Todo mundo tem uma história pra contar

Luciano Ribeiro

por
em às | Artigos e ensaios, Cultura e arte, PdH Shots


Antes de começar, é importante ler a tirinha do começo ao fim.

Some_People_by_MumblingIdiot_ptbr

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Quando a gente ainda é moleque, tem uma cadeia de acontecimentos que acabam fundamentando os critérios que vamos adotando durante a vida.

O acontecimento que vou contar se deu naquela fase em que nossos pais estão morrendo de medo de nos tornarmos vagabundos e nos empurram para o primeiro emprego que surgir pela frente.

Em uma dessas nada glamourosas vagas, acabei me deparando com essa figura que acabou representando pra mim a imagem clássica do chefe. Ele era uma espécie de J. J. Jameson, sempre irritado, pronto a fazer brincadeiras desconcertantes e, principalmente, para dar broncas. Praticamente todos os dias alguém entrava pela porta do seu escritório e ele ouvia as justificativas para quaisquer eventuais falhas ou atrasos.

Para ele, não importava se a mãe de alguém tinha morrido, se o ônibus quebrou, se houve um alagamento que engarrafou a cidade inteira ou se o prefeito resolveu começar uma obra em alguma importantíssima via. Ele sempre fazia o julgamento que achava necessário, dizia o que tinha que dizer e, depois, quando o tal funcionário saia pela porta, dizia: “todo mundo tem uma história pra contar.”

Fiquei com essa frase na cabeça um bom tempo. Eu tinha a nítida impressão de que ele falava aquilo com bastante desprezo, julgando todo mundo como preguiçoso.

Agora, anos depois, encontrei essa tirinha. O autor, Luke Pearson, tentou submetê-la em um concurso de quadrinhos do The Guardian. Porém, o destino não sorriu amigavelmente para ele e a história foi rejeitada.

De uma certa forma, ela me lembrou a frase do meu velho chefe, mas por um outro viés. A gente está por aí, andando pelo mundo, errando, mandando mal, cobrando, sendo cobrado, se apegando, travestindo isso de amor, recebendo foras, odiando, as coisas estão saindo dos nossos planos, insistimos, choramos, choramos, choramos… mas a gente está fazendo o nosso melhor. Mesmo que esse melhor às vezes seja bem ruim.

Se a gente parasse pra ouvir ao invés de ficar tão preocupado com nosso próprio ponto de vista, ia ver que, realmente, todo mundo tem uma história pra contar.

Luciano Ribeiro

Editor do PapodeHomem, ex-designer de produtos, ex-vocalista da banda Tranze. Tem um amor não correspondido pela ilustração, fotografia e música. Volta e meia grava músicas pelo Na Casa de Ana. Está no Twitter, Facebook e Google+.


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  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Que artigo bonito, Luciano.

    • Luciano Andolini

      Que bom que você gostou, cara. :)

  • Pietro Castagnaro

    Cara, muito aconchegante e motivador seu texto, parabéns !

    • Luciano Andolini

      Muito obrigado, Pietro. :)

      Mas me diz, que linda tirinha, né?

      • Guest

        Concordo, Difícil é acreditar que fora rejeitada, talvez pela forma “morna”, nem quente nem fria, de sua essência, escapou aos olhos da bancada.

        Creio que essa do H. Hesse, é totalmente pertinente :

        “Para a arte de viver, é preciso saber a arte de ouvir, sorrir e ter paciência… sempre.”

        Um ponto exposto pelo quadrinho é a facilidade que nós temos de julgar o próximo, é tão mais fácil dizer que o inferno são os outros, do que aceitar nossa própria ordinerialidade. Sei lá, acredito que as vezes nos sentimos tão só dentro de um ônibus, na mercearia, na universidade, no trabalho ou mesmo em casa. Que atitudes como julgar e/ou expor alguém (por exemplo), vão sanar essa “criatura nula” dentro de nós.

        Por minha vez tenho tentado me aproximar cada vez mais desse cara. não somente através dos livros mas como também evitando atividades como o Facebook e cia. Sinceramente recomendo a todos, porque a partir dessa atitude, pude me sintonizar ainda mais com a minha real natureza (espero eu hehe), e assim entender que como o outro pode errar, eu erro, talvez não no momento, mas em alguma ocasião. Afinal de contas todos somos humanos, e somos todos passíveis dos acasos desse mundo deveras caótico. =]

      • Pietro Castagnaro

        Concordo, Difícil é acreditar que fora rejeitada, talvez pela forma “morna”, nem quente nem fria, de sua essência, escapou aos olhos da bancada.

