Sistema de Saúde: como é organizado e como utilizá-lo?

Lucas Pedrucci

por
em às | Corpo são


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Que me perdoem os professores de matemática, mas resolver polinômios pelo algoritmo de Briot-Ruffini não se mostrou das coisas mais úteis na minha vida. É óbvio que para (quase) tudo há alguma aplicação prática e que conhecimento não costuma atrapalhar. O ponto é que poderíamos usar melhor nosso tempo aprendendo e discutindo questões um pouco mais pragmáticas, de cuja ignorância resultam prejuízos, aflições e conflitos desnecessários.

Por que não ensinar na escola noções básicas de direito e oferecer uma formação inicial em economia e planejamento financeiro? Introduzir e discutir um mínimo de filosofia, estimulando o estudo da lógica, do diálogo e da argumentação, com seus pecados e armadilhas? Descortinar os caminhos da arte, em suas infinitas formas e conteúdos?

Da mesma forma, por que não debater conceitos fundamentais de educação em Saúde – indo além dos cuidados pessoais, domésticos e noções de Suporte Básico de VidaDevíamos aprender na escola como é organizado o Sistema de Saúde e, mais importante, como utilizá-lo.

House

Vamos aprender agora, então

Censuras veementes aos serviços médicos, sejam do subsistema público ou suplementar, já são mais que lugar-comum. Muitas críticas são pertinentes – temos muito a melhorar, em ambos os modelos. No entanto, alguns impropérios esbravejados por acompanhantes raivosos e discursos repetidos exaustivamente em mesas de bar têm suas raízes na total ignorância dos objetivos de cada nível de atenção e de suas diferentes unidades.

Tentando aclarar um pouco o assunto, ofereço este pequeno “Manual do Usuário” dos serviços de saúde. Dou certa ênfase ao glorioso SUS, por ser o maior alvo de pedradas (muitas vezes injustas), mas a maior parte dos conceitos também se aplica à rede suplementar.

SUS

O Sistema Único de Saúde, criado para substituir o falecido INAMPS (que só contemplava os trabalhadores registrados), veio ao mundo em 1990, trazendo a atenção à saúde à nova realidade da Constituição de 1988. Em consonância com a nossa Lei Maior, a ousada proposta do SUS é uma das mais avançadas e completas do mundo.

SUS

Não é bem assim

Propôs-se, através da Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080 de 19/09/1990), que nosso sistema de saúde se pautasse por três princípios éticos ou doutrinários (universalidade, integralidade e equidade) e três diretrizes organizacionais (descentralização, regionalização e hierarquização).

Muita manga poderíamos coser com o pano dessas definições, mas, em resumo, os princípios éticos propõem que a assistência à saúde:

  • é um direito de todos,
  • que todas as demandas em saúde devem ser supridas (o SUS é um “plano de saúde que cobre tudo”) e
  • que o acesso aos recursos deve ser homogêneo para todos os estratos sociais e regiões do Brasil.

Belo. Pretensioso. Fantasioso para alguns, mas não é essa a discussão que proponho por enquanto.

As diretrizes organizacionais estabeleceram que as decisões administrativas fossem tomadas em “esferas” (nacional, estadual e municipal) com atribuições específicas e que as unidades da rede seriam classificadas em níveis de complexidade e teriam áreas de abrangência definidas, trabalhando em um fluxo de referência e contra-referência para cobrir todas as demandas de todos os usuários. Parece meio complicado e é exatamente essa parte que a maioria dos usuários não entende e que vamos destrinchar em breve.

Outra característica fundamental do SUS, regulada pela Lei 8.142 de 28/12/1990, é o controle social. As Conferências de Saúde e os Conselhos de Saúde são mecanismos criados para que a gestão do SUS conte com a participação direta dos seus usuários. Nos Conselhos, presentes em todos os níveis, metade das vagas pertence aos usuários, um quarto ao governo e um quarto aos trabalhadores. (O que me faz querer perguntar: você, que critica o SUS, já cogitou botar o pau na mesa no lugar certo pra isso?)

14a Conferência Nacional de Saúde

Você poderia ter estado lá (ou pode estar na próxima municipal da sua cidade)

Importante lembrar, ainda, que o sistema suplementar (“particular”), que pode operar sob vários modelos de gestão, organiza-se, no que diz respeito à alocação de recursos, de forma não muito diferente. E que os recursos do sistema suplementar podem e são muito utilizados pelo SUS, sob a forma de serviços contratados, com ou sem lucro. A via reversa – a utilização de recursos do SUS pelas empresas da saúde suplementar – é polêmica suficiente para um artigo separado.

Feitas as apresentações, vamos às vias de fato.

Níveis de atenção (ou “Por que não devemos procurar o Hospital das Clínicas da FMUSP para tratar pressão alta”)

O sistema de saúde é dividido em níveis de atenção. Cada estrato tem suas prerrogativas e responsabilidades e atende a demandas com determinada complexidade, custo e necessidade de uso de tecnologia.

À Atenção Primária, cujo carro-chefe é o Programa de Saúde da Família, cabe resolver a grande maioria dos agravos à saúde, além do “recrutamento” dos níveis subseqüentes – é da Atenção Primária a tarefa de definir quando um paciente deve ser referenciado aos níveis de mais alta complexidade, se houver necessidade do uso desses recursos. A “casa” da Atenção Primária é a UBS – Unidade Básica de Saúde, e esse nível de atenção deve estar presente em todos os municípios.

A Atenção Secundária opera quando há necessidade de consultas com especialistas, exames complementares e internações hospitalares por agravos que não requerem grande uso de tecnologia.

Por sua vez, a Atenção Terciária é responsável por um número muito menor de condições, mas que demandam muitos recursos tecnológicos e atuação de sub-especialidades. Casos um pouco mais raros e com necessidade de cuidados mais específicos.

HCFMUSP

Este é o HCFMUSP. Só vá para lá se for encaminhado

Além dessa classificação, existe a figura dos centros “quaternários”, como o HCFMUSP (Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo), normalmente associados a núcleos acadêmicos, com disponibilidade de recursos muito além dos usuais, intensa produção científica, super-especialistas e atendimentos de casos muito raros e graves.

O fluxo dos pacientes entre as unidades acontece pelos mecanismos de Referência (para níveis “acima”) e Contra-Referência (para níveis “abaixo”). Utilizar recursos de determinado nível para o atendimento de pacientes com doenças de outro é um dos mais belos tiros no pé que poderíamos dar. Gera gastos excessivos, diminui a eficiência e a eficácia dos serviços, produz disparidades entre demanda e capacidade de atenção nas diferentes unidades e destrói a autonomia da Atenção Primária, a quem caberia a regulação desse sistema.

Os centros quaternários, por exemplo, são recursos para casos raros, complexos, desafiadores. Essa é, inclusive, uma de suas funções primordiais.

Como normalmente estão associados a núcleos acadêmicos – muitos nasceram como hospitais-escola de faculdades de medicina – pode sim haver espaços específicos nestes serviços para a atenção a usuários com demandas mais simples, com objetivos de ensino ou pesquisa, dois dos pilares dessas instituições.

Na maioria das vezes, no entanto, ao procurarmos o Hospital das Clínicas por uma doença que não pudesse figurar em um episódio duplo do House, talvez estejamos encurtando a vida do camarada com uma doença mais grave ou rara, que só será atendido depois de vários meses.

Regionalização (ou “Por que não devemos pegar um avião na Bahia para tratar insuficiência renal no Rio de Janeiro”)

Como a maior parte dos casos pode ser resolvida na Atenção Primária, não precisamos construir um hospital terciário em cada município, mesmo que em todos os lugares haja pacientes que, em determinado momento, apresentam demandas terciárias. Isso seria estúpido mesmo que sobrasse dinheiro (e sabemos que não sobra).

