“Seja você mesmo” é história pra criança

Frederico Mattos

por
em às | Debates


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Imagine que você sofre de uma doença grave que lhe impede de lembrar como foi o dia anterior sem, no entanto, desfigurar radicalmente os seus sentimentos, desejos e vontades. Você vai para o trabalho e sabe o que tem que fazer, mas, se tentar lembrar o que fez ontem, não consegue.

Todo dia você acorda, abre os olhos e se depara com uma linda mulher do seu lado, estranha, não sabe como a encontrou e nem de onde veio. Toma um susto e acha que estava bêbado no dia anterior. Se a doença continuar, você segue de estranhamento em estranhamento suavemente estressado, pois nunca lembra com precisão o nome das pessoas, nem bem como as conheceu. Vive um dia após o outro meio deslocado, intrigado, tentando se recordar qual era a conexão de uma coisa com a outra.


Link YouTube | Trailer do filme Memento (Amnésia, em português)

Essa seria a vida de alguém que não tem as funções do córtex frontal bem ajustadas (ela é uma das primeiras afetadas sob ingestão alcoólica) e, portanto, não tem um sentimento de continuidade.

A capacidade de juntar lé com cré e pôr o tico e teco para funcionar é uma capacidade evolutiva que permitiu que o homo sapiens não tivesse que reinventar a roda ou descobrir o fogo todo dia. Toda a nossa cultura antes da escrita era passada verbalmente de geração em geração para que nada se perdesse de um determinado povo. Os mitos nasceram daí para termos uma narrativa com começo, meio e fim.

O sentimento de finititude e da morte se tornou uma ferramenta evolutiva importantíssima para que a civilização fosse construída com muita velocidade para que as relíquias psicossociais de uma cultura não se perdessem à cada funeral.

No entanto, a realidade é muito mais parecida com o sujeito esquecido que narrei no princípio do texto. Somos muito diferentes, dia após dia, mesmo que nossa mente crie uma sensação de identidade única que corre como se fosse a mesma no tempo. Chamo isso de efeito “crescimento capilar”.

Na medida que seu cabelo cresce, você não percebe que ele se alonga ou modifica, só o cabelereiro quando vai cortar. O mesmo acontece quando você encontra uma tia velha que há muito tempo não vista, ela nota as nítidas diferenças do seu corpo e personalidade, menos você que acha que continua sendo o mesmo de sempre.

Somos mais parecidos com um picote de rolo cinematográfico, sem antes e nem depois. Cada quadro exposto sucessivamente nos dá o efeito de continuidade e movimento, quando na realidade o que existe é a sobreposição de um quadro único em sequência de outro quadro único.

Essa sensação de que somos os mesmos é benéfica historicamente, mas na vida pessoal é uma confusão, pois queremos que as pessoas sejam as mesmas que conhecemos ontem sem nenhuma alteração radical. Quando ela se comporta de um jeito não habitual nós brigamos e dizemos: “não estou reconhecendo você” e exigimos que ela volte a ser como nós a vimos pela primeira vez.

É como se você não quisesse saber o que esse cara se tornou (se você não é um desses, basta clicar na imagem)

Na realidade, esse desejo por continuidade atravanca nossas relações e não nos permite avançar pra valer. Inibimos ações arriscadas das pessoas que amamos porque não queremos nenhuma quebra de enquadramento. Fazemos o mesmo conosco quando percebemos um impulso, sentimento ou pensamento estranho, então nos culpamos e punimos como se fôssemos seres repugnantes e incoerentes.

Sim, somos contraditórios e não-lineares.

A ideia muito pregada do “seja você mesmo” é bem presunçosa, além de ignorante ao afirmar que há um “si mesmo” sempre estável e inalterável. Até as células de nosso corpo se modificam e reajustas funcionalidades numa fração de segundos. A prova disso é nosso sistema ósseo se regenera de ano a ano com a ajuda dos osteoclastos e osteoblastos, que respectivamente são responsáveis por “comer” o tecido ósseo e outro “defecar” a massa que compõe o seu braço querido. Essa dança permite que você tenha lindos novos ossos todos os anos. A osteosporose é o descompasso dessa dupla dinâmica.

Assim é a nossa identidade, ali em essência, nada é linear, previsível, encadeado e causal como gostaríamos. O tempo todo inventamos teorias para explicar o porquê somos do jeito que somos e a psicologia é especialista em criar conexões aparentemente causais entre infância, adolescência e vida adulta, mas isso nem sempre é válido e plausível. Acho que é só mais um jeito de acalmar a nossa mente para a sensação de descontinuidade que nos atormentaria caso fosse vivenciada de fato.

Nos primórdios da NASA, os cientistas fizeram um experimento interessante com os candidatos à viajantes do espaço. Com receio que os astronautas tivessem vertigens e enjôos terríveis na ausência de gravidade, eles colocaram um óculos que projetava uma imagem invertida horizontamente, portanto, se seu amigo viesse dar um abraço de aniversário você, o veria caminhando no teto e com a cabeça para baixo.

O aparente desconforto inicial desaparecia completamente no prazo de 21 dias, pois o cérebro, inteligente que é, invertia a imagem do óculos para que você voltasse a ter a sensação de similaridade com as imagens que sempre viu. Eles tiraram uma valiosa lição disso que se repetia com todos os estudados. O cérebro demora 21 dias para se readaptar a qualquer estímulo, por mais estranho e maluco que seja. Por esse motivo, intuitivamente, muitos mestres criam retiros em que passam de 20 a 30 dias meditando ou tratando de um assunto exaustivamente para que você obtenha um aprendizado mais efetivo. Infelizmente as seitas malucas, governos totalitários e empresas abusivas fazem essa mesma lavagem cerebral com êxito.

Algo parecido com isso

Lutar contra isso seria como se acordássemos num país diferente, com uma língua distinta a cada dia. Isso poderia excitar muitas pessoas que olhariam tudo como um turista interessado, como se a pessoa amada fosse olhada como a primeira vez. Mas nosso senso de sobrevivência psíquica e manutenção do status quo ficaria lançando sinais de alarme o tempo todo pelo pânico geral que causaria não se reconhecer como é.

Quando percebo que minha mente quer me engolir – no hábito de me negar a pensar – eu faço uma coisa tola, mas que funciona: planto bananeira (sozinho para não parecer estranho). Naquela fração de segundos que todo o sangue do corpo desce para a cabeça e eu vejo o mundo ao contrário, me recordo que a sensação de continuidade enfadonha que chamamos de rotina é só uma ilusão da minha mente. Cada minuto que passa é desconhecidamente novo para os seus sentidos, então lembre disso para sair do amortecimento mental.

Se você sente que sua vida está parada ou que é infeliz (anestesia da descontinuidade), tente não deixar que suas papilas olfativas existenciais se acostumem com o perfume que você usou pela manhã.

Tocar a mulher que você ama nunca é o mesmo de sempre, conversar com um amigo também não. Cada encontro com uma pessoa é um chamado para a empatia que é o exercício constante de um momento único tentando se comunicar com o momento único do outro sem esteriótipos, preconceitos e condicionamentos.