        Creio que essa do H. Hesse, é totalmente pertinente :

        “Para a arte de viver, é preciso saber a arte de ouvir, sorrir e ter paciência… sempre.”

        Um ponto exposto pelo quadrinho que me chamou a atenção é a facilidade que nós temos de julgar o próximo, é tão mais fácil dizer que o inferno são os outros, do que aceitar nossa própria ordinerialidade. Sei lá, acredito que as vezes nos sentimos tão só dentro de um ônibus, na mercearia, na universidade, no trabalho ou mesmo em casa. Que atitudes como julgar e/ou expor alguém (por exemplo), vão sanar essa “criatura nula” dentro de nós e aquecer esse friozinho.

        Por minha vez tenho tentado me aproximar cada vez mais desse cara. não somente através dos livros mas como também evitando atividades como o Facebook e cia. Sinceramente recomendo a todos, porque a partir dessa atitude, pude me sintonizar ainda mais com a minha real natureza (espero eu hehe), e assim entender que como o outro pode errar, eu erro, talvez não no momento, mas em alguma ocasião. Afinal de contas todos somos humanos, e somos todos passíveis dos acasos desse mundo deveras caótico. =]

  • Eduardo Baiano

    Que texto, legal, Luciano.Engraçado, esses dias estava relendo o livro “A Cabana”, e me veio a mente algumas ideias que casam com o que você falou. Na história, há um homem que estupra e assassina brutalmente uma menina de seis anos. E mais, tarde, no fim do livro, descobrimos que ele foi totalmente deformado pela vida.

    O que também pode acontecer na vida real, muitas vezes, não entendemos porque algumas pessoas tomam certas atitudes, mas não conhecemos a história que todo mundo tem pra contar.

    Valeu, mesmo, cara! Abração.

  • Dirlene Ribeiro Martins

    Eu tive uma chefe parecida com o seu, Luciano. Para vc ter uma ideia, a secretária dela ficava doente todo final de semana, tamanha a tensão. Por outro lado, tive a oportunidade de uma noite pegar carona com ela e conhecê-la em outro contexto. Foi então que ela revelou seu lado frágil. Ela era a única diretora em uma empresa cujos cargos de chefia eram dominados pelos homens, então, endurecer foi a forma que ela encontrou de se fazer respeitar. Pouco tempo depois acabei saindo da empresa, mas ela me ensinou que a gente em geral não sabe o que está por trás do comportamento das pessoas.

  • Guest

    Eu tive uma chefe parecida com o seu, Luciano. Para vc ter uma ideia, a secretária dela ficava doente todo final de semana, tamanha a tensão. Por outro lado, tive a oportunidade de uma noite pegar carona com ela e conhecê-la em outro contexto. Foi então que ela revelou seu lado frágil. Ela era a única diretora em uma empresa cujos cargos de chefia eram dominados pelos homens, então, endurecer foi a forma que ela encontrou de se fazer respeitar. Pouco tempo depois acabei saindo da empresa, mas ela me ensinou que a gente em geral não sabe o que está por trás do comportamento das pessoas.

  • http://gustavogitti.com/ Gustavo Gitti

    Obrigado, Luciano!

  • Guilherme Cuer

    Luke Pearson é demais! Comprei um quadrinho dele ano passado pela internet chamado “Everything We Miss” – Recomendo muito!

    • Luciano Andolini

      Já viu as histórias da Hilda? Pensando em trazer alguma pro PdH também.

      • Guilherme Cuer

        Já li algumas prévias na internet mais ainda não comprei, são boas? Outro cara MUITO bom, que tem um estilo parecido com o Luke Pearson, e que na minha opinião se encaixa bem aqui no PdH é o Chester Brown. Recentemente lançou um quadrinho no formato de livro, chamado “Pagando por Sexo” – No qual ele relata os anos que ele passou pagando prostitutas, conhecendo suas histórias, e a conclusão que ele tirou da experiência!

      • Luciano Andolini

        Putz, já ouvi falar desse. Tô a fim de ler.

      • Guilherme Cuer

        Eu gostei bastante, e recomendo! – Talvez possa dar um gancho pra criar um tópico interessante aqui no PdH.

  • http://oncee-upon-a-time.blogspot.com Angel Alves

    Parabéns guri, artigo sensacional!