Todos os municípios devem contar com recursos de atenção primária (a Organização Mundial da Saúde recomenda e existência de uma UBS para cada 20 mil habitantes). Hospitais secundários devem existir em cidades de médio porte, sendo referência para uma determinada região, que engloba os municípios vizinhos. Hospitais terciários e quaternários localizam-se em grandes centros, drenando casos selecionados da sua macro-região, que devem seguir o fluxo coerente desde a atenção primária até o topo da referência.

Muitas vezes esse fluxo é “burlado” por profissionais ou pacientes desinformados ou inescrupulosos. Muitos médicos (eu incluso) perderam a conta dos pacientes que vieram por conta própria ou “encaminhados” dos mais distantes rincões do país para tratar doenças de nível secundário ou terciário no Hospital das Clínicas, alegando que em sua cidade não há recursos para tal.

É óbvio que em Machadinho d’Oeste – RO não há (nem deveria haver) recursos para hemodiálise prontamente disponíveis, por exemplo. Já em Porto Velho, capital do estado, certamente há suporte para tanto. Cinquenta e sete equipamentos, precisamente, segundo dados do DATASUS. Não há justificativa, portanto, para um paciente ser “encaminhado” para um serviço distante por um agravo tratável no serviço de referência de sua região. Os complexos hospitalares quaternários, como o HC, recebem casos de todo o continente, quando há indicação para isso. E assim funcionam todos os serviços de referência.

Quando fraudamos nosso CEP para fazer nos grandes centros o que poderia ser feito em casa, de novo, talvez estejamos encurtando a vida do camarada com uma doença mais grave ou rara, que só será atendido depois de vários meses.

Brasil

O Brasil é grande, e você provavelmente pode ser (bem) atendido próximo de onde mora

A função de cada unidade ou ambiente (ou “Por que não devemos procurar o pronto-socorro por causa daquela tosse que começou há dois meses”)

Dentro dos diferentes níveis de atenção, cada ambiente dos serviços de saúde tem uma função bem específica.

Quando vamos a um consultório com hora marcada, fazemos a consulta e vamos embora, qualquer que seja a proposta terapêutica ou diagnóstica, estamos falando de medicina ambulatorial. É por essa estrutura que devemos atender a maioria das demandas, especialmente a Promoção à Saúde. É nesse ambiente que investigamos queixas crônicas (de longa duração), que fazemos rastreamentos e seguimento de qualquer doença.

Por vezes, é necessária uma internação hospitalar. Ocupamos um leito, dormimos no hospital. Isso acontece quando é necessário um tratamento mais invasivo (com medicações endovenosas ou procedimentos cirúrgicos, por exemplo), quando precisamos monitorar mais de perto o tratamento e a evolução ou quando isso facilita a logística de uma determinada investigação, com exames em sequência ou envolvendo maior risco. Isso pode acontecer no ambiente de enfermaria ou de terapia intensiva.

Quando falamos em enfermaria, nos referimos a um setor de internação sem monitoração contínua dos parâmetros vitais e sem a presença constante do médico. Isso independe da quantidade de leitos por quarto, a despeito dos aspectos mercantis muitas vezes associados a essa definição (um apartamento particular em um hospital de luxo continua sendo, do ponto de vista médico, “enfermaria”). Nas unidades de terapia intensiva, que atendem a doentes gravemente enfermos ou potencialmente instáveis, há a presença constante do médico, monitoração contínua e maior proporção de outros profissionais de saúde e outros recursos.

O pronto-socorro, este antro de estresse, conflitos, pacientes pitizando, acompanhantes surtados e ameaças de processo, mereceria um texto próprio, tamanha a confusão gerada pela sua procura indevida e por demandas impróprias baseadas em ignorância e egoísmo.

Adiantando o que todos os médicos gostariam que o mundo soubesse: o pronto-socorro serve para atender casos potencialmente graves, de doenças agudas (de instalação muito recente), com risco de morte ou algum grau de incapacidade.

Ao procurarmos o PS para “ver como está o diabetes” (“à noite, porque a fila é menor”), “fazer check-up”, investigar aquela dor nas costas que nos incomoda há um mês e meio (e hoje, às três da manhã, decidimos que “não aguentamos mais”), pedir atestado para matar o trabalho ou “aproveitar que viemos trazer nosso filho e já ‘dar uma olhada’ nessa manchinha que apareceu na pele”, certamente estamos reduzindo as chances de vida do camarada que está infartando em silêncio ao nosso lado e vai ter que esperar (preciosos) minutos a mais por nossa causa.

Por isso, no Pronto Socorro, o atendimento deve ser o mais rápido e objetivo possível, com história e exame clínico focados na queixa principal, assim como a solicitação de exames complementares – que devem ter indicação clara de acordo com as hipóteses diagnósticas. (Não, não dá pra “aproveitar e já ver como anda o colesterol”).

Se o médico investigar cada pequena queixa e der espaço a essas demandas impróprias, alongando a consulta e aumentando o tempo de espera, ele não está sendo atencioso e prestativo, mas sim protagonizando má-prática médica. Está fazendo errado (além de validar a desinformação e o uso indevido dos recursos).

E, sim, é consenso entre médicos e outros profissionais de saúde que os pacientes mais irritadiços e revoltados com o tempo de espera e com a brevidade do atendimento são os que têm maior probabilidade de não estarem doentes, e/ou terem procurado o PS indevidamente, por afecções sem o menor sinal de gravidade ou por interesses escusos. Com alta sensibilidade e especificidade.

Lucas Pedrucci

Gaúcho expatriado, é pianista aposentado, jogador de rugby em fim de carreira, ex-oficial da FAB, paraquedista das categorias de base e meditante wannabe. Seu principal hobby é a Medicina, que estudou na USP e tem praticado no Hospital das Clínicas.


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  • jcgjunio

    Texto muito bom, realmente temos pouca informação útil em nossa formação, o que faz com que tenhamos pessoas bastante despraparadas pra enfrentas coisas básicas. Parabéns.

  • http://www.facebook.com/people/Bruno-Gouvea/100000306561706 Bruno Gouvea

    Oi Lucas, muito bom o texto e bem explicativo sobre a estrutura do SUS (embora conheça um pouco, por trabalhar alguns anos em hospitais públicos), mas existem alguns pontos do qual discordo, como no seguinte parágrafo;

    “É óbvio que em Machadinho d’Oeste – RO não há (nem deveria haver) recursos para hemodiálise prontamente disponíveis, por exemplo. Já em Porto Velho, capital do estado, certamente há suporte para tanto. Cinquenta e sete equipamentos, precisamente, segundo dados do DATASUS. “.

    Com certeza que Machadinho do Oeste não precisa de recursos pra hemodiálise com sua população que mal completaria um bairro mediano de São Paulo, mas 57 equipamentos para uma capital como Porto Velho, não seria muito pouco, tendo em vista que a cidade seria núcleo para cidadãos de diversas cidades?

    O que eu vejo é que a estrutura hierárquica do SUS é coerente, mas os recursos são muito mal distribuídos e fiscalizados.

    Moro em Curitiba, na qual evidentemente por uma questão política, tendo em vista que o povo até possui um senso crítico bem desenvolvido com relação ao brasileiro mediano, reúne postos de saúde de atenção básica nos bairros que possuem até tv de plasma na sala de espera, ar-condicionado e refeições periódicas até para acompanhantes (claro que o objetivo disso é eleitoreiro / o google imagens não me deixa mentir), o que resulta em munícipes vizinhos que saem da sua cidade para fazer consultas simples na capital (também tem a concentração de vagabundos em busca de atestado para justificar faltas sem motivo), além de reunir diversos hospitais de referência, na qual reúne milhares de ambulâncias de várias cidades, inclusive do estado vizinho (Santa Catarina) que é tão ou mais rico que o Paraná, mas não apresenta o mesmo nível de estrutura hospitalar.

