Se você passou mais de 10 anos na escola e agora pretende ser ou já é pai/mãe, esse vídeo e esse encontro é para você →
​​​​​

Só existe um tipo de medicina, e é o tipo que cura – parte 2

Carlos Braghini Jr.

por
em às | Artigos e ensaios, Ciência e tecnologia


Na primeira parte do artigo “Só existe um tipo de medicina, e é o tipo que cura”, o autor Carlos Braghini Jr. tratou do status quo da medicina contemporânea, em que a indústria farmacêutica dita as regras e os médicos estão atrelados a doutrinas falaciosas. Nesta segunda parte, o ponto central é o modelo de atuação médica e da indústria farmacêutica.

Recomendamos a leitura da primeira parte antes de seguir.

É necessário mudar o atual paradigma médico

Analisemos o tratamento de câncer. Os aparatos tecnológicos mais sofisticados para o diagnóstico precoce dos cânceres mais simples auxiliam na instituição do tratamento antes da doença se espalhar, mas nos cânceres mais agressivos e mortais não houve alteração significativa nos últimos 50 anos. Se analisarmos as estatísticas desde então, veremos que não houve mudança substancial na expectativa e na qualidade de vida dos doentes. O mesmo número de pessoas continua morrendo a despeito de o noticiário mostrar todos os dias os “avanços” no tratamento.

Na verdade, não há um só produto usado na quimioterapia do câncer que tenha mostrado num ensaio clínico ser capaz de curar o câncer. Não há um ensaio clínico mostrando que a ingestão de um coquetel de fármacos seja eficaz. Por isso, é um absurdo afirmar que os únicos tratamentos oncológicos validados cientificamente incluem cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

Aos 17 anos, Angela Zhang projetou a cura do câncer por meio da utilização de nanopartículas

É como se a ciência deliberadamente brincasse com a vida das pessoas, alegando que tratamentos fora do convencional são proibidos para “nosso próprio bem”. Ao contrário, ideias como a de Ryke Geerd Hamer (as leis de ferro do câncer), de Tullio Simoncini (alcalinização com bicarbonato), de Max Gerson (nutrição para o câncer) são ridicularizadas, levando seus criadores à prisão ou à cassação do direito de clinicar.

O que está em questão não é se estas ideias funcionam ou não, mas sim o fato de que elas nem são discutidas na universidade e nem nos cursos de especialização médica. Em vez de discutirem e virem a público dizer o que funciona e o que não funciona, as entidades médicas simplesmente decretam: isto não tem fundamento.

Como assim? Pessoas estão se tratando e melhorando. É o que discutimos anteriormente: o discurso científico acaba por jogar fora uma terapêutica que pode funcionar, somente por ela não parecer estar de acordo com o racionalismo médico.

E depois vêm me dizer que é para o bem da população? Sei…

Quem deveria estar na linha de frente desta revolução? Os próprios médicos. Se a universidade não ensina, cabe ao médico buscar informação. Só isso já daria a ele a liberdade do livre pensar. Em vez de se fechar em suas torres de marfim, deveria pressionar os órgãos e os Conselhos Médicos a agirem nesta direção, em vez de denunciar os colegas de profissão que não seguem a cartilha.

Outra reflexão que peço aos médicos: os Conselhos Médicos não deveriam estar na linha de frente desta discussão, em vez de cuidar da manutenção do sistema tal como está? Qual o grau de satisfação com a atuação desses órgãos representativos? E por último, quantos dos médicos continuariam a pagar seus respectivos conselhos se isso não fosse obrigatório?

Claro que não é simples romper com dogmas estabelecidos e convicções fortemente arraigadas, mas é prudente que questionem o tipo de informação que chega a eles. Essas mudanças não virão gratuitamente e sem luta ferrenha. Devem se preparar para o contra-ataque, pois afinal, a saúde, antes de tudo, é um próspero negócio.

Da mesma maneira que se montam casas geriátricas, nem tanto pela necessidade social, mas pelo dinheiro que geram, os acionistas de uma indústria farmacêutica não se reúnem para discutir se os consumidores, no caso, pacientes, estão mais saudáveis. Acreditar na ética e respeito ao ser humano que o marketing das grandes corporações propagandeia é de uma ingenuidade imbecil.

OK, ninguém acredita nelas; mas então, será que não dá para desconfiar da boa vontade da indústria farmacêutica que investe em congressos, encontros, viagens, brindes e toda sorte de corrupção de almas médicas? É no mínimo ser conivente, não?

E mesmo para alguém imune a este tipo de ação direta existem as estratégias mais sutis. Em vez de controlar a ação de cada profissional, basta infiltrar ou cooptar alguém de dentro do sistema. São inúmeros os casos de legisladores que batalham para aprovar uma lei ou resolução para, em seguida, se desligarem do órgão e assumirem um cargo na indústria beneficiada por ela.

Quantos jornalistas foram calados pela simples ameaça de retirar a verba publicitária do jornal e da revista caso determinada matéria fosse publicada? Quantos políticos são financiados pela indústria da saúde? O parlamento europeu, por exemplo, possui em seus quadros vários executivos de empresas farmacêuticas. Imaginem o estrago que pode ser feito por alguém com tamanho poder sobre a legislação e a polícia.

Intimidador, não?

Como confiar no tipo de informação recebida todos os dias pelos meios “oficiais”? É como se colocássemos o lobo para ensinar táticas de defesa às galinhas. Ele pode até ensinar alguma coisa, mas você acha que ele mostraria realmente como se defender de lobos?