    • Luciano Andolini

      Obrigado, Guria. ;)

  • Wagner Felix

    Essa tirinha é o melhor exemplo que já vi de como julgamos e nos modificamos no decorrer da vida. Fantástico!

  • Sergiuss

    “As pessoas que estavam dançando foram consideradas loucas por aqueles que não podiam escutar a música” Nietzsche

    Nossos sentidos preparam o grande teatro da vida. Se nosso ser aprender a assistir a arte do outro teremos a chance de aplaudi-lo, direto do palco.

  • Waldemir Gondim
    • Luciano Andolini

      Também me lembrou Crash.

      E o que você achou do texto e da tirinha, Waldemir?

      • Waldemir Gondim

        Tão inspirador quanto o filme, Luciano. E um bom alento nesses tempos de intolerância e sede de vingança. Particularmente interessante ver como o autor utilizou de passado e futuro (o tempo em si) pra contar a história. São textos e quadrinhos como estes que ajudam a recobrar a fé na humanidade. Parabéns.

  • Luiz Rossi

    Cara, artigo e quadrinho show!!! De quando em quando me pego pensando nisso, quantas vezes não julguei alguém na rua, no ônibus, na academia por ela parecer algo ou fazer algo “errado”. E quantas vezes será que não fui julgado por essas pessoas?
    Na real, o mundo hoje é feito de 7 bilhões de histórias e todas um dia terão um fim e quase todas elas não serão contadas por mais ninguém, por isso o melhor a se fazer é viver a nossa história sabendo que tantas outras estão sendo vividas e saber contar a nossa e principalmente saber ouvir a dos outros.
    Tá, to viajando aqui, mas meu, seu artigo e esse quadrinho são foda demais para não pensar e viajar! Muito bom!

  • Davi Rhemas

    Boa, Luciano….Chega de “tolerância zero”…Oportuno e feliz o artigo.

  • Eric Lestat

    Fala Luciano “Jesus”!!! Muito boa a tirinha. Gostei muito do teu artigo. Parabens cara!!

    • Luciano Andolini

      Nossa! Fale, Lestat! Felicidade saber que você leu o texto.

      Abração,

  • Edivan Teixeira

    Uma puta tirinha com um texto fantástico, muito obrigado, todos nós somos reflexos de um passado único.

  • Danilo Faria

    Que post eim cara. Parabéns!

  • Cassio Silva

    Belissimo texto e fantástico quadrinho!

    As vezes penso que o fato de cada um termos uma história é que é o problema da nossa história coletiva. Cada ser humano precisa saber, entender que não pode se colocar como o personagem central da história do universo, de uma história que não teve um começo e não terá fim, que não depende deste único,personagem para acontecer. Mas depende de todos para acontecer com harmonia.

    Só que a maioria quer deixar a sua marca na história da humanidade, como se fosse o ser mais importante que já passou por aqui. Mas quantos são realmente importantes para isto? Até aqueles que o são vivem sendo questionados e desqualificados por outros.

    O mundo, o universo estão aí simplesmente e não precisam de nenhum de nós. E saber disto nos deixa muito infeliz, e tentamos mudar. E não conseguimos mudar isto.

    Mas quando aceitamos, como as coisas mudam! Eu não sou importante!! Eu não tenho obrigação de ser importante! Não tenho que deixar um legado para a humanidade! Minha história é pequena e insignificante como a de qualquer outro.

    Agora só preciso….viver. Respirar e viver.

    Onde começo?

  • http://www.luhguedes.com Luh Guedes

    É .. acho que temos que parar de falar/escrever e começar a agir, mudar mesmo! Ou melhor, além de falar/escrever, temos também que pratricar! Quem nunca passou perto deum “Raimundo” na vida e nem deu bola. Acho que a palavra desse ano é ouvir e está nos meus planos não julgar! Parabéns pelo texto.

  • http://daportaprafora.com/ Adriana Lima

    Tocou meu coração. Valeu por mais uma história.

  • http://juniosemr.blogspot.com/ Junio

    Eu não vou prolongar, mas concordo com o que essa tirinha apresenta. E de fato tudo envolve um contexto, uma construção histórica e o momento em que se vive na sociedade.

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  • Murillo B. Galdino

    Cara, há tempos que paro o que estou fazendo para ler seus artigos. Mais do que nos inspirar, eles nos fazem pensar, pensar no outro, no próximo. Novamente, um artigo merecedor de parabéns.
    Até a próxima, Luciano!