    Outro contraste é se for analisado o que os estados arrecadam pra União e o que recebem de recursos, como ocorre com São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, que encabeçam a lista de arrecadação de verbas pra União, mas sempre estão em últimos na destinação de recursos do Governo Federal, em detrimento da Bahia, Maranhão, Amapá que lideram os repasses, mas ainda assim possuem estrutura muito inferior na saúde pública…

    http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1229201

    • http://www.facebook.com/people/Joaquim-Do-Prado/100002304385080 Joaquim Do Prado

      na boa, “brasileiro mediano” soou muito mal….

    • Marcos Coelho

      Sei que esse não é o assunto, mas tem coisa que não dá para calar. Curitiba, pensamento crítico maior que o brasileiro mediano, hein????
      Sempre a mesma história… O Nordeste é o responsável pelo mau gerenciamento dos recursos publicos!!! Concordo com a Pollygall, e acrescento que se os médicos tivessem alguma formação em áreas com história, filosofia, ciência política além de direito não ficariam reproduzindo preconceitos que acreditam ser a verdade.
      A diferenciação econômica e o empobrecimento de certas regiões em relação a outras tem haver com um processo histórico de quase duzentos anos e seria no mínimo, esperado que técnicos qualificados como os médicos tivessem informações a esse respeito. Poder-se-ía em vez de ler revistas como a Veja, ler a Revista de História da Biblioteca Nacional tão barata e muito mais bem informada.

      • http://www.facebook.com/people/Bruno-Gouvea/100000306561706 Bruno Gouvea

        Reconheço abertamente que o termo “brasileiro mediano” foi uma colocação infeliz ao estilo “Boris Casoy”, mas nem de longe coloco isso como uma questão xenofobobo do tipo “sul mais desenvolvido ou nordeste ruim”. Aqui como a maior parte do Brasil, prevalece a política do estilo Roma Antiga do “pão com circo”, com a diferença que aqui prevalece mais o pão que o circo.

        A mera diferença é que na minha cidade, pegando um exemplo bobo, se tem uma favela ao lado de uma rodovia e dezenas de pessoas morrem ao atravessá-la, deveria o Estado investir em educação para que as pessoas tenham condições de morar em um lugar melhor. Mas o que acontece é que a população briga por conta da condição precária a que as pessoas são submetidas ao atravessar a rodovia, e o gestor faz uma linda passarela sobre esta para facilitar a travessia para posar bem na foto, melhorando o mínimo possível a condição dessas pessoas.

        E assim a cidade funciona, com um transporte público razoável, com escola pública com professores que ganham pouco e mal preparados, mas em prédios novos, com segurança pública mal preparada, mas que dispõe de viaturas em bom estado e policiais com uniformes impecáveis.

        Enfim, o que eu digo é que o povo da minha cidade é crítico e exigente com aquilo que é superficial, visível, destacando a cidade como um “modelo” aos padrões de serviço público em várias áreas na qual é referência em termos de Brasil, mas que não deixa de ser uma mera cidade Brasileira, evoluída apenas em nossos meros e pobres padrões…

        Posso ter sido infeliz em algumas colocações, mas sou responsável pelo que escrevo, não pelo que você entende ou inventa que eu tenha dito…

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Bruno,

      Distribuição de recursos é um dos pontos que eu tinha na cabeça quando escrevi que “temos muito a melhorar” no texto.

      Sobre a situação particular das máquinas de hemodiálise de Porto Velho, não tenho como saber se esse número é suficiente ou não. Imagino, considerando a população do estado e a incidência de insuficiência renal dialítica, que não deve haver grande disparidade, mas talvez alguém que trabalhe por lá pudesse nos esclarecer melhor.

      Esse “fluxo” interestadual de pacientes para atenção de demandas de baixa complexidade é realmente grave e é um dos problemas que aponto no texto. Mas a solução é procurar os serviços locais e, em caso de atenção inadequada, participar dos vários meios de controle social do SUS nas esferas adequadas, em vez de prejudicar o serviço do vizinho.

      Temos MUITO a melhorar, muitas críticas são certeiras e os meios estão aí para brigarmos por melhoras. Isso nunca deixou de ser válido e o texto não questiona isso.

      A idéia é que, burlando o sistema para buscar a resolução dos nossos problemas particulares em detrimento do resto, além de não melhorarmos a situação provavelmente estamos piorando a ineficiência dos serviços.

      As coisas andam juntas. Melhorar o sistema + melhorar nosso jeito de usá-lo.

  • http://www.facebook.com/emmlonga Emmanuel Longa

    Parabéns pelo texto, achei muito bem escrito, claro e de fácil entendimento! Em tempos de consultas a jato, degradação da relação médico-paciente e constantes reclamações por parte dos pacientes, talvez uma maior consciência coletiva de como funciona nosso sistema de saúde seja um passo fundamental para melhorar a situação vista nos hospitais, clínicas e postos de saúde país fora. É algo que faz parte da nossa mentalidade, se você fica doente, quer logo ir em hospital, onde tem “as melhores máquinas” e “os maiores especialistas”, mas nem pára para pensar que, de repente, aquele especialista é muito bom em tratar as doenças que ele foi especializado em tratar, mas pode não ser a pessoa com a visão generalista nem formação adequada para tratar ‘aquela tosse forte com dor de cabeça’ que você vem sentido há uma semana. Ser generalista, creiam, é tão complicado quanto ser especializado em algo (ou às vezes mais até). E enquanto você vai a um hospital de grande porte tratar algo do âmbito da atenção básica, está ainda ocupando o espaço de uma pessoa que precisava da vaga e agravando as filas e o caos dos hospitais, além de desperdiçar recursos humanos e financeiros. E depois reclama que hospital público é tudo cheio, que sus não presta e trata logo de migrar pra plano de saúde “porque saúde pública é coisa de pobre”. Só é porque se permite. Claro, ninguém aqui vai negar que existe culpa pelo lado da equipe de saúde, sou estudante de medicina da fmusp e já vi casos de atendimentos sem o devido cuidado médico, pouco humanos simplesmente, além de casos de pura displicência; muito menos a responsabilidade dos políticos, que gostam de fingir que o problema da saúde é a “falta de médicos” quando os problemas são indescritivelmente maiores que isso (falta de leitos, materiais, sálarios baixos, poucos profissionais contratados, falta de plano de carreira). O caso é que se todos assumissem suas responsabilidades, médico com trabalho humanizado e atenção, paciente com consciência sobre o funcionamento dos sistema de saúde e da luta por seus direitos e políticos com menos picaretagem, a saúde hoje seria outra coisa. Mas, se cumprir responsabilidade fosse fácil, nem eu nem você estaríamos enrolando para sair do computador agora e cumprir as nossas.