Acho curioso que muitas pessoas encaram trâmites burocráticos para alçar vôo até um país diferente e raramente tiram um visto para viajar em suas vidas singulares.

Na real, somos estranhos constantes uns para os outros e se suportarmos a angústia do desconhecido contínuo seremos sempre turistas encantados e curiosos por nós mesmos.

Frederico Mattos

Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, medita, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida escreve no blog Sobre a vida. No twitter é @fredmattos.


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  • Vítor Moreira Barreto

    Texto muito bom. É impressionante mesmo como temos a mania de querer controlar tudo. Achamos que será mais fácil se as pessoas forem como sempre foram.
    Quando nos decepcionamos podemos dizer: “Essa pessoa mudou, não era assim…”.

    E sendo assim, a culpa não é nossa.
    Parece fácil e seguro. Mas é história de criança mesmo. Só nos faz sofrer.
    Melhor aceitar sermos turistas curiosos (gostei da analogia).

    • Frederico Mattos

      A ideia de imutabilidade da nossa identidade cria um tipo de expectativa e convicção bem frágil do tipo que faz (e exige) promessas 100% garantidas de si e de todos. Ela cria a culpa que nos tortura quando vemos um comportamento fora do padrão de nossa autoimagem ideal (tão longe da realidade).

      Esse desejo por controle é que tira o nosso brilho dos olhos quando vemos a pessoa querida e já não podemos desejá-la de outro jeito ou simplesmente não desejar e ficar em paz no relacionamento (sem ter que desesperadamente procurar outro refúgio emocional).
      É o que nos faz reclamar por esperar que nossos anseios se cumpram mesmo quando nada garante que o trânsito vai facilitar, o emprego vai continuar, as pessoas continuarão vivas e os relacionamentos serão perpétuos.
      Essa mania de continuidade é o que nos debilita na capacidade de ter contentamento quando couber senti-lo, simplesmente porque ali naquele minuto eu posso respirar bem fundo mesmo quando um mundo (que criamos) está aparentemente caindo.

  • Felipe Cardoso

    hmmmmmmmmmm….

    Orgasmo mental! …………. … …

    ahhhh q delicia de texto!

    • Frederico Mattos

      Vocês fazem esses comentários e eu fico sempre curioso em saber do que exatamente gostaram! kkkk

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        e esses comentários me lembram, na hora, o texto do Pinheiro:

        http://papodehomem.com.br/viciados-em-epifanias-dr-wtf-1/

      • Marco Aurélio Piai

        Sim. Ainda existe um bando de viciados em epifania, como eu!
        Esperando ele abrir uma clínica de reabilitação… hauhauha!

      • Felipe Cardoso

        hahaha eu iria mencionar este link no comentário, mas optei pelo minimalismo!

        Na verdade este comentário foi uma “ilustração” do que comentei no outro (”
        eu me considero assumidamente um punheteiro mental… “)

        Mas eu vou expandir a explicação do que exatamente eu gostei:
        Gostei primeiramente das emoções que meu corpo produziu enquanto eu lia este texto, ouvindo o álbum do New Order
        http://www.youtube.com/watch?v=Sl2NfLUQNPs&feature=fvwrel numa manhã após uma violenta briga sem motivo algum com minha namorada/esposa à caminho do trabalho!
        Gostei da proposta inicial “do contra” o lugar-comum “seja você mesmo” que eu já vinha excitando mentalmente principalmente após o texto do Ultimo Psiquiatra postado aqui (e com outro texto do Alex sobre isso funcionando como preliminares).
        Gostei de estabelecer uma relação dupla mentalmente onde o texto concorda com o que eu quero pensar, ao mesmo tempo que me mostra uma ideia supostamente inovadora.
        Gostei do “crescendo” de imagens mentais construídas ao longo do texto, começando com citação do individuo sem memória remetendo ao MEMENTO (filme que já “cultuo” – mais masturbação mental).
        Deliciei-me com a figuração da nossa mudança “capilar”. (provavelmente pq era uma ideia que eu já tinha tb). E a comparação com o rolo cinematográfico então, foi linda e direto ao meu “ponto G”, sou formado em animação digital e faz tempo que encaro a vida em termos “técnico-artísticos”.
        Em resumo, poderia citar cada linha do texto como uma degustação extremamente prazerosa de um alimento mental que eu já conhecia a maior parte, mas EXTREMAMENTE bem preparado e servido. E com uma sobremesa perfeita daquelas que deixa o gosto de felicidade na boca pela tarde toda!

        E poderia completar com outro tema que MUITO me interessa: o conceito psicológico do doppelgänger, que casa muitíssimo bem com a abordagem deste texto. (que para terminar de ilustrar poderia ser considerado com o vinho seco que eu trouxe para o almoço) Uma de suas “manifestações” é aquela sensação de um dia acordar e achar que foi “trocado” por uma cópia!

      • Felipe Cardoso

        Esqueci de mencionar o “passaporte para si mesmo”…
        Verdadeira chave para desencadear desdobramentos internos e externos que afinal de contas são tão difíceis de traduzir em palavras quanto o orgasmo sexual!

      • Felipe Cardoso

        O prazer emerge ao vislumbrar a ação ritmada das forças de caos e ordem!

        A ordenação que mantêm as coisas inteligíveis, comparáveis, controláveis… navegáveis.
        E o caos que move tudo, que evolui, que destrói, que funde e confunde, que transforma… o inexplicável e inalcançável , o WTF pra usar os termos deste site!

        E o texto funcionou para mim como uma ferramenta para alcançar uma breve contemplação desta dinâmica.

      • Adriana

        Eu adorei seu texto!!!
        Há tempos que venho refletindo sobre como venho mudando internamente e seu texto foi muito importante hoje.
        A gente passa a vida sempre fazendo o que as pessoas querem.Quando criança vc tem que fazer o que a mãe manda,na adolescência o pai entra em cena, e na vida adulta,o marido,ou esposa interferem muito no que de fato queremos fazer,ou ser.
        E me parece que a pessoa do outro lado do espelho,nem sempre é aquela que fala dentro do cérebro,sei lá,é bem louco isso,mas estamos sempre nos comportando de acordo com o que esperam da gente e não como gostariamos de ser realmente.
        No meu caso,aprender a dizer não para muitas coisas,tem sido de grande valia,porque embora eu mude constantemente,me sinto em paz sabendo que eu sou aquilo que quero ser e não o que esperam de mim.
        E o contrário tb é verdadeiro,esperamos mudanças nos outros,estamos sempre apontando melhorias no comportamento alheio,sendo que nem nós mesmos estamos 100% preparados p isso.
        Obrigada Frederico Mattos,seu texto me provocou um orgasmo cerebral rsrsrs
        abraços

      • Frederico Mattos

        @3ce1027afaab3b8ee32f081b33d46b86:disqus Quando você diz “eu sou aquilo que quero ser” eu acho que entendo o que você quer dizer, mas o texto vai um pouco na contramão desse raciocínio. Nem somos e nem desconfiamos que o nosso querer pode ser apenas mais uma voz internalizada daquilo que disseram que queriam que fôssemos.