  • Jônathas Sant’Ana

    Tirinha genial e texto pertinente!
    Isso me lembra algo que aprendi enquanto cristão, quando passei a enxergar as pessoas como o cristianismo (não a religião cristã) bíblico manda enxergar. Sabe toda aquela história de não julgar, de amar o próximo, de ninguém é melhor do que ninguém, Jesus morreu pelo mundo todo, Deus enxerga o coração, etc, etc? Pois é, com base no que eu aprendi sobre isso – depois que consegui me livrar da religiosidade – me assustou a possibilidade de aprofundar ainda mais o conceito de igualdade.
    Esse “todo mundo tem uma história pra contar” é a máxima que Jacques Derrida expressa muito bem em seu “Da justiça ao direito” quando diz que o Direito não alcança a justiça por que ele trabalha com o que podemos calcular, e o que podemos calcular não inclui essa “história que todos tem”.
    Não podemos usar essa “história” como justificativa para más escolhas, mas como você mesmo disse, todos fazemos más escolhas – algumas com consequencias terríveis, outras nem tanto. E isso diz muito sobre igualdade. Mais do que ir para o mesmo pó, nós todos – ainda em vida – temos histórias pra contar.
    Ainda carregamos o peso de uma sociedade que nos obriga a ter um mínimo de verniz social para esconder o que REALMENTE somos, e acabamos por esconder tanto tais histórias, que além de sufocarmos a nós mesmos, não permitimos que as outras pessoas nos enxerguem.
    Se passássemos a olhar os outros com essa “lente” de tolerância, eliminando o excesso inútil de verniz social, as pessoas começariam a se constranger diante da grande verdade de que todos somos iguais nas nossas diferenças.

  • Tarciano Gonçalves Dias

    Obrigado por me mostrar isso cara, de verdade. texto+quadrinho=(mothafoka)²

  • Adriana Kavouras

    Adorei!!! Verdade, cada cabeça, um mundo!! Pena a sociedade tentar fazer todo mundo ser igual!! Todo mundo tem uma história para contar e podem até ser parecidas, mas nunca iguais!!

  • Pingback: Cada pessoa tem uma história pra contar | BrasilART

  • Felipe Baco Taborda

    Muito bom isso, cara!

  • http://www.entrilogi.webs.com Ben

    por que eu nunca entendo nada de nenhum post daqui? :’( os texto são sempre tão grandes…

    • Luciano Andolini

      Insiste e lê até o final dos textos sem mudar de aba, Ben. Depois de um tempo você vai me agradecer, eu garanto.

      Abração,

  • Pedro Marinelli

    Cara, muito obrigado por compartilhar tanto texto quanto quadrinho. São julgamentos, pensamentos, opiniões, decisões. Coisas pequenas de todos os dias. Mas que levamos com a gente. As vezes nem escolhemos o que levamos, mas elas constroem nossa história. Aquela que todo mundo tem…

    Parabéns pela sensibilidade e pelo texto.

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  • Leandro Lisbôa

    Que bonito, Luciano. Vou compartilhar aqui.
    Parabéns pelo texto.

  • Fernanda Cristina Silva

    Um texto belo, coerente, e que me fez refletir atitudes que eu já cobrei e que já sofri.

  • Jefferson Andrade

    Tenho a impressão que já vi um filme com temática parecida… Sempre enxergo cada rosto com uma história diferente, independente de cor, raça, credo ou escolaridade… Tenho 26 anos e as escolhas que fiz em minha vida trouxe-me exatamente para onde estou hoje. Se pudesse voltar atrás, provavelmente voltaria… mas já que estamos aqui, vamos viver, afinal, sempre seremos julgados…

  • Gabriel Lobato

    Um exercício interessante é analisar isso quando estamos putos com alguem.

    Me irrito muito facilmente no transito, ai outro dia lembrei desse artigo e comecei a pensar em todas as camadas de cada um daqueles caras ao volante na tranqueira.

    Todos eles tem um lado fdp, um lado bacana, um objetivo de vida, familiares com problemas, contas a pagar…

    Estamos todos no mesmo barco. Se o cara fez uma burrada no trânsito não dá pra julga-lo pela inabilidade dirigindo, o cara deve ser expert em várias outras áreas e infelizmente só estou podendo conhecer o seu lado motorista, que é lerdo, tapado, demorado, não sinaliza… Mas no fim das contas, vai saber se ele não sofreu um acidente traumático, ou está andando com o carro da empresa, ou a recém tirou o carro da concessionária e dirige com medo… e etc.etc.etc.

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