Se este paradigma não for mudado, o sistema de atendimento médico à população continuará ineficaz e o caos reinante continuará crescente. Os serviços de saúde municipais, estaduais ou federais estão sobrecarregados, os médicos são mal remunerados, a maioria dos plantonistas hospitalares são recém-formados inexperientes… As listas de espera para consultas, exames, procedimentos cirúrgicos geram casos que se tornam uma vergonha estampada nos telejornais dia após dia. Hospitais sem vagas geram cenas dantescas nos prontos-socorros abarrotados de pacientes jogados pelos corredores aguardando atendimento em macas improvisadas.

Quer ver como é difícil lidar com este quadro e como a própria medicina cuida para que isto não aconteça?

Numa das epidemias de dengue, as secretarias de saúde de algumas cidades do interior de São Paulo passaram a distribuir gratuitamente compostos preventivos homeopáticos. Coincidentemente (ou não), os índices da doença eram menores do que nas cidades vizinhas. O que fizeram as entidades médicas? Disseram: “Isso não tem validade científica; cessem a distribuição.” Eis que, no final de 2008, o composto foi registrado pela Anvisa (e, posteriormente, patenteado por um laboratório).

Pois é, vivemos num mundo estranho, assentado num sistema que só aceita e utiliza tratamentos ortodoxos paliativos ou que lidam somente com os sintomas, sem buscar a cura real. Que usa medicamentos com tantos efeitos colaterais que, de acordo com um trabalho executado pelo Projeto Colaborativo de Vigilância de Medicamentos Alopáticos de Boston, chega a 30% o número de pacientes atendidos nas emergências por problemas gerados por estas drogas. Um trabalho publicado em 2001, no próprio Jornal da Associação Médica Americana (JAMA) mostrou que a reação adversa aos medicamentos prescritos pelos médicos atinge mais de 100 mil norte-americanos a cada ano, transformado-a na terceira causa de morte nos EUA.

Devido aos efeitos colaterais, uma pílula pode ser mais letal que um acidente de carro

Se você ainda não se deu conta do que isto significa, vou explicar melhor: as cinco principais causas de morte nos EUA naquele ano foram, na ordem:

1. tabaco;

2. álcool;

3. imperícia médica;

4. acidentes automobilísticos; e

5. armas de fogo.

Parece incrível, mas o tratamento médico foi responsável por matar mais pessoas do que os índices de acidentes de trânsito e armas de fogo somados. O número de pessoas mortas por dia equivale à mesma quantidade de pessoas que morreriam se, a cada dia, três aviões Jumbo caíssem matando todos a bordo. Se isso não dá o que pensar, não sei mais o que daria.

Se formos analisar um departamento médico num hospital ou um laboratório de pesquisa de renome, veremos que por trás deste sucesso há um financiamento externo, quase sempre advindo de uma indústria farmacêutica ou de equipamentos médico-hospitalares. Eventualmente algo sai do controle e vêm à tona histórias de gratificações e escândalos de suborno que chegam às páginas policiais. Se você pensou que talvez esses não sejam casos isolados, mas respingos de uma prática largamente utilizada, não tenho argumentos para rebater.

Você já se deu conta de que as notícias sobre saúde são sempre as mesmas, independente do veículo de comunicação? Uma notícia no jornal da noite aparece no jornal impresso do dia seguinte, que é repetida durante a semana nos outros canais de TV. Vou lhe contar como funciona a divulgação de notícias científicas em medicina.

Um laboratório financiado por uma empresa está trabalhando numa droga ou vacina ou terapia genética. Seu prazo para terminar a pesquisa está se esgotando e ele precisa mostrar algum resultado para não perder o dinheiro. Então, divulga a bombástica informação de que esta nova droga ou tratamento tem mostrado resultados promissores na cura do (______________) (preencha com a doença de sua preferência). A notícia não é divulgada na imprensa leiga inicialmente, mas num sistema de geração de notícias médicas. Todas as notícias médicas são centralizadas em duas ou três agências de notícias. Basta eu mandar uma nota ou release e elas se encarregam de enviar o que interessa às grandes agências de notícias dos grandes jornais e estações de TV e rádio dos EUA. Depois de alguns dias, a notícia chega aos ouvidos da população. Pense na quantidade de tratamentos “promissores” que nunca saíram do papel ou nunca chegaram a ser lançados.

Mas não ache que todo chefe de laboratório é tão mau assim. Muitos agem dessa maneira para manter o dinheiro que financia seu laboratório que está, na verdade, fazendo outras pesquisas mais relevantes, mas precisa jogar para a torcida do seu patrocinador.

Agora, vamos imaginar que algumas destas drogas serão lançadas no mercado. A empresa farmacêutica já tem seus resultados preliminares, já fez as contas sobre o potencial de mercado da droga, já fez previsões sobre o lucro gerado por aquele novo medicamento. Ela precisa, agora, convocar alguns serviços médicos para testá-la, por meio de um trabalho de pesquisa. E alguns desses médicos e/ou serviços são patrocinados pela empresa. Digamos que, de seis trabalhos, dois mostram bons resultados, dois resultados ruins e dois resultados inconclusivos. A empresa descarta os trabalhos ruins e inconclusivos e manda os de resultados bons para os órgãos de aprovação. Fácil, não?

Neste quadro desolador, fica claro que os ensaios clínicos utilizados para aprovar um medicamento são deficientes e facilmente manipuláveis. A retirada do mercado de medicamentos que foram utilizados por algum tempo até que se percebesse que estava prejudicando seus usuários corrobora esta prática irresponsável. Em alguns casos, pode inclusive levar à morte de pessoas, como no caso de um conhecido antiinflamatório já retirado do mercado, cujos relatórios apontam para o fato de a empresa fabricante ter escondido sua toxicidade. Resultado: estima-se que 140 mil pessoas tenham morrido devido a seu uso somente nos EUA.

