Pergunta: “Olá, Dr. Love!
Sinceramente, eu nao tinha a mínima idéia de sua existência antes de meu
pai assinar o feed de seu site… Então, por curiosidade resolvi clicar e ver o que era.
Adorei tudo o que li. E gostei tanto que até decidi enviar um problema para você.
Eu estou namorando há aproximadamente um ano (qnd vc ler é capaz de ter feito um ano já…)e, cara… Sabe quando você acha que encontrou a pessoa certa? Que você nao se incomodaria se acordasse do seu lado todo dia cheia de remela, peidando, que botasse a boca cheia de bafo na sua escova de dentes que ainda assim seria lindo?
Então. Vai por esse caminho o que eu sinto por ela. Só que tem um problema. Ela é mais nova do que eu (ela tem 14 e eu 16), e como os pais dela nao deixariam ela namorar antes dos 15 anos dela terem sido completos, a gnt fez o q qlqr casal apaixonado faria: namoramos
escondido.
E continuamos assim felizes por bastante tempo, até que ela resolveu falar para a mãe dela que estava namorando comigo. E deu merda. A mãe dela berrou, bateu nela, disse que nao aprovava e o cacete a 4…
Só que o pai dela, um cara muito legal, disse que no aniversário dela talvez ele deixasse (nessa época ela ainda tinha 13). Faltavam 4 meses pro aniversario dela, e esperamos ansiosamente. Até que o dia chegou, e o pai dela meio que permitiu, proibindo apenas saidas à sós. O problema é a filha da %#$@ da mãe dela, aquela $#!@#! de !@¨!@…
ELA É RACISTA!
Sim, eu sou negro :p
E a mãe dela me humilhou muuuuito na frente da filha dela, dizendo que eu não merecia uma garota como ela, que era uma desonra pra familia, que ia sujar o sangue e que comparado a merda eu nao era nada. Mas a gente nem ligou. Continuamos namorando escondido.
Só que… A mãe dela descobriu que ela usa pílula anticoncepcional… E se vc ligar os pontos, uma coisa leva à outra… (sim, já tivemos relações sexuais)
E agora a megera até pensa em me processar! Quer ver minha caveira, que eu morra e pensa em exportar ela pra Brasília (sendo que eu sou do Rio de Janeiro) PELAMORDEDEUS, Dr. Love… Me ajude!”
- Gabriel
Caro Gabriel,
“Sabe quando você acha que encontrou a pessoa certa?”
Sei, claro, sei sim. E você também vai saber quando se tocar que isso não existe! Esse é o ponto um. Vai anotando… Se você acordar todo todo dia peidando, não espere compaixão de sua alma gêmea.
Espere, sim, pelo crescimento de algo em sua testa. Por outro lado, como você disse, se ela começar a fazer isso, seu amor pode até prosseguir, mas sua paixão dificilmente sobreviverá. A mãe ama o bebê e por isso não liga de limpar cocô. Só que a mãe não dá para o bebê, e sim para o marido.
Não desenvolva amor de mãe pela sua namorada e nem deixe ela começar a pensar em tratar você como filho, nem por um segundo sequer! Mas este (ainda) não é seu problema. Vejamos o caso da sogra. Já adianto que, mesmo sabendo que você é jovem e dificilmente teria acertado logo de cara, vou apontar os erros para você ganhar consciência do passado e sabedoria para seu futuro, ok?
“até que ela resolveu falar para a mãe dela que estava namorando comigo.”
Uma mulher com outra mulher: nunca espere resoluções racionais e pacíficas dessa situação. Ainda mais entre mãe e filha! Mulheres são uma delícia justamente porque são incapazes de explicar as coisas ponto a ponto e não agir a partir de sons, reações, cheiros, variações de ânimo, sabor, ventos e humores.
Portanto, é óbvio que você não deveria ter permitido isso. Essa teria de ser uma conversa conduzida, não um toma-lá-da-cá. Se fosse para falar, você era o cara para isso.
Não há melhor defesa do que um ataque. Quando você sabe que todos vão partir para cima, vá antes, sem armas, fora do ringue. Imagine a cena: você chamando mãe e pai para uma conversa, falando de sua relação com ela, de como você a fez rir em tal dia, em como ela está crescendo ao seu lado. Imagine a surpresa! Atitudes medíocres são bloqueadas por um coração sincero e aberto, forte e decidido. Mas você tem 16 anos, ok. Apenas saiba que isso é o que um homem faz.
“O problema é a filha da %#$@ da mãe dela, aquela $#!@#! de !@¨!@… ELA É RACISTA!”
O pai aprovou a relação e proibiu saídas a sós. A mãe é racista e quer ver sua caveira. Um namoro como o seu (na sua idade normalmente é assim mesmo) exige que você mantenha uma prática paradoxal: trate sua namorada como se ela fosse apenas ela e também sabendo que ela é tudo ao redor.
