Um pouquinho diferente do TED na Califórnia, o TEDGlobal, que este ano se mudou para Edimburgo, na Escócia, tem uma visão muito mais “macro”. Pessoas de vários países da Europa, da Ásia, da África e o Brasil trazem um caldo multicultural para a conferência. Como não poderia ser diferente, esta mistura fica espelhada na grade de palestrantes.

Maajid Maaz: de extremista islâmico a soldado da democracia. (Foto: James Duncan Davidson/TED)
Uma das melhores palestras foi do egípcio Maajid Nawaz, um extremista islâmico que, aos 24 anos, foi preso e proibido de entrar em três países do mundo. Hoje, ele é ativista em favor da democracia. A visão dele é muito interessante, de quem estava dentro do sistema. Nawaz falou que a pior coisa que se pode fazer com a democracia é tentar empurrá-la goela abaixo – como é a política em países ocupados pelos americanos, por exemplo. Nawaz acha que a democracia precisa emergir como um movimento social, de base, e apresentou uma fórmula para isso: ideias + narrativas + símbolos + líderes = movimentos sociais.
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“As pessoas devem votar em algum partido democrático e não pela democracia.”
A brasileira Julia Bacha mostrou seu trabalho com o documentário Budrus, que mostra o trabalho de um ativista unindo Fatah e Hamas e ativistas de Israel para salvar sua comunidade – Budrus – da destruição pela barreira de separação israelense. O ponto todo é que esta é uma manifestação pacífica, que ganhou uma dimensão importante, mas passou despercebida pela mídia. Guerra vende; paz não.
Por que temos este tipo de comportamento? O esforço de muitos palestrantes do TED é tentar mostrar como funciona nossa linha de pensamento, o que nos leva a tomar determinadas decisões. Não à toa, o cérebro é tema constante.
No primeiro dia, quem falou sobre isso foi Allan Jones, do Instituto Allen (do cofundador da Microsoft Paul Allen). Ele apontou que
“O cérebro é verdadeiramente um continente inexplorado. É uma nova fronteira.”
Por isso, sua equipe está cortando o cérebro transversalmente em milhares de finas fatias para criar um atlas do órgão. O material está disponível para qualquer pessoa baixar e estudar.

Allan Jones quer mapear o cérebro humano. (Foto: James Duncan Davidson/TED)
Certamente, isso pode nos ajudar a entender sobre o processo de aprendizado. Sobre este ponto, uma das palestrantes que mais me impactou foi de Annie Murphy Paul. Ela falou sobre a nossa formação. Em diversos estudos, ela e sua equipe descobriram que as crianças já começam o aprendizado no próprio útero, dividindo as emoções com as mães. Quando nascem, os bebês gostam das mesmas músicas da novela que a mãe assistia e podem até ter sinais de estresse pós-trauma, como aconteceu com os bebês das mulheres que, de alguma maneira, sofreram os efeitos da queda das Torres Gêmeas.
Entre os momentos tech, tema sempre presente no TED, tivemos a palestra de Justin Tipping-Hall sobre nanoenergia. Ele estuda o controle do elétron para gerar energia. Trouxe ideias revolucionárias, como a de nós mesmos gerarmos a nossa própria energia, e frases de efeito, como
“A matriz energética do futuro será a não-matriz energética.”
Isso resolveria o problema de energia do mundo. A ideia é boa, mas fiquei com a impressão de que ainda está em um futuro distante, apesar de ele ter mostrado alguns trabalhos preliminares.
Não tão longe está a possibilidade de voarmos com nossas próprias asas! O francês Yves Rossi foi ao palco com sua engenhoca voadora. Chamado de Jetman, ele já voou quilômetros com as próprias asas, que são impulsionadas por quatro motores. Acho que fez a cabeça de centenas de pessoas que já se imaginaram voando por aí. A minha, pelo menos, ele fez.

Para Richard Wilkinson, o dinheiro não é tudo. (Foto: James Duncan Davidson/TED)
Destaco por fim a palestra de Richard Wilkinson, que falou de algo recorrente nos posts do meu blog: só dinheiro não é o suficiente para medir o nível de felicidade de um planeta ou nação. Com diversos estudos, ele mostrou que países mais iguais sob o ponto de vista de distribuição de renda têm indicadores sociais muito melhores. Casos de doenças psicológicas, mobilidade social, crimes e outras questões têm números mais favoráveis em países com renda melhor distribuída. Segundo ele,
“A desigualdade é uma poluição social.”
No Brasil, evoluímos bastante nos últimos anos em função das políticas de distribuição de renda, que começaram no governo FHC e ganharam muita força no governo Lula. Um projeto de país, de longo prazo. O Brasil está evoluindo e se globalizando. O próprio fato de terem mais de 20 brasileiros no TEDGlobal é prova disso – no ano passado eram só seis. Estamos aprendendo rápido e o Brasil é sempre motivo de conversas positivas por aqui. É o nosso grande momento como nação. Precisamos aproveitar da melhor maneira possível.
Nota do Editor: As palestras do TEDGlobal 2011 acontecem entre os dias 12 e 15 de julho. A partir de hoje e até o fim do evento, Rodrigo Cunha vai trazer ao PdH um texto por dia com o melhor de cada sessão. Para acompanhar o TEDGlobal em tempo real, você pode seguir Rodrigo no Twitter.
Rodrigo Vieira da Cunha tem 34 anos, é gaúcho, gremista e jornalista. Lida com sustentabilidade há 10 anos. É casado, tem 2 filhos e faz o possível para arrumar tempo para surfar. Mantém o blog A Ficha Caiu, sobre os desafios de viver em uma sociedade de consumo sem inviabilizar a humanidade no planeta. Recentemente, aceitou o convite para ser embaixador do TEDx na América Latina e espalhar boas ideias.
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