Todo mundo generaliza

Thiago Rocha Kiwi

por
em às | Crônicas e contos, PdH Shots


“Todo político é ladrão, os policiais são todos corruptos e brasileiro é tudo malandro.”

Quantas vezes você já ouviu ou falou pelo menos uma dessas frases? Mas quantas vezes você já parou para pensar que o real valor de qualquer uma delas é, na verdade, zero?

Essa foi a primeira imagem de "político" que apareceu no Google. Senso comum ultrapassando a verdade comum

Com genial sagacidade, Nelson Rodrigues, ainda no seu tempo, já falava que “toda unanimidade é burra”. E é exatamente esse o ponto. Quando generalizamos, deixamos nossa ignorância falar mais alto do que a nossa capacidade de construir um argumento. Por isso, quando falamos que mulher só pensa em dinheiro ou que já não se faz música como antigamente estamos apenas jogando palavras ao vento.

Generalizar é um costume, é o mais fácil. Mas concordo que é difícil largar mão do pensamento raso sobre alguma coisa. Podemos até saber que tem um policial fazendo um bom trabalho na delegacia do nosso bairro, mas ainda descemos a lenha na polícia inteira quando vemos um PM aceitando um trocado para o chopp.

Problemas existem em qualquer lugar, com qualquer instituição e com qualquer pessoa. Mas quando você generaliza, você fecha os olhos para oportunidades. Você acaba não dando chance para descobrir coisas, pessoas e lugares que ainda não conhece.

Quando generalizamos, damos voz ao nosso desconhecimento. Um bom exemplo disso é quando algum gringo desinformado me fala que o Brasil é um país violento porque ouviu que um amigo do vizinho dele foi assaltado no Rio de Janeiro. Geralmente respondo que qualquer cidade no mundo pode ser perigosa para turistas, dependendo de onde você vai e o quão otário você é. Eu, por exemplo, vivi em bairros não muito bons em São Paulo a maior parte da minha vida e nunca tive problemas, mas, quando me mudei para a Inglaterra, em menos de um mês tive minha bicicleta roubada e ainda fui obrigado a correr atrás de um maluco na rua que tentou roubar minha mochila.

Generalizar é um jeito fácil de limpar nossa barra e de nos abster da responsabilidade dos fatos que estão na nossa cara. Assumindo posturas do tipo “se politico nenhum presta mesmo, por que eu vou me preocupar?” viramos as costas para a raíz dos nossos problemas e jogamos a batata para o colo de ninguém. Em vez de pensar numa solução, preferimos sair por aí divagando achismos baseados em ideias e argumentos que não temos.

Essa foi a primeira imagem dada pelo Google para "muçulmano". Parece que o mundo molda a sua própria verdade

Pessoalmente, acredito que a generalização – tanto a expressa verbalmente quanto a ideológica – é a origem de grande parte dos mal-entendidos que vemos por aí. É aquele tipo de postura que pode evoluir para a intolerância, preconceito e discriminação.

Livrar-se dos clichês inventados pelos outros é uma das maneiras excitantes de se aprender, de se conhecer o mundo e, por consequência, se tornar um homem melhor. Mas, quanto a esse assunto, aguardo a opinião diversa dos leitores PdH, porque o problema começa mesmo quanto todo mundo aqui concordar que toda a unanimidade é burra.

Thiago Rocha Kiwi

É nosso correspondente em Londres. Jornalista, nascido e criado na selva paulistana, gosta das oportunidades desafiadoras. Apaixonado por informação e conhecimento, enxerga o trabalho como uma forma de evolução e a internet como revolução. No Twitter, @thiagokiwi.


Outros artigos escritos por


SEPARAMOS MAIS TEXTOS PARA VOCÊ CONTINUAR LENDO




O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Conheça a visão e a essência por trás do que fazemos. Queremos uma discussão de alto nível. Antes de comentar, leia nossas boas práticas. Caso deseje enviar um texto e se tornar um autor, venha por aqui.


  • http://osexoeasmulheres.blogspot.com Deb.

    Acho que generalizar é como julgar… coisas que sabemos que não deveríamos fazer, mas fazemos (e me incluo aí) constantemente, em maior ou menor grau. Não sei se tem como escapar disso… a menos que se seja assim tipo um mestre budista. :)

    Mas acho ótimo que se discuta o assunto, como você fez muito bem neste texto, Thiago. É um primeiro passo para ficarmos mais conscientes desse tipo de coisa. E a partir daí, tentar evitar o erro.