        É como se depois de um tempo em cativeiro eu próprio aceitasse as imposições do sequestrador e quando pudesse siar livre eu permanecesse preso porque “quis” ficar preso.
        Sou bem desconfiado dos meus quereres… :)

      • Felipe Cardoso

        é como aquela imagem criada pelo David Hume da pedra que em queda livre acredita que esteja se movendo pela própria vontade!
        VONTADE – este é um assunto que rende muita discussão… a começar do básico que a maioria das pessoas mal conseguem distinguir vontade de desejo e necessidade!

      • http://www.facebook.com/diego.godoy.5667 Diego Godoy

        Acredito, que quando é dito “eu sou aquilo que quero ser” não é uma negação da necessidade de mudar, de aceitar um novo comportamento como parte do eu. Acho que é só uma contraposição a simplesmente aceitar qualquer possiblidade de mudar que apareça, tanto por outras pessoas ou por acontecimentos.

  • esaigh

    Putas que me pariram! Que texto bom!
    Caralho, parabéns!

  • Maria

    Acho muito coerente esse ponto de vista e posso dizer que acredito ou pelo menos me pego pensando sempre em algo do tipo. Que somos uma folha de papel em branco. Que a tal “essência” não existe. Ou ela apenas não passaria de hábitos e “princípios” enraizados. Não sei, sei que pensar que essa tal de “essência” não existe é extremamente desconfortável. E sei que acabo sempre ruminando essa questão sem saber lidar com ela, sem saber o que pensar, em quê acreditar ou se eu devo mesmo acreditar em alguma coisa. Por fim, considero pertinente compartilhar uma frase da Clarice Lispector (dizem que é né): “Serei sempre eu mesma, mas não serei a mesma sempre”.

    • Frederico Mattos

      Eu reescreveria “NEM SEI SE serei sempre eu mesma, E SE FOSSE não SERIA a mesma sempre”.

  • Laise


    Na real, somos estranhos constantes uns para os outros e se suportarmos a angústia do desconhecido contínuo seremos sempre turistas encantados e curiosos por nós mesmos.”

    Estamos em constante mudança, não é? Genial!

    • Frederico Mattos

      Constante? Não sei. A ideia de constância é bem parecida com a de continuidade…

  • Luiz

    A experiência da vida é tão magnifica; que só uma percepção profunda da importancia das boas relações humanas, dignifica nossa existência. Porem os ruidos do mundo põe um medo em nós, como uma viseira em um animal de tração, que impede a gente de ver ao nosso redor, de poder apreciar e vivenciar, um dia de cada, e sua particularidade.

    • Frederico Mattos

      Não entendi o seu comentário nesse contexto, @e3d280a9175e9c1b39bcd13527c0059e:disqus , consegue me explicar?

      • Luiz

        Bom, não sei se vou conseguir ser mais claro, já que não
        obtive êxito na primeira vez…rsrs…perdão se viajei e não fui claro ao
        comentar; mas vamos lá: é bem simples, em tese, somos seres sociáveis, que
        necessitamos estar em conviveu, caso esse conviveu não seja saudável, somos
        submetidos à adaptação para nos relacionarmos interpessoalmente; porem, se não houver
        respeito da individualidade, para assim nos mostrarmos, seremos sempre
        questionados e para facilitar, ignoramos fatos, deixaremos de observar com exatidão
        a mudança que acontece com a gente e com as pessoas ao nosso redor, pois na
        maioria das vezes somos ignorados e ignoramos a essência do outro. O que
        acontece de novo com você e com quem esta ao se redor,(ou nem é tão novo assim)
        não será aceito. Comportamento inesperado, não é bem vindo em uma sociedade de
        imposições. Se for o que entendi no texto, “Seja Você Mesmo é história pra criança” não é bem ser
        você, mas ser alguém adaptado ao contexto social inserido. Como descreveu no
        texto: “Quando ela se comporta de um jeito não habitual nós brigamos e
        dizemos: “não estou reconhecendo você” e exigimos que ela volte a ser como nós
        a vimos pela primeira vez.”

      • Luiz

        No primeiro comentário eu quis dizer que: a sociedade nos
        molda de um jeito que não percebemos o outro com individuo, mas sim como parte
        de um sistema. Ou ele se enquadra no molde social ou será rejeitado. É tão
        padronizado, que, quando a pessoa sai do padrão ela é forçada a volta ao
        modelo, não sendo respeitado o “Ela Como É” e voltamos para o “Seja você mesmo”
        ou seja, iguais aos demais. Seria melhor e mais saudável se fossemos respeitados e respeitadores da individualidade.

  • Marco Aurélio Piai

    Frederico. Você pergunta do que exatamente as pessoas gostam quando lêem textos como esse. Eu tenho um palpite.
    Somos educados desde nosso nascimento a não errarmos, a sermos os mais perfeitos quanto possível. Então, simplesmente não aceitamos que nossa vida possa ser imprevisível e mutável. Esse comportamento de infalibidade, degenera nosso poder de renovação, nossa criativade e nossa energia. Simplesmente nos contentamos a seguir “fórmulas de sucesso” que, no fundo, não fazem parte de nossa essência. Quando notamos que estamos nos desviando de nossa “fórmula” e passamos a ter comportamentos não previsíveis baseados em nossa mudança constante, simplesmente nos assustamos e temos uma certa aversão a isso.
    Então, qualquer pensamento como o seu, que nos leve a refletir que de fato somos uma caixa de surpresas, simplesmente brilhará o olho de qualquer um. Pois, afinal, queremos essa inconstância e aventura da vida, que muitas vezes, não temos coragem de admitir.

    Fica a dica também de um vídeo do TED sobre “estar errado”
    http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/kathryn_schulz_on_being_wrong.html

    Zilhões de parabéns pelo texto!
    É daqueles que temos vontade de ler todos os dias, para não esquecermos da epifania que eles nos provocou.

    Grande Abraço!

    • Frederico Mattos

      @031003dab18d8ffe185160f39fa77a71:disqus Obrigado, mas eu colocaria de outro jeito.

      Não é de errar que tememos, mas de não sustentar supremacia sobre os demais. Se errarmos mas continuarmos “por cima” dos outros chamamos o erro de ousadia. O problema é quando descemos em nossa escala de valores e sentimos uma sensação de rebaixamento performático que nos expõe uma condição muito humana de que “você é só mais um e vai morrer um dia”.

      Quanto às fórmulas de sucesso elas costumam não funcionar quando aplicadas por serem sempre descontextualizadas e o próprio aplicador do método tentar criar uma caricatura de bem-aventurança que na maior parte das vezes está dessincronizada de um apelo real do seu momento de vida.
      A festa já acabou e ele continua dançando ao som de uma música que nunca foi tocada.