  • Polygall

    Ola Lucas, texto mto bom e esclarecedor. Eu estagiei no HC da Unicamp e sei (parcialmente) como é isso, no entanto, não devemos imaginar e nem esperar que os pacientes sabiam disto, infelizmente. Como não temos aula de direito e nem de suportes básico da saúde é preciso uma orientação in loco para encaminhar estes pacientes / cidadãos / pessoas (como queira chamar) da melhor forma possivel…mas sabemos perfeitamente que estas orientações, por vezes, torna-se impossivel pela demanda escassa e até (acredito q muito mais por conta disto) falta de paciencia dos profissionais que trabalham na saúde.
    Complemento também dizendo que se o povo recebesse uma atenção Primaria e Secundária adequada não sobraria para a Terceriária…o que todos buscam é atenção, e solução dos “problemas”….mas o que encontram é um descaso sim, tanto no PS quanto na UBS..isso para nao abranger mais e citar tambem o hospital-escola e ai entram varios motivos que não vale citar neste momento para nao me estender ainda mais.
    Hoje infelizmente o cara literalmente pega o plantão e não recebe.. parece que a prática de passar o plantao foi extinta (pelo menos em alguns locais) e isso resulta em uma visita parcial, onde o medico nao sabe nada ou quase nada do cara que esta lá deitado no leito..e se souber o nome ao inves do número do leito ja é grande coisa (triste realidade – observado dentro do meu campo de visao). “- Ah…calma ele vai ler o prontuário.” Com certeza irá, se…..der tempo no seu plantão…pois é provavelmente que o proximo também “pegue” (sem repasse) a responsabilidade e ai podemos escutar uma justificativa do tipo “ah….ele é velhinho?!”.
    Bom, o intuito não é apontar culpados, apenas dizer (talvez como desabafo) que estamos longe de alçançar os tres principios eticos do SUS pautados pela LOS e ainda mais longe de concretizar a Politica Nacional de Humanização iniciada em 2003 (salvo constantes e especiais excecoes – ainda bem). Enquanto isso vamos participando de Conferencias, Conselhos e até, quem sabe, buscar o LOAS ou a PNAS.
    Mais do que reclamar, desabafar ou caçar as bruxas, seja talvez importante e verdadeiramente eficaz, buscar uma mudança de habito e posteriormente de cultura dentro da nossa equipe e comunidade local (mesmo que minimo diante do macro) para pelo menos mudar a nossa rotina.
    Parabéns pelo texto…bom start!!

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Polygall,

      Como disse no texto, realmente há muito a melhorar (principalmente na distribuição dos recursos, na priorização da atenção primária e na valorização do material humano – sim, isso inclui remuneração e contratação de número adequado de profissionais de acordo com a demanda).

      Minha experiência com o trato dos pacientes, no entanto, é muito diferente dessa situação relatada por você, então não podemos estender essa impressão a todo sistema. Eu e as pessoas com quem trabalho, apesar de toda dificuldade estrutural e da demanda astronômica, temos como regra a passagem minuciosa dos casos nos plantões, chamamos os paciente pelo nome, explicamos todas as condições e propostas terapêuticas ou diagnósticas e o fluxo ideal para a atenção aos casos que atendemos.

      Claro que há profissionais acomodados, mal formados, desmotivados, fazendo trabalho porco.

      Mas ainda podemos fazer o nosso direitinho, além de brigar para destruir idéias que só nos atrasam mais ainda, como a noção falsa de que qualquer paciente será melhor atendido no HC do que na UBS, o endeusamenteo dos superespecialistas em detrimento dos generalistas e outros enganos propagados sem critério. Isso só se resolve de fato com essa mudança de cultura que você falou e concordo que ela deve “atingir” tanto a população quanto os membros das equipes de saúde. Por isso escrevi o texto.

      Seguimos tentando! ;-)

      • Ricardo

        Eu vejo que uma boa parte da população já tem noção dos níveis de atenção e tenta utilizar o sistema de maneira mais consciente, mas está longe do ideal.

        No entanto, nas experiências que tive, o atendimento passou longe de ser minimamente bom. Coisas como: mau atendimento, falta de profissionais, demora no resultado de exames e o mais grave, diagnóstico incorreto. Já presenciei diagnóstico positivo para câncer por falha do laboratório, com encaminhamento direto para oncologia. Refeito o exame em laboratório confiável, nada encontrado.

        Acredito que existam vários níveis de problemas: usuários não orientados (faltam campanhas para isso, inclusive), maus funcionários (que deveriam ser avaliados, mas não sei como e se isso ocorre, confesso), má gestão de recursos e uma boa dose de desorganização.

  • Polygall

    Ola Lucas, texto mto bom e esclarecedor. Eu estagiei no HC da Unicamp e
    sei (parcialmente) como é isso, no entanto, não devemos imaginar e nem
    esperar que os pacientes sabiam disto, infelizmente. Como não temos aula
    de direito e nem de suportes básico da saúde é preciso uma orientação
    in loco para encaminhar estes pacientes / cidadãos / pessoas (como
    queira chamar) da melhor forma possivel…mas sabemos perfeitamente que
    estas orientações, por vezes, torna-se impossivel pela demanda escassa e
    até (acredito q muito mais por conta disto) falta de paciencia dos
    profissionais que trabalham na saúde.

    Complemento também dizendo que se o povo recebesse uma atenção Primaria e
    Secundária adequada não sobraria para a Terceriária…o que todos
    buscam é atenção, e solução dos “problemas”….mas o que encontram é um
    descaso sim, tanto no PS quanto na UBS..isso para nao abranger mais e
    citar tambem o hospital-escola e ai entram varios motivos que não vale
    citar neste momento para nao me estender ainda mais.

    Hoje infelizmente o cara literalmente pega o plantão e não recebe..
    parece que a prática de passar o plantao foi extinta (pelo menos em
    alguns locais) e isso resulta em uma visita parcial, onde o medico nao
    sabe nada ou quase nada do cara que esta lá deitado no leito..e se
    souber o nome ao inves do número do leito ja é grande coisa (triste
    realidade – observado dentro do meu campo de visao). “- Ah…calma ele
    vai ler o prontuário.” Com certeza irá, se…..der tempo no seu
    plantão…pois é provavelmente que o proximo também “pegue” (sem
    repasse) a responsabilidade e ai podemos escutar uma justificativa do
    tipo “ah….ele é velhinho?!”.

    Bom, o intuito não é apontar culpados, apenas dizer (talvez como
    desabafo) que estamos longe de alçançar os tres principios eticos do SUS
    pautados pela LOS e ainda mais longe de concretizar a Politica Nacional
    de Humanização iniciada em 2003 (salvo constantes e especiais excecoes -
    ainda bem). Enquanto isso vamos participando de Conferencias, Conselhos
    e até, quem sabe, buscar o LOAS ou a PNAS.

    Mais do que reclamar, desabafar ou caçar as bruxas, seja talvez
    importante e verdadeiramente eficaz, buscar uma mudança de habito e
    posteriormente de cultura dentro da nossa equipe e comunidade local
    (mesmo que minimo diante do macro) para pelo menos mudar a nossa rotina.

    Parabéns pelo texto…bom start!!

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000088922153 Wagner Menke

    Boa Lucas! Recomendaria que você escrevesse outro post pra falar da assistência farmacêutica e da vigilância epidemiológica/sanitária, que também consomem MUITOS recursos do SUS e faz com que todos os brasileiros sejam usuários do sistema, mesmo contra sua vontade. (Juro que se tivesse tempo eu escreveria…)

    Excelente texto!

  • http://www.facebook.com/frech0 Fernando Rech

    Olha gostei do texto, não sabia de como a rede é feita e gerenciada, mas dizer que o atendimento tem que ser rápido acho isso equivocado, pois hoje tudo é tratado como virose e o médico mal olha para a cara do indivíduo e prescreve um medicamento e o paciente volta para casa sem a devida avaliação. Um segundo ponto é a respeito do acompanhamento do paciente, posso estar enganado a respeito mas hoje não se tem uma rastreabilidade com as doenças que o paciente teve ou a própria doença que o fez voltar ao posto de saúde, apenas as palavras dele servem como base do novo diagnóstico ou as vezes os medicamentos tomados. Atacar o início é fundamental para que o paciente não precise ir do interior a capital para ser avaliado superlotando as enfermarias. Mas agradeço pelo texto está de parabéns.
    Obrigado

    • http://www.facebook.com/people/Daniel-Augusto/100000559571953 Daniel Augusto

      Fernando, o ponto é justamente esse. A maior parte das pessoas procuram o Pronto Socorro, quando deveriam procurar um Clínico Geral no ambulatório. A consulta de urgência (pronto socorro) é, necessariamente, rápida, pois é a chamada queixa-conduta (exemplo: dor de cabeça há dias-analgésico-encaminhar para ambulatório). No ambulatório a consulta é mais detalhada e demorada, pois é o local para se investigar a causa da doença.