  • Dado Teles

    “toda unanimidade é burra”

    Isso não é também generalizar?

    • http://www.facebook.com/pedromiotto Pedro Miotto Federico

      O próprio título do texto é uma generalização… E isso dá um toque a mais nele ;)

    • Anônimo

      Mamilos, hein

  • http://www.kuro-obi.com.br Alberto Brandão

    A sabedoria comum está sempre errada.

    • http://twitter.com/edegar EDEGAR NEUMANN

      Sempre? Ou essa é mais uma generalização?

      • http://www.kuro-obi.com.br Alberto Brandão

        Todo mundo generaliza…

      • http://twitter.com/edegar EDEGAR NEUMANN

        hehehe…

      • http://twitter.com/edegar EDEGAR NEUMANN

        hehehe…

      • Anônimo

        Tá generalizando

    • Anônimo

      E a sabedoria comum é que sabe das coisas né, afinal, generalizar a sabedoria comum é foda. =P

  • Samyta Nunes

    Sempre impliquei com as generalizações, apesar de eu mesma viver repetindo uma delas: “nenhum homem presta”. rsrsrs

    Acho muito relevente seu texto. É preciso pensarmos mais sobre isso, definitivamente.
    Daí poderemos tentar sair da zona de conforto e começar a fundamentar mais o próprio discurso.
    Adorei!

  • Lucas Carvalho

    “Pessoalmente, acredito que a generalização – tanto a expressa
    verbalmente quanto a ideológica – é a origem de grande parte dos
    mal-entendidos que vemos por aí. É aquele tipo de postura que pode
    evoluir para a intolerância, preconceito e discriminação”

    Exatamente o que eu penso. Bom shot, esse assunto merece mais discussão.

  • http://inexoravelmenteperene.blogspot.com/ Luiza

    Generalizar é válido quando se quer classificar e quando se esclarece os “porquês” da generalização. Agora, jogar palavras ao vento é pura vontade de falar com falta de argumento.

    Quanto ao título do texto é meio paradoxal sim, mas é aí que tá graça. Como na frase “nunca diga nunca”

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Eu confesso que acho as generalizações importantes, elas ajudam a perceber padrões que podemos utilizar mais tarde para tentar estimar os resultados das nossas ações, além de em muitos casos ser uma forma de guardar informação de maneira mais sintética. Será que cada palavra não é por si só uma generalização? Eu acho que o problema reside em achar que essas generalizações são absolutas.

  • http://www.facebook.com/people/Diego-P-Franco/100000753472959 Diego P Franco

    O neurocientista americano Dean Buonomano diz que nosso cérebro não é tão moderno como acreditamos e que nosso comportamento – inclui-se o preconceito – é herança da natureza primitiva do indivíduo. O cérebro humano precisa categorizar para funcionar, ele precisa classificar para referenciar padrões. E sim, todo mundo generaliza e todo mundo tem preconceito. O diferente tende a nos confrontar, como fazíamos na ancestralidade com qualquer coisa que nos ameaçava. O preconceito e as generalizações são defesas inconscientes, resquícios do primitivismo. O nosso cérebro não é tão desenvolvido como acreditamos que seja. 

    • Anônimo

      Boa Diego, 

      Mas ainda acho que nosso cérebro seja desenvolvido o suficiente para que abramos os olhos para o que ainda não conhecemos. 

  • Anônimo

    O Google está filtrando resultados de acordo com as pesquisas pessoais de cada pessoa. Tem um texto meu falando sobre isso aqui: http://www.portalhomem.com.br/artigos/a-internet-esta-atrofiando-nosso-cerebro-e-estreitando-nosso-mundo

  • Anônimo

    O Google está filtrando resultados de acordo com as pesquisas pessoais de cada pessoa. Tem um texto meu falando sobre isso aqui: http://www.portalhomem.com.br/artigos/a-internet-esta-atrofiando-nosso-cerebro-e-estreitando-nosso-mundo

  • Laura

    Ótimo texto, tenho pensado muito sobre o assunto ultimamente, principalmente quanto ao quesito relacionamentos! É algo que me irrita muito, uma roda de mulheres, uma solta que tá com problemas com o rolinho/ficante/namorado/amante/marido/whatever e pronto, está declarado o inicio do Festival de Generalizações do ano! É homem? Aah então é tudo igual. Tu não precisa nem conhecer o cara pra dar um conselho. Absurdo.