      • http://www.facebook.com/profile.php?id=712303227 Gabriel Martins

        Frederico Mattos, você já leu um livro chamado “A Negação da Morte”, de Ernest Becker? É um dos livros mais interessante que já li, e tem uma perspectiva bastante similar sobre a maioria dos seus posts, inclusive neste seu comentário (o heroísmo como forma de perpetuação através das realizações, e a negação da morte como fonte mais fundamental de significação da vida).

      • Frederico Mattos

        Sim, há muito tempo eu li. Bem instrutivo esse livro.

  • Erivelton Lima

    Simplesmente Fantástico, um belo tapa na cara daquele livrinho de auto-ajuda.

    P.S. Errinho ‘Graviadade’

  • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

    “Sim, somos contraditórios e não-lineares.”

    Essa frase é perfeita. Quanto a notar as nossas mudanças, tenho muitas sensações (boas e ruins) que me ajudam a “acordar”, ao observar fotos minhas antigas. É simples, mas me ajuda. Não pra lembrar os momentos, mas pra avaliar qual era meu estado na ocasião, o que eu estava sentindo de verdade.

    ***

    “O cérebro demora 21 dias para se readaptar a qualquer estímulo, por mais estranho e maluco que seja. Por esse motivo, intuitivamente, muitos mestres criam retiros em que passam de 20 a 30 dias meditando ou tratando de um assunto exaustivamente para que você obtenha um aprendizado mais efetivo”.

    Ainda em estudos do nosso cérebro, o Dan Ariely no livro “Positivamente Irracional” fala dessa incrível capacidade de adaptação e da um dica poderosa. Qualquer coisa (prática ou sensação) que você considere ruim e desagradável, deve fazer de uma vez só no máximo de tempo que conseguir, com isso você se adapta e a coisa não fica tão ruim.
    Agora quando são coisas boas que adoramos fazer, é melhor quebrar em intervalos, do tipo começar e parar e com isso não nos acostumamos com as coisas boas que com o tempo, não ficam tão boas assim.

    As frases mais clássicas nos relacionamentos: “Quando eu te conheci você não era assim” ou ” No começo não era assim” e etc.

    Obrigado pelo texto @fredericomattos:disqus

  • http://www.facebook.com/people/Isa-Belli/1584206490 Isa Belli

    Divino!
    Isso confirma aquela história de que a vida está nos olhos de quem sabe ver.
    Eu já disse num comentário aqui no PDH que a nossa lógica é estupida e apenas mostra a incapacidade que temos de lidar com os acontecimentos como são (e não agradou..rs). Baseados na insegurança e num ego pretencioso, encaixamos a realidade nos nossos padrões e sequer nos damos conta do quanto somos incapazes de reconhecer os padrões da realidade (se é que existem).
    Arrebentou, Fred! Parabéns!

    • Frederico Mattos

      Se é que existem…

  • http://www.facebook.com/polyana.galligani Polyana Galligani

    É como a terra, ela gira mas tão devagar que podemos acreditar que isso não acontece. Somos estranhamente “iguais” olhados a distancia, mas minuciosamente diferentes que negamos esta realidade pelo simples fato de não conseguirmos olhar devagar nem para nós mesmos. Bom texto…no entanto gosto da frase “seja você mesmo”. Compreendo o que quer dizer neste contexto mas entendo também que esta frase é mais estimulante do que ignorante ou presunçosa e dita em um outro contexto passa a mensagem de ser você mesma, inconstante, fdp, ou o que for que você é naquele instante…pq afinal de contas apesar de sermos imutáveis ainda somos.

    • Frederico Mattos

      A Terra é uma bela metáfora. Quanto à frase “seja você mesmo” é falaciosa no meu ver, pois estamos bem longe da autenticidade mesmo quando somos supostamente inconstantes, fdp ou o que for naquele instante.

      Voamos bem raso quando o assunto é transparência e autenticidade, afinal temos defesas psicológicas tão irredutíveis que mal nos lembramos do sabor de emoções originais por conta da enorme quantidade de maquiagem emocional que aplicamos no rosto.

      • http://www.facebook.com/polyana.galligani Polyana Galligani

        Então você acredita que nunca seremos nós, mesmos quando achamos que estamos sendo, pq ainda estamos bem longe da autenticidade? Sendo assim, ou ainda assim, não acha que estamos sendo algo (ou seja nós) dentro da nossa possibilidade daquele instante? Se estamos voando rasos, ainda estamos voando…e continuamos sendo alguma coisa e naquele momento estamos sendo nós…ainda que posteriormente venhamos a descobrir mais alguma coisa da nossa personalidade que até então não tinhamos tanta clareza. Ou seja, vou ser autentico o tanto quanto conseguir…nunca serei 100%..mas isso não quer dizer que não serei eu. Talvez tenha viajado e não sei se conseguiu pegar meu raciocínio, apenas estou querendo pegar o seu. Mto interessante seu ponto de vista!!

      • Frederico Mattos

        Acho que seu receio em tentar definir matematicamente a porcentagem de autenticidade é porque ainda está presa na necessidade de uma identidade fixa, na realidade somos uma multidão. Falei que voamos raso só para ser gentil, pois na maior parte das vezes estamos pregados no chão de nossa múltipla personalidade mutante.
        Acho que não, não seremos nós mesmos, pois quando formos o nós mesmos já não seremos de novo. Somos movimento incessante. Um caleidoscópio psicológico, tente reunir diante dos seus olhos a configuração exata da imagem que viu um minuto atrás…
        http://3.bp.blogspot.com/-od2Y_YDpkAM/Ta9JbJGlAHI/AAAAAAAAAjM/5gzt-RHTeH4/s1600/CaleidoscopioP.jpg

  • http://www.facebook.com/nat.orestes Natacha Orestes

    Oi Fred! O Guilherme já defendeu a mesma tese em um texto ou um comentário, se não me engano com as mesmas palavras, e não me senti convencida de que a frase “seja você mesmo” é para crianças. Ou então serei eternamente criança em busca de quem eu sou – porque na minha opinião, tornar-se é intrínseco ao ser. “Ser-se” é tarefa difícil, principalmente quando o que somos não tem muito cabimento no mundo.

    Tenho a impressão de que todos temos características muito “nossas” pelas quais precisamos sim lutar, ou perdemos nossas referências.

    O que eu disse a ele é que para que possamos nos tornar aquilo que seremos (ser não tem passado, presente ou futuro, sou é fui, sou é sou e sou é serei), precisamos lançar um olhar mais profundo sobre os nossos chamados atuais, nossos impulsos, nossas necessidades subjetivas, refletir sobre elas, e assumi-las se achamos que isso nos fará mais plenos. Só temos o agora pra isso.

    Sim, assumi-las, porque ser às vezes pode dar medo.