A cronificação da doença

Baseado no que foi dito até aqui, passa a não ser estranho que a maioria dos fármacos atuais, em vez de curar, visa cronificar a enfermidade; são meros paliativos (ou sintomáticos). Quem não conhece alguém que já saiu da consulta médica com a recomendação de que não deveria nunca mais abandonar o remédio?

“É para tomar pelo resto da vida?”

As drogas antigas e consagradas desaparecem paulatinamente do mercado e são substituídas por outras mais modernas, mas ao mesmo tempo mais perigosas e com mais efeitos colaterais. E com mais efeitos colaterais, entra em campo um ato “genial” da indústria farmacêutica: outro remédio para lidar com o efeito colateral do primeiro. Ou um terceiro para lidar com o efeito colateral do segundo. Não é incomum eu lidar com pacientes de 50 anos que tomam quatro ou cinco drogas diferentes para lidar com vários órgãos e sistemas. Seja você médico ou paciente, me diga com sinceridade: é possível olhar para este quadro e achar normal?

O fato preocupante é que as ações de saúde são feitas tomando-se por base as boas intenções de uma indústria que só está preocupada em manter o estado de coisas atual. É por isso que a maioria das pessoas ignora como este poder é exercido. Por exemplo, o Food and Drug Administration (FDA), órgão máximo norte-americano que define o que deve ou não ser consumido pelo povo daquele país, não é um órgão tão independente assim. O imaginário popular (e médico) o considera um órgão sério, mas é difícil acreditar que ele não está a serviço da indústria farmacêutica.

Como falei acima, para que um medicamento seja considerado aprovado, bastam dois trabalhos positivos. Quem faz estes trabalhos: a própria empresa fabricante da droga. É claro que é obrigatório seguir critérios básicos toxicológicos, animais e clínicos. Só que quem estabelece estes critérios é a International Conference on Harmonization (ICH) que, por sua vez, foi fundada pela International Federation of Pharmaceutical Manufacturers & Associations (IFPMA). Se você se atrapalha com o inglês, eu traduzo: “Federação Internacional de Associações de Fabricantes de Medicamentos”. Em suma, a indústria elabora suas próprias regras e se autocontrola. Se isso não significa exercer poder absoluto no setor, não sei mais o que seria.

Controlando a investigação e a publicação dos resultados, controlando as instituições reguladoras, controlando os médicos e outros profissionais de saúde, controlando as verbas de pesquisa e a montagem dos laboratórios e departamentos universitários e hospitalares… Pense comigo: eu, profissional de saúde, deveria aceitar passivamente que minha prática seja estabelecida por um organismo com tantos tentáculos?

É por isso que, quando você pergunta a seu médico sobre um tratamento alternativo, ele responde que não há nada comprovado a respeito. “Comprovado” significa que não foi publicado, que não foi apresentado num congresso, que o propagandista do laboratório não levou um trabalho mostrando que a arnica funciona ou que o gengibre auxilia na enxaqueca… Mas qualquer mãe de santo sabe que funciona. E seus clientes, também.

As próprias associações de doentes são patrocinadas da mesma maneira. Isso garante que os pacientes recebam as mesmas informações que os médicos. Na verdade, as associações foram criadas como elementos de suporte e busca de alternativas de tratamento às várias doenças, mas isso preocupou tanto a indústria farmacêutica que acabou por aproximar-se delas para controlá-las. O mecanismo de controle é o mesmo: patrocínio de suas atividades e de seus veículos de comunicação. A engrenagem é feita para girar somente numa direção e esmagar os opostos. Quem assistiu ao filme O Óleo de Lorenzo pôde acompanhar isso que estou dizendo. No filme, um dos opositores ao novo tratamento era a própria associação de pais das vítimas das doenças.


Link YouTube |

Com os médicos, ocorre o mesmo: quem você acha que são os patrocinadores das revistas e dos congressos? Uma boa reflexão sobre este tema foi escrita pelo Dr. Alexandre Feldman.

Pois é, com o discurso de “em nome da ciência” o que está em jogo é a manutenção de um negócio.

Um convite

Muitos médicos ficarão indignados ao ler as duas partes deste artigo e se sentirão injustiçados. Não é minha intenção ferir suscetibilidades e me desculpo antecipadamente se exagerei nas críticas. Como autor e médico empírico, muitas vezes é impossível me manter afastado de minhas convicções.

Como mostrei, não é à toa que uma profissão identificada no passado com as causas humanitárias, reconhecida e respeitada pela população que podia confiar plenamente em seus membros, se veja agora reduzida a um mero participante de um negócio onde a saúde e a dignidade das pessoas importam cada vez menos. A medicina deixou para trás seus princípios mais sagrados e, por mais que muitos queiram reclamar, a maioria da população irá concordar com minhas palavras.

Se fui contundente em algum momento é pela necessidade de tirar a profissão médica da letargia, pois identifico que são exatamente os médicos e os pacientes os principais afetados por este. Entretanto, mais do que reclamar, acusar ou apontar culpados, meu intuito é contribuir para o debate.

E você não precisa acreditar em mim. O que peço é que pense, avalie, experimente alternativas e tire suas próprias conclusões. Aqui, o mantra “amplie sua consciência” não tem nada de esotérico. É a única maneira de não tomar suas decisões em cima de informação manipulada ou adulterada. Sua vida e sua saúde – e sua profissão, se você for médico – dependem disso.

Carlos Braghini Jr.