Você vai ter que ser ninja, mas dá pra sair dessa sem esfaquear a dita cuja…
Ou seja, sustente duas coisas em mente: “Foda-se a família! É só ela que eu namoro” e “Se eu quiser me relacionar com ela, tenho de me conectar habilmente com todos os seus vínculos”.
Se mantiver apenas o primeiro pensamento, em breve terá problemas até diretamente com sua namorada. Afinal, ela vai gostar de ver você se relacionando com a vida dela como um todo. Se sustentar apenas o segundo, ficará preso dentro da família, cultivará raiva e amargor, além de perder em subversão, coisa que todas adoram.
Portanto, antes de pensar em uma saída, lembre-se que sua ação deve ser livre da família, porém sem deixar de considerar meios hábeis de conexão com qualquer um que aparecer. Nessa perspectiva, o problema do momento é a mãe. Mas vá observando e aprendendo a estrutura. Em breve, as mesmas coisas vão reaparecer com outro nome, com outra namorada, com outra situação. Não olhe a mãe como mãe.
A mãe é racista? So be it. Se isso o aflige, se isso incomoda muito, se você fica alterado, então você está refém da mãe da sua namorada. Não é patético isso? Se ela é ignorante, deixe-a ser. Mantenha sua postura e aja com sua ética, não dentro da dela. Se você está além do racismo, isso naturalmente vai transparecer a todos, inclusive para a mãe. Não confronte o racismo, não chame para a briga. Aja em outro nível. Caminhe soltando convites para visões mais amplas. Chame a mãe para conversar a sós. Sem toma-la-da-cá, conduza a conversa.
Não entre na lógica da mãe, não vá para onde ela for. Fale baixo, olhe no olho, respire lentamente por dentro. Durante a conversa, lembre-se que você não está falando com a mãe de sua namorada: não, você está falando com alguém que não tem nada a ver com ela, apenas geriu e pariu a garota que hoje você come.
Você não tem de dar satisfações, não tem de agradá-la, não tem conexão nenhuma com essa mulher. Esse é a atitude subversiva, daí vem a liberdade. Lembre-se também que sua namorada a considera como mãe, convive com ela, tem 14 anos e vai precisar dos pais bastante ainda. Esse ser estranho é um elemento importante no mundo do ser que você ama. Essa consciência o fará buscar por estratégias inteligentes de resolução. Jeitos de dissolver o obstáculo, sem matar o ser.
Essa é a postura acolhedora, fonte de autêntica compaixão – livre de revolta ou dó e pena. Isso porque (e é preciso você lembrar sempre disso) nenhum ser ignorante é ignorante de fato. A ignorância é apenas falta de visão. É obstrução, obstáculo. Retire o obstáculo, não o ser. Atire no obstáculo, abrace o ser.
A conversa é uma possibilidade. Não é bem o ato em si que resolverá, mas o ambiente (interno e externo) no qual ela será possível. Se você estiver preparado, antes do início da conversa tudo já estará certo. No entanto, se até aqui não brotou confiança em você, é melhor esquecer essa abordagem. Sem confiança, como agir?
Há meios hábeis que não incluem transformação interior. Apesar de superficiais, eles nos dão tempo. Um deles é jogar o jogo da burrice. Basta chegar na mãe dizendo: “Conversei ontem com ela e concluímos que a senhora tem razão, somos muito novos, é melhor esperar. Vamos seguir suas orientações”. E então voltem para o escondido.
Ou jogue ainda mais cruelmente. Na frente de todos (pai e quem mais puder colocar na mesma sala), diga: “Eu amo sua filha e nunca a vi mais feliz. Porém, respeito a senhora e afirmo que a partir de hoje não mais serei o namorado de sua filha. Se minha cor traz sofrimento a essa família, eu não sou homem de manter uma situação assim. Corto tudo, para o bem de todos. Obrigado e até”. Fique longe por alguns dias e espere pelo som do telefone…
Sua situação é muito confortável. Problema é quando causamos sofrimento à parceira. No seu caso, a relação está boa. Basta que você seja homem e mostre aos pais de sua namorada que você é funcionário deles no trabalho de fazê-la feliz. Mostre que, se o único trabalho de um pai e de uma mãe é cuidar pela felicidade dos filhos, você é o cara que está fazendo isso acontecer, oras! Negro, índio ou branco, você é o cara.
Bata no peito, pegue-a no colo e ofereça seu coração para as facas e pedras da megera. Ela não vai conseguir usar armas, eu garanto.
Esse pergunta foi respondida por Gustavo Gitti, autor do excelente blog sobre relacionamentos Não2Não1. Ele foi um dos quase 30 candidatos à vaga de estágio aqui na minha coluna. Se você mandou um pedido para participar e ainda não foi respondido, basta esperar, minha vida está corrida, mas não vou esquecer de ninguém.
Grande abraço e até a próxima, pessoal. Dr. Love.
Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e caseiro da Cabana PdH. No Twitter: @gustavogitti.
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