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      “hoje tudo é tratado como virose”
      Fernando, a tal da “virose” é o maior dos lugares-comuns pra falar mal dos médicos, sem qualquer embasamento.
      Não tenho estatísticas oficiais, mas minha experiência pessoal dando plantões em pronto-socorro (público ou particular) é de algo certamente acima de 70% dos pacientes procurando o hospital por infecções virais (viroses) do sistema respiratório ou do trato gastrointestinal.

      Agora, me diz: se você procura o médico por causa de uma virose, que diagnóstico que ouvir? Câncer? ;-)

      Sobre o atendimento dever ser rápido, isso se aplica AO PRONTO SOCORRO APENAS. E isso não é uma opinião pessoal minha, os serviços são organizados de acordo com evidências científicas e pensados para objetivos bem específicos. O PS serve para atendimentos de urgência – rápidos e objetivos. Qualquer outro tipo de atendimento deve ser feito em outro ambiente.

      A “rastreabilidade” a que você se referiu imagino que diga respeito à integração dos prontuários médicos entre os diferente serviços. Isso realmente é um avanço importante e é realidade em alguns lugares como a Inglaterra e, pasme, alguns serviços do SUS – como o ICESP. Quando o paciente procura o serviço de urgência, já temos no computador seu prontuário do ambulatório, como os diagnósticos e propostas, as últimas procuras ao PS etc. Isso facilita muito o serviço e protege o paciente de eventos adversos. O custo é imenso – mas vale a pena. Estamos trabalhando nisso.

      “Atacar o início” realmente é o caminho: e isso significa respeitar o fluxo entre os níveis de atenção.

      Seguimos.

      • http://www.facebook.com/frech0 Fernando Rech

        Então lucas me expressei mal, estava falando da rede básica ou da rede primária e não do atendimento de emergência, esse sim deve ser tratado de forma rápida e eficiente.
        Onde moro há uma boa oferta de UBS, mas para conseguir uma consulta preciso chegar as 4:30 da manha pegar uma senha para ser atendido as 10:00, a maioria das vezes sei que o problema não é grave mas passar quase 6 em uma UBS é difícil para quem trabalha e o problema que era simples no começo pode se tornar uma dor de cabeça futura.
        Por causa do texto descobri que perto de casa há um comitê da rede básica de saúde essa semana espero ir até lá e quem sabe as idéias que tenho sejam ouvidas.

      • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

        Boa!

        Cara, fico MUITO feliz de ler isso. Muito bom ver as pessoas começando a participar, pelas vias certas. Estamos juntos nessa briga.
        Realmente estávamos falando de coisas diferentes. Eu estava me referindo à consulta em si no PS. Esperar esse tempo todo é realmente bem ruim. Não se consegue marcar uma consulta num horário específico?

  • Binha Buarque

    Resumindo: O Projeto SUS é perfeito. Mas, como tudo nesse país, não funciona como deveria pois a maioria não assume o próprio expediente.

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Vamos assumir, então? ;-)

  • http://profiles.google.com/tiagocxavier Tiago Xavier

    Beleza de texto cara.
    Lido todo dia com pelo menos uma ação judicial que tem relação com o SUS. Fico impressionado com a falta de apoio técnico pros juízes decidirem questões relativas a internações e fornecimento de medicamentos. Realmente falta informação pra usar melhor um sistema que, na maioria dos casos, funciona bem.

  • http://www.facebook.com/lucas.barbosa.501598 Lucas Barbosa

    Perfeita a revisão pratica sobre SUS e sua utilização. Me esforço a cada consulta para explicar, um a um, mesmo em atendimento particular, como o fluxo deveria existir.
    O cerne da questão é; historicamente, a Atenção Primária sempre foi péssima. Em alguns anos decidiu-se por em pratica a teoria e fazer efetivamente com que a porta de entrada no SUS fosse a AP. O problema que é que os pacientes não confiam e, muitas vezes, nem sabem que existe um Posto de Saúde ou um PSF perto de casa. Logo a medicina preventivaa

  • http://www.facebook.com/people/Felipe-Giannella/100001329622375 Felipe Giannella

    Excelente explicação sobre o SUS e sobre o sistema de saúde brasileiro, Lucas. Aprendo muito ao ler o PDH, sério.

    Só queria apontar uma questão nesse texto. Você fala sobre a necessidade da regionalização dos atendimentos, principalmente no que se refere à questões de “atenção primária”. Semana passada eu estive em Porto Velho/RO e, conversando com alguns colegas de lá, eles me disseram que o sistema de saúde da região é muito fraco, a ponto de cometer erros crassos de diagnóstico.
    Assim, pergunto se a baixa qualificação e falta de confiança dos usuários locais não acabam sendo grandes motivadores para a população local viajar às vezes para outro estado para obter um diagnóstico mais correto. E se existem poucos médicos qualificados para morar em regiões mais afastadas da sociedade, cidades menores, com menos recursos, como esperar que a população local “obedeça” a regionalização dos atendimentos, se a mesma não puder contar, de fato, com os médicos locais?
    Valeu cara. Abs

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Fala Felipe!

      A má distribuição dos recursos (estruturais e humanos) é provavelmente o maior dos problemas. Um número bizarro de escola médicas no sudeste (formando profissionais lamentáveis e dispostos a fazer trabalhos porcos por migalhas, diga-se de passagem), enquanto faltam profissionais em muitos lugares.

      Realmente deve dar um certo desespero procurar os serviços de algumas regiões, o que motiva muita gente ao “turismo médico” nos grandes centros.

      É um problema grave para o qual temos que procurar uma solução juntos. O que eu aponto é que essa solução não é buscar os grandes centros para os próprios problemas e ignorar as complicações disso, que não são pequenas.

      Abs

  • http://www.facebook.com/people/Daniel-Augusto/100000559571953 Daniel Augusto

    Parabéns pelo texto. Trabalho na Secretaria Municipal de Saúde aqui em Uberlândia e temos vários problemas nesse sentido. Sobram vagas para consultas básicas nos ambulatórios e, em contrapartida, os PS estão sempre lotados. A classificação de risco nos serviços de pronto atendimento ajuda muito para que os pacientes com quadros mais agudos sejam atendidos com prioridade, o que faz com que aquele paciente com dor nas costas há três meses espere muito e, fatalmente, fique insatisfeito, bradando aos quatro ventos que o SUS não presta.

    Por fim, sua ideia de ensinar o funcionamento do SUS nas escolas é excelente e, com certeza, economizaria bons milhões de reais dos cofres públicos.

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Isso!
      “Procurar o PS por queixas crônicas é como tentar comprar CDs no açougue”, dizia um colega meu. Não vai dar certo, nunca. Só que faltava contar isso pros usuários.