Médico, foi pesquisador em Fisiologia Humana e professor universitário. O questionamento em relação aos rumos da medicina convencional o levou aos EUA, onde aprofundou seus estudos sobre a quiropraxia e a naturopatia. É membro da Texas State Naturopathic Medical Association. Participa do Grupo de Estudos sobre Medicina Complementar e da Comissão Pró-Regulamentação da Quiropraxia no Brasil. É palestrante e escritor, e atua em seu consultório no Rio Grande do Sul. Site: ecologiacelular.com.br. Twitter: @cbraghini.


Outros artigos escritos por

Somos entusiastas do embate saudável

O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Somos um espaço plural, aberto a visões contraditórias. Conheça nossa visão e a essência do que fazemos. Você pode comentar abaixo ou ainda nos enviar um artigo para publicação.


EXPLODA SEU EMAIL

Enviamos um único email por dia, com nossos textos. Cuidado, ele é radioativo.


TEXTOS RELACIONADOS

Queremos uma discussão de alto nível, sem frescuras e bem humorada. Portanto, leia nossa porra de Política de Comentários.


  • Dora_Delano

    Na minha concepção, o ponto central é esse: a saúde [ou seria melhor dizer a DOENÇA?] é um negócio extremamente lucrativo e movimenta valores expressivos em insumos e equipamentos de saúde. Não é à toa que hoje há tantas iniciativas em “novos” modelos de gestão, como Organizações Sociais, Oscips, Fundação Estatal do Direito Privado, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Ninguém privatiza algo que não dá lucro…

  • Lucas Carvalho

    Série de textos extremamente do caralho! Em primeiro lugar, parabéns aos envolvidos. Ao PdH, por não ter medo em dar espaço pra isso (além do assunto delicado, o texto é gigante, e não teria como ser menor) e ao autor, pela coragem e pela linguagem. Não tinha lido a parte um ainda, li tudo hoje e fiquei fascinado que esse tipo de visão crítica exista, e que esteja sendo divulgada. Fico empolgado com o discurso por alguns motivos, na verdade.

    1) Ainda que meu cargo não seja grande e eu não esteja muito por dentro das grandes estratégias de mercado, eu trabalho dentro da indústria da saúde, mais precisamente na área de marketing do ramo de planos e seguradoras. Ainda que meu horizonte de conhecimento das dimâmicas do setor seja limitado, eu sinto na pele, desde que entrei nesse mundo, o quão a saúde é, em boa parte das vezes, mero produto, que funciona de acordo com as lógicas capitalistas de mercado como qualquer outro. E, pior que isso, um produto que não cumpre o que é prometido, pois vende-se saúde, mas o que é entregue ao consumidor são soluções paleativas e, em muitos casos, mais dor de cabeça, paranóia e preocupação. Além disso, acho que não preciso entrar nas especificidades do ramo de saúde complemetar, que tenho certeza que o autor do texto sabe muito bem o tipo de coisa que eu sou obrigado a ver e presenciar todos os dias com relação a controle de sinistralidade, remuneração de médicos e cancelamento de clientes.

    2) Ainda que eu trabalhe com isso, não entendo muito do mercado médico mas, ainda jovem, tenho ido a muitas consultas por motivos pequenos, problemas incômodos mas distantes de gravidade considerável. Simplesmente não acho normal que um jovem da minha idade seja diagnosticado com tantos problemas, mesmo que os meus cuidados com a saúde não sejam dos melhores. Com esse excesso de diagnósticos, exames e subsequentes coletas de sangue, comecei a duvidar muito do que era me dito nos consultórios, até porque eu sempre desconfiei que boa parte dos meus problemas fisiológicos tem origem em muita ansiedade e numa carga de stress crescente, desde que eu me mudei para capital e passei a intercalar estudos de pós graduação com um trabalho desgastante. O que mais me incomoda e fomenta as minhas desconfianças é o quão os médicos não estão interessados no resto da minha vida, fora aquilo que eu fui lá pra reclamar. Como se meu corpo fosse uma máquina, com pecinhas que dão defeito, ao invés de um sistema absolutamente integrado onde uma coisa tem efeito direto na outra (inclusive a mente influenciando o corpo).
    Além disso, esses dias, na pós graduação, estávamos discutindo um case de prestação de serviços e a história era sobre um casal em trabalho de parto. Era nossa tarefa discutir qual o principal produto oferecido por um hospital e pelo serviço médico em geral. Chegamos a conclusão de que este era o CUIDADO – a palavra era exatamente essa, cuidado. Quando vamos ao médico com um sintoma incômodo ou uma dor qualquer, o que nós mais queremos e precisamos é de cuidado humano, é de um “calma, vai ficar tudo bem” e que aquele que te cuida olhe nos seus olhos e que o trate como alguém que está sofrendo e que precisa de ajuda (sem pena, mas com uma certa “paternalidade” e atenção). E isso, bem, isso falta pra caramba em quase todos os médicos, hospitais etc. Isso faz tanta diferença que, esses dias, ao fazer um exame invasivo e incômodo (nasofibroscopia), eu já fiquei bem mais calmo só porque o médico segurou o meu ombro (num gesto de apoio) enquanto o exame era realizado.