    Ser gay, por exemplo. Eu acredito que um filho gay de pais homofóbicos que precisa ser quem ele é e não pode (ou tem a ilusão de que não pode) sofre por isso. Não poder ser quem somos abertamente é bem sofrido, não é coisa de criança, é coisa de gente que não tem o privilégio social de ser – sim, eu considero um privilégio. Não tem a ver com essência, e sim com características fundamentais que não queremos mudar por nada. Não por teimosia. Por algo muito mais profundo do que teimosia de criança.

    Não acho legal nos escondermos atrás da síndrome de Gabriela. Não compactuo com a teimosia da permanência, perniciosa, que nos impede de progredir. Apenas defendo: SEJAMOS. Sejamos quem somos admitindo que somos capazes de nos transformar a cada minuto. Mas sejamos. Conscientes também daquilo que não queremos mudar. Conscientes daquilo que queremos mudar.

    • Frederico Mattos

      Acho que a questão é sustentar um paradoxo, pois apesar de termos características aparentemente nossas, elas não são nossas e não são o que somos que é constante alienação de si mesmo.
      Esse SEJAMOS é só uma abstração que fazemos, pois não conseguimos agarrar nem por um minuto uma constância, mas só a aparência de continuidade. É uma ilusão de ótica mental.
      Então o que falo é olhar com relativismo absoluto essa constancia que chamamos eu, pois é sempre um eu que fala de si e daí é o efeito capilar, ele acha que nada mudou quando tudo já está diferente. Eu não sou capaz de perceber as mudanças que já aconteceram em mim e que ainda teimo em preservar, não só por teimosia, mas por engano, ilusão ou acreditar piamente no que “sou”.
      Isso tudo não implica em dar a louca e ter um comportamento abusivo, volúvel ou inconsequente, mas apenas a abertura para reavaliar cada novo passo à partir da perspectiva que se está, podendo sim ser incoerente com muito do que já fomos até então.

      • http://www.facebook.com/nat.orestes Natacha Orestes

        Me tomo por exemplo, então. Eu SOU uma pessoa apaixonada por escrever, desde que aprendi a escrever. Acredito piamente em uma Natacha que tem a necessidade (acho que até mesmo fisiológica, visto que quando não escrevo sinto ânsias físicas). Toda a minha vida (digo, os principais acontecimentos) sempre girou em torno disso, em partes porque esse ato, o de escrever, me salvou de uma infância e uma adolescência solitária e difícil. Portanto, não consigo separar a característica “escritora” de mim, e consigo enxergá-la como essência, seja lá o que isso significa. Eu a significo como aspecto imutável de mim mesma, tal como respirar.

        Não sou nenhuma artista, não sou conhecida, e nem pretendo ser, mas quero dar esse exemplo: os artistas, que lutaram contra o mundo para sustentar a própria arte, não lutaram apenas para defender a possibilidade de exercer seu talento, lutaram também para que pudessem ser quem eram.

        O paradoxo, acredito eu, não está na afirmação “Seja você mesmo”, e sim em qualquer período em que o verbo ser se faça presente. O que é ser? Se não somos, se nunca somos, se vivemos num eterno estamos-nos-tornando, o que fazemos com o verbo ser, tão convencionalizado linguisticamente?

        Estou aqui discutindo a respeito disso porque é um assunto que realmente me interessa. Acho que “Seja você mesmo” é uma frase ótima, libertadora, colocando de lado o paradoxo: muitas pessoas precisam desse empurrão, desse conforto, dessa SEJA, é como se fosse um “mostre ao mundo tudo o que você esconde, pode ser bom, pode ser ótimo, pode ser espetacular”.

        Por fim, eu não discordo totalmente de você, apenas discordo do ponto em que você infantiliza a frase que pode ter um aspecto de amadurecimento, não de infantilidade, mesmo apesar do aspecto paradoxal da palavra ser. Termino com um poema que escrevi dia desses, pra você ver que realmente esses questionamentos rondam a minha vida (faz tempo).

        SOMOS INSTANTES

        núcleo do estar

        estrela pulsante

        da exata hora

        ser parece

        pra sempre

        mas distante disso

        ser é instante

        e perece

        diante do

        eterno

        agora

      • Frederico Mattos

        Acho que essas frases costumam ser mal colocadas e viram cultos ególatras que paralisam as pessoas de forma geral, se você entendeu o paradoxo então não caiu nesse engano.
        Não é a maioria, por isso quis afirmar a infantilidade com que a frase é usada.
        Quanto ao seu lado escritora ou o meu psicólogo posso afirmar, a qualquer momento podemos não ser mais isso. Estranhamente, mas podemos não ser. Uma conversão maluca? Não sei, mas a sua necessidade de se sentir pertencente e não isolada pode já ter parado de fazer sentido e do mesmo jeito a necessidade de escrever. Vai acontecer? Não sei, mas pode acontecer sem que com isso haja uma quebra radical no que você chama de EU ESCRITORA FISIOLÓGICA rsrs

      • Frida

        Ser ou não ser? rs
        Ser (no passado, presente e futuro) é memória, é construção sócio-cultural. Concordo com a Natasha sobre o aspecto de amadurecimento contido na ação de responsabilizar-se pela construção de identidade, do próprio ser, independentemente dessa ‘construção’ ser totalmente mutável ou que sequer estejamos conscientes dessa construção. Talvez reorganização, redirecionamento, seja um termo mais apropriado..talvez.

      • http://www.facebook.com/nat.orestes Natacha Orestes

        Isso!

      • http://www.facebook.com/nat.orestes Natacha Orestes

        @fredericomattos:disqus concordo que muita gente se esconde atrás dessa frase para defender comportamentos e teimosias infundadas, mas ainda discordo do título do seu texto e das partes em que você diz que a ideia do “seja você mesmo” é presunçosa e ignorante, até mesmo porque ao contrário do que você disse, não tem nada nessa frase que afirme que há um “si mesmo” sempre estável e inalterável. Isso é uma questão de interpretação. Tem muita gente que “não é maioria” que deve ter se sentido infantilizada por causa do título excludente. rs

        Confesso que interpreto isso me baseando na minha própria vida, e acredito que você possa falar sobre o seu eu psicólogo, mas não ainda sobre o meu eu “escritora fisiológica”. Vou te explicar um pouco sobre o meu “eu escritora fisiológica” pra que você possa opinar com mais propriedade depois, se quiser. Acho que quando comecei a me descobrir como pessoa que escreve, minha vontade era sim a de pertencer, dadas as circunstâncias difíceis sob as quais eu vivia. Mas permaneci escrevendo por puro gosto pela linguagem verbal e pela língua portuguesa. Escrever fez com que eu fosse autora da minha história e não vítima das circunstâncias. Faz até hoje.

        Espero que eu não esteja soando arrogante com a minha resposta, mas acredito que você vai entender com as minhas explicações o motivo de eu continuar discordando daquelas pouquíssimas partes do seu texto.

