorte pra vc nessa nova etapa!


  • #9 - Gustavo Alencastro em 31.07.08 at 11:25 am
  • Boa sorte !


  • #10 - Roberta em 31.07.08 at 2:39 pm
  • Também estou nessa. Vou mudar no fim do ano. Mas pra beeeeeem longe. Vou sentir muita saudade da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos, dos meus amigos. Mas eu sinto que é o momento, e que eu preciso disso.
    Boa sorte para nós!


  • #11 - Adal em 31.07.08 at 9:33 pm
  • Vocês vão em desculpar, mas a pergunta que fica é:

    Pq é “powered by boo-box” mas só tem HOTWords?


  • #12 - Patrícia Ferraz (Autor) em 02.08.08 at 11:54 am
  • É, Karla. Às vezes, questiono-me sobre as minhas ambições profissionais. Sinto que preciso buscar meu objetivos, mas reflito sobre o futuro. Onde será que esses objetivos vão me levar? Vou ficar satisfeita depois? Até que ponto devo sacrificar a vida pessoal e espiritual?
    Bom, tudo isso são reflexões, não vamos chegar a conclusões, por enquanto. Mas sinto que o amadurecimento é certo. Ter tempo para sentir a nossa própria companhia, a nossa chatice, a nossa carência, vai nos trazer maturidade.
    Boa sorte pra nós!

    Alexandre, obrigada pelo comentário… Com histórias semelhantes já podemos aprender alguma coisa! rs

    Renato, tenho 24 anos. Mas não saber fazer ovo mexido continua sendo uma vergonha!

    Pois é, Roberta, minha mãe tem comentado que a cidade onde vou viver é pertinho… isso ajuda, né! Espero que as tecnologias ajudem vc, que vai estar mais longe!


  • #13 - Doris em 06.08.08 at 1:50 am
  • Sério, meus olhos marejaram. Mamãe faz falta. “Mas ela sabe que depois que cresce o filho vira passarinho e quer voar”, já dizia uma sábia música sertaneja, hehe.

    Mas a falta dos irmãos… é quase insuportável as vezes.

    Lindo texto.


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