    3) Eu estudo e trabalho numa área completamente diferente de saúde, que é marketing e inteligência de negócios. Só que, apesar da pouca experiência, e do parco repertório literário e técnico, eu me sinto incomodado pelo universo acadêmico. Sempre atribui isso a mera birra, revolta adolescente, à típica resiliência que me acompanha desde que eu me entendo por gente. Entretanto, com o tempo, fui percebendo que gente com muito mais embasamento que eu também contesta as diretrizes e os dogmas do universo acadêmico e científico, e, na perspectiva de mero leitor, eu concordo com muitas dessas posições. Ainda não sei nomear exatamente o que é que me incomoda nesse universo, mas o incômodo é grande – o que é muito ruim porque meu principal objetivo de vida é me tornar professor universitário, e eu vou ter que me embrenhar dentro desse mundo se quiser alcançar essa meta. O que eu percebo, na condição de espectador ainda distante, é que há, na vida acadêmica e científica, muita verdade que não é verdade, certeza que não é certeza e, pior que isso, essa “garantia” da verdade e da certeza acaba gerando muita prepotência e arrogância. Um argumento científico, muitas vezes, supera quaisquer outros, sejam eles percepções pessoais, observações ou vivências não documentadas. Acho isso errado porque vejo, mesmo na ciência, espaço pra muito, como a gente diz, “somebodylove”, muita enrolação enfeitada e manipulada para que pareça verdade incontestável, além de muito viés pessoal e subjetivo. Na minha área então, nem se fala. Se na medicina, que me soa uma coisa muito mais exata e empírica que o comportamento do mercado e dos negócios, tem gente que faz esse tipo de crítica, imagina numa área de marketing. Tem hora que, tendo aula, eu quero morrer a cada vez que os mesmos referenciais teóricos de sempre da área são repetidos pela 95ª vez, como se esses caras fossem “deuses” e eu não pudesse discordar (ou simplesmente não dar tanto valor pra o que falam) deles em absoluto. Não entendo como um ser humano, igualzinho a mim, pode ser colocado num pedestal tão alto e inatingível.
    Espero, e textos como esse me ajudam, um dia ser um cara com bagagem o suficiente para contestar esse tipo de coisa com propriedade. Ou, sei lá, com o tempo desistir disso e perceber que era tudo só revolta adolescente mesmo.

    Enfim, comentário gigante, desculpa. Só tenho uma dúvida – na verdade, mais uma curiosidade – em relação a tudo isso. Como que fica essa sua proposta de uma medicina menos diagnóstica e menos embasada nos manuais de diagnóstico (não lembro o termo que você usou pra isso, não sei se era esse) frente ao aumento da população e da demanda de todo tipo de serviço? A tendência é que tudo fique cada vez mais rápido, padronizado e emabalado pra viagem conforme existem cada vez mais pessoas pra lidar. Tem como sustentar um modelo de saúde menos automático, onde os médicos usam mais cérebro, mais intuição (e, como no caso que eu citei lá em cima, mais “coração” e cuidado) mesmo que o volume de pessoas que precisam de atendimento seja cada vez maior? Não que eu não concorde com  você no que tange a repensar todo o modelo de saúde e de exercício da medicina que é vigente, mas que outros modelos a gente pode considerar levando em conta a quantidade gigantesca de gente que há no mundo? Não é só uma questão de mercado e de como o mundo do capital se organiza, mas também uma questão de como a sociedade se estrutura tendo em vista que existe muita gente no mundo. Será que existe alternativa a esses modelos de padronização e de produção em escala (que não acontecem só na saúde, mas também no universo da alimentação, da informação e em tantos outros que também impactam muito forte na nossa qualidade de vida)?
    Enfim, eu realmente não sei a resposta pra nenhum desses questionamentos, por isso os faço.

    Finalizando, mais uma vez, obrigado ao PdH e ao autor por dividir esse tipo de visão e de discussão com outras pessoas. Grande abraço!

    • http://www.facebook.com/alfarichard Michael Richard

      Lucas, 

      Embora eu também não entenda nada de medicina e muito menos de negócios, tenho uma opinião simples (e até simplista) para a questão final que você levantou. 

      Como o autor explicou nos dois textos, o procedimento padrão é tratar sintomas porque isso dá grana para a industria. Uma vez que eu tenha um remédio para a sua dor de cabeça (não importa a causa) é mais fácil eu continuar produzindo esse remédio e te vendendo. Isso estabiliza os meus gastos e gera mais lucro.

      Porém, caso eu decida te curar da doença que resulta na sua dor de cabeça, eu terei que investir mais tempo e dinheiro em pesquisa. Com essa abordagem seria produzido um grande conhecimento para a humanidade e (talvez utopicamente) haveria um momento em que não haveria causa/efeito desconhecida, mas meus gastos seriam exorbitantes e os meus lucros seriam instáveis e em um momento, eu seria colocado fora do jogo, ironicamente, por mim mesmo (ou não :).

      Em um mundo perfeito, nossa motivação seria o bem do próximo (eu investiria em pesquisa para o seu bem), mas no mundo que nós vivemos, o que me interessa é o meu bem-estar, contanto que eu esteja ganhando grana, para mim pouco importa se você está sofrendo.

      Logo, chegamos a questão: Para que o sistema atual mude, você não teria que mudar a minha mentalidade?

      Conclusão: Sabemos que pesquisa e busca de conhecimento são a única forma de avançarmos como grupo, mas quem está disposto a abrir mão de um futuro “certo” (neste caso, meu lucro) por um futuro incerto? (Não vou entrar na questão de que tudo isso é uma ilusão e que podemos morrer daqui a 10 minutos e por isso não há motivo para não fazer o nosso melhor pelo bem do próximo. Isso é assunto para o Gitti)

  • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

    “Numa das epidemias de dengue, as secretarias de saúde de algumas cidades do interior de São Paulo passaram a distribuir gratuitamente compostos preventivos homeopáticos. Coincidentemente (ou não), os índices da doença eram menores do que nas cidades vizinhas. O que fizeram as entidades médicas? Disseram: “Isso não tem validade científica; cessem a distribuição.” Eis que, no final de 2008, o composto foi registrado pela Anvisa (e, posteriormente, patenteado por um laboratório).”