        Na antiga oitava séria eu já sabia que queria cursar Letras. Para tornar isso possível, trabalhei como vendedora de loja de shopping no interior, onde eu morava, pois meus pais não tinham dinheiro pra bancar meus estudos e muito menos um cursinho pré-vestibular. No meio do curso, ao invés de querer ser professora, decidi que seria redatora publicitária, assim eu poderia escrever criativamente. A princípio eu queria ser professora, mas tive apenas uma referência boa por perto de professor que escrevia – todos se consideravam críticos literários, mas como, se eles não tinham noção nenhuma do que era passar por um processo criativo? Daí a escolha. Pois bem, do mesmo jeito que meus pais não tinham grana pra bancar meus estudos, não tinham também pra bancar/me ajudar financeiramente na minha escolha de vir morar em sp por causa do estágio de redação que eu tinha conseguido.

        As consequências dessas escolhas eu sinto até hoje. Por um lado, permaneci sempre perto daquilo que sinto que sou e que quero ser. Por outro, moro em um ~apertamento~ simples e velhinho, divido meu quarto com uma amiga, o que significa que não tenho um espaço que eu possa chamar de meu, com a minha cara. Mas eu acho isso um problema menor do que estar longe das minhas características fundamentais. Porque sei que a casa é uma fase, mas escrever não.

        Levei a palavra como fio condutor da minha vida e sei que isso não vai mudar por um capricho qualquer, porque eu me construí essa pessoa e gosto do que construí, além do que não vejo motivos para não gostar. Foi tudo muito suado e vejo nisso um futuro promissor pra mim, como cidadã e como profissional. Não acho que seja uma teimosia boba, uma imaturidade da minha parte.

        Eu fui eu mesma e não tem nada de história de criança, ignorante ou presunçoso nisso tudo. Pelo menos eu acho que não.

        Sobre o seu eu psicólogo eu não posso opinar nada, afinal não conheço nada sobre a sua história. Mas arrisco dizer que tem algumas coisas na sua personalidade que você não gostaria de mudar. Você gostaria de trabalhar na área de exatas, por exemplo?

        Tem coisas que a gente constrói que fazem bem pra gente e não precisamos abrir mão delas, não concorda? Você também deve ter lutado para ser psicólogo, assim como as pessoas lutam para estudar fisolosia. Humanas não faz lá tanto sentido pra maioria das pessoas.

        Espero ter conseguido me explicar. Bjo!

      • http://www.facebook.com/nat.orestes Natacha Orestes

        Fisolofia foi foda. rs

  • fred

    Aí eu penso que o cara não pode fazer um texto melhor que o último e ele vai lá e faz.

    Essa história de querer me engessar e engessar os outros a partir do meu ponto de vista eu já desisti há tempos. Foi quando comecei a ler um texto ou outro do Gustavo Gitti aqui no PdH que eu percebi que “ser você mesmo” não é normal e nos limita, vestir máscaras é comum e nos abre possibilidades. Não é só o Raul que prefere ser a tal da Metamorfose Ambulante.

    Abraço!

    • Frederico Mattos

      Valeu!
      Sim, limita o EU e o OUTRO.

      Abraço

  • http://www.facebook.com/saulo.desaroriz Saulo De Sá Roriz

    Texto fenomenal!!! Já dizia Raul Seixas em Metamorfose Ambulante. Agora percebo claramente que não existe monotonia profissional, amorosa, financeira… existe não querer enxergar as sutis diferenças da existência.

  • Leandro

    Eu vejo essa questão do ”seja você mesmo” no sentido de ser autêntico quanto aos sentimentos que se preza, por exemplo: não gostar de puxa-saquismo, ser mais sincero, não copiar tudo aquilo que os outros fazem, ou seja, aquilo que querem que todos sejam…e etc. Vejo dessa forma. Sem isso não existe uma personalidade. Quanto ao resto é claro que podemos e devemos mudar. Também odeio essa sensação de que a vida deva ser uma rotina necessária.

  • Diogo Cordeiro da Silva

    “Acho curioso que muitas pessoas encaram trâmites burocráticos para alçar
    vôo até um país diferente e raramente tiram um visto para viajar em
    suas vidas singulares”.

    Botou muito pra fuder Frederico. Super texto…

    Só uma coisa, esse pensamento não daria desculpas para pessoas dissimuladas agirem de forma dúbia e ainda assim estarem respaldadas por sua constante “transformação” mental e física? Como diferenciar isso, essa alteração natural de comportamento, com uma forma deliberada de modificar suas atitudes visando um beneficio próprio ou um maleificio alheio?

    • Frederico Mattos

      @google-261e435b1e4e3a24a716774428d6b32e:disqus Qualquer argumento pode ser usado por pessoas dissimuladas, pois elas não querem argumentos para argumentar mas para falsear.

      O movimento que retratei no texto é interno, sem alardes ou preconizações de novas filosofias pessoais de minuto a minuto. Tem mais conexão com uma certa quietude emocional em não se sentir escravizada pela necessidade de ficar fixada numa única e exclusiva identidade ou tentar paralisar os outros.

  • http://www.facebook.com/rafaelribeirorocha Rafael Ribeiro Rocha

    Texto excelente, como quase todos do Fred! O difícil é depois da epifania colocar isso em prática, pois temos essa preguiça mental. Seria melhor praticar então um “Seja todos os “você” que quiser”?

    • Frederico Mattos

      Não, seria algo como experimentar observar todos os impulsos que passam por nós sem necessariamente se identificar com eles e dizer “é isso que eu sou porque é isso que eu quero”. O querer pode ser só mais uma ilusão…

  • http://www.twitter.com/quelmt Raquel

    “Sim, somos contraditórios e não-lineares.” ótima frase. Essa necessidade de continuidade, de construção de uma trajetória com “começo, meio e fim” bem determinados pode ser notada em qualquer biografia. É perceptível ver como muitos biógrafos se esmeram em dar sentidos interligados para a vida de seus personagens… Por exemplo: “desde criança, Graciliano Ramos se interessava pelos livros…” Ok, mas será que era só por isso que ele se interessava? e se ele jogasse peteca? Por que na biografia não diz que ele joga peteca?? Deixa o menino jogar peteca!! Maasss… Ao mesmo tempo, fico pensando se toda essa ideia de “constante mutação” é muito mais algo que queremos ser e algo que nossa sociedade cobra que sejamos do que a concreta constatação de que mudamos todo o tempo.

    • Frederico Mattos

      Sim, acho bem pertinente seu comentário, ele pode ter se apaixonado por livros jogando peteca. Nada linear.

      Quanto a isso:
      “o mesmo tempo, fico pensando se toda essa ideia de “constante mutação” é muito mais algo que queremos ser e algo que nossa sociedade cobra que sejamos do que a concreta constatação de que mudamos todo o tempo.”
      Na realidade não queremos ser constante mutação, queremos (por estranho que pareça) previsibilidade e total segurança e garantia de que amanhã não será radicalmente diferente de hoje.
      A sociedade cobra alta performance que não necessariamente é sinônimo de mudança, entende @quelmt:disqus ?