  • http://twitter.com/VideoAulasByAna VídeoAulas ByAna

    Lucas,
    no papel, o sistema é maravilhoso e bem planejado. Não fossem as pessoas que ele foi criado para atender insistirem em serem atendidas direito, né?
    Se o sistema não está funcionando para as pessoas, então são elas que estão erradas? O sistema é feito para servir às pessoas ou as pessoas é que deveriam servir ao sistema?
    Na maioria dos casos o paciente não tem como se diagnosticar e descobrir por si mesmo se o caso é grave ou não. Eu já fui para um PA pensando que estava com um caso exagerado de gases e era apendicite. Ali mesmo fiz todos os exames e fui operada algumas horas depois. O que teria acontecido se eu tivesse marcado uma consulta para a próxima semana no posto de saúde perto de casa?
    Outro problema que também congestiona os PAs é criado pelos próprios médicos e laboratórios, que parecem achar a coisa mais natural do mundo fazer um paciente esperar 2 a 3 horas para serem atendidos “com hora marcada”, em pleno horário comercial. Bem, se é para esperar todo esse tempo no meio da manhã, melhor mesmo é dar uma “passadinha” no PA à noite, que aí pelo menos eu não vou ter que pedir um atestado e ainda passar por “espertinha”, você não acha?
    E seu eu estiver com uma tosse estranha, mas o meu médico de confiança só tem vaga para daqui há dois meses?
    Todas essas são situações reais que eu vivi, mesmo sendo usuária de um bom plano de saúde. Todas me levaram à procurar o PA de um bom hospital no outro lado da cidade, sim, porque eu sei muito bem que não é em todo lugar que tem bons médicos, equipamentos e condições de higiene adequadas.
    Enfim, eu acho que as coisas não são tão simples assim como você tenta pintar. O sistema pode ser muito sensato no papel, mas no mundo real aqui fora, ele é péssimo para as pessoas a quem ele deveria servir.
    Jogar a culpa pelo “encurtamento de vidas” para cima dos pacientes que tentam sobreviver nessa selva de desrespeito ao ser humano é, no mínimo, uma simplificação pueril.

    • Larissa

      Concordo em tudo com você. Jogar a culpa de um sistema extremamente falho nos pacientes é fácil. Certo é chegar em um PS às 21:00 com febre e a garganta inflamada(só porque eu não posso me automedicar com antibióticos) e ser atendida só as 06:00 por um medico com cara de CÚ que dormiu a noite inteira enquanto deveria estar atendendo.

      • Ana Carolina

        ” com febre e a garganta inflamada(só porque eu não posso me automedicar com antibióticos”….
        Entao se automedica, vai lá, campeã…. médico pra que?! Ai quando tiver uma bactéria multi-resistente, culpe seu médico… afinal de contas, a culpa é SEMPRE dele e não sua, né?

      • http://twitter.com/luizagcn Luiza

        Você não pode se auto-medicar por um motivo bem razoável: a resistência dos microoganismos aos antimicrobianos. Isso é bem sério e ainda bem que essa medida foi tomada, 90% das cepas (variações) de S. aureus são resistentes à penicilina (benzetacil). Fora outros casos como o da KPC que preocupam e muito.

        Quanto a culpa, não é do paciente como um todo, mas o SUS tem o controle social. Você já foi em alguma reunião do conselho de saúde da sua cidade? Não, né? Mas gosta de reclamar. Lá você pode opinar, ouvir, reclamar, como um igual com os profissionais da saúde e gestores.

        Outra parte da culpa é a mania do povo em querer hospital. Daí os políticos filhos da mãe, gastam fortunas em hospitais sendo que tinham que priorizar a atenção básica, que além de mais eficaz é mais barata. Claro que em casos de doença aguda o PS resolve. Mas quantas pessoas não passam mal e vão pro PS porque adiaram uma consulta? Culpa dos políticos sim que tem um descaso com as UBS deixando o atendimento lento e afastando a população. Mas também é culpa da população que não cobra novos recursos para as UBS e sim hospitais (por ignorância) e também porque foi a população que escolheu o representante político.

      • http://www.facebook.com/bruna.seleme Bruna Seleme

        Me diga qual antibiótico você usaria, qual posologia e duração do tratamento para essa sua faringoamigdalite gonocócica…

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=706126393 Augusto Antonio Paixão

    Ótimo texto Lucas. Se as pessoas tivessem noção de como funcionam os órgãos públicos não teríamos tantos problemas.
    A propósito, seria interessante escrever um texto desmistificando os IML e terminando a confusão entre este e o SVO (Serviço de Verificação de Óbitos). Sou funcionário do IML e você não imagina a dificuldade desnecessária no nosso trabalho pela desinformação,
    Ah, e um texto para enfatizar por que brasileiros se referem a médicos como doutores.

  • http://www.facebook.com/brunoZonovelli Bruno Zonovelli Da Silva

    Excelente Texto. Creio ainda que é possível que nosso SUS, se torne um bom programa de saúde. Com certeza o erro no projeto foi de acreditar que o usuário iria entender o processo facilmente, coisa que não aconteceu e gerou o desgaste que hoje torna o sistema lento..

  • Giane

    Aaaaaaaaaaleluuuuuuuiaaaaaa !!!
    Lucas, até que enfim alguém falou tudo isso !! Esse é um texto que eu gostaria de ter escrito, que todo médico tem na cabeça pra dizer para todos e que muito pouca gente sabe !!!
    Muito, mas muito obrigada pelo serviço prestado a todos com esse seu texto, que está excelente por sinal, completo, claro, como deve ser!
    Sou residente de Clínica Médica na Unicamp, e é triste, muuuuito triste, observar desperdícios no sitema de saúde quando as pessoas não sabem das divisões básicas da atenção primária, secundária e terciária, e mais ainda quando usam o plantão de PS indevidamente !
    Obrigada de verdade !

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      :D
      Obrigado, Giane!
      Escrevi o texto depois de muitas conversas absolutamente idênticas entre médicos no pós-plantão. Resolvi dividir nossa angústia com o resto do mundo, acho que podemos melhorar juntos.
      Seguimos na luta!

      • Vitor Coelho

        Muito bacana o texto Lucas. Eu realmente não estava ciente da existência dessas divisões claras e organizadas do SUS.

        Lembro-me ainda da ultima vez que fui ao hospital e me encaminharam ao pronto-socorro. Por ignorância fiquei assustado(desconheço a gravidade de dores, etc), entrei no hospital por que tinha dores no peito a um tempo e na ultima semana, tinha alguma dificuldade p/ respirar, mas não via isso como algo de grave para ir direto ao PS(sim, eu não gosto de hospitais/drogas).
        Cheguei lá imaginando um caos, e vi umas 30 pessoas aguardando sentadas vendo TV e alguns “acompanhantes pitizando” como vc disse com a atendente(enquanto o real paciente, tava calmo). Por um lado, fiquei contente de saber que o caos que eu conhecia de atendimentos passados tinha diminuido, mas não entendi o que todo aquele povo fazia ali sem necessidade. Daí então que vi um sistema eficaz pra tratar aquil: Criaram um sistema de “triagem” para ver a real gravidade de cada um e colocar cada um em suas devidas filas. Não sei se isso é correto, mas se demonstrou eficaz… Por fim, achei genial sua ideia de isso ser ensinado nas escolas e principalmente seu texto esclarecedor. PdH sempre com ótimo conteúdo!
        *Como citado, tudo isso poderia ser evitado com uma educação básica a população…

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1398526614 Glauce Ferreira

    Olá Lucas, gostei bastante do seu texto. Em 2008, no 4° semestre de Ciências Sociais, fiz um trabalho sobre o SUS. A idéia era colher depoimentos de diversos profissionais da saúde (médicos e enfermeiros) e compreender o sistema através da história oral. Como estudante, lembro muito bem de procurar referências bibliográficas sobre a criação do SUS na área de sociologia e história, mas só achei na área da saúde. Depois colhi alguns depoimentos. O artigo que escrevi acabou surpreendendo a mim mesma, pois percebi que os profissionais, assim como você, compreendem sim a estrutura e todos os problemas desse sistema. Durante a pesquisa, eu tinha o preconceito de que os profissionais do SUS não sabiam/entendiam/se importavam com o SUS e que só estavam lá por interesses particulares. Enfim, a pesquisa serviu pra quebrar meus preconceitos e entender essa relação de idealização e frustração de um sistema que, como você disse “é uma das mais avançadas e completas do mundo.”Se me permite um sugestão para um possível texto sobre essa temática, seria contar a história anterior ao SUS e também como o SUS foi negligenciado em detrimento de acordos entre sistemas particulares e o governo brasileiro. É isso, parabéns pelo texto. =)

  • http://www.facebook.com/flavio.kaue ‘Flavio Fiuza

    “Por que não ensinar na escola noções básicas de direito e oferecer uma formação inicial em economia e planejamento financeiro? ”

    Matou a pau! E agradeço imensamente por me contar que existem os Conselhos de Saúde inclusive a nível municipal.