    Lembrei dos remédios para problemas simples, como calmantes e analgésicos, que na composição tem sempre um extrato de algum vegetal como princípio ativo.

    Pajelança é quando são os outros que fazem. Quando é um laboratório que põe a marca (e a patente) na poção mágica é ciência.

  • http://www.facebook.com/killersandro Sandro Guedes de Souza

    Ou teria vivido mais tempo, mas castrado por pesados tratamentos de quimioterapia, radio e procedimentos cirurgicos. Não necessariamente teria sido melhor.

  • http://www.facebook.com/people/Isa-Belli/1584206490 Isa Belli

     Carlos, obrigada pela sua clareza em esclarecer essas questões tão estigmatizadas pelos defensores da ciência! É tudo que eu acredito há algum tempo, mas era taxada de louca qdo falava. Conheci a quiropraxia quase que por acaso ( numa clínica de estética), e ela exterminou um problema crônico que eu tinha de dores (cabeça, maxilar, pescoço e coluna). Ao relatar minha experiência ( com amigos, fisoterapeutas e familiares), as pessoas me olham desconfiadas, como se pensassem: essa aí tá falando com ets. Mas realmente nunca vi nada igual. JÁ HAVIA TENTADO DE TUDO. O médico ( que também é homeopata, faz acupuntura e shiatsu) ainda me deu algumas fórmulas manipuladas, com pimentas e outras coisas improváveis que me fizeram abandonar um remédio desses pra tomar pelo resto da vida (para circulação). Tenho me sentido ótima. Agora, estou em vias de deixar outro – que tomava diariamente, e agora tomo 2 x na semana ( sem nenhuma alteração nos efeitos). Depois que comecei a fazer sessões de quiropraxia, nunca mais fiquei doente, não tive resfriados e nem dor de garganta, enxaqueca é uma lembrança remota e minha disposição está a mil. O problema crônico de insônia também foi superado.  Estou fazendo acompanhamento com uma nutricionista funcional, e os resultados foram intensificados. A saúde é visível, nas unhas, cabelos, pele. Não sinto mais aquele esgotamento tão habitual e com hora marcada de anos a fio, nem azia matinal. Até minha vista melhorou. Confesso que entendo quando as pessoas ficam desconfiadas, pois em outras épocas eu também torceria o nariz, mas o resultado do tratamento é espantoso. Parabéns! 

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000088922153 Wagner Menke

    Apesar de concordar contigo em vários aspectos, porém achar desnecessário apelar tanto pra teorias conspiratórias, devemos lembrar que muita coisa que você citou sobre a regulamentação nos EUA é diferente da regulamentação por aqui, ate mesmo por conta do pensamento liberal e desregulamentador que rola por lá.

    E depois que eu li sobre a “teoria” por trás da homeopatia, me perdoe, mas eu sairia correndo do consultório de um médico que me prescrevesse algum remédio desse…

    • Fernando

      Você nunca tomou um chá de boldo para melhorar a digestão?
      Chá de camomila?
      Você acredita nos poderes da acupuntura? Sabia que ela funciona comprovadamente para cavalos de corrida, aliviando-os de lesões sérias e curando-os?
      Bom mas um cavalo é um animal você pode dizer. Pode ser efeito placebo. Mas como se ele não tem consciência do tratamento que fazem com ele? E mesmo assim ele melhora?

      Se você não acredita em homeopatia, explique-me como milhões de pessoas se beneficiam de inúmeros tratamentos alternativos? Explique-me como um comprimido de placebo consegue atingir e combater cerca de 30% de qualquer enfermidade.
      Há muitas coisas entre o céu e a terra que não sabemos.

    • Fernando

      Você nunca tomou um chá de boldo para melhorar a digestão?
      Chá de camomila?
      Você acredita nos poderes da acupuntura? Sabia que ela funciona comprovadamente para cavalos de corrida, aliviando-os de lesões sérias e curando-os?
      Bom mas um cavalo é um animal você pode dizer. Pode ser efeito placebo. Mas como se ele não tem consciência do tratamento que fazem com ele? E mesmo assim ele melhora?

      Se você não acredita em homeopatia, explique-me como milhões de pessoas se beneficiam de inúmeros tratamentos alternativos? Explique-me como um comprimido de placebo consegue atingir e combater cerca de 30% de qualquer enfermidade.
      Há muitas coisas entre o céu e a terra que não sabemos.

      • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000088922153 Wagner Menke

        Exatamente porque há muitas coisas entre o céu e a terra que não sabemos que é maravilhoso descobrí-las. E eu costumo confiar na observação e experimentação para obter as respostas.

        Alegar que acupuntura cura cavalo, que milhões de pessoas se beneficiam de tratamentos alternativos (o que é se “beneficiar”???) e que placebo consegue atingir a combater 30% de qualquer enfermidade sem citar uma MÍSERA fonte pra mim é apelar pra que eu tenha fé religiosa em tudo isso aí que você disse. O que pra mim não é uma proposta aceitável.

      • Fernando

        Fontes:
        http://www.bioethicus.com.br/d_txt_cientificos/1208268233.pdf Medicina Equina
        http://super.abril.com.br/saude/homeopatia-funciona-447594.shtml Homeopatia.
        http://www.cerebromente.org.br/n09/mente/placebo1.htm Efeito Placebo

        A medicina é complicada? Sim.
        Um tratamento pode funcionar perfeitamente para você e não para mim, mesmo que tenhamos os mesmos sintomas. Mas eu prefiro também tentar medicinas alternativas do que ter “fé religiosa” no meu médico formado graduado e santificado.