  • Andre Kaminski

    A generalização tem muito a ver com a forma e as experiências que nós temos em vida. Querendo ou não, é uma defesa do nosso cérebro para tomarmos uma situação passada como base que nos influenciará no julgamento de alguém.

    É algo inconsciente e de certa forma, até incontrolável. Dando um exemplo, se quando por exemplo um sujeito muito tatuado te causou algum mal profundo, como uma agressão, bullying, roubo ou qualquer algo do gênero, nosso cérebro guarda a informação de que homens tatuados podem ser perigosos. É o nosso velho e conhecido “trauma”. Óbvio que nem todos os tatuados são ruins, mas nosso cérebro ultrapassado, como bem citou o Diego Franco, vai inconscientemente te alertar que quando você ver um cara tatuado parecido com aquele que o agrediu, é para tomar cuidado e é sinal de perigo. Ou seja, você “generalizou” de forma até inconsciente que os tais tatuados podem ser perigosos porque justamente você sofreu com um.

    Isso, no máximo, pode ser amenizado justamente tendo a consciência de que você deve conhecer mais profundamente uma pessoa antes de tecer algum julgamento. Mas nunca, jamais a generalização deixará de existir e até é bom que não seja totalmente eliminada, visto que é uma defesa que você possui que pode muito bem te impedir de entrar em uma roubada.

    Além é claro, de jamais deixá-la evoluir para algum tipo forte de preconceito prejudicial a alguém.

  • Anônimo

    ae! 0/

    pessoal tá ficando mais lúcido nos comentários. coisa linda de ver

  • Anônimo

    machuca.

  • Anônimo

    Hahahahahhaha

  • http://www.facebook.com/killersandro Sandro Guedes de Souza

    A unanimidade é burra e a generalização é inevitável. Só =)

  • http://www.facebook.com/people/Gustavo-Faria/1132579103 Gustavo Faria

    Gênio o Nelson Rodrigues, toda generalização é burra, ela é usada por quem tem carência de argumentos…Baseado nisso as pessoas preferem não fazer nada, porque afinal “todos políticos são corruptos” e o país continua na merda que está…então para que vamos fazer alguma coisa? Deixa a vida nos levar…

  • Juka

    Pesquisas relacionadas: político corrupto político discursando político ladrão

  • http://www.facebook.com/arthur.s.mendonca Arthur Silva Mendonça

    generalizar é poesia

  • http://justwrapped.interbarney.com/ João Baldi Jr.

    Grande texto, Thiago. Pelo texto em si e pela discussão gerada.

  • fernando

    Cara, a frase de Nelson Rodrigues foi distorcida. Rodrigues não dizia “toda unanimidade é burra” quando queria argumentar contra alguém que generalizava. A frase dele não tinha nada disso. A frase era uma célebre brincadeira, pois Nelson trabalhava em uma emissora de rádio e era torcedor fanático do fluminense. Sendo assim, quando o jogo estava uma “merda” para o seu time, todos os outros comentaristas da mesma rádio na qual ele trabalhava, falavam que o fluminenses estava mal e blábláblá. Aí surgia a frase do fluminense roxo: “toda unanimidade é burra”. Era apenas uma brincadeira. Não tinha nenhum cunho sensacionalista nem nada… Então parem de usar a frase de maneira errada.

  • Fernando Faria

    Sei que o post é antigo, mas sempre vale um bom debate ressurgido.
    Para certas coisas acredito no gênero.
    Vou me ater apenas no caso da foto dos muçulmanos, os quais acredito que TODA religião é burra e algumas extremamente perigosas, caso do Islã.
    O problema é do cara que se explodiu ou do Islã? “Ah, mas ele é extremista”. Mas ele não será extremista porque acredita cegamente na religião!?
    Por isso que qualquer texto que queira passar conceitos de certo e errado ou o que é melhor e pior, me soa muita moralista.

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 5524 artigos
  • 661003 comentários
  • leitores online