  • Renato

    Parabéns Lucas pelo texto ! Muito esclarecedor, vou pensar 100 vezes antes de falar mal do SUS.

  • http://wagnerhm.wordpress.com Wagner Hoffmann Machado

    Parabéns pelo texto!

    Fiquei meio perdido com as informações e, de certo modo, ainda não sei exatamente onde ir a cada sintoma, fiquei com algo do tipo “ta acabando com você nas últimas 24h, vai pro PS, de resto vai pro UBS/USF”. Isso até explica a cara de c* do médico no PS quando fui lá com medo após duas semanas com um putz inchaço no pescoço, eu só entendi ele falar que tinha que tomar os remédios e bezetacil, nem sei o que me deixou daquele jeito.

    Sobre ensinar nas escolas, perfeito, juro que vou me formar na faculdade antes de aceitar o atual papel “educador” das escolas. É pedir demais aprender sobre política, comunicação, saúde e economia, entre outros, ainda na escola?

    Ah, e mesmo com todos os problemas, sempre vejo falarem que o SUS é dos melhores sistemas do mundo, bom saber que em parte é verdade.

  • Heloiza Daniel

    Lucas, seu texto é exclarecedor, informativo, útil e bastante ético. Foi prazeroso lê-lo. Parabéns pela iniciativa.

  • Marcos Coelho

    Oi Lucas,

    Entendi o objetivo do texto e considero-o muito oportuno e esclarecedor. Nunca participei dos conselhos, mesmo pq estou em trânsito há tanto tempo que nem sei qual é o meu real endereço e CEP.
    Acho que este procedimento feito aqui no PdH por vc deveria ser levado ao conselho nacional do SUS. Sim, o procedimento esclarecedor deveria ser parte do primeiro atendimento de cada usuário. Em vez de ser ensinado na escola deveria ter uma palestra para todos que necessitassem usar o sistema unico de saúde. Digo isto, porque estudando na unicamp, passei a usar o sistema odontológico da universidade e fui previnido de como proceder de forma eficaz na higienização bucal. Isto significou a diminuição de 50% dos problemas odontológicos. Além do mais fui informado sobre como funciona todo o serviço e quais as penalidade para quem fazer mau uso do serviço.

    Vale salientar que para que o o usuário entenda que a palestra visa melhorar as condições de saúde do mesmo, é necessário explicitar esta informação na palestra. Para mim, a princípio, a tal palestra era um saco! E outros colegas tentaram não fazê-la, só fui me dar conta da sua importancia quando comecei a por em prática as orientações recebidas. Pessoas inteligentes – e todas as pessoas são assim – tendem a questionar procedimentos impostos sem a mínima explicação. Sem contar, é claro, que o tempo urge para a maioria das pessoas. Por isso, cabe enfatizar pelo atendente do sistema que a palastra será ministrada por tal pessoa, com tal finalidade, depois da qual poderá ser efetuado o atendimento. Isto pode ser feito nas UBS e no Programa de Saúde da Família. É só uma sugestão.

    Por outro lado, embora fuja um pouco daquilo que vc pretende obordar em seu texto, cabe salientar que muitas das informações constantes no DATASUS são falsas, haja vista a ocorrencia de fraudes, má remuneração do corpo de funcionários, péssimas condições de trabalho, personalidade e má formação dos profissionais de saúde e etc. Mesmo com todos estes problemas, quem viu “Sicko”, um dos melhores filmes do Michael Moore, e já precisou usar os serviços do SUS deveria ter a consciência da relevância dos serviços prestados, apesar dos problemas!

  • Cru&Nu

    Excelente texto. Esclarece muito bem como a divisão do sistema é pensada para atender da melhor maneira possível aos seus usuários de maneira concisa, sem politicagem. A opinião médica no final apenas resume o que os profissionais não podem – e nem tem tempo – para explicar a todo usuário que passa por atendimento.
    Gerar críticas ao sistema, que merece muitas, de ambos os lados, não é o propósito do texto, que os afoitos entendam isso.

  • http://twitter.com/biaklimeck Beatriz Klimeck

    Tenho vontade de encaminhar esse texto para todas as pessoas desse país.

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Essa é a idéia Beatriz! À vontade!

  • Dirce

    Parabéns pelo texto, embora não seja da área da saúde achoi que deveria ter uma edução ao zé povinho, para que não aproveite as idas aos prontos socorros para casos que não são urgentes, tomando assim o lugar daqueles que realmente precisa.
    Os profissionais da medicina são muito criticados e agora entendi o porque, falta de tempo falta de profissionais, etc…..

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      Dirce,

      QUASE curti seu comentário. Só que o “zé povinho” somos todos nós. ;-)

  • Marcos Cesar Staak Júnior

    Cara, texto sensacional!
    Dá contade de imprimir e distribuir cópias no pronto-socorro dos hospitais pra população ler e entender o funcionamento de tudo isso.
    Parabéns

    • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

      :D
      À vontade! Dou total apoio!

      • Gabi *

        O que deveria acontecer é exatamente isso! Se houvesse um investimento no sentido de informar os usuários do sistema de saúde; acredito que boa parte dos problemas seria resolvido! Muito do que acontece é, de fato, ignorância. Concordo plenamente com o que você disse em relação aos Conselhos de Saúde; mas se houvesse a preocupação em difundir o funcionamento do SUS (TV, rádios, informativos impressos, etc) e sistema complementar; os investimentos seriam melhor utilizados e problemas tão bobos, evitados.
        Achei o texto esclarecedor e objetivo; e é assim que uma campanha NACIONAL deveria ser! Eu farei o que acho que posso fazer: difundir o texto nas redes sociais! Se cada um, agora com conhecimento da causa, fizesse o mesmo; já teria algum efeito!!!

  • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci
  • Fantástico!! Assumo minha ignorância sobre o assunto antes de ler este texto. Realmente, com tanta coisa que aprendemos na escola e que só servirá para passarmos no vestibular, a falta deste conhecimento é algo absurdo.

  • Guest

    Oie Lucas,
    Como semore voc6e escreve muito bom…muito bom o seu texto.

  • Carlinha Nunes

    Oie Lucas,
    como sempre você escreve muito bem…seu texto foi bastante esclarecedor.

  • http://www.facebook.com/lucas.guada Lucas Guadagnin

    Texto muito bom, realmente muito bom!!!