  • http://www.facebook.com/marcelo.delphi Marcelo R. Rodrigues

    Uma vez passou na Globo, uma matéria sobre um médico que andava receitando SEXO, para mulheres com problemas tipicos de certa idade, como pressão alta e.t.c. Diversas orgnizações queriam crucificar o cara, e não eram organizações religiosas…

  • Ramon Távora

    Excelente texto Carlos, 
    Queria acrescentar uma comparação: 
    Imagine um político que receba viagens, brindes, e etc. de uma construtora para ele escolher ela em uma licitação milionária, você votaria nesse político?
    Então porque o médico que vai para Cancún patrocinado pela farmacêutica é seu médico da família?

    O problema é que é tanto dinheiro envolvido que não existe nem a cogitação da possibilidade disso mudar para a classe.
    E não só com fármacos. Outro dia escutei de um médico reumatologista que ele recebeu uma carta do plano de saúde para ele participar da associação dos médicos que prescrevem menos exames.
    Final do ano viagem para o Caribe como recompensa, vamos nessa?

    Esse é um texto a ser compartilhado com todo mundo.

    Parabéns, Abraço!

  • Marcus Telles

    Carlos,

    Entendo sua argumentação, e de um modo geral me parece coerente. Mas sou leigo e, acima de tudo, cético. Gostaria de perguntar uma coisa: com que critérios você considera que os “tratamentos não-convencionais” podem ser avaliados? É muito grande o número de oportunistas e de propostas místicas, pseudo-científicas e afins, que, por fim, acabam sendo apenas irresponsáveis. Como, senão pelo “racionalismo medico” (para citar seu termo), pode-se ser crítico em relação ao tratamento adequado?

    Abraço!

  • Lucas

    Bom, eu sempre tive receio de médicos, não por medo, mas por achar muitos dos remédios desnecessários, e duvidar de alguns diagnosticos que me fizeram..
    Não sei se é o caso, mas fui diagnosticado com Epilepsia Juvenil de “sei la oq”, após um EletroEncefaloGrama, o medico receitou um medicamento, comprei 3 caixas e tomei todos os comprimidos, não poderia mais consumir alcool, ir a cinema 3d, dirigir e teria que tomar o remedio até meus ultimos dias, a não ser que o medico dissesse que a epilepsia passou..
    Quando acabou as 3 caixas, uns 4-5 meses depois da primeira consulta, tive que consultar com outro médico (pois o primeiro não atendia mais o plano de saude), levei a ele o nome do remedio que eu tomava e o EEG, o medico deu uma rapida olhada no exame, falou um pouco sobre a doença, e ja tava fazendo a receita, quando fui ver sobre o consumo de alcool, o qual me disse que poderia tomar, mas que eu ficaria alcoolizado mais rapido pois meu figado já tinha que processar o remédio e estaria meio debilitado.

    Mas o que me deixa encucado é que o médico disse que provavelmente eu teria que continuar tomando o remédio por um bom tempo até que a epilepsia “curasse”, mas ele nem pediu um novo exame pra ver se o remédio tinha surgido efeito..

    Hoje, fazem uns 6 meses que estou sem tomar o remédio, não tive mais nenhuma crise..

    E já que estou falando nisto.. há algum método alternativo pra CURAR epilepsia?
    Pra curar, e não pra dar grana pras empresas farmaceuticas pro resto de minha vida…

  • http://www.facebook.com/people/Mariana-Souto/100001235108224 Mariana Souto

    Poxa, os textos do Papo de Homem nunca estiveram tratando de assuntos tão importantes e com tamanha qualidade!
    Parabéns!

  • Rafael

    Carlos,

    Vamos ver se entendi: Hoje não temos a cura da maioria das doenças por culpa da fome de lucro da indústria farmacêutica? E também ainda não temos carros ecológicos por culpa da indústria do petróleo? E eu tenho que comprar um novo produto eletrônico a cada 3 meses por culpa da industria da tecnologia?

    Bem vindo a Matrix

  • http://twitter.com/marcosstaak Marcos C Staak Jr

    Acho que o autor se perdeu um pouco na afirmação “Parece incrível, mas o tratamento médico foi responsável por matar mais pessoas do que os índices de acidentes de trânsito e armas de fogo somados.” sendo que acima disso, cita a imperícia médica como causa de morte…Naquele país, a maioria dos processos contra médicos ocorre sem grandes fundamentos, e isso muitas vezes é considerado imperícia. Não estou dizendo que erro médico não acontece, longe de mim, mas o vínculo direto criado entre a “imperícia” e o “tratamento médico” não me parece fundamentado. Além disso, os dados numéricos onde estão? Afirmar que os tratamentos matam mais que acidentes de trânsito e armas de fogo somados é complicado.
    Essas estatísticas são tiradas com base no preenchimento do atestado de óbito, e assim como acontece aqui, nos EUA, a maioria das vezes o preenchimento é inadequado – além disso, um homicídio por arma de fogo é uma morte violenta, é encaminhado ao serviço de verificação de óbito, e a causa final do óbito não acaba sendo a arma de fogo em si. O mesmo ocorre com os acidentes de trânsito. Acho que esses dados citados, dessa forma, não tem muita validade.
    Mas com certeza é um índice preocupante o número de mortes por imperícia que ocorrem, tanto lá fora quanto aqui no Brasil.