      • http://www.twitter.com/quelmt Raquel

        Entendi. Só ainda não sei se concordo, rs! A ideia apresentada me parece linda, mas me soa também como uma espécie de estratégia de pensamento (e, portanto, também uma ilusão) para encararmos os dias de uma maneira mais interessante do que como uma aceitação de uma suposta essência não-linear e contraditória. Somos lineares e não-lineares. Somos contraditórios e, em outras coisas, previsíveis e coerentes. Um dia eu entro no busão e me divirto observando as pessoas e criando histórias inéditas. Em outro eu apenas quero morrer de ter que ficar pela milésima vez esperando pelo ônibus que novamente virá lotado. Enfim… É claro que fico com a primeira opção… mas acredito que ela também seja uma ilusão em relação à forma de encarar a vida.

  • Adriana

    Precisa dizer mais?
    “Acho curioso que muitas pessoas encaram trâmites burocráticos para alçar vôo até um país diferente e raramente tiram um visto para viajar em suas vidas singulares.
    Na real, somos estranhos constantes uns para os outros e se suportarmos a angústia do desconhecido contínuo seremos sempre turistas encantados e curiosos por nós mesmos”.

    • Frederico Mattos

      Nos últimos 3 anos tenho ficado aplicado em tirar o visto para minha vida. Acho que fiz boas viagens! rsrs ;)

  • Raul Rafael Aureliano Antunes

    FORMIDÁVEL!!!

  • http://www.facebook.com/people/Elenice-Alves/100001693614856 Elenice Alves

    Cara, genial.

    • Frederico Mattos

      :)

  • http://www.facebook.com/marcelo.delphi Marcelo R. R.

    Justin Bieber Yourself”

  • don luidi

    Belíssimo texto! Como dizia Raul: ‘prefiro ser esta metamorfose ambulante’. Diariamente somos ‘afetados’ em nossa continuidade por fatos extrínsecos e intrínsecos. Vamos mudando com a passagem do tempo, para melhor ou pior aí depende de cada um. Precisamos de renovação frequente em nossa vida para que talvez possamos para uma continuidade e começar outra melhor. Precisamos entender que as pessoas (familiares, amigos, mulheres) mudam com o tempo.

    Outra pergunta a ser respondida: continuidade de quê, para quê?

    P.S. Me lembrei daquele filme com a Drew Barrimore (Como se fosse a primeira vez).

  • http://twitter.com/gumorelli Gustavo Morelli

    Texto fodástico, Fred!

    Lembrei de um vídeo de um cara que fez um vídeo pra ele mesmo ver e responder 20 anos depois. Não lembro onde vi, talvez tenha sido aqui no PdH mesmo. Peguei o link no histórico da minha conta no youtube:

    http://www.youtube.com/watch?v=POLo93kPQVY&feature=g-hist

    Talvez seja uma experiência interessante pra vermos o quão mutáveis somos.

  • http://www.facebook.com/arthur.s.mendonca Arthur Silva Mendonça

    ”Se você sente que sua vida está parada ou que é infeliz (anestesia da descontinuidade), tente não deixar que suas papilas olfativas existenciais se acostumem com o perfume que você usou pela manhã.”

    @fredericomattos:disqus o que vc quis dizer com esse trecho ? Se nós estamos em piloto automático, a saída é sair da zona de conforto e nos desafiar a fazer algo diferente, explorar uma outra faceta além daquele ”si mesmo” ?

    • Frederico Mattos

      Exatamente @facebook-1335418650:disqus Infelicidade é quando abdicamos da mutabilidade intrínseca da vida. Quando nos tornamos passivos de nós mesmos.

  • http://www.facebook.com/Deiaaaa Déia Madacchi

    Que texto maravilhoso!
    Adorei…
    Somos contraditórios e não-lineares foi uma das melhores definições do ser humano que eu já vi.

  • Leitor

    Tem alguns livros cujo nome é algo como “Aprenda xyz em 21 dias” e eu não sabia porque até saber desse experimento. Gostei muito do texto, mas acho que “ser você mesmo” não quer dizer que existe um “si mesmo” mas sim que você deve agir de acordo com seus valores e princípios naquele momento. Isto é, não fingir, esconder ou mascarar nada, viver a verdade.

    • Frederico Mattos

      O problema só acontece quando nos prendemos a valores e princípios e já não conseguimos ir além deles. ;)

  • LuizZamboni

    Muito bom, parabéns por colocar o assunto em pauta e pela abordagem.
    Já havia lido sobre esse fenômeno só que com outro nome “questão da identidade” , algo assim. já ouviu esse termo
    Frederico Mattos ?
    .
    Outro ponto que acho muito edificante do estudo desta questão é o entendimento que não devemos deixar que derrotas do passado nos assombrem. Não somos os mesmos , somos melhores (eu pelo menos trabalho nisso todo dia)…
    .
    Uma vez ouvi uma fábula que nunca mais esqueci sobre a questão:
    Era sobre como prendem um elefante no circo. O elefante é um bicho enorme que simplesmente não pode ser enjaulado ainda mais por uma simples cordinha.
    Mas quando ele foi preso ele ainda não era grande, o pegaram pequeno e o prenderam alí, ele tentou dias escapar e viu que não era possível então, parou de tentar, esqueceu que a cada dia crescia e que não era mais o mesmo do dia anterior…e foi assim até ficar grande e forte.
    .
    Muitas vezes esquecemos das nossas capacidades atuais em virtude de derrotas sofridas no passado, naquelas mesmas situações, mas esquecemos de computar que nós mudamos então a situação não é a mesma!
    .
    Mais uma vez, parabéns, e fica aí uma sugestão para outra matéria (+- sobre o mesmo ponto). Atualmente pra mim, suas matérias são as melhores, e o único motivo pelo qual ainda não deixei de ler este blog.

    • Frederico Mattos

      Obrigado, @LuizZamboni:disqus , mas existe muita coisa boa sendo produzida no PdH. Vale a pena explorar outras dimensões da sua mente inclusive lendo e interagindo com temáticas aparentemente não afins com os gostos habituais.
      Gosto dessa fábula. E tema anotado.
      :)

  • Pedro

    A questão levantada sobre a mutabilidade imperceptivel de nós mesmos é interessante, mas a expressão que você usou “seja você mesmo” eu sempre entendi de maneira completamente oposta como você descreveu. Quando alguem diz isso ela quer dizer que é pra você fazer o que você quiser, quando quiser e como quiser…. só que no texto você colocou como se a pessoa falasse isso pra alguem esperando que ela agisse como o perfil da pagina social dela, superficial e previsivel, como isso fosse confortavel. Aproveitando a sua analogia, ser você mesmo, significa fazer um quadro do picote do filme completamente original, que represente tudo aquilo que você quer fazer naquele momento. Geralmente essa expressão se dá pelo fato das pessoas muitas vezes preocupadas em criar um “quadro original” bom, acabam imitando outras ações de pessoas que sabem que deu certo, mas no fim das contas uma adaptação nunca é a solução. Ser você mesmo é uma ferramenta na luta contra a sociedade das formigas que estamos nos tornando.