  • Pingback: Remédio de graça e o que a asma da dona Maria tem a ver com você | PapodeHomem

  • http://www.facebook.com/rafael.gomes.169 Rafael Gomes

    Saudações Lucas Pedrucci. Meu nome é Rafael Gomes, sou estudante de medicina do oitavo período da Universidade CEUMA em São Luís do Maranhão. Tenho uma certa afeição por modelos de gestão por influência do meu pai que já foi secretário e é um dos gandes conhecedores do funcionamento do SUS. Gostaria de trazer um outro ponto de vista a respeito da estrutura do SUS.

    Podemos considera-lo um sistema de saúde socialista pois não há operação por meio de agentes/propriedade privada (salve em algumas exceções), não há geração de recurso através da oferta de serviços a clientes, e sim através de impostos (contribuintes), e há uma vocação para a abolição da meritocracia e hierarquia na oferta dos serviços (profissionais) e também na demanda (usuários).

    Posso resumir os principais problemas em 3 pilares onde o SUS é insuficiente, e portanto impossível de ser um sucesso.

    1 – Incapacidade de coordenação de recursos e estímulo a criatividade.

    O SUS, como é operado através da “socialização dos meios de produção” e não consegue coordenar de forma efetiva os recursos disponíveis (escassos), gerando assim desperdício de material, falta de manutenção, compra de equipamentos desnecessários, pagamentos inadequados (funcionários recebendo mal ou bem demais) e completa estagnação de serviços (ausência, ou apenas um ínfima quantidade de inovação).
    Porque isto acontece? Bem, o empresário tem como objetivo o lucro, logo ele tem que utilizar recursos e agradar os clientes da melhor forma possivel, ele também está sujeito a pagar pelos fatores de produção (insumos, serviços, infra estrutura) o preço de mercado. O SUS não participa diretamente dos processos de mercado nem visa lucro. O estímulo a criatividade está no mesmo barco, visto que através da descoberta de novas tecnologias há uma possibilidde maior de redução de custos ou atendimento mais satisfatório aos clientes.
    2 – Estímulo a não-produção.

    Como todo sistema socialista, o SUS utiliza perfeitamente o meio “Robin Hood” que tira dos ricos e dá aos pobres. Não estou julgando a “beleza” ou a ética deste processo, mas as consequencias.
    Essa característica leva a um grande problema, pois há um estímulo a não-produção. O ser humano busca o caminho mais fácil para resolver seus problemas e o trabalho é custoso. Se um indivíduo recebe de benefício 1000 reais sem trabalhar e o seu vizinho recebe 1200 liquido trabalhando, provavelmente o trabalhador vai sentir uma grande disposição a largar o emprego. Isto, acontecendo de forma global, prejudica a produção do país como um todo gerando mais pobreza e menos recursos para o fornecimento de serviços pelo estado (inclusive o SUS).

    3 – Demanda ilimitada, e oferta de recursos escassos.

    O caráter “gratuito” do sistema não cria a disciplina que é imposta através de uma economia de mercado, onde você só pode ter o que paga. Isso cria uma tendência a escassez ainda maior (uso exaustivo do sistema) e acaba com a meritocracia (um pai de família trabalhador por exemplo, pode sair prejudicado em detrimento de um vagabundo, ladrão, etc).

    Termino aqui essa pequena explanação e você pode me perguntar como eu resolviria esses problemas, tenho algumas sugestões que podemos conversar em outro momento. Já fico satisfeito aqui de expor algumas terríveis falhas da estrutura deste sistema.
    Abraços.

  • Nathália

    Excelente texto, um desabafo sobre meu dia-a-dia…

  • CLEIDE

    SINCERAMENTE VC FALOU TUDO O QUE EU PENSO MAIS NAO SABIA EXPOR. PARABENS.

  • cléia

    Adorei, excelente texto simples e bem explicado só não entende quem n quer…
    Parabéns Dr. Lucas

  • Pingback: Medicina com Fronteiras | Ecce Medicus

  • Robson Custódio

    Parabén! Sua visão sobre o sistema de saúde brasileiro deveria se tornar texto obrigatório nas faculdades, e não só nas de medicina.
    Bem, faltou citar que o sistema de saúde público brasileiro não é composto por simplesmente “consultas”, sejam na APS ou nos centros quaternários, mas também pela promoção e prevenção a saúde, onde muitos doutores falham, valorizando muito a saúde curativa.
    Divulgar os serviços de saúde é uma das responsabilidades do gestor local, e isso favoreceria muito o fluxo, referência e contra referência dentro das RAS, já que esta é a atual política do governo federal para a saúde, abrangendo tanto o serviço público quanto os serviços suplementares.
    Discutiríamos horas a fio sobre o sistema de saúde no qual estamos inseridos, mas que não conhecemos. Fico feliz que já o faz em seus círculos.
    Espero encontra-lo nos ares … ou em uma próxima CNS, como esta 14ª da qual fiz parte.

    • Lucas Pedrucci

      Fala Robson!

      De fato, promoção à saúde é essencial. Acabei falando pouco disso, é verdade. Valeu pela lembrança!

      Seguimos!

  • Lucas Pedrucci

    Fala Victor, tudo bem?

    Olha cara, eu vivo frequentemente uma batalha dura contra críticas infundadas aos médicos, às vezes me digladiando contra multidões enfurecidas. ;-)

    Muito do que se diz é idiotice, desinformação, preconceito, birra, recalque etc etc etc.

    Mas algumas posturas são de fato erradas e indefensáveis. Não cumprir o horário proposto é uma delas. Não só pros médicos. Um mínimo de compromisso, responsabilidade e – por que não? – pontualidade são imprescindíveis pra qualquer um que queira fazer um trabalho decente. O médico incluso.

    O médico que age do jeito que você descreveu está errado, sabotando o sistema, fomentando estruturas viciadas e, principalmente, prejudicando aquele que deveria ser o foco de todas as ações na atenção à saúde: o paciente. Não tem muito o que discutir.

    O que dá pra conjecturar (nada mais que isso) são as razões dele fazer isso. Não necessariamente é “de sacanagem”. Muitas vezes ele está vindo de algum plantão noturno ou de outro emprego e não teve mesmo como chegar a tempo. Como somos em geral mal remunerados, quase nenhum médico tem um emprego só, a maioria acumula 2, 3, 4 trabalhos. E aí pode acontecer que falte tempo – ou gás – pra tanta coisa.

    Não que isso justifique a falta de compromisso ou má prática. Mas é um possível fator contribuinte para essas situações.

    Outras vezes, é um profissional ruim mesmo. Descompromissado. Ou extremamente desmotivado.

    Apesar da idéia tão difundida de que a medicina seja uma espécie de “sacerdócio”, os médicos estão tão sujeitos às intempéries da condição humana quanto todo mundo. Existem médicos burros, sem ética, sem vontade, doentes, psicopatas e toda sorte de posições confusas que vemos em qualquer outra profissão. Não dá pra esperar excelência de todos, muito menos julgar a classe por alguns.

    Eu sei que essas situações que você descreveu não são raras. E imagino como deve ser difícil encarar isso, às vezes sem outra opção. E é exatamente por isso que a gente tem que tomar as rédeas e exigir condições melhores. Pra todos.

    Muitas vezes o profissional é ruim mesmo. Outras vezes é tão vítima quanto os pacientes.

    Não temos como ter certeza, mas ouso dizer que mais frequentemente somos todos vítimas de uma gestão cruel, que nos põe uns contra os outros (médicos x pacientes).

    Qual a sua impressão?

    Abraços!

  • Ivisson Moraes

    Cara, parabéns pelo texto! Está claro e objetivo. Estou estudando pra concurso da EBSERH e seu texto me ajudou muito a entender melhor os diferentes níveis de atenção, a questão da regionalização, etc. Além de me auxiliar no entendimento de a qual local devo me dirigir em cada situação diferente da minha saúde. Obrigado!

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