    • http://www.facebook.com/enxaqueca Alexandre Feldman

       Estudo realizado na Johns Hopkins School of Hygiene and Public Health,
      publicado no JAMA (Journal of the American Medical Association) em
      26/07/2000 (Vol. 284, no. 4, páginas 483-5), de autoria da famosa médica
      Dra. Barbara Starfield (falecida em 2011) fez uma compilação de vários
      outros estudos confiáveis realizados por autores renomados e publicados
      por editores de prestígio, e foi um dos marcos mais importante na
      conscientização sobre o quanto está se ficando doente e morrendo devido
      ao “sistema de saúde”. Além deste, há inúmeros outros, como:

      . Uma metaanálise de estudos prospectivos (portanto o tipo mais rigoroso
      de estudo, e mais aceito pela comunidade científica), mostrou: Reações
      adversas (significativas) a medicamentos prescritos a pacientes
      hospitalizados: 2.200.000. Mortes: 106.000. Custo: US$ 12.000.000.000
      (Referência: Lazarou J et al: Incidence of adverse drug reactions in
      hospitalized patients: a meta-analysis of prospective studies. JAMA1998
      Apr 15;279(15):1200-5)

      . Hospitalizações inapropriadas: New England Journal of Medicine 1986
      Nov 13;315(20):1259-66 e o custo das mesmas: J Intern Med 1999
      Oct;246(4):379-87

      . Incidência de efeitos adversos e negligência médica: Med Care 2000 Mar;38(3):261-71

      . 20 a 50% das prescrições de antibióticos são desnecessárias, de acordo
      com estudo realizado na Tufts University School of Medicine e na
      University of Washington School of Medicine e publicado no American
      Family Physician 2001 Mar 15;63(6):1087-1097 (54 citações até esta
      data). O número de mortes por resistência a antibióticos causadas por
      prescrição inadequada é cada vez maior e objeto de preocupação de órgãos
      como o CDC, NIH, OMS.

      Enfim, para ver um estudo respaldado por série de referências da maior
      confiabilidade, é possível fazer o download deste sumário publicado pelo
      Institute of Medicine da super prestigiosa National Academy of
      Sciences, através deste link:
      https://www.premierinc.com/safety/topics/patient_safety/downloads/01-iom-exec-sum-prev-med-errors.pdf
      (porém infelizmente o documento é restrito apenas a erros de medicação
      em hospitais, ambulatórios e pacientes crônicos – e suas consequências).

      • http://twitter.com/marcosstaak Marcos C Staak Jr

        Legal saber dos estudos, obrigado pela resposta.

        Minha opinião é que os 2 extremos são preocupantes.
        Tanto a hopitalização médica, o modelo biotécnológico são falho e custosos, mas algumas situações acabam nos remetendo a este tipo de conduta; quanto a medicina alternativa, pura e simples, é complicada, uma vez que dá chance para muito charlatanismo, curandeirismo, enfim, penso que temos que saber dosar os 2 lados em um equilíbrio para que possamos ter uma melhoria em todos os aspectos da saúde.

  • Éder

    Confesso que me deu preguiça… mas segui a ler. Bom, a MEDICINA, como tudo nesse mundo, também é campo de disputas, correntes de pensamento e tal… o fato é que ela encontrou um princípio (que não digo ser perfeito) que a separa do charlatanismo ou de uma simples crendice: as evidências. Recomendar algo, sem a preocupação de testá-lo, é, no  mínimo, irresponsável. Pergunto então: porque as chamadas “alternativas” não podem tornar-se “científicas”??? É um absurdo dizer que a “medicina científica” tem apenas bases farmacológicas ou químicas. Essa é a visão de quem lê.  Tenho percebido sempre a preocupação de recomendar mudanças de estilo de vida, exercícios, controle de estresse, alimentação adequada… muitos artigos recomendam, com menor grau de evidência, e analisam coisas como sugestão, musicoterapia, meditação e assim por diante. Não que não exista uma questão de mercado, lucro… ou mesmo visões mais estreitas da medicina. Mas dizer dessa forma foi banalizar toda discussão. Dizer que acredita em física quântica não significa nada se ela não puder ser aplicada e, usar isso como forma de legitimar uma ou outra prática “alternativa” já revela a falta de argumentos a seu favor. Dizer que não temos todas as respostas não nos dá o direito de inventá-las. Eu mesmo acredito que existem milhões de coisas fora do nosso campo de visão, mas isso não resolve os problemas que não entendemos, para os quais não temos diagnósticos estabelecidos. Dizer também que a atuação médica não se preocupa com a causa é um absurdo!!! Se um paciente tem cólica biliar e não entendemos o bastante pra evitar que tivesse, tento recomendar algo que resolva: a cirurgia. Simples. Porque não adiantaria filosofar sobre a dor e suas origens… não adianta querer saber o que eu não sei. Adianta estudar. Reconhecer nossas limitações como médicos é parte do processo. Não podemos resolver tudo. As dores que não tem explicação, por exemplo. O que não me impede de recomendar ao paciente que procure outros meios, desde orando ou até benzendo… Outro conceito que não concordo é o de que não há lógica do corpo adoecer por partes: porque não??? Tudo tem que estar intimamente e significativamente ligado, conectado, o tempo todo??? Não posso ter uma tungíase (bicho de pé), simplesmente? Lógico que vai me incomodar e tal… mas o fato é que nem tudo é tão complexo… Por fim o texto é recheado de críticas muito pertinentes – muitas coisas precisam sim ser modificadas, discutidas, ser objeto de reflexão, como o jogo de interesses financeiros, os estudos “comprados” e etc. Mas, infelizmente, o texto também de falácias, usando das lacunas de conhecimento para justificar praticas não comprovadas. “Tylenol” cura dor de cabeça? Não… mas a “medicina científica” nunca disse que cura, apenas ofereceu esta como uma possível alternativa para alívio. Devemos pensar mais amplamente do que em medicações? Sim! Mas ainda poderemos usá-las até que tenhamos solução efetiva e melhor.

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 4334 artigos
  • 585830 comentários
  • leitores online

Lifestyle Magazine