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Fosse esse um país sério, haveria alguma lei criminalizando o uso de calcinhas beges.
Discute-se a criminalização de tudo. Aborto. Homossexualidade em locais públicos. Cantadas no trabalho. Daqui a pouco o cara terá que protocolar em cartório a intenção de convidar uma mulher para sair. Corre o risco de ser acusado de assédio sexual e atentado violento ao pudor no mesmo inquérito policial.
Mas a criminalização da calcinha bege ninguém discute!
Admito: quem sabe não se trate exatamente de criminalizar. Mas de aperfeiçoar o mecanismo legal envolvendo a calcinha bege. A tática do lenço bege na cabeça indicando uma portadora de calcinha bege é uma alternativa. Outra maneira seria distribuir a calcinha bege em postos de saúde como método contraceptivo. A calcinha bege é o equivalente contemporâneo ao cinto de castidade medieval.
Eu busco entender a calcinha bege do ponto de vista utilitário. Imagino que ela tenha sido desenvolvida para moças de pele medianamente clara. Quem sabe a calcinha bege evite uma discrepância visual entre a pele e roupas mais transparente ou algo equivalente. Mas não existe uma justificativa legítima para a calcinha bege.
Ninguém está livre das mulheres de calcinha bege. Fosse a classe masculina um grupo organizado, teríamos grupos de apoio. Denunciaríamos usuárias de calcinhas beges em redes sociais. Seria um serviço de utilidade pública. Se a mulher não quer manter relações sexuais, basta evitar isso pelos métodos socialmente convenientes. Não precisa apelar para a calcinha bege.
Por que não vemos roupas beges fazendo sucesso no mundo da moda? Mas a calcinha bege se tornou algo disseminado. Precisamos atualizar as leis do conforto. Palmas para as calcinhas de algodão. Modelo shortinho. Lindas, lindas! Mas calcinha bege não merece respeito ou consideração. Sou um cara moderno. A calcinha bege remonta aos panos de estopa. Aqueles usados para fazer bolsas de embrulhar milho. O pessoal da cidade não conheceu isso. As bolsas de estopa se tornaram obsoletas porque retinham muita umidade e faziam o produto agrícola mofar. Foram substituídas por materiais mais resistentes e sintéticos. A calcinha bege também faz algumas coisas mofarem.
Dias atrás entrei em uma loja de lingerie. Calma lá. Não sou tão moderno assim para consumir pessoalmente os produtos da tal loja. Só fui comprar um presente para minha namorada. Bastou eu botar o pé dentro da loja e as mulheres pararam de fazer o que estavam fazendo. Foi aquele silêncio constrangedor, enquanto eu estava lá. Cheguei em uma vendedora e com a voz meio sussurrando disse o que eu estava procurando. Dei o tamanho e outros detalhes técnicos. Prontamente a miserável me trouxe alguns conjuntos completos. Calcinhas e sutiãs beges! Só pode ser um complô do governo. Algum tipo de incentivo à produção e venda de calcinhas beges. Algo para controlar o crescimento populacional. Alguma justificativa razoável deve existir! Não é possível isso.
Eu olhei para a vendedora e parei de sussurrar. Em alto e bom som sentenciei: “Minha filha, é um presente para minha namorada! E eu gosto dela. Daria calcinhas beges para alguma colega chata do trabalho. Alguém que eu odiasse”. A moça engoliu a saliva fez as peças desaparecerem da minha frente. As outras mulheres da loja foram correndo para a seção de meias. Peguei pessoalmente alguns conjuntos de outras cores nas prateleiras, passei o cartão de débito e sumi.
Fiz minha parte.
Everton Maciel é gaúcho e não suporta bairrismo. Só tolera bares que não permitem camisas polo. Nasceu jornalista, mas fez mestrado em Filosofia. Planeja abrir um circo sem palhaços que promete ser a mais forte concorrência ao Congresso Nacional. E mantém um blog próprio, O Blog do Capeta.
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