    • Frederico Mattos

      Entendo o argumento anti-massificação que você coloca, mas o ponto é que mal sabemos o que está na base de nossos desejos e vontades mais profundos. Ainda digo que não desenvolvemos aparto emocional suficiente para construir o tal “seja você mesmo”.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=712303227 Gabriel Martins

    Só tenho uma certa dificuldade com sua concepção de “Seja você”. Não vejo falas como essa – na maioria das vezes – dizerem “seja o mesmo o tempo todo”, mas sim “tente ser mais autêntico com o que você pensa e sente”. Uma coerência maior entre o “ser” filosófico (que é mera abstração, eu sei), e o “ser” da perspectiva de que somos o que fazemos. Um tapa na orelha, tipo “cara, não precisa se preocupar TANTO com o que os outros pensam” não no sentido de não se importar com nada do que os outros pensam, mas não guiar o seu ser em cima disso. A despeito de “sermos” nós quando mantemos uma postura mais reservada no trabalho, “sermos” nós quando bebemos e perdemos a noção na balada, é possível “sermos” vários sendo nós – ou seja, nos identificamos com o que somos nestes diversos ambientes, ou nos vermos fora de nós, como se interpretássemos um papel…

    Também acho uma merda essa questão de querermos atender as expectativas de todos, ou de esperar que as pessoas atendam nossa expectativa daquilo que achamos que elas são, é muito mais gostoso quando a gente consegue relaxar e se aproveitar mutuamente, buscar o que tem de bom, afastar daquilo que não é o que queremos…

  • bruno

    muito lindo.. parabéns!

  • Sandra Medeiros

    Seu texto é um tapa na cara das nossas falsas incertezas e obviedades. Somos mutantes desde à concepção até a hora que partimos (morremos). Simplesmente brilhante!

  • Pingback: Tédio, histeria e suicídio | Id #3 | PapodeHomem

  • Carlos Sobral

    O conceito de ‘homem’ desta empresa: ‘fale palavrões, seja o Don Juan, jamais concorde com nada e tente desconstruir todos os lugares comuns que existem por ai (ainda que isso signifique concordar com lugares comuns quando a maioria discorda deles)’. Pra mim, isso me parece é com uma adolescencia tardia… quando os pentelhos começam a nascer no saco e o menino precisa convencer a todos, gritando: sou homem, sou homem!

    Me pergunto o porquê de tanta necessidade disso…

    Enfim… acho que isso resume, em parte, o perfil dessa empresa, cujo marketing, confesso, é muito bom… mas conteúdo mesmo, há tempos que nao vejo por aqui…

    Eu sou das antigas… o que resume ‘ser homem’ para mim nada tem a ver com genero. Ao menos em parte, acho que homens e mulheres (e as possiveis variações disso… afinal, quem disse que a Natureza é assim tão dicotomica?) sao antes de tudo humanos e é isso o que nos une numa mesma ‘espécie’. Mas estamos muito distantes de um ideal humano… e esta empresa, em parte, não ajuda nada nessa evolução, pregando este pseudo-budismo disfarçado (imanentismo-empirismo ingênuo) nas entrelinhas.

    Particularmente, a maioria dos conceitos pregados por esta empresa me parecem puras brincadeiras de crianças adultinhas… com seus carros ‘fodões’, trepadas ‘do caralho’ e pose de ‘sou o bonzão da porra’. Creio que maturidade não seja nada disso… ainda que nao necessariamente negue tais caracteristicas.

    O tom agressivo de alguns textos, que sempre tentam abarcar tudo, acabam por promover uma luta inócua, onde o inimigo negado sempre retorna de algum jeito. É o mesmo que as Igrejas Pentecostais, onde a luta contra o Diabo faz Deus possivel. Ou seja, é na defesa da ‘adultice’ (‘sou homem!) que o elemento imaturo retorna. E isso engana muitos, pois a maioria nao tem a minima noção que forças como estas estao atuando em nosso crescimento.

    Portanto, qualquer ‘capitão’ que apareça oferecendo respostas (e quanto mais paradoxal melhor, pois isto confunde os menos atentos, tornando-os perplexos e motivados) é bem-vindo.

    A ‘essência’ destes textos pode ser encontrada em muitas fontes antigas… onde seres humanos, de forma muito mais madura, procuraram por respostas – politicas, inclusive, que tem a ver com a pergunta ‘qual é a forma mais inteligente de me colocar neste mundo de hoje?’.

    Acho que vocês deveriam ao menos citar algumas dessas fontes… isso possibilitaria que as pessoas tivessem outros parametros de verdade e maturidade, independente da interpretação de vocês da empresa quanto a estes topicos.

    Afinal, é sempre perigoso quando os textos começam a ficar ‘nivelados’, emitindo sempre as mesmas ideias, mascaradas de diversas formas. Lembra os pastores de determinadas igrejas-empresas, onde o modo de falar, a entonação, a cadencia e o ritmo das palavras é sempre o mesmo, independente de qual pastor esteja falando… nivelamento de mentes (ou nao-mentes)… perigo!

    Enfim… acho que a coisa era MUITO melhor na época do não-1 não-2, era muito mais profundo, genuino e significativo… ao menos para o meu paladar… mas tudo que é bom se perde com as estrelinhas da faminha… pena…

    abs!

  • Gleisson Almeida

    Em ”…A ideia muito pregada do “seja você mesmo” é bem presunçosa, além de ignorante ao afirmar que há um “si mesmo” sempre estável e inalterável…” é uma ótima observação, que inclusive, não é apenas apontado por você. Também foi destacada por Clarice Lispector, na qual me inspiro todos os dias.

    ”Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.”

    o ser não é imutável, alguém que nunca deixará de ser o que é, e sempre foi o que é, independente se qualquer um ou qualquer coisa exerça qualquer força ou esforço que venha a tentar muda-lo. Até porque, a própria adaptação do ser em um esforço de sobrevivência nos obriga a sofrer mudanças, sejam elas no comportamento, ou até mesmo fisicamente dizendo.

    Parabenizo por seu trabalho, pois como foi dito, são obras assim que atraem admiradores com a vontade de ler sempre mais!

  • http://www.facebook.com/people/Daniel-Horai/100000863881850 Daniel Horai

    “Naquela fração de segundos que todo o sangue do corpo desce para a
    cabeça e eu vejo o mundo ao contrário, me recordo que a sensação de
    continuidade enfadonha que chamamos de rotina é só uma ilusão da minha
    mente. Cada minuto que passa é desconhecidamente novo para os seus sentidos, então lembre disso para sair do amortecimento mental ”

    Irado! Obrigado, Fred….

  • Pingback: Ele foi obrigado a casar | ID #12 | PapodeHomem

  • Vinícius de Aguiar

    Eu não entendi muito bem esse texto… Somos seres passíveis de mudança? Estamos sempre mudando nossa essência? Desculpe, sou meio lento pra essas coisas…

  • luiza caldeira

    Seus textos são muito bons mesmo. Te conheci ontem…e to lendo e lendo…fantástico.

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